Praia Seca – 26/06/2017

capa águas

 

Depois de MUITO tempo sem postar aqui, eu relutei em postar isso, mas acho que tem horas que não dá realmente para engolir, na verdade tem horas que não dá nem pra mastigar, e realmente, decidi escrever.

A minha indignação inicial era tamanha, que me fizeram escrever em um rascunho tudo isso que eu estava sentindo a respeito do arrombamento da casa da minha mãe. Toda a falta de atenção conosco, toda a falta de carinho , me fizeram ficar completamente triste com relação a isso.

Vai ser uma escrita sem firulas, sem nenhum tipo de estilismo, nada. Quero apenas abrir o meu peito de uma vez só, e se perguntarem qual é a minha posição, será essa…

O que mais ouvia e ouvi durante todos, os consanguíneos, que era uma criança chorosa, desagradável e insuportável. Sim, a do tipo que não era só chata, por ser chorona ( descobri mais tarde, que tenho “duas mães de cabeça”. que além de filho de Iansã, sou filho também de Oxum, por isso, as grandes quantidades de lágrimas que eu derramei durante a infância) assim, como na vida real, tive duas mães, uma de corpo e companheira para todas as adversidades da vida, até hoje, a minha mãe Jane, e outra de alma, a professora Maria Luiza Cardoso Abreu. Mas o filho de Oxum, que era só vaidoso, ainda carregava e carrega a juba de Xangô, esse leão pede paz agora.

Esse menino choroso passou grande parte da vida chorando por conta de um lar completamente instável, desequilibrado e  viveu grande parte de sua vida em uma grande comunidade, onde um peido era sentido em uma casa ao lado, mas era propagado por toda a extensão de uma família grande, numerosa e “pitoresca”, cheia de arraigadas tradições, onde “meu comportamento rebelde, excêntrico e vaidoso” sempre ganhou extremas e externas repercussões, onde, que no “vizinho”, haviam excentricidades e escolhas, mas ainda sim, não eram tão repercutidas com tanta força quanto era voltar pra casa bêbado, ter vomitado em meu quarto, brigado com minha mãe, (…) mas, uma dia, por graça divina, tive uma epifania.

Quando voltei a casa de praia de minha mãe, passando um final de semana inteira reformando a casa, eu resolvi ficar. O “resolver ficar” foi por conta e um relacionamento desastroso, que me levou a uma profunda depressão e me fez querer a morte por muitas e muitas vezes antes, mas o sentimento de nulidade e de não pertencimento a lugar algum, me fazia agora ser completamente decido a dar um fim a todo esse sofrimento que tinha se tornado a minha vida. A minha relação desastrosa foi uma gota d’água para tudo que me incomodava, mas descobri mais tarde, que grande parte desse incomodo era devida a grande falta de privacidade que eu vivia, mas não quero desfocar da minha tônica, talvez fale disso mais tarde.

O resolver ficar era o “querer fugir”. Tinha e tenho valores completamente diferentes de minha família, o que fazem eu ter uma grande distância. Por ter nascido em uma casa confortável – tínhamos um carro, desde os dez anos veraneava em minha casa de praia, mas mesmo assim,m havia um grande vazio, que era impreenchível, na media em que queria a presença fisica a constante de pessoas que me amassem e se importassem comigo – acho que o nome certo disso é família – e o “querer fugir” era por fim a uma sequência trágica do que tinha se resumido a minha vida – nunca me importei com bens materiais, não era isso que me faltava, não era isso que iria me completar, não era isso que eu passei a buscar…

A minha vida era um câncer da minha mãe a ser curado. Câncer que poderia ser fatal , já que tinha sido internada várias e várias vezes por falta de imunidade, pelo meu desemprego, pelo meu desespero em vender um apartamento onde já se acumulavam dívidas que já tinha e estavam se acumulando com o meu primo André ( aliás, devo MUITO, a ele e a minha tia Neuza por ter me dado um ofício quando eu mais precisei, numa das tentativas da família para ver se “a gente dava certo”) das labutas em acordar muito cedo para estar em um stand de imobiliária – depois de passa a noite inteira deitando e levantando a minha mãe, que carregava uma sonda da mastectomia, ouvia dela, e aos berros, onde toda a vizinhança poderia abraçar com gosto toda a minha falta de privacidade, toda a minha falta de prestígio com uma mãe que achava pouco, eu passar toda uma madrugada acordado, assim como ouvir “sua mãe” dizendo que o câncer que tinha se instalado nela era culpa “do seu único filho”; Essas coisas realmente foram me cansando de uma forma que eu nunca poderia mensurar com toda a gramática possível, mais tarde, creio que poderia se tratar de um processo psicossomático e “talvez”, isso fosse passar, de alguma forma, fosse passar. E tudo somava um pouco a minha vida e a complicação de vivê–la em um ambiente sem nenhuma privacidade, a grande expectativa que havia em vender um apartamento, a atitude da família de coisas como “parem de nos dar trabalho e vivam suas vidas”, tudo isso me deixava a flor da pele vinte e quatro horas por dia.

E, um belo dia os meu trabalhos e serviços como corretor não eram mais associados a Brasil Brokers – em uma decisão injusta – e, parecendo que foi como uma interseção divina, a crise chegou. Vários corretores passaram por muitos maus bocados mas em seguida, fui trabalhar como professor de informática, e, por uma reivindicação trabalhista, estava recebendo minhas horas extras não pagas enquanto eu esperava a decisão judicial, e nisso, teria a pensão de Luiza paga e em dia, enquanto carregava carrinhos de mão de entulho. Isso era uma ótima higiene mental. Minha cabeça estava muito, mas muito cansada, e ter algum tipo de terapia ocupacional me fez muito bem e me fez lembrar que eu poderia ficar mais na casa de veraneio de minha mãe, terminar a calçada que estava fazendo, comprar uns baldes e galões de tinta e deixar a casa mais bonita. Mas acho que a situação toda, estava em tentar de uma vez por todas, terminar com esse incansável sofrimento: De uma maneira estranhamente serena eu pensava em suicídio. Estava meio que decidido, depois da reforma, depois que deixasse a casa da minha mãe um brinco, eu iria tentar de alguma forma sumir. O fato da minha mãe estar melhor do câncer, só estar tomando medicamentos via oral e controlados, e principalmente, pelo fato da minha mãe viver me atribuindo culpa da doença, iria realmente sumir, sem carta de despedida, apenas algumas desculpas pelo meu blog e iria acabar com tudo, até que, uma camisa do “Edward mãos de tesoura” me fez voltar no dia seguinte ao shopping em que eu tinha ido sacar dinheiro em Praia Seca. Talvez comprasse e vestisse quando fosse cair do Atalaia, para lembras as pessoas das neurodiversidades, as dificuldades que temos em conversar com as pessoas, de conviver com o próximo e de ser quem quer que seja, mas eu acho que o que iria por vir era maior e melhor do que isso.

Durante dois meses que eu fiquei aqui sem encontrar a tal camisa do Edward, eu encontrei sossego e paz nos momentos de privacidade, pela primeira vez se eu ficasse em casa sem fazer nada, sem deixar de fazer alguma coisa, isso não viraria notícia, escândalo ou confusão. A neurastenia materna não me culparia por não estar pintando do lado certo ou tentando arrumar um emprego. A neurastenia materna não me faria ter insônia, falando de algo extremamente desagradável, algo que não queria ouvir, ou de novo, como um mantra negativo, me dizer que o câncer havia sido uma praga minha, e por surpresa, encontrei momentos de alívio e de felicidade.

A privacidade que tive em um curto período de tempo foi um balsamo e ajudaram a ofuscar e esquecer as minhas ideias suicidas. A privacidade,  e conhecer, claro que bem aos poucos, a mulher que hoje atura esse filho de Oxum que voz fala, foram me curando dessas etapas da minha vida. Encontrei vida em um lugar seco, cheio de sal e muito, mas muito bonito. Encontrei renovo e fiz as pazes com meus guias e com a minha Umbanda. Tive o prazer de viver bem e melhor a minha vida e ganhei o que eu não tinha há muito tempo e acho que nunca tive, ganhei uma família só minha, com meus filhos e filha, minha casa, meus afazeres, meus costumes, nossas normas, nossos defeitos e principalmente, nossos “segredos”, problemas e NOSSA PRIVACIDADE.

Aqui resolvemos tudo e dependemos de nosso trabalho e sorte. Não temos uma vida luxuosa e ao mesmo tempo não nos falta nada, tenho um bom emprego e principalmente, QUALIDADE DE VIDA, e, ter essa paz me faz querer que NADA, a afete. Essa paz só pode ser exercida pelo fruto da sinceridade de poder ser quem sou e ela não poderia ser resultante se não fossem os três anos livre que tive aqui, dados pela privacidade que tive durante esse distanciamento.

O distanciamento foi causado pelas feridas que tive antes com tamanho descaso em que fomos tratados eu e minha mãe e se tornou definitivo por conta do arrombamento de nossa antiga casa em São Gonçalo. Pode uma casa de FUNDOS, ser assaltada, e NINGUÉM da casa da frente ver NENHUMA movimentação do que houve? Eu estava acompanhando um amigo de religião, até um ponto em que ele falou “olha, eu não vou poder te acompanhar até aqui” perguntei o porquê, e esse porque era que ” a filha tinha acabado de passar por uma separação e ele precisava dar um ombro amigo a ela. Solidariedade? Sim, a família poderia prover isso. Poderíamos ser pessoas melhores e ajudar as outras sem pensar nada em troca, e o que falar, perguntar ou questionar o externo a seguinte premissa: “Se roubassem a casa se algum parente seu que mora distante, o que vc faria”, a resposta sempre era unânime, “ué, iria prestar queixa na delegacia  e tentar ajudar no que fosse possível”. Minha casa até hoje está arrombada em são gonçalo, casa que eu não tive como ainda prestar socorro ou ajuda por conta de meu trabalho aqui na região dos lagos.

O arrombamento foi exatamente a pá de cal que faltava para enterrar tudo de vez e era o pontapé inicial para realizar meus sonhos, viver uma vida plena como deve ser vivida, com liberdade de SER, felicidade e paixão e realmente AMO a minha vida agora, tanto, que me RECUSO a dar qualquer tipo de satisfação de como está minha vida a qualquer pessoa que me faça LEMBRAR que tomei essa decisão na minha vida. O que eu mais desejo é que essa distancia não seja sentida nem pelos retrovisores de nossos sonhos, meu e de minha mulher Luciana, mulher que verdadeiramente abraçou minha pequena família – eu, minha mãe e minha filha – e a fez tornar BEM MAIOR.

Eu gostaria de lembrar da minha família e de sempre revê-los com a mesma alegria que eu sinto quando eu passo os Natais, quando estamos em clima de festa, mas pra isso, seria preciso sentir que eu chego em um ambiente em que eu já não tenha virado assunto. Preciso chegar em um ambiente em que me seja confortável e a grande verdade disso tudo,  e a que me dói PROFUNDAMENTE é que não consigo confiar em NENHUM de vocês e, decidi, que preciso viver minha vida com sinceridade e não posso ser sincero com quem não confio.

Peço perdão a todos, se de alguma forma isso agrediu a quem ler e que não soe como ingratidão. Peço apenas paz e compreensão e peço que Deus lhes abençoe e principalmente, que não façam sentir o despreso que minha mãe sente e sentiu durante esse tempo, no pior momento, na pior das situações e a falta da lembrança nos seus melhores momentos em que passam reunidos e é esse sentimento eu não quero mais lembrar. Consegui, SOZINHO, com meu esforço, construir minha família, meu trabalho, ser respeitado em meu trabalho e agora, eu não quero mais lembrar dessa chaga e dessa ingratidão.

A verdade é que peço e quero paz. Quero paz de vocês e para vocês. Obrigado por me ajudarem esse tempo todo, mas vou ser eu e peço a bênção de vocês, assim como pediam eu peço a “bença” ao meu avô e avó para ir embora, só que agora é definitivo. Paz e que a benção de Zambe seja sobre a vida de vocês.

 

 

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~ por Água para Plantas em agosto 20, 2017.

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