Um bom boa noite.

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Existia um rapaz, que era como um vizinho de quadra em meu bairro. Éramos interioranos, segundo Suassuna, uma vez sendo, sempre seremos então, mas voltando, o rapaz era a atração pitoresca daquele bairro mediocre. Posso afirmar com toda certeza de que era mediocre mas nunca dizer que não sou mais interiorano.

Ele morava em uma casa palpérrima. Muitas vezes ele e as irmãs iam em outras casas do bairro pra pedir leite ou algum mentimento e muitas vezes ele e as irmãs passavam o dia inteiro arrecadando comida e voltavam pela rua que até hoje é a mais escura do bairrinho onde morava. Era uma via crucis para ele e as irmãs, porque muitas vezes, puxavam uma curriola de zombeteiros mirins, que os acompanhavam do início da jornada mendicante até o final. Por algum motivo, o pai não arrumava emprego e a mãe dele nunca aparecia. Era sempre uma sombra autoritária, gritante, irritadiça e aparentemente esquizofrênica na janela.

Esse quando crescer, vai virar um travesti – diziam.

Ele andava bem feminino. Usava uma bermuda apertada e era bem alto. Andava com trejeitos bem femininos, de feições indianas e andava apenas com meninas e com as suas irmãs.

Não tocava nas bonecas das meninas, acho que por medo, mas não saia do lado delas.

Nós, os garotos alfa, que corríamos e desbravávamos bolas de gude, cafifas, balões e corríamos atrás de pipas, fazíamos de sua casa e passagem uma opção de distração. Jogávamos pedras e gritávamos; estranhamente, ninguém na casa se manifestava ou saía . Só o pai, que apenas no dia seguinte, vivia retocando com cal o muro escrito “mariquinha”, “viado” ou “bichona” e era, ou eu achava, que a todos era apenas uma goazação, até que um dia, os mesmos meninos que me instigavam a fazer essas coisas idiotas, estavam cercados em volta dele, enquanto os mesmos “se esfregavam e instigavam” ele. Era uma cena bem forte pra mim. Não entendia aquilo. Era sodomizado por quatro garotos e achei aquilo bem nojento e então passei a andar sozinho.

A gente dizia: “Aquele viadinho vai crescer e vai virar um travesti e vai sumir daqui”; Acreditávamos fielmente que isso realmente iria acontecer e o bando da rua se desfez, até que, reparei, que o pai do rapaz não precisava mais retocar o muro com cal, nem ele e nem suas irmãs iam mendigar pelo bairro, e o seu algoz, o que mais pichava, atirava pedras e o rabaixava pela sua postura, andava agora, indo secretamente, em direção a rua escura onde o rapaz morava. Sempre depois de meia-noite. Mas ainda havia no vidro a sombra esquizofrênica da mãe.

“Um dia ele iria se tornar um travesti e sumiria daqui”, pensei novamente… O garoto realmente não estava mais na casa e um dia, seu maior algoz e que mais tarde o visitava secretamente, se encontraria enforcado na jaqueira maldita (tinha esse nome porque já tinha matado mais de dez pessoas com a queda dos seus frutos, mais tarde lhe dedicarei um conto). Era agora um corpo mulato, com um pé contorcido com uma havaiana branca de tira azul de short em uma clássica corda de cor azul.

– “Eu não sei o que acontecia”; Dizia a mãe chorando em seu velório – “Ele andava mais de noite do que de dia e um dia ele comprou a corda, mediu a distancia e se foi”… Que bela forma de se vingar, aos poucos o seduziu e o trouxe com o seu destino e o arrastou com o seu caminho…Seu maior algoz se inforcou de amor – É sempre assim que o amor se faz e desfaz.

Acho que, dias depois, não se viam mais suas irmãs e os pedintes que ficavam andando na rua também sumiram. A família desapareceu há muito tempo e a casa entra em processo de auto-demolição, onde nem os antigos velhos bêbados do bairro entram mais para beber sem se importar com os olhares maliciosos.
Mas uma única parte da casa ainda ficava. A parede, agora muro, onde ficava a mãe e ainda pelo vidro se via a sombra e sua silueta esquizofrênica…

Isso tudo porque um dia, quiz cortar caminho e voltar pela rua escura depois de anos. Pensei em parar e perguntar a uma vizinha onde tinha ido parar a família, mas acho que como muitos, aquilo me comprometeria moralmente e nunca perguntava. A rua já era antiga e nada realmente em volta crescia pro bem. Era estranho pensar como as coisas ruins sempre cresciam e se cultivavam lá e nada de realmente bom vinha dali. Ao passar, ví a assenção de uma igreja evangélica com um poster gigante na frente, o velho colégio nas mesmas fundações, uma casa em uma obra que não tem fim e as pessoas minguando dentro de suas casas; Implodindo junto com elas.

Mas depois disso, quando me deparei, já estava no final do dia e insistentemente uma voz dizia…

“Nathália cara. Nathália. A menina da recepção”…
“Ahn”?
“É cara, Nathália. A antiga recepcionista de cabelo chanelzinho?”
“Sim, sei”…
“Ela morreu ontem dormindo”
“Nossa, dormindo? Que maravilha…”
“Será que um bom boa noite me faria isso”? – Pensei sinceramente, mas, ainda bem, sequer balbuciei…

Sem pestanejar um segundo sequer eu comentei isso como uma dádiva… E voltei meus pensamentos ao início do dia. Ao início da rua, e lembro de toda a dinâmica daquele mito de bairro…

“Eu e minha mãe estamos desaparecendo” – disse antes de cruzar a rua para sair dela, pouco antes de tomar o ônibus para ir trabalhar.

“O que será que pensavam de nós”?

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~ por Água para Plantas em agosto 18, 2014.

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