Persistência do Tempo.

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Prazer meu jovem. Meu nome é Alexandre.

Como me é de costumás e sempre passageiro, me entrego ao vício do tabaco, apenas pela manhã. Minha filha causou há anos, um pequeno incidente dentro da diplomacia do governo do estado, quando me colocou doente dentro de um hospital por suspeita de um câncer. Prazer, jovem do violão, meu nome é Alexandre.

Como em um livro de Hesse, o velho senhor Grego assim se apresentou a mim. Digo, era muito tarde para voltar um velho hábito e sei que ele, deveras e severamente deverá acabar comigo, mas, vejo corroer em minha carne algo que me causa aflição e estranheza. Me disse com olhos vidrados nos meus.

Pensei que falaria de algo superficial. De algo que não me traria nada, muito menos conceito ou profundidade naquela hora da tarde. Horas mais tarde estava com sua filha a gozar de todo oficio da cama em um hotel perto de vila izabel, e disso, em seus olhos ele sabia. Não temia a causalidade de um infortúnio de uma má sorte, pois me pareceu um homem sereno e resignado. Ele assim teria algo a me dizer.

O que mais me aflinge é a persistência do tempo. Me disse olhando nos olhos. Vejo duas doenças letalmente degenerativas atingindo a mulher que devotei minha vida durante anos e sei que há uma dialética a se discutir dentro dela. A persistência do tempo ou da memória. Não sei se é sua consciência que se esvai e desvai em tempos. Outrora, acordou lúcida e queria nitidamente o suicídio pois uma hora o tempo retornou sua conciência e ela, surpreendentemente, sabia que estava com as duas piores doenças que poderiam acabar com a dignidade humana, o Auzheimer e o Parkinson.

Como um sino. As palavras romperam a tarde e tomaram de uma breve dor-tabu aquele dia. Não havia gesto e realmente o tempo parou quando o senhor falou aquelas palavras. Não me resta mais aconselhar minha filha nem mesmo sobre meus atos, como o tabagismo apenas pela tarde, quando acordo e fumo uns cinco cigarros ao contar de toda tarde até minha atividade notívaga. Ainda não almocei e mais tarde farei minha refeição como de costume. Me disse. Não o quis apressar, mas a urgência de saber a visão da dialética dele sobre tempo-memória me ansiava. Via um dique de sabedoria e vivência a estourar sobre minha vida.

E a farei ao lado dela, como todas as noites, mas sempre, sempre, espero algo que faça a mais naquele jantar. Tenta toda noite reagir, se levantar e sair de casa. A tomar um rumo. Sem saber de nada ou mesmo sabendo, há persistência da memória? Me indagava e sabia que me era conhecido alguns auspícios. Será que lembra do que fez ontem ou tudo se ramifica e se repete sempre como um elo que não vai ter fim nunca? Me indago sobre a memória. Se esquecemos o tempo que vivemos,  a realidade do onde estamos está completamente perdida. Esvanecida em um pó dentro da mente chamada consciência. As duas enfermidades fazem assim com a consciência; A destroem por completo. Penso que em muitas noites posso perdê-la, mas ainda persiste o tempo. Ele marca mais e me pergunto se é parte da memória ou se mesmo que o perca, em instantes, ele volta, retoma a memória e volta como consciente e assim, submerge com tudo: Tempo, consciência, memória e vida, como coisas inexoráveis e hetéreas; sabiamente dizia.

Mas, raramente, quando acordo mais cedo que o habitual, lembro que realmente fumo a parte da tarde. Nem me recordo, aos meus oitenta e três anos, desse costume pela manhã, como se realmente não existisse. Dai passei-me a questionar sobre a veracidade de tais coisas.

Continuou.

Certa vez, eu acendia meu primeiro cigarro do dia e acabava de comprar meu jornal em uma banca da Sans Pena, quando certa vez um homem senta do meu lado e diz:

– Prazer senhor.

– Prazer – Disse com certa distância e segurança.

– Meu nome é Salazar e estou perdido aqui. Moro no Flamengo e tenho uma filha chamada Cristina.

Ele me falou isso e meus olhos vidraram longo como aquele dia, em que novamente me passava a questionar se meu tabagismo era um desejo transloucado de um velho que passou uma vida regrada. Por duas semanas eu acreditei que estava começando um vício, até quando me deparei com um maço de cigarros amassado debaixo da minha cama enquanto procurava meus chinelos, e o que me livrou e me salvou foi a data de uma nota fiscal na padaria em que comprei. Estranhamente, ela datava as duas semanas atrás e até onde lembrava sentava no banco da mesma praça com exatos cinco cigarros – Norma-cota que eu me estabalecia a fumar diariamente. Lembrei que os tirava do maço botava no bolso todos os dias que acordava e mais a tarde lembrei que me esquecia e ficava de pé, em frente a uma banca, a comprar de novo os cinco cigarros e pensava que “no final da vida, não havia nada de errado em ter um hábito perigoso”; E não me penalizava onde não havia vergonha em voltar pra casa a pé, fumando alguns cigarros.

Meu consumo era então de meio maço por dia.

E ao contar de meu último arrumar da cama, posso ter comprado outros cigarros… Mas há quanto tempo e há quantos anos isso acontece.

– Desculpa senhor – repetia intervindo de novo, atrapalhando minha horrenda descoberta – Meu nome é Salazar, não moro aqui, moro no Flamengo, tenho uma filha chamada Cristina e não sei onde estou o senhor poderia…

A nota fiscal da padaria era de uma das redes daqui, só que era de uma filial no Flamengo.

Conferi e Aferi não só os cigarros mas também todo o resto.

E me dei por feliz e satisfeito quando voltei e encontrei Luciana e era realmente Luciana e meu nome não era Salazar e você estava aqui, ainda, com seu violão, era você ainda e eu. E realmente pensei por quanto tempo seria e se algum dia, esse fio-tempo chamado memória-real ainda continuaria a existir na minha cabeça e me lembraria de tudo.

Gentilmente, enquanto dobrava os pedaços de papelão da pizza, ele parou e tomou um gole do suco e disse.

Ainda é esse suco. Mas será que aquele homem tinha certeza ser Salazar, morar no Flamengo e ter uma filha chamada Cristina? Poderia ter conversado com uma pessoa de dentro do ônibus que lhe deu essa informação e a incutiu dentro de sí assim como meu tabagismo.

A velha mão do homem toca seus lábios secos e olha com profundidade a janela. Um lapso, um momento de fuga ou razão, era o que eu me questionava durante o decorrer da noite em que me perdi nesse pensamento de até onde o tempo é memória e a mesma e é o mesmo o que anula os outros dois, que na realidade não existem…

Até quando e quanto um lapso de memória não me faria andar em círculos?

Ouço as cinco da manhã uma movimentação na sala e me levanto e me deparo com o senhor gentil, sentado a mesa com sua esposa, quando ao me ver, disse magistralmente…

Prazer meu jovem, meu nome é Alexandre…

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~ por Água para Plantas em junho 17, 2014.

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