Como os “portais do Carnaval” foram abertos no Brasil. – Parte 1

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Oxumaré dançava com um manto de uma curva cromática que ia do verde até o rosa, no alto de um morro e assustada, até então recebida com honrarias de chefe de estado, ela que era mãe pequena, não sabia o que fazer. A manifestação física do orixá despertava desejo intensos e a fazia lembrar de seu antigo amante e ao lado estava Onisálê, que era guerreiro e seu segurança. Estava atônito e completamente hipnotizado pelo orixá e por toda a sua dança e sensualidade.

Tinha chegado de trem e de várias baldeações até chegar na Bahia, ela, que era tratada como um pequena Maytreya, a mãe de todos os outros pais de santos do Brasil e toda uma dinastia de sacerdotes e sacerdotizas do candomblé, era ainda moça.Era uma moça antes de chegar até o posto que estava, mas um ferrenho combate a trouxe no frescor de sua mocidade. Tombaram-se muitos inimigos vindos de terras esquecidas da África para ver a manifestação de um deus que encantava, sem pisar os pés no chão a todos que estavam. Sua mente se concentrava até o ponto onde não podia mais e percebera que o orixá iria, talvez, cobrar o preço, pois sempre a olhava, se transmutando ora homem, ora mulher.

Vinha com outros maiores sacerdotes, pois seu grande mestre viu no uyfá, que um Orixá iria dançar PESSOALMENTE, sem estar montado em outro ser humano. SERIA A PRIMEIRA VEZ, DESDE A MORTE DO REI XANGÔ, QUE SE VERIA UM ORIXÁ DE PERTO, E O MELHOR E MAIS INCRIVEL, UM ORIXÁ, QUE CONTRARIAMENTE A XANGÔ, YANSÂ E OXÚM, NUNCA TINHA SIDO HOMEM ANTES.

OXUMARÉ, CONFIRMADAMENTE, VIRIA MATERIALMENTE A TERRA.

ESSE FOI O ORÁCULO QUE FOI DADO A MUITOS PRATICANTES DO CANDOMBLÉ E MUITOS VIRIAM DE TODOS OS LUGARES PARA VÉ-LO, UNS COM BOAS E OUTROS COM MÁS INTENSÕES.

Oxumaré nunca foi homem mas era quando queria. Oxumaré nunca foi mulher, mas era quando queria. E estranhamente, dançaria no topo do alto de um morro no Estado da Guanabara, em uma comitiva liderada por pessoas que nunca pisaram antes no Brasil estava vindo para recebê-los. Negros, praticantes de outras linhas de religiões que em sua mistura iria se formar o candomblé e eram os únicos vivos e seriam os últimos a representarem essa cultura, pois o respectivo oráculo de suas religiões – a qual também era proíbido falar – vinham para ver essa manifestação.

Negros tão negros que eram como deuses hindus, azuis.

Tinham como acompanhantes, tradutores angolanos, que falavam pouco o Português de Portugal e pagavam em ouro a tudo. E mais um grupo de guerreiros treinados, lindamente disfarçados com roupas formais, mas se não fossem as marcas de cura de suas lutas – as marcas de cura eram pactos com outros Deuses da guerra – e lutavam uma luta que também era secreta e não existia nada escrito sobre ela – os africanos, na sua diversidade religiosa em diversas seitas e sub-seitas, contrariamente as culturas ocidentais, NÃO ESCREVIAM NADA, NÃO SIMBOLIZAVAM NADA E MUITAS NEM IDOLOS CONSTRUIAM pois assim teriam certeza que suas seitas, práticas e doutrinas seriam realmente veladas e a tradição era passada oralmente, muitas vezes, criadas outras religiões por causa da tradição oral e da dicotomia que isso causava, e muitas eram destruídas por causa da mesma diversidade dessa diferença na tradição.

Mas ELA,  era uma pré-adolescente e como no filme “Império do Sol”, aos aparentes doze anos já sabia alguns de vários dos dialetos africanos e esperava duas delegações com vários representantes de tribos. Os representantes de reis de grande fortuna na áfrica a elegeram como sacerdotisa e representante no Brasil, e ela vinha em um trem, todo fechado e pagado seu frete a PESO DE OURO, para que tanto a delegação Vodum e os macumbeiros – os verdadeiros, os tocadores do instrumento macumba – para vir saudar Oxumaré.

Africanos que já tinham confirmado em oráculo que ele viria já tinham se organizado. E porque no Brasil e não na africa?

– Onisálê, me cuide deles, eles estão motivados pela raiva, eles não vem só para Vê-lo, eles estão motivados pela raiva por não se conformaram de um Orixá do céu vir para o Brasil. Onisálê, ouvi de muitos amigos de tribos, como a ansiã Oriãcunã, de que alguns pensam até em aprisioná-lo…

Onisálê era o único aluno de mestre besouro. Mestre Besouro foi o único ser vivo a ser dado o cordel de ouro, graduação máxima da arte da luta sagrada dada pelas mãos de Exú, o criador da mesma arte. E dizem que uma vez que Besouro dançou ao som das macumbas para que uma de suas amantes voltasse a vida, fez Obaluaê chorar e a mesma ressucutiou.

Onisálê ainda chorava a morte do mestre, cujo cordel era o máximo de uma arte que mais tarde seria chamada de “Capoeira”. Olhava pelas janelas e entre os vagões que chegavam quase ao Estado da Guanabara. Olhava com medo e preocupação.

Toda uma delegação de guerreiros de lutas misteriosas vinham em um vagão a frente e ele tinha outros guerreiros que estavam a esperar por seu comando na hora em que chegasse, mas sentia que no fundo do seu coração, que mais da metade havia sido subornada e comprada também cada um a peso de ouro a não defender a mãe pequena na hora do derradeiro ataque. Mas Onisálê, que sistemáticamente olhava seu relógio de bolso,  havia previsto isso no sonho de uma noite anterior, e por mais que lutasse, seu Mestre Besouro o visitou essa madrugada e lhe contou tudo em sonho.

No sonho,Onisálê, após matar uns quarenta homens com sua arte, Seu Mestre Besouro lhe revelou em que um homem iria lhe matar com um sopro de um dardo encharcado de seiva de gameleira branca, que mesmo que sobrasse UM homem, o sacerdote da Tribo Yonitijslê, depois que o matasse, repousaria a zarabatana que o matou e iria se levantar lentamente do trono e estrangularia a jovem lentamente, pelo motivo que nem imaginavam. Onisálê e a mãe pequena achavam que eles iriam aprisionar, de alguma forma, Oxumaré, pois a comitiva trazia da áfrica muitos balaios com bagagens secretas e bem vendadas e veladas vindas de navio, quando nem o primeiro oráculo no Brasil ainda tinha revelado sua vinda. Misteriosamente, os deuses queriam que a linhagem africana fosse avisada primeiro.

Na frente da mãe pequena, em outro vagão,  o estranho sacerdote olhava a jovem com olhos de morte. Se olhavam mutuamente em uma forte concentração como se alí houvesse uma guerra sendo psionicamente travada.

Os guerreiros afiavam suas lâminas do pulso, que eram como lulseiras em formas de aro e eram afiadíssimas. Usavam nos pulsos e nas tornozeleiras, homens de cor de pele azuis e com os olhos vermelhos e inflamados de raiva, tanto pela audácia da mãe pequena de deixar apenas “um homem” cuidando de sua segurança… De novo olhava o seu relógio de bolso e enchugava a testa de suor. Olhava a mãe pequena travando um duelo mental com o outro sacerdote e que ela sabia, que fretearam um trem para que após a sua morte roubassem toda a coroa do seu ori – como se tirassem toda a sua energia espiritual – ritual antigo, que era uma arte velada dessa mesma tribo, que tiraria os poderes da mãe pequena e colocaria no outro sacerdote inimigo, ritual que demoraria horas, mas transformaria, mais tarde, a mãe pequena em um espirito escravo que teria por obrigação a ajudar o sacerdote até que o mesmo morresse, isso, se acontecesse, pois dizem que existem sacerdotes de Vodum com quase duzentos anos na terra.

Onisálê olhava o relógio de bolso e suava. Pensava em rapidez e nos golpes do seu mestre. Teria que dislarar golpes precisos e fatais, pois não teria chance. Movimentos que matam homens com apenas um golpe. Golpes que poderiam matar dois homens com uma esquiva, ao mesmo tempo. Ela admirava e prestava atenção na mãe pequena, ele olhava o relógio e suava. Algo aconteceria. Algo iria acontecer e era uma coisa gigantesca. Onisálê, lentamente, tirava seu palitó, e dobrava as calças até acima do joelho. Dobrava as mangas da camisa e já tinha pindurado o relógio estratégicamente no meio do vagão. Fazia um alongamento diferente como Mestre Besouro o tinha ensinado, enquanto os outros guerreiros do outro vagão ficavam impressionados, pelo que ele estava fazendo e pelo tamanho e músculos de Onisálê. O último item a ser colocaco era o cordel vermelho e preto de três nós, o de mestre capoerista, o cordel de mestres que ensinava a outros mestres e ao mesmo tempo, lembrava do cintilar dourado do cordel de Mestre Besouro e de cada detalhe do seu sonho. Olhava de novo o relógio na parede no meio  do vagão e se preocupava…

Onisálê sabia a hora exata que iria morrer. Mestre Besouro tinha lhe dito um dia antes. Quase esfregando o relógio em seu rosto, mostrava a hora e já lhe tinha avisado o dia. Mas não sabia se isso era bom ou ruim.

A mãe pequena travava ainda uma luta.

Olhava com o outro sacerdote com tanta profundidade e sabia já de todos os planos dele. Sabia que ele iria depois aprisioná-la como egum e depois tentaria aprisionar Oxumaré. E ela estava alí para não deixar isso…

Ela estava ali pra sobreviver. Temia apenas por Onisálê, que saberia, após ler a mente do Sacerdote, que iria morrer por um dardo de gameleira, mas tinha se preparado com um punhal coral, de lâmina fina e grande como um gládio. O punhal coral era um antigo nome dado ao punhal fino usado em rituais de sacrifício. Esse era o punhal certo e soube escolher bem o punhal e o punhal era perfeito e agradável aos Orixás.

E do outro lado o sacerdote tremia. Um frio vinha da base de sua espinha e tocava até o centro do seu peito.

O sacerdote tinha apenas medo. Um medo incrível, depois que aquela menina tinha entrado em sua cabeça ele fazia uma pergunta zilhões de vezes – “Como ela conhece essa arte, como ela conseguiu entrar no meu ori e saber de tudo? ELA É APENAS UMA CRIANÇA” – Ele suava frio e sentia medo e jurou ver a imagem de Yroko, a orisá do tempo que castigava os maus sacerdotes passando de relance na imagem de uma janela dos vagões.

Não tinha mais tempo….

Não sabia o que fazer….

Medo era parte de sua alma…

E no meio do desespero sem exitar em pensar ele deu o grito de guerra alto e fez a mãe pequena tremer até a alma e ligou em Onisálê um alarme de frieza e cálculo, se posicionando no meio do angulo de visão entre o Sacerdote e a mãe pequena, enquanto os outros guerreiros arrombaram a porta que separava os dois vagões, Onisálê olhou pela última vez o seu relógio de bolso dependurado na parede…

Por estratégia, estava tapando a visão do sacerdote da mãe pequena, Onisálê esgrimava com a perna, dando golpes na cara dos guerreiros africanos que lhe cortavam um pouco antes de morrerem sufocados após terem seus septos nasais afundados pelos golpes de perna. Quando se desacorda, se precisa de ar e quando se precisa de ar desacordado, o ar respirado tem que passar pelo septo. Morriam sufocados pelo próprio sangue segundos depois.

A luta lhe rendia cortes, mas era como se lembrasse de todos os movimentos do seu mestre. E um por um, os guerreiros eram abatidos com a simetria de apenas um golpe, no máximo dois, em cada guerreiro africano que caia quase estratégicamente desacordado com um golpe letal.

Quando um fugia aos seus golpes era certo ele o arrastar e jogar o corpo quase em cima dos outros homens, mas sempre em posição de defesa, sem sair do vagão da mãe pequena e derrubava um por um com o peso de suas pernas que pareciam troncos de ipês sendo rebatidos em carne humana. “So faltam três”, olhou rapidamento relógio. Mas infelizmente isso custou um olho que foi vasado por uma das lâminas de pulso dos guerreiros, mas conseguiu bater no pulso do guerreiro contra a própria carótida do mesmo. A mãe pequena apertava o punhal e ficava nervosa – “Não era para Onisálê ser castigado assim”… Suava frio e tremia segurando o punhal…
“Não tenho mais tempo” – Onisálê,  com um dos olhos vasados e o corpo quase todo cortado,  apenas chutou o penultimo correu e se firmou nos portais que separavam o vagão da mãe pequena ao do sacerdote e ele apenas fez o que poderia acontecer em duas probabilidades: Uma boa e uma ruim. Mas a boa aconteceu…

Pela lei da inércia, Onisálê, segurou-se no portal pela parte de cima do portal, apoiando com os pés um pouco abaixo, a meia porta e segurando a parte de cima com os cotovelos e mãos,  deixando apenas a montueira de corpos dos guerreiros irem primeiro esmagando os outros enquanto em milésimos de segundos em seguida pegava a mãe pequena pelo colarinho de seu manto. A mãe que por destino, no solavanco, largou o punhal, que, hora pela lei da inércia ou pela lei da causalidade, da sincronicidade, o punhal saiu certeiro de sua mão e como uma bala atravessou o vagão e atravessou o peito do sacerdote, que soprou o dardo nas costas de um de seus querreiros ainda vivo. E se via claramente, pelo cabo bordado do punhal, que estava completamente fincado no meio do peito do sacerdote que aquele cabo era o cabo de um punhal de Exú.

O trem truculentamente ia parando, enquanto o olho vazado de Onisálê ia borrando a vestimenta branca da mãe pequena. Quando finalmente o trem para, se via o sucesso.

A última coisa que Mestre Besouro mostrou foi o relógio de bolso que Onisálê herdou dele, a hora era nove e meia da noite, e disse que iria morrer a esse horário, horário mesmo que tinha mercado do maquinista dar uma freiada brusca no trem, que iria dar tempo do dardo não o acertar, que na verdade,  atingiu o último homem, e por fatores que estavam fora do sonho, o sacerdote foi morto pelo próprio punhal de Exu da Mãe Pequena, mas não necessáriamente por ela. Um ultimo gemido era ouvido do sacerdote no outro vagão. Saber a hora de sua morte foi uma vantagem.

– O que aconteceu ? Não era pra isso acontecer com seu olho! – Perguntava a mãe pequena enquanto enfaixava o olho de Onisálê.

Onisálê tira uma pederneira com algumas pedras de ouro e dá ao maquinista que acabava de entrar no vagão e ao receber voltava;

– Maquinista, ainda não parta. Espere que eu dê a ordem. – disse a mãe pequena – Vamos Onisálê, tens que me dizer o que aconteceu…

– A última coisa que lembro do Mestre Bisouro no sonho que tive ontém é ele segurando o relógio e mostrando só pra um olho meu dizendo “essa é a hora que vai morrer, então, combinei com o maquinista de freiar nessa hora… Disse Onisálê.

A mãe pequena olha pro céu e por breves instantes ela mete as mãos entre os seios e os aperta com desejo um de seus mamilos que estavam rijos e lembra de Besouro dançando e olha para o céu.

– Obrigada meu amor… Eu ainda te amo! Estou fazendo de tudo para voltar pra mim…

– Então, foi pra senhora que ele dançou?

– Sim. – chorava a Mãe Pequena – Ele dançou pra mim e eu voltei do lugar onde vou tirá-lo…

– Mas senhora, até me desculpa, era agora pra senhora estar mais velha que minha mãe… – dizia Onisálê enquanto apertava e sentia dor no olho vazado.

– Isso não é da sua conta Onisálê. Venha, temos contas pra pagar a Exú…

E do mesmo jeito que o sacerdote iria fazer ela fez, mas ela fez pior e ela sabia como fazer seus inimigos pagarem. Ela e Onisálê pegaram os instrumentos que a aprisionaria e usou contra todos os guerreiros todos os vazos, e deles foi tirada um copo de sangue de cada corpo, inclusive a do sacerdote e colocada em um jarro e a Mãe disse em Yorubá “A cada morte, cinco anos”. Sacudiu o jarro e bebeu um pouco. Onisálê, apesar do nome, não sabia Yorubá.

Pediu para que Onisálê arrancasse a cabeça de todos os inimigos que estavam no vagão e separasse os corpos e começasse a enterrá-los sem a cabeça. Enquanto fazia isso, se trancou em um vagão sozinha com a cabeça do sacerdote, mas era apenas com a cabeça dele.

Enquanto Onisálê enterrava os corpos ouviu a Mãe Pequena gritar em Yorubá frase hipnóticas e incompreensíveis… O vagão se ilumina fortemente. E ela berra uma frase em Yorubá com autoridade e poder… Onisálê sentiu medo e a partir daquele momento sentiria um medo constante dela, porque a terra em volta do trem estufou e viu o que depois concluiu que fossem almas correndo após ela gritar, e para horror e respeito de Onisálê, sai a Mãe Pequena, que não tinha mais os seios de uma adolescente pois sua roupa estava larga e tinha a aparência de uma criança e segurava nas mãos uma cabeça negra envelhecida e quase podre do sacerdote.

O único olho de Onisálê tinha medo daquela visão e rapidamente abaixava a cabeça e continuava a cavar. A mãe pequena olhava no meio da escuridão e via uma longa estrada que cruzava a linha do trêm. Era uma encruzilhada e no canto dela uma árvore oca fazia esquina a frente a casa do maquinista.

– Quando terminar de enterrar o último corpo, pegue todos os alguidares e as cabeças e me encontre. Estou naquela árvore seca…

Sem pestanejar, Onisálê, ao enterrar o último guerreiro, foi com as coisas para a encruzilhada.

E como um pacto hipnótico ela foi fazendo coisas que nunca tinham sido feitas antes. Foi pegando todos os materiais de amarração que seriam feitos com a sua morte, mas ela fez com seus inimigos. Pôs todas as cabeças nos vazos, menos a do sacerdote, colocando ela no meio do tronco oco da árvore, enterrada no centro dela.

O punhal que foi usado para cortar a cabeça dos inimigos foi lançado a uma distância muito longe pela mãe pequena que com uma outra voz disse – Não presta mais. Tá amaldiçoado…
… Tal procedimento fez até mesmo ela tremer e a Onisálê mais ainda.

“Assim separo a cabeça do corpo. O corpo da alma e o espírito do caminho”  – bradou alto em yorubá enquanto darramava em sí o resto do jarro com o sangue dos inimigos abatidos.

– Pronto, está tudo formoso. Não olhe pra trás Onisálê, ou vai ficar preso aqui…

Ele tremia dos pés a cabeça e temia que um vento o fizesse virar a cabeça a ponto dele olhar pra trás…

Por um momento, após três passos da feitura do feitiço ela para. Respira e abraça o seu corpo cheio de sangue como se sentisse a presença de seu amado, eleva a cabeça aos céus e perguntou sorrindo:

– Porque iria deixar ele morrer e porque deixou que ele perdesse um olho?

E do vento veio a voz:

“ISSO É PRA ELE APRENDER A NÃO FICAR OLHANDO PRA MULHER DOS OUTROS E ELE NÃO É BURRO DE FICAR SABENDO A HORA QUE VAI MORRER E NÃO FAZER NADA”

Era a voz de Besouro.

A mãe pequena colocou um dedo indicador entre os lábios em sinal de silêncio antes que Onisálê tentasse falar alguma coisa ou se comunicar com seu mestre. Havia muito poder ali e ela sentiu que ele não queria resposta. Com mais medo do que nunca e assustado, Onisálê entra tremendo dentro do vagão ajudando a garotinha negra a entrar.

– Diga ao maquinista que siga enquanto lhe preparo as ervas pro seu ferimento. Ela tira a roupa banhada de sangue ficando nua e joga o trapo sanguinolento nas covas rasas cavadas por Onisálê.

E assim o fez.

Enquanto a Mãe Pequena fazia um emplastro de ervas e fazia uma compressa por entre a venda, ela dizia. “Besouro é muito ciumento, cuidado com ele”. E ria. Ele sem ter o que dizer, apenas se escorou na parede enquanto a mãe pequena guardava o resto das coisas no balaio, esfregava mais erva nos outros ferimentos. Abriu um outro balaio e colocou uma outra roupa, que também estava larga e depois fez a cama de Onisálê.

– Vá dormir, enquanto isso, eu vou limpar o vagão…

– Eu ajudo a senhora…

– Não… Isso é serviço de mulher, apenas durma. Amanhã vou precisar que faça serviços pra mim.

Onisálê dormiu. Enquanto lentamente o trem voltava a velocidade e seguia caminho ao Estado da Guanabara.

Mas estranhos portais foram abertos nesse caminho…

Alí foi a uma das primeiras vezes que Exu aceitou oferendas no meio da encruzilhada.

Mas, alguns tempos depois, uma mulher iria morrer com sete facadas no meio dessa encruzilhada com o punhal amaldiçoado lançado no meio encruzilhada da estrada.

(Continua)

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~ por Água para Plantas em março 4, 2014.

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