. ..egun

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– Como eu faço pra não sentir mais medo?
– O medo é uma coisa que você sempre vai sentir meu filho…
– Mas eu tenho medo de tudo…
– Então, tema mais a deus do que outra coisa…

Há vinte anos, eu chamei de merda o padre que tentou me ensinar isso na época de um catecismo que eu nunca quis terminar. Estava bêbado, dentro do carro e precisando da minha cama… E tinha vencido uma noite carregada a todos os exageros possíveis, a todas as coisas perigosas, de frequentar invasões cheias de punks e pessoas se viciando e eu também com eles e com ele. Estávamos juntos. E ele me ajudava em quase tudo.

Agora, horas de flashes de ocorridos instantes, onde pela primeira vez tive um coma espiritual que poderia me derrubar para sempre. Ninguém nunca teve uma coisa dessas sabe controlar ou saber. Fiquei minutos desligado, temeroso e espantado com tudo que aconteceu. O que tinha ido embora, não era um egun. Já era eu mesmo…

Ouvia passos no telhado, pedras na janela, vultos e pessoas andando e uma certa noite, ví um homem parado na porta, tentei gritar o nome da minha mãe, mas dizia não grite, sou seu pai… Ele achava que eu era o pai dele e de certa forma era… Dois irmãos meus nasceram no mesmo mês que eu, coincidentemente, os nove que antecedem ao carnaval.

– pai?
– é… sou seu verdadeiro pai.
– meu pai morreu pra mim.
– eu nunca te larguei
– é? Então porque não entrou antes?
– agora você deixou…

O famoso caso onde o sequestrado com o tempo passa a corroborar com o sequestrador. De tanto ouvir unhas se raspando na janela, passos no telhado, barulho mão socando a parede eu um dia, irritado por todo dia ter que dormir às cinco e acordar duas horas depois para ir a aula, eu estupidamente disse : “se quer entrar, venha logo e me mate”. O problema não foi o me mate e sim o venha logo. E ele estava na porta.

– eu não vou te matar – disse logo depois.
– você sabe ler mente?
– aprendi a ter muito poderes e agora eu sei muitas coisas e você é meu filho?

   Claro que não era meu pai e não era ninguém. As pessoas tinham medo das coisas. O princípio da sabedoria é o temor ao senhor. O princípio de tudo é o medo. Medo é a base de uma estrutura muito grande onde parte de um todo vai se alicerçando. Existem pessoas vivendo há quinhentos anos. Nos julgamos espertos e seguros aos trinta. Jesus foi para o céu com trinta e três e julgou toda a humanidade e como um homem mais esperto que um outro de oitenta. Me dê um piru duro e perna boa pra ver o que eu faço com você, disse uma vez um mendigo velho para uma ex-namorada minha quando saímos de um motel sujo na Lapa onde nos perdemos a noite inteita. Era a mais pura verdade. O velho nem queria juventude, pois percebia que isso era uma dádiva e é como um maná que deve se aproveitar sempre e usá-lo na boa medida e que nem Deus poderia fazer isso. E, somos muito prepotentes achando que uma persona que vive por mais de 500 anos na terra não sabe falar corretamente, não viaje por outros campos ou até mesmo saiba de algo extra sobrenatural maior do que nós pensamos. Por mais livros e tudo que consumimos, a mortr sempre vai subjulgar até esgotar tudo, mas para aqueles que não descansam – aliás, o descanso também é uma dádiva –  nada supera a sabedoria e a pulgente vivência de personas que caminham por quinhentos anos.

E esses mesmos, conhecem pessoas de setecentos anos que são mais fortes e por ai vai. Um raio surge do nada, fulgura e acaba. O fogo flama e se apaga. Assim é a vida que depende da morte todo dia. Se estamos vivos, é por conta de ALGUMA COISA que morreu e todos TEMEM a morte, desde um homem a um animal. Vida. Medo e Morte. Uma unidade cíclica essêncial. Criamos a religião para não termos medo mas criamos o medo maior, o GIGANTESCO homem que devemos temer. O medo nos mantem em nossos empregos e é a base de tudo. Moradores de rua tem o respeito mais de outro quando um é mais destemido que outro. Eles dão valor aos que tem aptidões naturais maiores que outras pessoas, como os monges indianos.

Por medo ele entrou e era parte da minha vida agora, e estava caido no chão, molhado e lambrava de flashes. Ele deixou coisas que meu pai fez na minha cabeça. Coisas horríveis. Cenas de estupro. Mas no tempo que ele ficou era parte do que eu. Quando ele ficava sentado na beirada da minha cama toda noite eu dormia bem, e acordava melhor. Fiquei mais magro e era uma parte de um foda-se que dizia a vida. Mas ele quis ir embora. Pelos anos que tinha vivido, deveria ter ficado mais, mas não enjoei dele. Ele enjoou de mim e foi embora. Estava molhado e estou tendo flashes e apagões de consciência.

Descobri porque eu tinha e estou assim com esses apagões. Ele foi eu por muito tempo. Ele foi eu por tempo demais e respondeu por mim por tempo demais. O não saber o que fazer era o tempo em que permitia ele falar para eu sobreviver até hoje. Graças a ele não tive medo e em vez de pagar meu tributo ao medo eu alimentava a coisa, que sentou na berada da minha cama dos treze aos vinte e dois anos, depois desapareceu e foi embora mas sentia que estava de alguma forma perto, pois tinha vencido muita coisa e realizei coisas graças a ele.

Mas tinha passado horas desacordado. Tinha uma escoriação no ombro, e um furo no meio da mão como se fosse um cigarro apagado no meio da minha mão….

– o que você quer?
– só companhia… me disse com a voz embargada, nunca ví seu rosto, sempre foi um vulto.
– tudo bem.

Silenciosamente, ele sentou na beirada da minha cama e acendeu um cigarro, via apenas um perfil de rosto quando acendia o cigarro, a noite inteira, um atrás do outro… Cansava de dormir vendo essa imagem até me ninar. Muitas vezes minha mãe me apurrinhava por achar cheiro de cigarro no quarto, mas nunca nos dedos, no ombro ou na fronha do meu travesseiro. Era apenas no quarto.

Até um dia que eu acordei sentado na beirada da cama fumando
E nunca mais tinha visto o homem novamente…

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~ por Água para Plantas em fevereiro 17, 2014.

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