Procura-se

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  – É isso mesmo moço, eu vim aqui porque tô procurando uma companheira – disse o senhor baixinho, quase fora de vista do balcão…

– Mas eu já expliquei pro senhor que…

– Meu filho, eu entendi tudo… Mas como uma mulher vai querer casar comigo se ela não sabe que eu trabalho até hoje? (…) Ninguém que homi parado dentro de casa…

– …Senhor

– Aliás, trabalho praticamente de sol a sol. Trabalho vendendo fruta, verdura, legumes e erva medicinal. No dia da feirinha, minha barraca é a mais procurada!

– Jura?

– Pois é… Tenho um pé de meia bom.Tenho casa própria, um carrinho do ano em casa, uns lotezinho que é meu e não é posse e guardo sempre uma verpelazinha na polpança. Assino até a carteira de dois funcionário…

– Sua barraca deve ser a maior da feira então? – Sorri se envolvendo com a questão do senhor.

– Ah meu filho, é a maior da feira – Mostra um sorriso faltando alguns dentes – Mais ou menos, dá umas três ou quatro kombi uma do lado da outra, vou de fenemê, umazinha que tenho há mais de anos pra lá, e ela vai lotada… E de pensar que eu comecei no caixote… – marejam os olhos do senhor.

– No caixote?

– É filho. No caixote quando a gente fala, são aqueles garotos que compram só um caixotinho de fruta, ou legume, e sai na rua pra vendê. A minha foi o caqui. Ô fruta abençoada! Olha, pode faltar até banana na minha barraca, mas o caqui sempre tá lá… E até hoje, tenho freguês da época que vai na minha barraca pra comprar comigo. Daí, Júlio do Caqui.

– O senhor vende muito caqui?

– Ah, no padrão de quatro a cinco caixa doutô…

– Então, acabô caqui o senhor vai embora? (risos)

– (risos) Ah, esse eu conheço doutô. Sempre me encarnam na feira… Hehehe…

– Então… Senhor Júlio né?

– É isso, Seu Júlio do Caqui…

– Então, Seu Júlio do Caqui, eu após conversar com o senhor, eu ví que o senhor não é uma pessoa que tenha algum tipo de demência ou tenha alguma patologia…

– Quê, isso doutô, demente? E taí outra coisa que nunca me falaram, que eu sô patológico… Não entendo o que é isso, mas não vou ser ofendido aqui não – Se inclina a sair da cadeira.

– Põe a mão no ombro do Seu Júlio – Calma Seu Júlio, eu não quis ofender o senhor, mas deixa eu te explicar uma coisa…

– O senhor não precisa me explica nada doutô, o senhô pensa que eu sô burro em ter vindo aqui, e EU SEI O LUGAR ONDE EU TÔ, mas se, uma mulher souber que eu sou trabalhador e trabalho muito desde muito novo…

– Eu entendi desde o início, a sua intenção e o que o senhor queria e quer seu Júlio, mas o que o senhor quer que eu faça pro senhor? Lhe arrume um emprego? Aqui é uma agência de empregos! É só o que eu posso fazer pelo senhor…

( O senhor abaixa a cabeça, morde os lábios tentando conter um fio de água que escorria pela pele seca, morena e enrrugada do seu rosto, enquanto tirava o chapéu)

– Que isso, vem cá seu Júlio, vem tomar uma água comigo…

( Encaminha o senhor até uma porta e zelosamente o senta em uma cadeira, enquanto o senhor de mãos calejadas enchuga o rosto, o homem lhe entrega um copo d’água)

– Isso, bebe devagarzinho e respira… Olha seu Júlio… – dá uma breve pausa, abre a carteira e olha uma foto das filhas – Eu sei quem é o senhor… No breve momento em que começamos eu fiz uma leitura do senhor…

– Leitura?

– É, mas deixa eu te explicar uma coisa. Seu Júlio, o senhor trabalhou uma vida toda e sei que não teve tempo de procurar uma outra mulher e talvez nem tenha filhos…

– Não, não tenho não… – escorre novamente o fio d’água.

– Pois é Seu Júlio, entendi a sua vida. Olha, o que eu tenho a dizer é que nenhuma mulher decente vai se interessar pelo que você tem ou pelo que você é capaz, pelo que o senhor pode ter. Uma companheira anda lado a lado sem se importar com nada além do senhor!

– É doutô, eu sinto uma solidão tão grande, que eu nunca achei que fosse ter, vejo meus amigos dançando com as companheira no final da feira… Isso até da um aperto no peito…

– E não sei, algo me diz que o senhor veio no lugar certo. Eu tenho certeza que o senhor vai encontrar a sua companheira aqui!

– Verdade doutô?

– Sim! Algo me diz que sim, olha me faz uma coisa : Toma esse papel, me anota o número do seu telefone e o endereço da feira.

– O telefone até sei doutô, mas o endereço da feira vou ficar lhe devendo, não sei iscrevê.

– Me dá seu telefone então.

Lentamente, o homem foi regando seu Júlio, até que seus olhos brilhassem. Lhe falou de esperanças que encheram e confortaram seu coração. Lhe disse algumas mentiras, as mesmas que nos dizem e nos fazem levantar mesmo quando sabemos que são mentiras, o homem achou que seu Júlio acreditou e talvez até seu Júlio tenha fingido para retribuir o estímulo dado pelo mais jovem. E foi embora Seu Júlio.

…No dia seguinte…

– Não acredito, no que a senhora está falando?

– Porque, o sinhô ta me caçuando? É isso que o sinhô ouviu… Tô procurando um marido mesmo, mas um homi sério, porque já tenho um filho muito bem criado e dois neto – Respondeu meio raivosamente Dona Júlia, que também estava “quase fora de vista do balcão”

– Alô, Seu Júlio??!

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~ por Água para Plantas em janeiro 23, 2014.

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