Para a água que me regou… – Carta

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Niterói, 21 de março de 2013.

À minha amada
Dulcinéia de La Mancha

Para a sua doce e sincera gentileza, sem sarcasmo ou deboche lhe escrevo.

Ah… Como é tão fácil e difícil escrever essa carta pra você, pois tem sido uma semana dificil e realmente complicada de se atravessar. O globo mágico que me envolvia se estourou completamente eu não queria realmente isso. Temo que não interprete de forma correta, mas tenho andado descrente de mim, da vida, de tudo…

Ainda há a certeza desse amor. Dessa febre que me tira o fôlego e me faz pensar em você.

Ainda te vejo nas fotos das casas, coberturas e ainda lembro do último imóvel demonstrado de te ver nitidamente tomando uma Marguerita e como, como sinto frio fora desse Globo, mas a visão não é de tristeza. A visão é de algo que acabou sem começar como um terremoto que deixa rastros e mais rastros de destruição.

Os dias sem os sonhos de nossos dias tem sido difíceis, na realidade – que não existiu – eu não consigo viver sem ter a idéia de não te ter. Me senti como Dürden ao saber que era ele seu mesmo algoz e depois que te abraçei – depois de acalmar meu corpo que tremia de frio, desejo e amor – eu olhei em um cartaz de vidro em um ponto de ônibus eu lembrei que era: Gordo, feio, duro e completamente burro, pois almejei o impossível tão como um burro sonha em ir a lua. Me desfiz nos seus olhos. Não era eu e nem você. Havia medo nos seus olhos e eu sentí alívio e dor quando ressoou a frase: “Infelizmente, você não faz parte dos meus sonhos”… Sentí sua dor sincera e poderia ser pior se não fosse o seu carinho por mim, mas já te tinha em outra realidade… Eramos juntos e não havia esse medo de te perder

. – Amor, ela está acabando com tudo – Segurava você um céu de azul crepon, enquanto pássaros de Paraty caiam como um bolo branco de papelão extremamente branco a descolar de um céu cenário que se desfazia em uma chuva que transformava tudo em uma gosma de papel… A chuva furava o céu e rasgava toda a realidade, tanto dentro como fora de mim…

– Me ajuuudaaaa!!! –

Gritava você, segurando tudo. Era uma figuração a engordar e a ter uma voz externa gritando: “Looser”…
Tudo se desfazia em um emaranhado multicolorido de papel marchê e escorria em um degradê de cores neutras, onde se desfazia em uma água negra que se desmanchava em tons neutros…

Enquanto estávamos sentados vendo a mata balançar em um gostoso frio beira-mar, um grande rasgo se fazia em todo o céu. Algo me fala sobre seu status…

Mal reparei.

Havia um outro campo onírico a interagir.

E depois de acordar, ensopado e esperando uma condução assim eu realmente percebi que algo havia acontecido. O globo se rasgou e toda uma vida tinha acabado em uma tempestade de março. Queria voltar e relembrar de tudo e hoje ando mais dispersso que o habitual.

Me senti livre, ao acordar em um lugar inóspeto e vazio. Estranho e feio e alheio a tudo, minha mãe tinha câncer e deliberadamente tinha gastado a última parcela do meu seguro desemprego e ainda não tinha vendido nada…Estava confuso e sem saber como voltar pra casa e um postal de Paris passa por entre um boeiro. O postal era preto e branco, os mesmos tons em que se desfez o Globo. Tinha gastado, como a primeira vez que te ví, o dinheiro da semana para ir ao trabalho e nem sei, mas consegui ir trabalhar. Dessa vez não foi o dinheiro e sim algo que tinha ficado lá… Todo o sonho de uma vida inteira se estourou como um balão… Como o globo inflável de marchê. Andava pesadamente pela chuva.

Engordava incrivelmente e me sentia um monstro a andar pela rua. Tinha medo de outras pessoas e mal esperava para voltar pra casa e até me acostumaria a ver minha mãe careca, mas não me acostumei. No globo não havia minha mãe. Havia eu pai. Você mãe. E uma casa que voaria em balões, onde um dia, ela pousaria no pico da Torre Eifel…

Obrigado por me permitir a sonhar! Ver os nossos filhos e te ver arrumando coisas e fazendo traquitanas para decorar a casa! Obrigado por me permitir te levar a Paris! A te fazer feliz! A ver você ter o seu e meu menino! A gritar comigo! A me permitir fazer as pazes! A te fazer rir até engasgar e a segurar as minhas mãos enrrugadas e dizer “Vá em paz meu amor”, pois sempre soubemos que você seria mais forte na perde de um dos dois e seria a pessoa certa a ficar, pois não suportaria passar o final do resto da minha vida com você sem você. Obrigado por entender que eu morri sorrindo porque segurava a mão de quem eu mais desejava segurar quando fosse embora e agora, meu amor, eu só tenho a chuva, mas mesmo assim obrigado, pois MEU SONHO, O SONHO DE NÓS, ME MANTEVE VIVO e me fez esquecer de um suicídio comprovadamente estatístico, em não suportar a morte, quase provável de minha mãe e de minha vida se afundar tão amarga e profundamente em uma solidão de sarjeta, mas meu amor, não tenha medo, pois se ocaso acontecer, voltarei ao Globo…
E… Seria tão rápido quanto o abrir da porta de nossa casa… …onde você tinha acabado de chegar do consultório, estaria de pé atacando a geladeira e me contaria novidades, ríriamos de alguma comédia romântica e dormiriamos juntos, com ou sem sexo, mas em um eterno amor…

. Com todas as outras vidas, realidades e sobre tudo:
COM TODO e de TODO o meu amor…

RODRIGO VIEIRA SERRA

P.s: Não me deseje mal e nem pena…

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~ por Água para Plantas em março 22, 2013.

Uma resposta to “Para a água que me regou… – Carta”

  1. Vou levar comigo pra sempre essas palavras…pode ter certeza ABSOLUTA! S2

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