“Karatê” ou “O dilema do Mulato Esperto”

O nódulo gordo da cabeça, o famoso cocuruto de Charles aparecia completamente quando ele pendia a cabeça pra frente com o canudo em uma das narinas, logo assim que enrolou a nota de cinqüenta: “Oncinha da Sorte”, dizia rindo depois que se abaixava… Aquele era a coisa que o “mulato esperto” (Charles assim o chamava) via aquela noite… Aquilo fugia ao esporte fino e ao colarinho e era como uma meia calça enrolada com sebo, e parte da água ou óleo escorria por entre o colarinho, chegando a destoar uma mancha amarelada ao redor do pescoço.

Atrás de Charles, em frente ao mulato esperto, menino de ouro que passou o dia todo com o novo patrão, foi a cassino clandestino, depois pegou a propina de uma banca, foi na firma, ouviu patrão falar a merda do dia inteiro sobre a porra da viagem ao Caribe e sobre as águas de lá – “Água é água, um átomo de hidrogênio e dois de oxigênio” – E agora, voltando, de frente ao mulato esperto estava uma negra gorda de lábios carnudos e proeminentes, daquelas saídas do Sítio do Pica-pau amarelo a olhar com um olhar de nojo e desdém para o mulato esperto a sua frente, que contrariamente a chefia, estava completamente alinhado em seu esporte fino. Samuel L. Jackson em elegância, a olhar com um mesmo desdém aquele cocuruto nojento e a negra segurava uma garrafa de cerveja. Ele – o mulato esperto – tinha me falado disso, talvez fosse o fundo de um bar ou a casa de alguém, mas a mulher estava incomodada com a situação e não parava de olhar para a fungadora bola de sebo e ao mulato esperto, que estava esgotado físico, emocionalmente, moralmente,  e socialmente, mais tarde entenderemos o dilema do mulato esperto. A coisa toda era vip agora pros dois. Birosca, biboca, casa, barraco, seja lá que merda era aquela, estava fechada para Charles e o Mulato esperto…

“É da boa…”

“É”

“Como sabe, não experimentou”
“Conheço as daqui”
“Pensei que você fosse esperto rapaz”
“Por isso”
“Por isso o quê rapaz?”

“Sou o cara esperto por não fazer isso”

A negra olhava como se testasse com os olhos o mulato esperto

“Cara” – funga bem fundo apertando uma das narinas

“Você era o mulato esperto cara, entrou no serviço como uma luva e conseguiu tudo, se encaixou perfeitamente no trabalho, mas não me parece esperto mesmo”

Segundos de um silêncio. O mulato esperto com um olhar dê: “Isso foi a gota d’água”

Olhou para a negra segurando a garrafa de cerveja e tomou das mãos de Charles o preparo todo. Com maestria de um chefe, bateu direitinho o cartão, revirou o refino do açúcar e traçou três linhas, volta a amassar com o cartão e a bate de novo uma tábua, de ferro ou cobre ou sei lá que caralho de metal era aquele…. Não sou metalúrgico caralho…

“Você sabia meu filho, que sê, isso acaba, o PIB da Colômbia decai em mais de quinze por cento”?

“Não sei”

“Não sabe?”

“É não sei e nem sou”

“Não sabe e não é o quê?”

“Não sou nem economista e nem colombiano”

Pega um canudo de refrigerante que tava naqueles apoiadores de guardanapos e canudos na mesa e rasga numa dentada só. Eleva a tábua a face, como se fosse o cara. É isso ai, dizia Carlitos, já com uma cara de babaca enquanto via o refino do trato da situação feita pelo mulato esperto, deve ter pensado, ele sabe fazer a coisa.  Com o canudo curto em uma narina, fechou a outra e de uma aspirada só sorveu a primeira trilha, depois como uma talagada rápida em um copo de cachaça foram as outras duas. Uma aspiração após. A tradicional limpada nos dentes, e seu olhar não mudou. A negra ainda com a mesma expressão, agora, mais sagaz e raivosa a olhar pro mulato esperto.

“Aêeee, eu sabia que você era um mulato esperto”

Quando charlitos  falou isso, ele de raiva, apertou os olhos…

“Boa né?”
“Eu já sabia que era boa”

“Não tem como rapaz – ascende um cigarro – não tem como saber se não experimentar”

“E dar o cú”

“O quê?”

“E DAR O CU?”

Carlitos se engasga com a fumaça e começa a rir como um porco. A negra deita a garrafa sobre a mesa  a abre a tampa de um golpe só.  A nuca suada como uma batata inglesa se refestelava em gargalhadas…

“Eu sabia que você era o mulato esperto, sabe, snuf, a gente subestima muito as pessoas” – Toma o copo de cerveja;

“Sempre fui”

“O quê?”

“Subestimado”

“Pensei que iria dizer esperto” – Ria carlitos

A negra fitava com raiva o mulato esperto, de um ódio que poderia desintegrá-lo naquele instante,

“É boa.. Essa é muito boa, as melhores são assim, tem que ter um cheirinho de mofo no fundo, não, não – se corrige Carlitos – as melhores não tem cheiro de nada, é apenas uma sensação rodopiante como um ventinho entrando dentro do seu corpo, refrescando e fazendo você ficar agitado, essas sim são as melhores, certo?”

“Certo”

“Esses poetas filhos da puta não conseguem dar um nome a essa sensação,Baudelaire chegou perto a falar disso, mas ainda não havia todo o refino e coisa e tal, talvez não conhecesse realmente,  já ouviu falar dele meu filho?”

“Sim”

“Ele é o que então?”

Tira um cigarro de filtro amarelo do bolso – “Escritor”

“Já leu algum livro dele?”

“Já”

“Qual livro você leu meu filho?”

“As flores do mal” – Disse o mulato esperto sem ternura nenhuma nos olhos, se uma mosca pousasse sobre suas órbitas poderiam queimar as suas patas, as pupilas se tomavam e tornavam como a cor do terno, negras e enormes. Uma tragada forte,  uma assoprada de nicotina no ar com tanta raiva que fez com que a negra apertasse os olhos à fumaça, aí carlitos, como em um bordão de siticom, gargalhava espichando a pança dizendo:

“Mulato Esperto, você é foda meu garoto, minha preta, pega mais uma gelada pra gente?!”

A negra encarando o mulato esperto, se virava a uma geladeira velha com o logotipo da G.E de alavanca de trava, tirando mais uma da parte de cima, ainda olhando nos olhos do mulato esperto, deita com maestria mais uma na mesa. Ele não agüentava mais a mulher olhando pra ele, não agüentava mais a mulher, aquele olhar, aquele filho da puta que acompanhou o dia inteiro, queria chegar em casa, tirar a porra da roupa, tomar banho, ver um jogo e de novo acordar pra estar com aquele saco de banha de novo…

“De onde você ouviu falar de Baudelaire meu filho?”

Não dizia nada, apenas tragava o cigarro e olhava pra cima, tentando buscar paciência no ar – “Meu Pai”

“Hehehehe…. Teu pai?”

“É”

“Ele serviu a família Baudelaire? hehehehehe?”

“Meu pai era professor filho da puta”

De uma plasticidade linda a cena…

Ele levanta, em um slow motion lindo, o seu terno levanta na medida do coldre e ele saca a colt, a colt cobra reluz no fundo, um brilho metálico e lento que não faz menção nenhuma a carlitos, pra ele, era um verme a sua frente inofensivo, mas o verme sacou seu colt cobra que brilhou contra a escuridão e um feixe de luz do poste, fazendo a nuca de carlitos voar por toda a lateral do bar, sujando a porta de correr, banhando a negra de sangue, sujando o porta coisas, o porta caralho e o caralho todo em volta do corpo macilento de  Carlitos, que tinha uma papola no lugar da cabeça agora…

A negra começava a chorar se afastando do corpo pesado que acabava de sair do slow motion e ficava olhando assustada ao mulato esperto, que olhou como um tigre pra ela e gritou:

“Vai toma no cú mãe, era meu PRIMEIRO DIA NO TRABALHO, tava trabalhando caralho!!!”

Nota do Escritor: Trilha sonora do conto: http://www.youtube.com/watch?v=06l6hq7wqyM

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~ por Água para Plantas em setembro 24, 2012.

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