A lenda dos Primeiros Ateus – Conto

                 A lenda dos primeiros ateus.

 

 

        I

 

Antes da grande muralha, cercando  toda a extensão de nossa soberania existia uma guarita, mas antes dessa guarita, agora transpassada por uma gente moribunda estava escrito o nome de nossa nação, que serviu de indicativo para esse povo crente adentrar – palavras escritas por mim, há de se lembrar – pelo nosso reinado e por um nome que conquistamos com honra e valor.

E não era só pela força e pela ciência e comboio de nosso exército, eles – os outros povos bugres nativos antigos da terra – nos deram esse nome pelo tamanho de nosso império que formamos meio ao nada e de como construímos uma nação em uma terra com condições tão adversas, povo que depois, se tornou nosso aliado e sempre nos fornecia qualquer tipo de subsídio que quiséssemos. Nos chamavam assim de Anaquins, que em sua língua significava, “gigantes celestes”, pela soberania de nosso povo e pela grandeza de nossa ciência. Deram muitos nomes as nossas terras também, um deles era Jericó.

Não era mais uma criança e meu corpo cansado ainda mantinha uma mente forte que desejava ver o que meus olhos não acreditavam. Ansiava ver sobre o ressalto da paisagem indo pela penumbra um resquício de uma tribo, que apesar de tudo, desejava no fundo do meu coração que não estivessem mortos, pois tinha pena desse povo que foi feito de escravo por suas mentes e por um homem audacioso e malicioso. Era um menino, depois um adolescente e quase um homem quando eu sai de lá, mas que “lá” eu não sei, pois andávamos e não víamos esperanças de sair. Hoje sou um homem velho.

Lembro que tudo começou com um homem a erguer um grosso pedaço de pau e a dizer palavras de ordem perante as vilas. Durante anos esse homem foi grosseiramente ignorado e tratado como um louco, mas ele atingiu o que acredito ser o lado mais frágil do ser humano: O que se desconhece e o que se sabe. E as únicas coisas que aquele povo sabia era que sofria e era injustiçado, então, o homem os fez questionar o “porquê daquele sofrimento e daquela miséria”, mas os entregou em uma coisa ainda mais sórdida e escusa que era o sofrer por algo ainda maior, o sofrer por saber que estaria sendo guardado e assistido por alguma força superior, e o sofrimento ganhava assim um outro nome, nome que se chamava a partir de agora de “provação”. O desconhecido passou a reger um povo e a dar respostas e motivações que só teriam por si.

Meus olhos cansados ainda conseguiam achar ou decifrar coisas no meio da penumbra e da fumaça que se formava ao acaso no meio de um horizonte seco, que se limitava nitidamente ao ver a terra fértil que eu e meu pai tornamos a grande área que nos apossamos. Achamos água, minério, fundíamos bronze e fazíamos artefatos e coisas que sabíamos que daqui a mil anos ou mais nos julgariam impossível fazer, mas ainda sim, éramos uma brilhante dinastia, que ainda guardava resquícios da conservação de antiga ciências egípcias, algumas na verdade, mais tarde, aprimoradas por nós. Nossa dinastia era formada por eu e meus irmãos que nasceram após a minha caminhada com meus pais até está terra e dos outros povos que se aliaram ao ver os nossos engenhos e organização. Hoje, a terra árida de antes, é um enorme Oasis para qualquer viajante que atravessasse o deserto e precise de água fresca ou até mesmo estadia por uma noite. Alguns, até mesmo ficavam, e se tornavam criados e serviçais, em troca nós dávamos terra, conhecimento e direito de opinar sobre a organização da nossa comunidade. Mas tarde, detentores de posses e de conhecimento. Éramos generosos a qualquer um que desejasse conhecer ou fazer parte de nossa nação.

A antiga ciência, conhecimento que passou de muitos, de  antigos egipicios até a educação do meu pai e até a minha, nos revitalizava e revigorava a cada dia mais, pois ainda usávamos caçulos para aprimorar novas técnicas e melhorar nossa condição de vida e estudávamos ainda a terra. E por isso tinha me tornado consultor e líder entre os meus e dava aula e conselhos de engenharia aos mais jovens para tornar a nossa dinastia mais poderosa e valorosa com o passar dos anos e séculos Tínhamos praticamente a dura natureza da região nas nossas mãos e a controlamos de acordo com essa sagrada ciência, que nos fez moldar as nossas próprias vidas.

Construímos tudo isso do pó e com determinação e lógica, tiramos riqueza de uma terra seca, árida e infértil, atraindo até mesmo animais distantes para o nosso regaço. Antes, eu e meus pais, hoje, eu, meus irmãos, os seus filhos, os meus , os seus netos e os meus. Por ser o mais velho, era o líder de toda a família e tinha voz de decisão em todos os assuntos.

Enquanto o meu filho mais velho colhia o ultimo resquício da ultima safra nos nossos campos, via uma pequena poeira no meio do caminho… Poeira que foi se avolumando, dando uma visão de um povo cansado, doente de sol e vermelhos de alguma esperança. Não corriam, mas o grupo de homens e mulheres esfarrapados, sujos, maltrapilhados e destruídos por todos esses anos no deserto. Passavam  em uma forma de miragem ou visão, defronte a pedra que sinalizava o túmulo dos meus pais, que a muito tentou os tirar, um tanto antes, daquela tenebrosa e inexplicável peregrinação…O homem que segurava o cajado não estava no grupo das pessoas maltrapilhadas que cruzavam as terras da família que formamos aqui. Os homens, agora decréptos, não me conheciam, ainda bem, pois um pouco de gratidão ou afeto guardo por eles, apenas pena, acho…Alguns de nossos servos ascenaram a pleitear algum ataque ao bando de homens vindos do pó, mas dei com as mãos, em um gesto de paz, mas não foi perceptível àqueles que eram do bando que caminhavam cruzando minhas terras. Não pensavam em me saquear, ainda olhavam, como mortos, marchando no rumo de um horizonte indecifrável, que poderia andar em círculos e acabar dando em lugar nenhum, mas em seus olhos havia uma esperança e uma certeza cega que não se abalaria tão fácil.

Não havia sentimentos, nem razão e nem lógica no seu caminhar. Sinalizo aos guardas à abaixar as armas e servir água fresca ao povo.

Volto em direção oposta aos maltrapilhentos viajantes e da soleira de minha casa vejo o horizonte que eu, na minha mocidade e meu pai percorremos durante os penosos dias no meio do deserto e da poeira. Via além do tempo e das minhas terras.

 

 

II

 

Há muito tempo, antes de nossa comunidade…

Tudo começou de uma forma estranha…

Enquanto brincava com alguns meninos, via os velhos batendo nas mãos e apontando as construções. Reclamavam e diziam palavras de ordem enquanto eu e outros amigos brincávamos, não entendia nada, mas os velhos homens já confabulavam e tramavam em suas casas um pequeno e expressivo motim.

Nossa família não se metia nessas questões de política, pois a verdade da política na verdade, se coloca na briga de direitos, se não está bom pra mim, não está bom pra ninguém. Meu pai mantinha no seu prumo e no seu trabalho e não desrespeitava nenhum dos moradores, está certo de que não era sociável, mas não fazia questão de destratar ninguém. Mamãe pelo contrário, buscava sempre ajudar a todos que precisava.

Nossa vila era formada em totalidade por um povo sofrido, que antes cria na escravidão que agora se levantava, mesmo que tarde, depois de tanto sofre, em uma fúria libertadora, descontente com o fardo pesado da desigualdade. E não saberia dizer naquele momento, quando eu percebi a revolta dos anciões a falar e a gesticular contra as construções, mas sabia que algo difícil iria acontece a todos e que o começo de tudo aquilo iria afetar profundamente as vidas de todo o povo, mas com uma brutalidade maior a nossa família. Nessa noite, papai subiria do cargo de contramestre civil a mestre encarregado das obras do Faraó. Papai desde pequeno sempre se interessou por ciências herméticas e principalmente matemática. Aprendeu muito nas reuniões dos sábios e engenheiros, e de um simples e pequeno pedreiro até mestre encarregado, que esta noite iria se consagrar – já era um grende feito, por pedreiro era muito diferente dos outros homens a carregar rochas, pois fazia cálculos e trabalhava de forma específica no entalhamento e encaixe de pedras,  e até mesmo nesse cargo, contrário dos outros trabalhadores judeus, meu pai além de receber os benefícios da política egípcia, ainda recebia um bom ordenado.

De boa política, papai foi bem recomendado ao Faraó pelo antigo mestre encarregado, que nesta noite haveria de se aposentar. O antigo mestre gostava muito de papai e várias vezes trouxe sua família para jantar em nossa casa – coisa que causava invej e revolta as outras pessoas da vila, que na maioria era feita de trabalhadores braçais, fazendo sermos excluídos pela maioria das pessoas na vila. A política de papai com o mestre encarregado era tão boa, que até livrou os escravos patrícios dos tradicionais açoites. Papai estabeleceu metas de equipe e dava pequenos agrados as equipes que mais se aprimorassem em suas responsabilidades, feito que, deu ao mestre encarregado, uma comanda de mui excelente engenheiro, dada pelo Faraó por ter realizado com uma técnica formidável e rapidez inigualável as edificações de uma das pirâmides, mas o encarregado sempre dizia que quando chegasse a hora de seu descanso, ele lhe passaria tudo e faria dele braço direito das construções perante ao Faraó – pois segundo uma tradição egípcia, ele tem a obrigação de honrar a quem lhe deu honra.

A noite era de três pessoas. Do Faraó, do mestre encarregado e de meu pai. Minha família era a única presença judia dentro daquela sala. Papai foi condecorado pelo Faraó, sendo entrecurzado por olhares desconfiados de outros egípcios que tinha raiva de onde um judeu poderia chegar, mas, mesmo com tantas adversidades, papai conseguiu: Tinha alcançado um elevado posto, onde antes apenas egípcios poderiam chegar, papai tinha chegado com suas próprias mãos em um elevado cargo.

A noite foi estabelecida com o discurso do antigo mestre encarregado, elogiando o trabalho de meu pai, e garantido – embora já previamente combinado – a lealdade do meu pai e dos bons serviços que por ele foi prestado enquanto ocupava um cargo abaixo. O Faraó assim sinalizou com as mãos e deu as salvas de boas vindas ao meu pai. Todos aplaudiram de pé as palavras do Faraó de do antigo mestre de encarregado. Fomos tratados como nobres e a nossa pequena choupana foi melhorada e tivemos alguns privilégios e confortos, como ter acesso ao mercado, a escola dos nobres e as reuniões do conselho egípcio, na qual era debatido o destino da cidade e as penalidades aplicadas a infratores e a pequenos delitos, da ultima vez que fora, mamãe e papai comentaram que algumas “pragas inexplicáveis” estavam exigindo os trabalhos dos sacerdotes e maiores atenções do Faraó.

Fora que, o ordenado aumentara substancialmente e passamos a nos alimentar e a nos vestir como nobres.A realeza nos dava muitas coisas, dentre elas, carroças e camelos para o serviço da construção. Tínhamos uma certa imunidade, e não éramos acharcados e nem assoreados por nenhum guarda.

Vivíamos muito bem, e estava tendo acesso aos melhores sábios do Egito, e muita coisa aprendia, mas embora freqüentássemos um outro ambiente, ainda estávamos morando na vila dos Judeus, acho que assim foi um decreto do faraó para que sempre lembrássemos de onde viemos e que sempre seriamos hierarquicamente menores do que qualquer nobre egípcios. Mas depois daquele dia dos gritos dos anciãos contra as edificações algo mudou.

Depois de uma semana, um decreto vindo do Faraó, nos excluiria das reuniões do conselho egípcio, sem nenhuma explicação. Papai tinha ido conversar pessoalmente com ele, mas em desconversa, ele apenas disse que “estava apenas tirando uma atribuição que só poderia ter quem realmente tivesse sangue egípcio”, ultrajado, meu pai voltava pra casa engolindo a seco essa explicação mesquinha do Rei do Egito.

E com o passar dos dias, era comum ver pessoas e vizinhos da vila comentando sobre reuniões que iriam ter na qual se falava do destino e da situação do povo judeu naquela vila. As vozes de descontentamento aumentavam cada vez mais, parecia que algo estava brotando daquela vila, mas algo brotava com uma enorme violência. Um dia fomos hostilizados quando fomos ao mercados e na escola, os meninos não queriam mais se aproximar de mim, ao saber que eu tinha origem judia.

Alguns meses depois a hostilidade ia aumentando gradativamente. Era um dia normal de trabalho para o meu pai, embora houvesse notado que o número de trabalhadores tinha reduzido – e muito há alguns dias – temia por ser algum tipo de infeste, mas era pior que o esperado. Papai já passara ao seu contra mestre os cálculos e as técnicas de entalhe das pedras que formariam a égide de pedra do Faraó… Papai era líder dos construtores e chefiava muitas pessoas durante o dia. Não se misturava na ala dos escravos, pois era considerado o segundo, fora da linhagem dos egípcios a conhecer as ciências chamadas de herméticas. Mas um dia, no final do expediente, o Faraó mandou um servo lhe avisar que queria uma reunião urgente com ele, e, no meio dessas consultas, papai voltou pra casa meio aborrecido, mamãe colocou a sua refeição a mesa e conversamos…

– Querido, diga o que houve?

– Não sei não, eu acho que algumas coisas desagradáveis podem acontecer… – disse com os olhos voltados para a janela e o deserto, enquanto tomava um gole de cerveja preta.

– O Faraó me chamou a sua sala hoje… A cada dia que passava, ele me dava mais um pouco de confiança, mas estava muito, mas muito estranho, mas me confidenciou que tem se preocupado cada vez mais com um homem, um homem que já foi daqui…

– Que homem?

– Nem ele sabe ao certo, ele disse que era da antiga gestão… Falou que há um tempo, apareceu um velho, dizendo que saiu do deserto um barbudo descabelado como um leão, com uma roupa meio louca e com um pedaço de pau na mão dizendo que ia libertar o seu povo… Ele riu e disse que só haviam egípcios, e que ali não havia nenhuma turba de mendigos…Bom na verdade, esse cara já tinha aparecido há muito tempo, mas o cara era tão ridículo, com aquele lance do pau e coisa e tal, que ele ria, não dava bola, via ele no meio das linhas de frente dos escravos, pregando para as outras pessoas e achava graça… Mas parece que a notoriedade do cara ta subindo cada vez mais e um supervisor foi obrigado a meter espora em um na frente de todo mundo por causa de “atitudes rebeldes” e outras “atitudes rebeldes” estavam acontecendo por causa desse cara do pau, assim me disse Mas até agora, nem o Faraó e nem mesmo eu entendemos o que ele quis dizer com “o seu povo”… Logo agora, ele quer parar as construções para conter o que ele falou de “ameaça”…

– Mas parar? Nossa querido, logo agora quando iam te colocar no posto de conselheiro mor construtor?

– É… logo agora quando eu ia ganhar mais nessa merda… Logo agora que eu estava pronto a colocar a mão em algo maior, me surge esse problema…

– O que mais ele falou com você querido?

– Bom, primeiro eu não entendi nada. A nossa conversa foi escoltada! Há muito tempo que nós conversávamos apenas cara a cara, mas pela primeira vez foi escoltada… Pedi clemência, mas o perguntei o porquê das escoltas e ele gentilmente me falou que não confiava mais em pessoas “da minha linhagem” e que tomaria antigos métodos para tratar de pessoas “da minha linhagem”… E depois ele contou a história do maluco do pau e coisa e tal… Falou da paralisação das obras e de algumas coisas estranhas que estavam acontecendo, como sapos e epidemias estranhas que estavam assolando a realeza e de novas políticas…

– “Nossa linhagem”, nossa, algo terrível está acontecendo…

– É… esse maluco vai estragar a nossa vida aqui… Já estou vendo isso… – Cuspiu e jogou com força o copo de barro no chão…

– Mas foi só isso?

– Não. Eu tive que me humilhar, beijar os seus pés e jurar lealdade na frente dos outros guardas que riram da minha cara quando eu abaixei para lhe beijar os pés… Ele ainda não tinha ficado satisfeito com tudo isso ainda, e disse para eu não me afastar das construções, que eu ainda ficaria tomando conta dos canteiros de obra durante a paralisação, e que era para eu “agradecer” em ele ter me colocado como vigia das construções, porque com os outros “da minha linhagem” ele estava aplicando punições e que essa atitude que ele tomou foi devido aos meus serviços e minha lealdade até então…E fui obrigado, para não parar as construções, a ser mais enérgico com o pessoal na obra.

Resumindo então uma conversa que demoraria horas e horas de noite, papai, além de ter se transformado em uma espécie de carrasco para serem cumpridos os caprichos megalomaníacos do Faraó, o mesmo o transformara em um delator. Meu pai ficou responsável de delatar qualquer atividade suspeita de qualquer judeu que resolvesse sair do canteiro ou até mesmo conversar sobre ou com o agitador do pau, além de tratar os escravos a chibatas.

Papai ficou cabisbaixo o resto da noite e mamãe sempre que possível, afagava a sua cabeça. Não gostava de se meter em questões políticas e detestava castigar os trabalhadores, mas pensava, “antes eles do que a minha família”, era considerada alta traição não obedecer a ordens diretas do Faraó, paga apenas com a vida. Sabia que não era vida o que viviam e não entendia o porque do povo estar tão revoltado assim, já que o povo tinha acesso a muitas coisas através desse Faraó – Ser escravo é para vagabundos que não entendem a ciência meu filho, dizia ele, – Você deve estudar para estar em meu lugar quando eu não puder mais ficar de pé, assim sempre me ensinou e da mesma forma eu estudava ferrenhamente para realizar o sonho que não era mais dele e sim, meu também.

Meu pai resmungava com os olhos lacrimejando sobre o quanto teve que se humilhar na frente dos outros homens: “Nunca mais quero passar por isso de novo” sussurrava no colo de minha mãe, enquanto nós íamos dormir…

E com a atribuição de carrasco que o meu pai acabara de ter, papai virou o traidor do povo, fazendo as pessoas acreditar cada vez mais nas histórias do homem do pau e a fazerem mais greves e protestos. Por muitas vezes minha mãe ia com uma vasilha d’água e um  pano apagar das paredes de nossa casa palavras como “Traidor” e  “Matem o judeu do Faraó”, meu pai não se orgulhava em ter que açoitar um de nós para que pudessem trabalhar. O clima, que antes tinha ficado horrível com a nobreza, agora tinha ficado também horrível com o pessoal da vila.

Dos vizinhos, apenas duas casas falavam com a minha mãe, mas mesmo assim, viravam a cara para o meu pai, e era a casa de Jetro, um homem que detinha os melhores métodos de irrigação e colheita, e outro era da casa de Olite, uma velha viúva que minha mãe sempre ajudava. E eles, mesmo assim, ainda tinham certo polimento em falar certas coisas com a minha mãe, com medo de que o meu pai fosse um delator. Em partes, devíamos a mamãe o fato de estar vivos e convivendo ali na vila, pois a contragosto do meu pai, tudo que era dito e comentado pelo Faraó era repassado para o resto da vila, o que fortemente fez com que não fossemos mortos por eles, porém mais tarde, isso iria acabar com a nossa relação diplomática com o Faraó.

O faraó, em retaliação aos protestos, vez duras reformas nas condições de trabalho dos escravos. Eles agora tinham de recolher a palha de fazer tijolos, tinham direito a pouca comida e água durante a lida de trabalho dos monumentos, e passando pela autoridade direta do meu pai para com os escravos, fez um pronunciamento perante aos escravos que: “Por causa de seu libertador não entrar em um acordo amigável comigo, aos rebeldes e insatisfeitos, a lida de trabalho seria mais intensa” e de novo, a contragosto do meu pai que não utilizava de força para tratar os escravos e discordava de todos os outros novos métodos que o Faraó diretamente ordenara aos capatazes, a ordem  que foi dada diretamente do Faraó ao capataz, vendeu e destitui toda a autoridade que meu pai tinha no campo da obra.Mas aos olhos dos outros da tribo, meu pai era chefe e responsável por isso tudo.

Até que  alguns dias depois da imposição dos castigos, quando meu pai trabalhava, veio a noticia…

– Chefe, acho que fiz uma besteira…

Meu pai fechou os olhos e pediu que ele não acendesse aquele pavio…

– Bom chefe, tinha um ancião magro e manco, e ele estava demorando muito a carregar uma pedra, nem era tão pesada, mas ele estava sendo chato e pedia água toda hora, enchendo o meu saco e bati mais forte e mais vezes…

– E então…

– Bom, então ele caiu e não se mexeu mais, eu tentei dar água pra ele, tentei fazer ele ficar de pé, e ele está deitado nó chão. Chutei ele várias vezes para que ele levantasse, mas ele não levantou…

– Ah… ele não levantou?

Até hoje não soube o que houve com aquele capataz do papai.

Mas o acontecimento em si, serviu como estopim para uma verdadeira guerra em todo o Egito. Desde o sepultamento do ancião houve protestos. Na hora do sepultamento deram a palavra ao velho do pau e assim como disse meu pai, agora havia um velho em cada olhar de cada habitante da vila. Muitos da congregação choravam e se entristeceram da forma brutal na qual o ancião foi morto, o seu filho, antes de enterrá-lo, dizem que  abriu o esquive do pai e com uma navalha cortou os cabelos do pai e o pôs nas mãos, e descontroladamente se desatou a chorar. Apontou na direção do meu Pai, que por sorte estava distante, pois o filho foi escorado por três homens para não partir para cima do meu pai. Muitos gritavam de raiva.

Tudo aconteceu de uma forma estranha, tão estranha que papai, mesmo sendo mestre encarregado, foi ao enterro. Tudo muito estranho creio que a própria presença do papai estava causando uma divisão de opiniões. Depois, não havia um dia de paz sequer na vila. Guardas do Faraó tiravam moradores a força das casas e os executavam por envolvimento em saques ou atos de vandalismo. A guarda oprimia cada vez mais cada morador e ficava cada vez mais difícil até mesmo conseguir dormir naquela vila. A diplomacia de mamãe com o resto da vila valeu a nossa vila, mas as nossas as vidas ali, sentida por todos nós, estava por um fio de navalha. O clima da vila era tão hostil que eu realmente sentia que não nos matavam, ainda, era por termos alguma relação com a realeza.

Mas o povo era um povo forte. Quanto mais os castigavam, com uma força maior eles reagiam. Postos de provisões eram queimados, templos eram saqueados e nomes com palavras de ordem eram escritas nas cercanias do palácio. Faziam bonecos e pendurava-os em postes com escritas dizendo: “Saia do palácio Faraó e venha sentir a força de nosso Deus” e com tantas outras manifestações, a autoridade sobre a classe mais baixa também estava ali questionada. O faraó, diferente dos outros regentes tinha uma crença – que na verdade era uma descrença – de que não haviam deuses, por isso ele e papai se davam tão bem, mas diferente de ultimamente, com todo o tumulto que o resto da congregação fazia com protestos e badernas contra o Faraó e a política de escravidão.

Com o passar dos dias, o número de operários diminuía mais e mais, até chegar ao ponto de não se poder carregar pedra nenhuma, preocupado, Papai foi falar com o Faraó à noite, depois do trabalho.

Acontecia uma reunião de cúpula no palácio do Faraó. O jovem construtor Judeu cruzava com homens gritando no meio da rua e com outros homens, outrora pedreiros. Estavam xingando e fazendo sinais de morte, ao lembrar que também os chefiava conforme o Faraó. A guarda na porta o barra. A reunião se realizava no salão principal do palácio.

– Perdão, perdão senhor, eu gostaria de falar com o Faraó…

– Quem deseja, ah! Sim… Majestade, o judeu construtor de bunda branca deseja falar com o senhor!  – A sala do trono estava cheia e todos riram quando o guarda se referiu ao construtor dessa forma.

– Deixe que entre. Tenho que lhe mostrar algo… O que ia mostrar a vocês serve de aviso aos outros judeus também.Nunca senhores, nunca em minha gestão eu tive tantos problemas com essa gente como eu estou tendo agora. Além de grandes epidemias e tragédias naturais, esse povo, que ira fazer falta às minhas obras e outros afazeres dentro do reino, mas ainda sim, esse povo está me trazendo muito mal agouro, e olha, que não sou um homem supersticioso!

(Todos Riram)

O salão estava cheio das maiores autoridades do Egito, sentados em uma mesa poligonal, no meio do salão estavam os lideres da guarda, os sacerdotes, os chefes de provisões e outras autoridades, mas o Faraó estava de pé, com um rolo de papiro nas mãos. Quando o construtor entrou pela sala houve estranhamento e silêncio… Os outros o olharam como se fosse um verme a adentrar pela sala, menos o faraó, que o viu com um ar de deboche.

Levantando-se e afastando-se da mesa, começou a pronunciar-se com ar de deboche e a gesticular indo em direção ao judeu.

– Há um bom tempo atrás, no começo era muito divertido aquele homem de pé, com uma barba enorme e cabelos maltratados, meio louco a dizer que o povo judeu era feito de escravo, dizendo que um tal de “Senhor” iria me castiga e tudo mais…E de tão engraçado e ridículo, eu o vira a primeira vez e pela audácia do homem, eu o deixei vivo lhe dei as costa na minha carruagem gargalhando mas uma frase ficou…

(Foi andando lentamente a uma prateleira dourada coberta por uma cortina carmesim)

– “Liberte meu povo”

(Silêncio por segundos na sala, os olhos do faraó se encharcam de fúria)

– Liberte o meu povo, foi o que ele disse… Todo o verme, rato e até mesmo piolho que fica na cabeça de cada judeu me pertence. Onde estão com a cabeça? Para onde vão? Será que se lançarão a um deserto na qual matou vários caxeiros e viajantes de nossas terras? Como um homem que surge do nada, amotina toda uma tribo a ponto de se esquecerem que o que nos cerca é apenas areia e um deserto infrutífero?! Não há sequer um Oasis até as terras mediterrâneas. Não há como se edificar nada nessas areias sem um grande aparato para isso.

(Todos na sala riram das explanações do Faraó)

– E depois, em minha gestão, eu me perguntei seriamente, porque eu não matei aquele maluco? Era tão insignificante quanto um pigarro ou uma tose, se eu tivesse apenas que ordenado, com um aceno de mão a sua cabeça já estaria rolando em alguma[MP1]  fossa e o seu corpo estaria sendo comigo por alguma ave de rapina do deserto, mas eu o subestimei, tanto que o subestimei que vários outros problemas me atormentaram depois, eu perdi tempo, assim como uma criança perde tempo vendo um adulto lhe fazendo rir. Ele me fazia rir, ele me faz rir, mas toda essa brincadeira e piada já estão se esgotando. A graça daquele mendigo começou a acabar quando começou a voltar o meu povo contra mim, e a me taxarem como um grande vilão. Sabem pra que um Faraó é treinado todos esses anos pequeno judeu? Onde estão com a cabeça?

– Não ao certo majestade

– Bom, somo treinados com uma forte disciplina para sermos justos, pois a base de uma sociedade reina na justiça. Antes de todo caso ou toda petição ser julgada, ela deve ter discernimento para tal, e o dever de um representante dos Deuses é ser justo, portanto uma coisa eu lhe digo…

Acena a todos e golpeia com uma das mãos fortemente a mesa.

– Nunca, nunca em minha gestão como líder e autoridade máxima do Egito, nunca eu empreguei relação servil a nenhuma pessoa de meu reino. Nunca. Os egípcios sempre trabalharam pela educação, comida e vida que eu os dava, mas em troca, exigia a força de seus braços para que meu nome ficasse eternamente na história, como o nome de muitos que vieram antes, mas esse velho me lembrou que não eram egípcios, mas por quê? É óbvio: Ele quer o comando, ele quer o motim. Ele sabe que os judeus, que antes os tratava de meus compatriotas, se multiplicam nas vilas e se engrandecem ciência e conhecimento, e isso o deixa como agitador e conspirador. Ele sabe que eles são a base da estrutura de nosso reino, então, devo considerar esse homem como apenas um mendigo? Das ultimas vezes que eu o ouvi, nas ultimas vezes na qual o humor passava pro sério, ele me disse: “Liberte o meu povo”, então apenas eu lhe disse que não haviam prisioneiros e nem escravos no meu pais, mas mesmo assim, pessoas ainda acreditavam no que dizia, pois era uma maioria oprimida que vivia da construção, de pequenos furtos ou até de mendicância no centro da cidade… A grande parte dos judeus veio dessa linhagem miserável que os condiciona a qualidade de serem facilmente manipulados por qualquer baderneiro oportunista, mas ele nunca cansou de dizer aquela frase – Liberte o meu povo – Que povo? Quem é o seu povo? Essa gente que sempre foi nômade, mas que nas minhas terras e nas terras de meus antepassados acharam justiça e igualdade? O que acontece se eu deixar esse povo ir? Eu não posso! Isso é um contrato e eles me devem! Eu lhes dei casa e oportunidades! Eles eram nômades antes disso! E por escolha deles, uma burra escolha isso eu sei, eles escolheram ficar aqui e trabalharem para mim, mas pergunte a eles se algum deles passou fome? Pergunte a algum deles se um de seus filhos deixou de ter acesso a conhecimento? Pergunte se algum deles foi assolado por alguma praga ou peste? Temos o maior conhecimento, temos sacerdotes a curar essa gente quase que sempre quando precisam, aqui há tudo que não tinham quando viviam a acampar barracas por ai a viver sem ter conhecimento e nem sabedoria sobre nada! Um dia sim, sairão todos daqui, mas apenas quando me pagarem centavo por centavo tudo aquilo que eu lhes fiz! Mas talvez eu os deixe ir… Estão me dando mais preocupações do que bons serviços prestados. Decidirei quando terminar de conversar contigo, jovem construtor… Onde o seu povo está com a cabeça, me diga jovem construtor?

O Faraó que estava de pé de frente a mesa foi se dirigindo a prateleira dourada coberta com uma cortina de linho vermelho que lentamente foi levantando enquanto, com a outra mão, desembainhava um gládio da cintura de um guarda, que fazia par com um outro guarda do outro lado da cortina…

Lentamente, o horror foi revelado ao se fender as cortinas. Várias cabeças recém decapitadas de homens e mulheres adultos. O sangue ainda escorria por entre a grande altura da prateleira de bronze. Todos do salão, menos a guarda pessoal, olhou pasmado com a visão da cortina. Lentamente, empunhando o gládio na altura do pescoço do judeu, o Faraó se aproxima, agravando a aumentando lentamente a sua voz. Papai não conseguiu desviar seus olhos e seus pensamentos por muito tempo aquela visão.

– Será que é aqui que eles estão com a cabeça? Me diga judeuzinho – Gritava.

– O povo me desafia, ó hermético judeu… Mas porém, tu, somente tu foste aprovado… Essas são as cabeças dos primeiros baderneiros que ousaram me enfrentar colocando os pés na soleira de minha porta, gritando palavras de morte, dor e suposta ordem… Minha guarda pessoal sondou você e sua família e me asseguraram que você não estava metido nessa palhórdia e por isso, a sua cabeça, a da sua mulher e a de seu filho não estão aqui, a escorrer este estrume nesse altar que mandei fazer em nome daqueles que ousam me matar… Fora, senhores conselheiros e chefes de estado do grande  Egito, que existem boatos de que “pragas” irão abater essa terra… Rá! Por Rá! Se não sou eu o homem escolhido pelos deuses para reger e impedir que isso aconteça…

(Todos os lideres da sala riram)

– E mal sabe o povo egípcio de que os Deuses não existem…

“O povo me afronta e tenta me destronar a cada dia em que se descobre uma crepusculosa verdade nesse tal homem… Não me importo com nada disso, apenas fico bastante nervoso com isso tudo, com a ingratidão, a soberba e a audácia dessa turba de bugres… Você sabe como você veio parar aqui bastardo? Hein?! Me diga!!”

Aos berros, e gesticulando a cada gesto e frase, o Faraó tenta confrontar o jovem judeu, que, acuava no canto sem ter o que saber a dizer acenava um não com a cabeça…

– O pai dos meus outros pais certa vez se indagava de um sonho… Sonho que vivia lhe incomodando e tirando a paz de sua noite…Tinha muito medo, pois realmente, ali naquela gestão, ele era considerado um deus, uma real encarnação da autoridade e sapiência celeste que um Faraó deve ter… A agricultura de nossa terra nunca foi tão rica! Política, sociedade, cultura e principalmente a ciência prosperavam… O aflorar da hermética! Da medicina! E de outras ciências sagradas dadas a nós pelos deuses! Gregos, persas, mesopotâmios e Celtas migravam para a nossa terra sagrada afim de aprender com nossos sacerdotes e aqui se encontrava uma real interpretação dos deuses aqui, pois o Faraó era o Faraó assim como Anúbis sempre será Anúbis… Mas um belo dia, meu antepassado se declinou em desgraça ao dar ouvidos a uma tentação que lhe assolava dia e noite… Até que um dia, procurou todos os sábios herméticos a uma reunião a portas fechadas e nessa reunião, ele teria que ter a resposta …Teria que saber o porque sonhava todo o dia, durantes alguns anos, o mesmo sonho…

O Faraó, lentamente passa o gládio perto do rosto do judeu acuado. O gládio simbilzava perto da sua face, enquanto o faraó bufava

O clima de tensão das pessoas de dentro do salão se intensificava ao ouvir um estouro e um barulho de rebelião no lado de fora…Barulhos metálicos, Gritos e cheiro de fumaça… Mas mesmo assim, friamente o Faraó andava pelo salão encarando a todos de uma forma demoníaca… Encosta o seu rosto perto do rosto do judeu, a ponto de joga-lo no chão, mas por um reflexo apurado, o Faraó o segurou pelo antebraço, e baixinho, quase a tocar seus lábios perto do chão, o pergunta sarcasticamente:

– Sabe o erro que cometeu o pai dos meus pais naquela época, pobre judeu?! Hum?!

– Não sei majestade…

(O joga-o no chão com força)

– Dar ouvidos a sua laia! Deixar que essa gente pobre, fedida a miséria entrasse pelo reino e ainda dá-los proteção! Se eu lhe dei a responsabilidade de reprimir e delatar qualquer atividade inescrupulosa desse povo, então porque essa doença se alastra dessa forma perante minha autoridade a ponto de querer me destronar, ó judeuzinho de merda?!

(Cerrava os punhos frente a face do Judeu, enquanto a outra mão segurava o gládio que furava o seu pescoço pouco abaixo do pomo)

– Acalme-se majestade, não precisa se contaminar com essa sujeira, nós nos encarregamos de levá-lo para fora do palácio e matá-lo à estrebaria… – Disse um guarda pondo as mãos no ombro do Faraó…

( O Faraó, fecha brevemente os olhos e desse o gládio)

– Não… Apesar de tudo, ele já foi e muito provado e espiado. Cortei a cabeça de todos os judeus de minha confiança e que me trairam – Pausa e um longo suspiro – Este é o único que não me traiu e é um dos meus melhores construtores… Ele merece a minha lealdade

(Os olhos do judeus prontamente cerraram-se em prantos)

– Obrigado! Obrigado majestade! – Se humilhava perante as outras pessoas beijando-lhe os pés, mas o Faraó o repulsou bruscamente.

– Ainda não terminei…O que quero contigo judeuzinho, é dizer ou saber quando é que irás me trair com toda a força de sua impertinência? Quando? Eu dei tudo o que esse povo não merecia, honrei antigos acordos de meus ancestrais em dar comida, moradia e direito a educação para este povo, e , no entanto, dizem me insultando que os fiz escravos em uma terra que nunca seriam deles… Depois de tudo que dei, ainda queriam minha soberania sobre minhas terras para eles?! Ah! Como eu tenho vontade de esmagar a cabeça de todos, pequeno judeu… Como eu tenho vontade de verter todo o Egito com estantes como esta deste salão para dizimar essa gente e ensinar que o meu perdão tem limites… Mas como novo regente e faraó do Egito, tenho que honrar antigos decretos de meus antepassados, e um dizia que não mataríamos os judeus que trabalham em nossos limites, mais ainda sim, mato aqueles que me traíram, que é o único delito imperdoável para um faraó, alta-traição é sempre paga com morte.

– Majestade, se fui provado e testado, o senhor sabe que nunca irei lhe trair excelência!

Calmo, o Faraó lança o seu elmo por cima do trono com uma expressão de estafa – Seu antecessor me jurou que era de muita confiança, e ele foi o único fora da nobreza que foi enterrado com honrarias… Ele não era um homem qualquer, era como se fosse meu irmão e o único homem a me fazer chorar. Quando eu vi a estatura da pirâmide que fez em minha honra, eu percebi que não era um homem qualquer e toda a vez que eu a olho, lembro de meu amado servo,  e lembro que ele me fez prometer que confiarias em ti, e por esse promessa, o judeuzinho de merda, tu estás vivo aqui, apesar também de admitir que realmente me serves com lealdade desde que meu amado servo partiu…Senta em seu trono cabisbaixo, mas em um ímpeto de fúria se levanta…

– E ainda dizem que ele foi príncipe do Egito há alguns anos atrás! Como?! Como um judeu velho e louco poderia ser do nobre panteão?! Quem deixaria um verme como aquele entrar pelos palácios e pelas frestas das portas e entrar aqui me afrontando e cutucando essa meia dúzia de bugres?!…Eu não devia me surpreender com essas coisas, pois meu mestre encarregado de obras é um deles…

Todos riram dentro da sala de audiências do Faraó. Papai parado estava, sentiu seus olhos encherem de água com a humilhação que tinha que passar. Papai fitava naquele momento a prateleira cheia de cabeças de Judeu. Cabeças de pessoas como ele e o que impediria de, mesmo que equivocadamente, estar lá?

– Mas os questionamentos de minha ordem não devem existir. Todos os judeus sairão daqui e tudo será como antes. Novos escravos virão e tudo será conforme a vontade dos Deuses

Com um aceno de mão, o Faraó ordenou aos guardas que carregassem meu pai para a porta.

– Lhe dou uma outra atribuição judeuzinho. Quero que corra toda a vila e diga, que se houver mais algum tipo de motim ou judeu na vila, eu irei exterminar os judeus do Egito, todos eles inclusive você e sua família!

Papai foi jogado para fora dos portões como se fosse um lixo ou um animal doente, os que viram e que estava de passagem, se afastaram e alguns de nosso povo gargalharam e disseram algo como “bem feito” ou “isso é por lamber o rabo do faraó”.O Faraó com certeza havia sido informado de que papai estivera no sepultamento do ancião, pela forma hostil que o tratara, papai concluiu que haviam “delatores piores que ele” dentro da própria vila, tentando ver alguma benesse vinda do Faraó por uma informação preciosa das atividades dos judeus. Mas ainda sim não sabia se ainda era ou não um homem a serviço do Faraó. Quando pensava que era um homem a seu serviço, o que via era a imagem das cabeças na prateleira.

De tudo aquilo que o Faraó falara papai sabia. Sabia que era uma escravidão disfarçada e havia uma ordem manipulada naquilo tudo para entreter ou enganar o povo, disso papai já sabia, mas ele não se interessava nem um pouco com os outros ou até mesmo com o que o Faraó se pronunciava, a sua vida realmente era a gente e pouco se importava com o mundo lá fora, mas teve realmente medo do Faraó, mas sabia que estava de mão e pés atados, pois não poderia desobedecer ao Faraó, teria que encarar a caldeira, que até então era um lugar mais seguro do que o fogo.

Já era madrugada quando meu pai voltava, via a vila em uma agitação descontrolada. Via pessoas juntando arados, facões, arcos, fazendo flechas e juntando pedras grandes.Tudo que pudesse ser transformado em arma estava sendo preparado para o motim. A vila se preparava para uma guerra, todos os judeus estavam envolvidos naquela agitação da guerra, meu pai tinha ficado mais assustado e por um momento pensou em voltar a avisar ao Faraó, mas por um instante de razão, se voltou e foi para casa.

– Meu amor, que bom que você voltou! Você não sabe o que vai acontecer aqui. Todos na vila estão armando um motim para escapar do Egito. Eles falaram que quem ficar aqui, irá ser morto pelo Faraó, pelo menos foi isso que Jetro disse que os centuriões estavam gritando. Avisaram que nestes instantes foi visto um comboio de caxeiros e negociantes descendo para o sul para negociar a compra de escravos para cobrir a cota de trabalho das pessoas da vila.

Com certeza aquela ordem foi dada para tentar acalmar os judeus que se rebelaram, mas nem eu e nem meu pai duvidava de que o Faraó tivesse se enfurecido tanto ao ponto de expulsar de uma vez todos da vila. O que havia na vila era uma confusão de mandos e desmandos, somada ao medo e a vontade dos judeus de destruir tudo que havia, pela opressão e pela falta de ordem que havia se instaurado pós a morte do ancião.Mas se realmente fosse dada, foi dada de ultima hora, ou até mesmo uma arapuca para exterminar a todos.

Já era tarde para informar alguma coisa ao Faraó, e como tinha delatores disfarçados, só iria conjurar que meu pai passava a mesma mensagem aos rebeldes…

– Não serão as nossas cabeças a estar em uma prateleira dourada. Vamos pegar as nossas coisas e irmos embora daqui, como eu não sei, mas iremos.

Começamos a catar as coisas. Boa parte, mamãe já tinha juntado, só restando a papai pegar as peças de ouro e prata e seus instrumento de engenharia. Algumas coisas importantes e alguns potes, contendo água, farinha e outros cereais para uma viagem que seria incerta. Meu pai não poderia levar nenhum de seus camelos e nenhuma de suas carroças, pois os egípcios iriam perceber que iríamos junto com os amotinados por causa do brasão da divisão de engenharia do Faraó que adornava as carroças e as selas e a pele dos camelos.

– Como iremos? Não podemos levar nenhuma carroça para fora do Egito, pois o faraó perceberia.

– Fique calmo meu amor, instantes antes da confusão, fui a casa de Olite e lhe pedi que forrasse uma de nossas carroças para que parecesse uma das outras, os camelos eu os consegui trocando por alguns dos nossos potes de farinha, que estocamos no porão, troquei-os com Jetro, e ele deve vir com camelos limpos do brasão no momento em que formos. Um dos filhos dele irá guiar a nossa carroça, enquanto ficamos escondidos dentro dela até chegarmos ao destino.

Minha mãe era a nossa verdadeira Deusa. Meu pai lhe deu um beijo amoroso e demorado, interrompido pelo bater da porta. Era Jetro.

– Senhora, já está tudo pronto. Olite já ornamentou a carruagem e já selei os cemelos nela para a viagem, se apressem, pois há boatos de que a guarda real virá, junto com o Faraó queimar a vila.

Em prontidão, papai colocou todos os nossos pertences dentro da carruagem. Colocamos tudo com pressa e ajeitamos na carroça, mas alguns baderneiros viram a nossa partida

– Ei Jetro, porque você não deixa esse maldito carrasco e a sua família queimar junto com a vila? Você não sabe que ele foi responsável por toda essa confusão ao permitir que o velho ancião fosse morto a golpes de açoites?

– Não foi ele, foi o seu capataz egípcio, outros que estavam próximos viram isso.

Tentava Jetro nos defender, enquanto um aglomerado maior de pessoas vinha próximo a carroça.

– Ei, porque a gente não os tira dessa carroça e pega tudo que eles têm… Eles viviam no meio daquela gente que sempre nos maltratou, eles não merecem ir embora junto com eles…

– Isso será decidido quando estivermos bem longe daqui. Por enquanto, eles ainda fazem parte do povo e não pode ser julgado pelos erros que cometeram aqui, o que eles fizeram será apagado quando estivermos bem longe daqui.

Minha mãe, quando começou a confusão,me jogou dentro da carroça, mas por entre as frestas da madeira pude ver a enorme mão daquele que interferiu por nós no começo daquele embate. Era Arão, ainda novo, se mostrando que iria ser um bom pau mandado do homem do pau. Mas o povo ainda não tinha nenhuma relação de submissão a Arão, e ainda se aproximava da carroça, tomado de arados e ferramentas

– Eu não podia fazer nada – dizia papai aos habitantes da vila – se eu não obedecesse conforme as ordens do Faraó eu seria morto!

– Então porque se tornou chefe e aceitou os desmandos do Faraó – gritou um outro habitante da vila.

– Não ouviram o que Arão disse? Com que autoridade esse deus que me trouxe aqui julgaria vocês por toda a perversidade de coisas que fizeram aqui? Por isso deus os resgata, desde aqui, para que aprendam como é a sua justiça e lei.

Era uma voz grave que vinha da frente, do primeiro a liderar o comboio. Era a voz do homem, que com espírito único de liderança organizara o motim de todos os judeus, e essa voz realmente impôs respeito aos judeus que queria nos linchar. Esse tinha sido o primeiro encontro nosso com o velho do pau e com Arão.

Jetro interveio de novo – Vamos, peguem as suas coisas, vamos embora, não vamos abusar da boa vontade do Faraó, já que ele deixou que nós fossemos em paz, nós iremos embora.

Mas a minha família não queria ir embora, então porque deveríamos ir? Com certeza não haveria mais nada para nós, já que toda a força de trabalho escravo estava em debandada do reino, deveria ter sido a cena das cabeças que tinha deixado o meu pai com medo e sem ter alternativa, estava agora rumando a loucura de um desconhecido, mesmo assim, partimos…

Minha mãe tentava segurar as lagrimas ao ver nossa história passando pelas frestas na madeira da carroça, estávamos tampados e pelas frestas laterais, entre um pequeno rasgo do pano, nós víamos tudo passar, desde o inicio da vila até o começo do palácio. Um frio de repente passou nas nossas espinhas, bem ao nosso lado, a guarda real em formação e cada soldado com uma tocha na mão. E lá, bem lá na frente, um palanque móvel e lá com certeza estava o Faraó, acompanhando a saída do povo judeu do Egito. Temíamos por aquela saída e não víamos a hora de sair de frente daquela imagem estranha e mórbida.

A nossa carroça era a penúltima do comboio, no sentido em que éramos apenas resguardados pela carroça de Jetro.

A estrada de chão tinha alguns sobressaltos e esse acaso maldito quase fez o povo perecer…  A carroça, ao bater em um sobressalto, fez com que uma parte dos panos que cobriam o brasão da lateral da carroça destapar quase toda a parte de cima, fazendo aparecer o que queríamos disfarçar e ainda derrubou algumas coisas da carroça que mais tarde, saberíamos, apenas detectando um baruho metálico ao bater na pedra.

Mas, a esperteza de Jetro falou mais alto. Ele atravessou com a sua carroça rapídamente, fazendo com que o Faraó ficasse sem visão para perceber esse descaço, enquanto eu e mamãe recolocamos o pano no lugar. Em poucos instantes, o Faraó já mudava a sua visão e já se tornava distante de sua presença, a ponto de vermos os portões da entrada do Egito na nossa frente.

Parecia ser um milagre a nossa família ter saído ilesa, já tínhamos passado do portão há muitos metros, e não tinha a necessidade do pano. Nos descobrimos daquele desconfortável pano pondo-o de lado e nos abraçamos. Mas algo fez com que a caravana parasse, era o som de um grito, um grito de um animal insano.

O Faraó desviou os seus olhos no momento em que a ultima carruagem passava por causa de um briho muito estranho que vinha do chão, pouco atrás do caminho da caravana. Tentou decifrar apenas com os olhos, apertando-os para tentar entender o que via, mas sem conseguir, apenas deu uma ordem ao seu servo que atravessasse o caminho e pegasse aquele objeto.

Ao ver o objeto, o Faraó ordenou alguns guardas a dar uma busca, e ainda não acreditando e atônito, atravessou o caminho com o objeto nas mãos, hora olhando a caravana de judeus se perder no horizonte, hora olhando a volta dos guardas, que saíram correndo para a vila dos judeus.

Os guardas voltaram e acenarão um não com a cabeça.

– Maldito Judeu!

Gritou o Faraó, com um esquadro feito de latão nas mãos. E foi esse grito que fez parar a caravana.

– Filho, se apresse e fique entre as primeiras carroças, não me pergunte nada, apenas aproveite que as outras pararam e ande mais depressa, e vocês que estão dentro da carroça, não olhem para trás e tentem se cobrir, pois os seteiros do Faraó tentarão parar a caravana – Disse Jetro ao filho que conduzia a nossa carroça e a nós.

– Matem todos eles. Guardas, infantaria e cavalaria! Conduzam-se para fora dos portões e não deixem nenhum judeu vivo! Preparem a minha carruagem, eu quero matá-los! Matem todos os judeus!

Os berros dos guardas eram ouvidos além dos portões e o alvoroço das carruagens também. A nossa caravana começava a andar mais depressa. Nós pulávamos dentro da carroça com violência. Jetro gritava nomes e perguntava aos lideres o que ia acontecer “as setas estão nos alcançando”, dizia, enquanto uma chuva de pedras atingiu a nossa carruagem. Tentei olhar para ver onde estavam as carruagens egípcias, mas o berro estridente de mamãe me fez voltar.

– Jetro, meu marido foi atingido

– Acalme-se senhora! Tente ficar abaixada! Não levante o pano e tente cobrir o corpo de todos até a cabeça para as pedras não machucarem vocês.Vamos cubram-se! Só tirem o pano quando eu ordenar!

Mamãe nos cobriu. Meu pai sangrava a testa e mamãe com cuidado, nos abraçou e nos cobriu dos pés a cabeça. Sentíamos mais pedras se chocando com força no pano grosso que cobria a carruagem, algumas machucavam, mas seriam mais letais se não fosse o pano. E de lá pra cá foi um desespero. Escutamos gritos, barulho de cavalarias, e um enorme estrondo de água, depois uma calmaria enorme, calmaria que nos vez dormir por alguns minutos, mas depois, um novo estrondo. Um barulho de água, sons de turbilhões. Mamãe tremia de medo e tentava desacordar meu pai, eu não entendia nada, e estava muito, mas muito assustado…Gritos cercavam por todos os lados, gritos vindo da caravana e de trás… Não havia o que fazer… Parecia que os egípcios tinham esmagado a caravana e nos tinha pego de volta a servir de diversão ao Faraó

– Feche os olhos meu filho, fique quieto, os egípcios não sabem ainda que estamos aqui, fique quieto e tudo vai dar certo…

Fechei meus olhos, tentei entreter a minha cabeça, mas o barulho que vinha de fora me fez temer, mas aos poucos, o cansaço e o medo me golpearam de uma forma que eu me sentia protegido naquele casulo com meu pai e minha mãe. “Se me matarem, morreremos juntos” pensei. Então o medo lentamente foi embora, e tudo foi ficando bem mais calmo, calmo, mais calmo, ao ponto de me ninar…

O calor estava insuportável e acordei com mamãe me mandando fazer silêncio. Papai também estava acordado e tentou perguntar o que estava acontecendo, mas mamãe tampou-lhe a boca e sussurrou: “Meu amor, acho que estamos de volta ao Egito”, dizia calmamente.

– O que temos aqui… – Uma vara aguda cutucava o pano grosseiro – Será que é a família daquele que nos tratava a esporas?

Em seguida de supetão, uma faca bem afiada cortava o linho grosso da carruagem nos revelando por debaixo dela

– Sim, que bom dia será esse…Encontrei o senhor esfola judeus por aqui…

Não era um dos egípcios, mas com certeza não era um homem bem intencionado

– Jetro! Onde está Jetro?! Jetro! – Gritava papai.

– Jetro? Aquele homem idiota – Riu o homem hostil retirando bruscamente papai da carroça.

– Jetro foi atingido enquanto corria e emparelhava a sua carroça. Uma pedrada o deixou inconsciente e caiu. A sorte de Jetro é que alguém viu quando caiu e voltou para buscá-lo, e esse alguém fui eu…

Papai olhou em outra direção e viu o corpo de Jetro deitado no chão, enquanto o seu filho limpava a sua testa…

– Fiquem calmos senhores – dizia o filho de Jetro – Papai já acordou e tomou um pouco de sopa, ele só esta cansado e ele precisa descansar, não se preocupem.

– Não filho – disse o homem hostil – se eu fosse eles, com certeza era a hora de se preocupar – dizia enquanto puxava uma faca na altura do pescoço de papai.

– O que isso?! Abaixe essa faca rapaz. Já estamos longe do Egito e começaremos uma vida nova, pra que essa agressividade?

O homem era alto, de cabelos loiros e forte, vestia uma roupa de couro de camelo, traje bem típico dos escravos e carregava um cordão com uma mecha grisalha amarrada na ponta em forma de trança. Se aproximava do rosto do meu pai com a faca, e brincava com ela bem embaixo de pálpebra dele, enquanto minha mãe, não podia fazer nada, qualquer gesto poderia cegar o meu pai…Ele começou a falar de uma forma ameaçadora,porém calma.

– Bom, sabe o que siginifica esse cordão, hein…Rato?!

– Não senhor…

Mas como um deja vu, papai se lembrara da cena no enterro do escravo ancião.

– Essa era a mecha de cabelos do meu pai… Meu pai trabalhou duro durante anos subindo pedra… Papai não tinha descanso, nossa família era grande, não tínhamos o direito a estudos e pouco que sobrava era a conta de nos alimentar, para apenas sobreviver…O senhor sabe o que aconteceu com o meu pai?

A faca estava muito próxima do olho do meu pai.

– Fala!

– Pra que tanta agressividade meu jovem? O que eu e minha família fizemos com o senhor? – Meu pai havia esquecido de um fato ocorrido há um tempo atrás.

– O que a sua família fez? Bom, porque não pensaste em agressividade, quando tratou meu pai como um animal ao puxar aquela pedra? Lembra agora? De mim não lembra, mas eu lhe vi no sepultamento do meu pai, eu e algumas pessoas queriam acabar com você, mas eu disse a essas pessoas que você e sua família… Isso é meu. Você e sua família me pertencem agora, pois eu sou detentor de suas vidas!

– Olha, ouve um terrível engano! Eu não matei o seu pai! Eu tinha capatazes egípcios que odiavam e ainda odeiam os judeus! O Faraó ordenou isso para que acabassem com as rebeliões foi um capataz, eu juro, eu não tenho culpa nisso tudo…

– É isso mesmo… – disse O filho de Jetro interrompendo enquanto cuidava de seu pai – Ele não fez nada, tanto que pagou o enterro do seu pai e deu mantimentos a sua família.

– Remorso. Esse tipo de sentimento vem até de um porco quando se quer…

Uma pequena multidão se aglomerava em volta da carroça, fazendo atrair a atenção de Arão, e mais a frente, o líder da caravana.

– Você sempre andou muito misturado com essa gente suja e todos sabiam que você seria o primeiro a nos trair caso perdesse todo o seu conforto! Me diga agora, que lei ira lhe amparar agora? Qual é a lei que ira defender você e a sua família esnobe?

– A lei de Deus!

Uma mão enorme lhe puxa de para fora da carroça e quando nós vimos, um grande amontoado de pessoas que estavam do lado de fora, enquanto Arão o colocou no chão, e com os pés na garganta do homem hostil, via apenas o homem do pau falar de um alto de um barranco

– Nenhum homem terá o direito de matar ninguém. Apenas Deus tem o direito de nossas vidas

– Velho idiota – dizia enquanto o pé de Arão lhe apertava a garganta – Não há gládios aqui e ninguém da realeza egípcia, e todos os homens dessa vila sabem que ele foi responsável pela morte de meu pai. Ele tinha intimidade com o Faraó… O que garante que ele não pode voltar para o Egito e dizer onde nós estamos e como nos matar?

O homem hostil encontrou razão em algumas vozes que o apoiaram em seu discurso

– Não há lei aqui velho! Estamos longe do Egito e não há ninguém que me faça não matar esse homem? Será que é você ou este outro velho que tem o pé na minha garganta, estou livre

– Isso mesmo – diziam alguns no meio da multidão – Mate o homem e vingue a morte de seu pai – Continuavam.

– Basta… Aqui haverá uma lei e essa lei vira do alto, mas todo aquele que me desobedecer, assim diz o senhor, deve perecer – disse o velho do pau – Armem-se com pedras…

Dizia se referindo aos cidadãos, que se entreolhavam sem entender o que o homem com uma estranha autoridade mandava.

– Obedeçam ao meu servo, assim diz o senhor, peguem grandes pedras.

Estranhamente, todo o povo, até mesmo Arão catou pedras grandes, menos eu e minha família.

– O que todos vocês estão fazendo? Tira o pé do meu pescoço.

– Isso é por desobedecer aquele que deverá guiá-los pelo Egito.

E como uma cena indescritível, quando o homem do pau desceu as mãos, todos os homens, mulheres e até mesmo rapazes tamparam uma pedra no homem hostil, que estava caindo e desfigurado… Mamãe, atônita e em choque, apenas abraçou o meu pai enquanto que ele tapava meus olhos

A chuva de pedras contra o corpo o fazendo se contorcer com uma força incrível me fez perder o sono durante muitas noites, até que todos se esvaziam as mãe e a chuva se cessa e o homem, o velho do pau, vem lentamente se aproximando da carroça. A forma que todos obcecadamente obedeciam a ele era uma coisa realmente absurda. “Essa cara deve ter feito realmente alguma coisa grande para que esse povo xucro e ignorante o seguisse agora” pensava eu, anos mais tarde.

Ele viu a carroça e se aproximou. Observou friamente o estado do meu pai e com outro aceno ordenou que um homem entrasse na carroça e cuidasse dos ferimentos de papai.Enquanto com um outro aceno ordenara que enterrassem o homem que acabara de ser apedrejado ali mesmo, sem nenhum aviso ou arrependimento, os homens se agacharam e com as mãos começaram a cavar.

Cavaram uma cova rasa, sem nenhum valor e importância, como se fosse para um cachorro.Não marcaram o lugar, enterraram o filho do escravo perto do rochedo, como um animal ou um bicho sem nenhum valor, sem nem mexer no seu corpo, apenas cavaram um buraco ao lado e o jogaram empurrando com os pés.

– Tudo que foi feito no Egito, foi feito no Egito, o senhor julgará a todos aqui conforme o seu proceder e caminhar daqui por diante – disse olhando para trás na nossa frente. Mas daqui por diante assim será. Será olho por olho e dente por dente, mas quem decidirá a justiça no meio do povo será sempre Deus

– Mas da próxima vez que não pegarem uma pedra também – disse o velho – Irão para o mesmo lugar daquele que foi apedrejado, pois ninguém questiona uma ordem de Deus.

Mamãe estava em estado de choque e agora era meu pai que a amparava e cuidava dela até o final da noite quando armaram as cabanas. Eu e minha família ficamos na cabana de Jetro, por enquanto, pois alguns pertences nossos tinha ficado para traz.

E assim fomos ficando durante alguns dias de caminhada pelo deserto. Andávamos muito e durante a noite ficávamos na barraca de jetro, até que um dia, um comboio de mascates e negociantes trazendo escravos atravessou perto da caravana. Papai, como era um homem de boa diplomacia, trocou as peças de ouro que trazia por mais panos de linho, camelos, ferramentas e provisões. Daí, tínhamos agora uma cabana e sustento para mais alguns dias. A nossa causa de assassinato nem mesmo foi julgada  e continuamos a peregrinação.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                              III            

                      Anos Depois…

 

– Mais uma volta… Eu falei para vocês.

Jogava no chão um pequeno pedaço de argila…

Disse papai ao terminar de riscar o rochedo em que nos escorávamos para montar a nossa barraca. Era uma marca na pedra que mostrava quantas vezes rodávamos, quanto tempo demorava para se dar a volta e quantas vezes paramos no mesmo lugar.

Meus ombros, braços e pernas estavam doidos. Pois de novo levantamos acampamento e paramos novamente no canto e local que ficamos sempre, pois já é o décimo quarto risco que meu pai fez nessa pedra que fica ao lado da onde sempre colocávamos a barraca e às vezes, até mesmo andávamos nos lugares onde nós enterramos os outros congregados, e papai, por perspicácia ou sapiência, até mesmo sabia a localização de onde cada congregado morto estava enterrado.

Andamos para a tal terra prometida, mas andávamos em círculos. “Se ao menos fosse um lugar completamente desconhecido, mas em linha reta, talvez isso pudesse me enganar um pouco, mas não” – Debochava papai – “Anos e anos andando em círculos e não podemos questionar e nem sair.”

Demoramos muito da ultima vez e isso já era preocupação para o meu pai, A demora era explicada: O homem que nos guiava já estava velho demais e mal conseguia andar ou até mesmo enxergar. Nós já sabíamos até mesmo quando viria o outro comboio de negociantes do Egito e até mesmo eles, se não nos encontrasse um ponto a frente, iria seguir a direção circular que nós sempre tomávamos a interminavelmente a montar e desmontar barracas e nos acharia para vender alguma coisa. A nossa barraca era sempre estrategicamente montada para ser a ultima da congregação, pois papai sempre olhava para um horizonte perdido almejando novas terras e oportunidades. Até porque, indicava que meu pai ainda era o velho anti-social de sempre, e que não queria muita conversa com ninguém…

Ouvíamos sempre sons de trovões durante noites e noites por intermináveis horas. Uma estranha e poderosa força ia anulando e acabando com sonhos de uma infância que se perdia por um cansaço que mutilava cada vez mais a cada instante em que montávamos um novo acampamento nos mesmos lugares de sempre. Irritado e muito nervoso com aquela situação, certa vez meu pai se distanciou do arraial de tendas para muito distante para tentar traçar o verdadeiro caminho na qual imaginava que seria para a tal terra que tanto andávamos a procurar. Foi um trabalho árduo e penoso que demorou a se concretizar durante longos dias, um trabalho que diria qual seria o caminho a se tomar e aonde chegar se simplesmente seguíssemos uma linha reta…

Papai era conhecedor do mapa de todo Egito e conhecia muito bem as terras que iam além, tinha estudado as cartas e rotas que os gregos faziam para ir estudas no centro do Egito com os sacerdotes e fez muitos amigos gregos na infância, quando ainda aprendia as artes com os mestres, então, com detalhes, meu pai traçou rotas, subiu em montes, colinas, cruzou por vales durante esses dias anotou cuidadosamente tudo com seus instrumentos de calculo e precisão. Meu pai desenhou em cartas os montes, vales e planícies, traçando assim a rota a qual todos no arraial deveriam seguir. Eram caminhos muito mais seguros que nos deixaria na tal terra em quarenta dias de caminhada, mas como sempre, o Velho do Pau não ouvia ninguém, e todos somente faziam o que ele ordenara, e todos como sempre, com um terrível medo de que algo misterioso a seu comando acontecesse com o mesmo ou até com toda uma geração que nada tinha a ver com a sua opinião. Papai era um homem incrédulo e tentava provar com esse estudo aos outros congregados de que estávamos sempre indo na direção contrária do caminho que realmente deveríamos seguir, e o principal: O homem que nos guiava há quase quatro gerações tinha ficado completamente louco, pois nos fazia há anos rotas em círculos a uma rota que segundo meu pai “era simples, e se seguida dentro de uma conformidade, era pra se ter tido êxito com ela há muitos anos atrás”. Papai assim como eu, só acreditava em coisas que podia tocar, experimentar e provar e quando provou e achou o caminho para tal terra que tanto rodávamos e não encontrávamos nunca, meu pai por uma série de provas, provou que o Velho do Pau não tinha mais nem um pingo de sanidade para controlar qualquer tipo de situação ou povo.Papai queria que o povo olhasse para a razão, em vez da crença e do medo, mas como provar isso para alguém que não sabe nem olhar para o seu próprio lado?

Onde era o arraial das tendas não haviam mais sorrisos, que antes já eram poucos, de uns anos pra cá já era nulo, porque um cheiro de morte sempre ficava no ar com certo tom de loucura, toda a vez que se mostrava uma expressão de liberdade ou de descontração, pois tínhamos sempre que prestar algum tipo de atenção ou adoração a uma presença que era invisível a nossos olhos, vista apenas pelo velho do pau. O medo que todos ficavam em incontáveis dias, o pânico que sentíamos quando o velho do pau tossia e de repente sua voz se alterava e gritava conosco sem termos nada feito ou quando ficávamos com sede e simplesmente o velho do pau que nos trouxe até aqui dava com os ombros e se trancava com uma misteriosa força em sua tenda, que nos fazia o respeitar e temer esse contato com uma manifestação, por assim dizer, que realmente extrapolava o senso de imaginário que tínhamos. O povo alimentava uma mitologia insana e formulavam idéias de que “grandes coisas aconteciam” quando esse homem entrava para sua tenda. Diziam que viam raios saindo de lá, luzes, barulho de multidões e estrondos. Certa, uma senhora idosa contou que viu a terra se abrir e simplesmente tragar muitas pessoas que ousaram contestar o poder e a influência desse homem com o resto do povo. Pra mim, senilidades dessa senhora, não ouvimos nada E essas, ditas, “manifestações e demonstrações”, (que pra mim, tinham que ter alguma explicação) e abusos de poder foram nos amansando de uma forma que nos tornamos uma congregação de covardes. Bom, o que na verdade amansou a nossa família foi o potencial de pedras a ser tacado, pois acho que se tivessem menos umas dez pessoas, ainda sim papai tentaria um embate, mas o medo também limava a nossa coragem, pois ser esperto é aproveitar isso tudo de fora.

Muitos bajulavam o tal velho do pau procurando algum tipo de conforto ou até mesmo uma ajuda mesquinha, mas o velho era tão turrão que simplesmente o que ele fazia era tratar cada vez mais mal aquele que ousava se aproximar com uma moringa de água fresca, tentando puxar algum tipo de assunto, para poder se enturmar com o tal deus e talvez assim, tirar o tal velho da jogada. Todos se cagavam de medo dele e, alguns simplesmente nem gostavam de olhar para a cara dele, assim com eu e meu pai. “Uma vez quando ele saiu de sua tenda, vi luzes saindo de seu rosto” Disse a velha Olite, que estava meio cega, mas como muitas coisas inacreditáveis ele, o velho do pau,  já havia feito por causa de um conchavo com esse tal de deus, ninguém tinha culhão de falar ou se projetar contra ele. “Ele abriu o mar para a gente passar, e muitos egípcios morreram tentando nos pegar”. Estávamos juntos com a caravana e simplesmente isso não aconteceu!  Disse uma vez Jirão, o ancião mais velho da congregação. Era um fato inacreditável que era massiçamente aceito por todos, menos por nós, já que toda a travessia do Egito até aqui, viemos escondidos pela revolta do povo.

Meu pai, que apesar de cético com tudo, tinha que engolir a seco todas aquelas manifestações, sem explicação que o velho do pau parecia ter algum tipo de controle. Se o ancião mais velho da congregação sabia da história, porque o tal velho do pau sempre parecia mais novo do que Jirão? Eram vários mistérios a serem resolvidos, mas nunca ousávamos a nos argüir dessas indagações, tínhamos medo de Arão, um cara forte e alto, com uma mão do tamanho de um traseiro de um novilho, que nos agarrava com força e vinha sempre a mando do tal velho do pau que tinha ouvido que esse tal de deus o tinha contado que alguma coisa errada nós tínhamos feito, e assim, ficávamos sem contar nada sobre nada uns com os outros, não havia nem como comentar do tempo, pois o clima do deserto era sempre o mesmo, e nem divagar, pois muitos morriam porque às vezes não era nos permitido sonhar. E ai daquele que não jogasse uma pedra, mesmo que pequena fosse. A velha ordem manipulada na qual prendia cada judeu no Egito, havia se reestruturado em forma de uma palavra nova: Fé; e dessa nova ordem, nós conhecíamos pouco, pois só acreditávamos em nossas forças e até hoje isso ainda era uma rota segura que sempre seguíamos – digo eu e minha família, é claro.

Leafar, um amigo meu, certa vez tinha me contado uma história de um pequeno burro que tinha azas e que podia conversar com muitas pessoas,. Leafar havia falado que era um sonho que muitas vezes o pegava desprevenido. Era um burrico dourado e que falava com uma voz mansa dizendo que de alguma forma iria lhe dar algum tipo de descanço. Tinha medo de que alguém pudesse descobrir e o matar com um monte de pedras. Me contara isso em segredo há muitas distancias de nossas tendas, quando fomos encher as moringas para as nossas famílias em uma nascente perto de um outro acampamento que fizemos. Confesso que fiquei maravilhado com o sonho, ele havia me falado que o burro o tinha salvado várias vezes e que era muito bonito a forma a qual o sonhava sempre, mas não podia contar isso a ninguém e também sabia que se contasse a alguém, certamente iram nos matar, tanto a mim como a Leafar.Não se era permitido mais sonhar e nem podíamos mais desenhar sobre coisas que inventávamos com as nossas mentes, pois tínhamos medo que a qualquer momento de alguém entrar em nossas tendas e simplesmente humilhar os nossos pais e ainda por cima nos matar, com uma pedrada de cada um dos habitantes das tendas, com uma pedra ou duas em cada mão de cada habitante – e ai daquele que não lançasse nem uma pedrazinha sequer. Era o próximo da fila a ser tampado a pedras.  Uns diziam que a verdadeira culpa não era do velho do pau, e sim era de tal de deus, que incessantemente dizia-nos o que fazer desde que fomos para fora dos domínios egípcios. Estávamos estafados com uma presença misteriosa que apenas um homem a via, nos ditava regras e costumes e não era mais permitida a tal gostosa poligamia a qual muito antepassados e amigos de tenda diziam que assim era permitidos a nós, filhos dos ancestrais, antigos membros da antiga criadagem egípcia. Somos nascidos dessa peregrinação infinita, irmãos de uma remota cultura que está sendo completamente reformada por um velho louco com um pau na mão que se dizia seguir ordens de uma força muito forte chamada de deus. Dizia que nos tinha criado e que criou muitas coisas, que fomos expulsos de um lugar maravilhoso por causa de que alguém, pelada em algum lugar, comeu uma fruta e deu a seu esposo, que somos filhos dos filhos dos filhos da puta que fizeram essa merda lá atrás. Enchia a cabeça do povo com um imaginário tolo, pois era mais fácil crer que o erro de nossas dívidas e culpas foi causado por alguém que nem conhecíamos e que não temo o controle sobre esse erro, assim, era mais fácil e dócil levar a dificuldade e a vida sofrida ao povo, uma história que sempre dizia o porquê de continuar, o porque de existir e o porque do agora…

“Que mulher ordinária essa tal de Eva! Se não fosse por ela, estaríamos em um lugar melhor do que esse, em um lugar cheio de frutas, que mulher maldita”! Dizia sempre Jirão, o mais velho que sempre amaldiçoava a mitológica mulher quando era obrigado a carregar algo ou a fazer algum tipo de esforço maior. Lembro-me de que depois que o velho do pau falou dessa história, vários maridos começaram a tratar mal as suas esposas e a excluir as mulheres de várias decisões das tendas, as mulheres passaram a ter uma vida mais sofrida e labutada, mas meu pai, conhecendo esses artifícios sujos, continuou a ser da mesma forma que era com a minha mãe. Até mesmo um dia, a minha mãe perguntou a meu pai se ela o perdoaria se nos expulsassem daqui por causa dela, meu pai, com uma delicadeza de se dar inveja a todo esse povo xucro, apenas a beijou e disse um sim com a cabeça – certamente com medo de que alguém escutasse aquela despretensiosa conversa.

Aqui sempre éramos alimentados por crenças sem provas, por provas sem lógicas ou até mesmo conclusões sem ações – motivadas apenas pelo medo ou da superstição ou até o medo da mesma. O próprio faraó não obrigava a acreditarmos nos deuses do Egito, tínhamos uma vida livre de especulações fantasiosas e não tínhamos a égide de um medo invisível que nos consumiria se esboçássemos algum tipo de opinião contrária, vivíamos a acreditar em nós mesmos, pelo menos, era o que eu e minha família vivíamos, então, que medo de morte era aquele que rondava o nosso tendas e mentes todas as noites em que procurávamos mais do que sobreviver? Que falta de auto gestão era aquela? Onde estava a razão no meio de um povo que se mostra sentimental e não vê que o verdadeiro nexo da comunhão é a igualdade e o respeito – que seria a razão de nós, seres humanos, estarmos no mesmo deserto e na mesma situação – que visava até mesmo dentro de nossa tribo criar castas de serviço diferentes que pouco tinham a ver com as nossas próprias habilidades naturais?

Se esse tal de deus criou tudo, então porque não criava uma carroça pra cada família das tendas? Ou até mesmo, porque não transportaria a própria terra aos nossos pés? Se fosse tão poderoso, porque não nos levou com um sopro para a tal terra prometida que o velho do pau balbuciava cuspindo uma gosma verde de sua goela? Não questionávamos nada e nem ousávamos a perguntar nada por subordinação à base da violência eu e meu pai engolíamos sempre silenciosamente perguntas e questões que sempre nos irritava. Meu pai nunca foi com a cara do velho do pau – meu pai também não acreditava em nada, apenas obedecia para que eu e minha mãe não ficássemos desamparados caso morresse com uma tampada de pedra na cara. Alguns com a minha idade, sem nenhum tipo de noção ou entendimento, costumavam sempre a focar em fazer tudo àquilo que mandavam. Tínhamos medo da morte, que era muito iminente a quem tentava romper laços ou estabelecer algo que poderia nos livrar de uma rotina inquestionável e completamente cansativa, não era só a caravana de tendas que andava em círculos, as nossas mentes também andavam em círculos, talvez maiores e que perdurariam por muitas e muitas gerações. Tudo tinha se tornado uma grande merda, pra mim apenas não batiam mais nas nossas costas e essa era uma tenebrosa verdade que não nos permitiríamos nem pensar. Uma vez um vizinho meu de tenda, apenas pensou em comer a própria prima e de longe Arão lhe puxou pelos cabelos com sua enorme mão de cuia e simplesmente o apedrejaram – é claro que, antes disso, toda a sua família foi obrigada a sacrificar vários cordeiros, coisa que era penosa, pois muitas vezes não nos sobrava nada a comer, e a se humilhar com todo o resto da tribo por um simples pensamento, que por volta tenta povoar a mente de cada um uma vez na vida, afinal de contas, quem nunca sonhou em comer a própria prima? Alguém alejava os nossos pensamentos e alguém sabia de alguma forma o que estávamos pensando.

Várias coisas desse tipo foram inventadas no meio do caminho por Arão ou pelo velho do pau. Papai dizia que perdiam tempo sempre “macumulando medo e veiculando o imaginário ao povo burro que buscava uma explicação sempre de fora, sem preferir usar o raciocínio e a lógica a não preferir se punir dos seus erros e falhas”.

Papai dizia que termos como “abriu o mar” e fez “jorrar água da pedra” são termos de fácil explicação. “O Faraó me disse nos últimos encontros que tive com ele, que ele já foi um cidadão egípcio, e mais que isso, ele foi da realeza egípcia, como nem ele mesmo me explicou, e todos sabem que, os nobre tem uma educação diferenciada até mesmo da que você meu filho, estava tendo, mesmo com o titulo que seu pai ganhará”

“Será isso mesmo pai?”

“Com certeza. Um membro da corte real deve conhecer muitas coisas. O Faraó sabe das construções tão bem ou melhor do que eu meu filho, ele apenas precisa de uma pessoa com o mesmo nível de inteligência e confiança, para poder fazer outras coisas, ou melhor, não fazê-las para ter tempo não sei o quê”

“Mas o que isso tem a ver com a nossa travessia até o deserto pai?”

“Porque eu tenho as respostas filho? Porque eu descobri que estávamos andando em círculos desde a primeira volta que demos? Conhecimento é a resposta! Aquele que tem conhecimento está a frente da força. Eu poderia dizer que tive uma visão desse tal deus e que ele me escreveu e me indicou o verdadeiro caminho para sair do deserto, mas daí em diante, eu não teria paz…Seria tratado pior do que esse verdadeiro deus. Esse povo descrente acharia razão em tudo que eu faço. Iriam sacralizar todas a minhas atitudes e até mesmo, em uma doze de inveja, tentaria me matar para serem eles mesmos deuses. Não quero guiar ninguém… Até mesmo porque, se eu quisesse, esse povo não estaria pronto a aceitar que, eu, um homem e não um deus, descobri como sair dessa peregrinação infinita que sofremos durante anos…”

“Mesmo assim, eu não entendo”

“Ora meu filho, como bom nobre, ele já tinha estudado as vazantes, secas e cheias do mar, e onde teria um pequeno estreito, que daria facilmente para o povo passar, assim como os rochedos que comportam nascentes infiltradas nas rochas. Por isso, os Faraós também eram considerados deuses ou representantes deles. Por causa do conhecimento…”

Papai não gostava do velho do pau e nem de Arão, mas como era “visto” as coisas estranhas que aconteciam em sua tenda e de várias coisas inexplicáveis que aconteciam no meio da tenda de Arão e do velho do pau, sabia que era impossível não “se voltar contra a credulidade e o medo do povo e tentar levantar um motim contra o velho” assim também dizia. Sabia que papai falava a razão sobre as “coisas estranhas” porque o seu rosto sempre mudava de feição quando falava desse tal homem do pau e de Arão. Era um misto de medo com raiva. Raiva por ter que se submeter a uma coisa que não podia explicar e nem questionar porque simplesmente “nos faziam temer” e era errado assim se fizéssemos. Meu pai sempre se lembrava de uma história que ouvira e que deixava mamãe com muito medo. Uma moça, na época mais nova que eu, lhe contou uma história que lhe aconteceu quando era menina.

Toda vez quando relampeava, chorava com medo, tremendo dos pés a cabeça, chorando e pedindo para que nada afetasse a sua família. Quando era apenas uma menina, estava sentada brincando com pequenos tocos de madeira, esperando que tudo aquilo passasse, mas uma vez, um trovão veio da tenda e atingiu a perna da menina enquanto brincava com tocos, tanto que até hoje sente dores na perna e se emociona quando via meu pai, E meu pai lembrava-se de como ficávamos em nossas cabanas, que por serem distantes da tenda do velho do pau, não nos obrigava a ter a reverência que se deveria ter quando ele entrava estranhamente nela. A sua autoridade não respeitava nem mesmo quem estava inocentemente brincando com sementes e insetos mortos. Enquanto o velho do pau se trancava em sua tenda com toda aquela misteriosa manifestação, todos tinham que se prostrar em uma reverência que não tinha explicação e nenhum porquê.

“Dali por diante, dizia a moça, eu ficava de rosto encostado no chão e em silêncio, não por respeitar, só respeito aquilo que eu conheço, mas sim para não pegarem agora a minha perna boa”. Dizia ela com um sorriso canalha a meia boca, pelo menos ela destilou um pouco do veneno que todos tinham ou tomou um pouco mais do mesmo? No fundo, papai acreditava que tudo aquilo era obra do velho do pau e de Arão, como eles tinham produzido um efeito para que um trovão fosse acertar a menina que não obedecia em sua tenda, mas assim como eu, ele não sabe como, mas tem quase certeza de que aquilo foi coisa dos dois, e portanto, nunca mais nem sequer olhou de novo na cara dos dois – na do velho do pau e na de Arão também.

Mamãe sempre vivia brigando com ele por causa dessa atitude, ele achava como eu, que não devíamos fazer qualquer tipo de menção ou saudação a alguém que nunca queria saber ou ver como as pessoas estavam ou se realmente queriam viver andando em círculos com ele. Papai tinha um grande plano: Juntar todo o tipo de provisão que fosse possível, acumular trabalho e troca de serviços para fugirmos para a verdadeira terra prometida, já que papai tinha feito as anotações precisas e não precisaríamos mais depender da vontade de um velho senil que mandava a gente rodar em um deserto escaldante durante o dia todo e depois sentar de cabeça baixa em sua cabana espreitando a vida alheia. Minha mãe sabia que não podia mais conter papai e chorava enquanto eles discutiam a noite na forma a qual sairiam de vez do acampamento e eu, em um leito ao lado, ouvia atentamente meu audacioso pai, que sem noção de covardia, tentava convencer a minha mãe de uma coisa que eu também achava que era mais coerente:

“Eu não vou mais andar em círculos com esse velho cagão mulher! Provei a todos daqui que a direção que devemos tomar não é essa e que esse velho, por falta de conhecimento, nos faz andar em círculos porque já está cego e demente da cabeça! Tenho as cartas de onde poderemos seguir para a direção certa e iremos partir quando ele der alguma chance!”

“Mas tu sabes que questionar as suas ordens é uma atitude penada com a morte homem! Se pegam a gente no meio do caminho, vamos ser mortos, tu, eu e nosso filho!”

“Tudo era a morte! Nunca a minha boca foi livre, nem a minha e nem a de ninguém que está aqui… Trocamos o medo como se fossem roupas pesadas e ruins de carregar, mas não é só o medo, é uma consciência pesada de saber como é a verdade e não poder falá-la e nem compartilhá-la com ninguém. Isso é o pior”

“Não penso em partir agora! Eu vou preparar tudo para que, assim que houver uma mínima oportunidade, eu, você e o garoto partiremos bem depressa dessa loucura que foi colocada aqui mulher! Eu não agüento ficar aqui nem mais um segundo… Não agüento mais ver aquele velho arrastando aquela tora de pau… Um dia, eu vou enfiá-la bem no meio do seu…”

Prontamente, a mão de minha mãe cobre a sua boca. Ouvíamos agora passos e a sombra de um homem que tentava bisbilhotar o que estava sendo discutido àquela hora na tenda. O velho do pau, por causa de um ato de poligamia, tinha proibido que famílias ainda ficassem acordadas depois que a grande fogueira da ceia noturna fosse apagada, impedindo assim que algumas famílias trocassem entre si as suas esposas e maridos – “Ele fez isso porque já não deve foder mais, filho da puta” balbuciou meu pai raivosamente quando soube do decreto após ter que, “obrigatoriamente”, apedrejar cada membro da família acusada de poligamia.

Vi então a sombra de um homem alto com as mãos do tamanho de uma abóbora. Era Arão que tentava descobrir qual era a família que ainda estava acordada e desobedecia a ordem do velho do pau ou até mesmo, teria escutado toda a conversa e vinha agora lançar a sua mão sobre meu pai e nos matar a pedradas. Meu pai olhava a sombra com fúria e ódio, chegando a lançar a mão lentamente a sua enxada que dormia perto do baú de nossos pertences ao lado do seu leito. Víamos a sombra de Arão se aproximando enquanto que a cara de boca tampada do meu pai se desfigurava em um ódio mais aterrador, na medida em que afirmava mais a sua mão na enxada. A sombra de Arão agora tomava a tenda assim como meu medo que era engolido a seco para não perceber que ainda estava acordado. Arão aproximou seu ouvido da tenda chegando a dar pra ver o seu rosto por entre o linho branco do pano. Minha mãe fechou os seus olhos com medo enquanto a sua outra mão agora segurava a mão da enxada, pois meu pai a tinha levantado quando Arão encostou o ouvido na tenda…

Permaneceu o seu ouvido lá por alguns segundos, mas depois se retirou rapidamente quando ouviu o velho do pau o chamando. Escorriam apenas as lágrimas do rosto da minha mãe, enquanto que o do meu pai, uma perplexidade sem mensura e também a minha, que ainda observava lentamente a mão da enxada abaixando dando lugar a uma aparente calma que nunca se instalava em nossa casa, porque sempre temíamos o que poderia nos acontecer.

Depois disso papai se tornou mais e mais amargo e nunca nós três trabalhamos tanto nos últimos seis anos. Papai realmente tinha nojo de tudo aquilo que acontecia e mamãe passou a ajudá-lo nessa empreitada. Dávamos a nossa alma silenciosamente ao meu pai a concretizar o seu plano: Juntar provisões para sairmos de lá a mínima chance possível. Papai se cansou de tentar mover o povo contra as ordens tiranas do velho de pau e de tentar mostrar e convencer, com as suas cartas e estudos da terra que deveríamos percorres, de que o caminho que sempre percorríamos estava completamente errado, e que nunca, mais nunca conseguiríamos sair do deserto, e que pelos seus estudos, não teria nenhum tipo de chance para se sair daquela rota circular sem desobedecer ao Velho do Pau. Se cansou de tentar convencer o povo e apenas se preocupava agora em nossa fuga, assim como eu e minha mãe também. O seu trabalho, afinal, de quinze dias, que fez há anos atrás, não tinha assim se perdido, pois iria usá-lo para nós chegarmos a tal terra prometida. E eu, durante esse tempo, largava as minhas brincadeiras junto a Laefar para poder me dedicar mais e mais ao sonho que não era mais só do meu pai, e sim de toda a nossa família, te tanto, que nunca mais o vi. Diziam mais a frente as más línguas, que Laefar tinha sido pego se masturbando a noite em uma das tendas e levou uma surra pelado perante toda a congregação. O trauma foi tão grande, que a brincadeira do burrico de ouro se tornou uma coisa séria. Pessoas na boca miúda dizem que ele anda falando “que viria um burrico de ouro do céu e salvaria todo o povo de toda a maldade”, mas isso é uma coisa que ninguém poderia saber, pois se os pretensos líderes soubessem, iriam queimar toda a família de Laefar.

As chances nunca apareciam e os anos se passavam. Mais marcas papai fazia na rocha e o velho do Pau, mais moribundo do que nunca, agora dependia de todo o tipo possível de ajuda, assim, aleijando um pouco mais Arão, que vivia agora com o velho para baixo e para cima, mas ainda não deixava de descuidar nem um pouco da sua repressão ao povo e da sua vigília, que parecia incansável – já que apenas ele era o único responsável em guardar toda a congregação. Mesmo assim nós nunca desistíamos. Acumulávamos mais e mais provisões e sempre a trocávamos por algum outro serviço de algum outro congregado. Acumulamos tantos bens, que entre todos os congregados, nós  éramos os que mais tinham bens e provisões mas sempre muito bem escondidos em nossa tenda, que se ampliou para abrigá-los. Tudo já estava completamente engatilhado. Papai tinha uma dúzia de camelos que Jetro, dono da ultima tenda da congregação, os guardava por uma saca de aveia mês. Azure, o manco, estocava no chão de sua tenda moringas e mais moringas d’água pra o meu pai em troca de um cento de farinha mês e o resto da comida, levaríamos no momento em que fossemos embora, já que tínhamos muita comida em dispensa e até mesmo estocada em casas de outros congregados e também muita lenha, visco, linho e outros bens necessários a jornada. E assim, trocando favores e pedidos com mais um congregado e outro, se forjou o plano, que por  mais escancarado que fosse, ainda  permanecia em segredo a maioria da congregação e a quem mais nos importava, a Arão e ao caquético e senil Velho do Pau.  E depois de oito anos e quase a minha mocidade perdida, veio o que tanto esperávamos. Veio a notícia de que o Velho do Pau iria subir um morro e ficar lá por algum tempo, e se o Velho do Pau fosse, com certeza Arão iria, ele não conseguia nem mais dar um peido sem Arão e como ele era o único vigia da congregação, daríamos até para nos despedir sem ter nenhum tipo de preocupação.

A notícia foi dada ontem por Arão quando era feito os preparativos para apagar a ultima fogueira da ceia noturna. Arão falou que o tal de deus o tinha chamado o velho do pau para subir um morro enorme que estava a nossa frente naquele ponto do acampamento que também já conhecíamos e que ia ficar por lá por tempo indeterminado. Meu pai sorriu de orelha a orelha assim como eu e minha mãe também. E hoje pela manhã, contatamos a todos os congregados que “guardavam” a nossa fuga. Ajeitávamos a nossa escapada e em breve partiríamos, Alguns como Azure, o manco, choravam em nossos ombros e pediam para ficar. “Se ficarmos, com certeza, cedo ou mais tarde morreremos” dizia meu Pai. Nunca dizíamos que iríamos voltar ou que ficaríamos. Éramos sempre honestos em nosso desejo. Meu pai voltara a sorrir e estávamos alegres  em nossa empreitada, até que, quando quase o dia se esvaia e alegremente fazíamos os preparativos para nós sairmos pela manhã, vimos a sombra passando com a mão grande de Arão. E realmente, era Arão. Eu e meu Pai fomos correndo até a casa de Jetro, casa que ficava mais próxima a montanha, além de ser o maior fofoqueiro de toda a congregação.

“Mas como? O velho não foi”?

Meu pai saiu de nossa tenda correndo e foi até a casa de Jetro, que tinha a tenda mais próxima do monte: “Ele foi sozinho”…

“Mas como Jetro?! Ele foi sozinho”?

“Não sei o porque e nem como ele foi, mas só sei que ele foi. Acho que diz assim uma lenda, de que quando ele e o tal de deus estão em conversa no monte, nem mesmo um bode pode estar lá senão cai duro de morto na hora. Só ele pode subir. Eu ouvi quando ele mandou a Arão que ficasse…”

“Mas como? Arão é uma muleta para aquele velho! Ele não caga e nem peida sem ele por perto ou pra ajuda-lo de alguma forma”

“Mas foi isso que eu vi, eu o vi rastejando pela montanha com o cajado” Disse Jetro.

“Não importa Jetro, nada vai me impedir agora, nada mesmo”

“Fique calmo rapaz! Fique calmo, espere, algo vai acontecer, eu sinto isso. Ele nunca se afastou do arraial! É a primeira vez que ele faz isso talvez ele até mesmo morra subindo a montanha”

“Realmente, talvez você tenha razão Jetro”…

“ E por falar nisso,  olhe a montanha”…

Jetro aponta em uma direção do monte ao meu Pai e a mim. Ainda dava pra ver o velho rastejando como um demente cocorado, subindo se agarrando em raízes secas de arbustos. Realmente, uma coisa não se poderia dizer dele, era realmente um velho de fibra. Passou o dia inteiro se arrastando pelo monte  e realmente estava determinado a subi-lo com as próprias mãos sem ajuda alguma de alguém, porque, acreditavam, que se alguém sequer encostasse no monte, pereceria como rato ou como uma praga.

Se via o tamanho do sacrifício pela distância andada. A noite já chegava e ele nem sequer tinha conseguido chegar na metade do monte. Mas mesmo assim, se arrastava tentando subir com determinação e um firmeza sobre-humana.

Durante o dia, recebemos a visita de vários patriarcas de outras tendas nos aconselhando a não sair, pois o povo há muito estava insatisfeito, e como nós, iriam sair, já que confiavam que meu pai com certeza sabia do que estava fazendo

“É realmente. Não vou dar motivo para aquele velho caquético me matar. Não duvido nada que ele ainda esteja na espreita da tribo, ainda que esteja quase no meio da montanha escalando”

E combinamos o seguinte: Sairíamos assim que ele sumisse da visão da montanha. Quando o corpo realmente se perdesse no horizonte meio a escalada, nós iríamos embora, caso

Com certeza, meu pai estava com razão. O velho não tinha pernas e físico, mas com certeza bons olhos e fôlego, para escutar o ouvido astuto de Arão para nos apedrejar depois. Voltamos pra casa e o sinal de partida ficou combinado quando o velho sumisse no monte, e não importava se Arão estivesse ou não vendo o que iríamos fazer. Se possível fosse, minha família mataria até mesmo a Arão. Queríamos com uma sede enorme a liberdade.

Não havia mais nada a ser feito em termos de preparativos para sairmos do arraial. Aguardávamos com certa angustia o aviso de Jetro que o velho sumiu.

Já estava tudo pronto e carregado, até que Jetro mandara o seu filho nos avisar de que estava tudo bem. O aviso foi dado, e pela localização de nossa barraca seria até mesmo mais fácil ir embora. Logo assim que montamos nos camelos e começamos a nossa jornada, uma pequena pedra foi lançada a nossa frente.

O horror de olhar para trás foi completamente indescritível. Arão estava com mais dois grupos de paus mandados ao nosso lado, enquanto cruzávamos um rochedo para escapar de lá…

– Como?… Como você sabia que….

– Você deveria pedir perdão antes de dizer isso arquiteto, porque para nós aqui a fé vem sempre antes.

Uma comitiva formada por Arão e outros homens já carregando tochas e pedras nos espreitava até o nosso ponto de partida.

Eu, Papai e Mamãe fomos arrastados para o meio da área grande fogueira da noite. Todos estavam armados de pedras nas mãos, mas por sorte, não havia quem os mandasse jogar as pedras. E Arão como verdadeiro pau mandado que era, apenas esperava a decisão do velho, que até agora não descera da montanha e pelo tempo, realmente nem desceria .

Estavam armados de pedra, o velho Jetro, Azure e até mesmo Laefar, o meu velho e sonhador amigo de infância estava armado de pedras

– Se cada um de vocês realmente achasse errado em; pessoas como a minha família ter a atitude e ousadia de tentar fugir e andar como se acha e deve, vocês nem mesmo estariam aqui, vocês nem sabem porque seguram pedras nas mãos!

– Você não sabe o que fala!  – Disse Arão – Há anos eu venho acompanhando a movimentação noturna de sua cabana e ouvindo as suas discussões com a sua esposa, arquitetando e planejando sair daqui, esquecendo que são o povo de deus, pois você foram os únicos dessa congregação que não se sujeitavam ao aconselhamento a casais e não gostam de fazer nenhum serviço para a tenda.

– O que eu falo com a minha esposa, é para a minha esposa, se você com qualquer outra pessoa, eu teria que me casar com a toda a congregação, se somos o seu povo, não importa a onde quer que vão, ele saberá, pois todos dizem e cantam sobre o tamanho de seu poder…Porque ninguém daqui pode ir embora? Porque?

– Porque é Deus quem decidirá a hora de ir, pois estamos indo para a terra prometida…

– Não existe Deus! E nem muito menos uma terra prometida, tanto que estamos andando em círculos esse tempo inteiro! Estamos sendo julgados até mesmo por um homem que não sabe para onde vai nos levar!

Uma boa parte da congregação gargalha e treme pela ousadia:

– O que disse?! – Gritou Arão quase que esfregando a pedra no seu rosto – Se não fosse a ausência do nosso guia com deus, eu já teria…

– Teria o que? Que deus é esse que somente fala com um homem! Se for senhor e criador de todas as coisas, ele deveria falar com todas as coisas que o cercam… Se deus criou a tudo e nos manda a uma terra que deverá ser nossa, então porque nós andamos tantas vezes no mesmo lugar…

– Blasfêmia

– Você não vê Arão?! Você não verá, porque você está cego e só podem ver aqueles que realmente pensam e questionam como uma atitude natural de quem é um ser criado por um homem que é muito mais inteligente e superior! Veja, me arraste até minha cabana e eu o provarei de tudo o que eu falo!

– Você realmente é um filho da velha serpente! Quando ele voltar de sua conversa com o senhor, você realmente irá para o lugar de onde não deveria ter saído!

– O que ele tem prometido a vocês? Que os tiraria do deserto e lhes colocaria na tal da terra prometida não é mesmo?

Todos ecoavam um sim tímido mais ainda sim esboçavam reação.

– Então porque vocês tem andado e andado e não tem encontrado nada? Porque Arão? Porque não sabe tomar atitudes próprias? Será esse o castigo de um homem temente, não saber tomar atitudes quando coisas e situações estão realmente erradas?

– Não cabe a mim julga a ninguém…

– Todo o homem deve julgar tudo ao seu redor Arão! Veja, é isso que acontece quando seguem alguém que não conhecem e nem mesmo julgam! O discernimento sempre nasceu com o homem, então que deus é esse? Que tal dito é o pai e conhecedor de todas as coisas que tira de suas criações o discernimento de julgar! Até mesmo um chacal sabe o caminho de casa, e maiores e mais inteligentes que os chacais aqui somos, se estamos seguindo algo que nos guia e que é maior, porque essa coisa superior não nos coloca logo lá Arão?!

– É isso mesmo! Passamos há anos pelo deserto e nunca encontramos o verdadeiro caminho! Porque não chegamos nunca a esse lugar… Sempre é dito que estamos próximos mas nunca chegamos… – Disse Jetro, o primeiro a jogar a pedra no chão.

– Estamos caminhando até a terra e ainda temos que andar, assim ele disse…

– Ele quem? Porque só fala com ele? Se está nos guiando, porque não fala com todos nós, nós que também trabalhamos e somos iguais, se somos um povo, porque ainda há diferenças? – Disse um outro congregado que largou duas pedras de suas mãos.

– Ele responderá a todos…

– Ele quem, a essa hora deve ter morrido com o frio do deserto, e ainda mais subindo aquele monte – Disse um outro que largou uma outra pedra no chão.

– Silêncio! Silêncio! – Arão começara a se descontrolar – Será que devem ter provas de que deus realmente existe e está nos guiando?! Ele abriu o mar…

– Eu não vi ele abrir mar algum – Gritou papai!

– Ele tirou água da pedra…

– Eu também tiraria! Se isso valesse a vida de minha família, assim eu faria!

Alguns dos moradores que soltaram as suas pedras tornaram a pega-las do chão. E Arão se aproximou mais perto de nós.

– Larguem as suas pedras! Eu provarei que estamos andando em círculos! Vocês verão! – disse papai.

– Bom – Disse Arão – Se provar que andamos em círculos, eu soltarei tu e tua família, porque até mesmo eu não saberia a onde iria…

– Me solte então Arão, solte apenas a mim, caso ache que possamos despistar a todos e fugir, mas eu lhe provarei que andamos em círculos…

Arão do mesmo lugar ficou, e por instantes desviou os seus olhos e olhou a montanha, ainda escura, fria e sem sinal de volta ou de vida nela. Como que não consentisse ficou no mesmo lugar, mais ainda meio que balançado.

– Se ele provar, deixe que vá embora – disse um outro congregado – Afinal de contas, já fazem dias que lhe perguntamos para onde o outro foi, e você não responde…

– Isso, aquele homem velho subiu a montanha, e duvido que não tenha morrido na subida ou até mesmo na volta, nem mesmo eu teria como voltar de lá ou até mesmo ficar… Faz muito frio a noite no deserto – disse outro.

– Talvez tenha até mesmo morrido. Se ele morrer como iremos a terra!

O falatório e o questionamento, como que uma dádiva ou um momento de lucidez pairou sobre o povo como se fosse uma pomba. Todos começavam a questionar como seria continuar sem um rumo, e se tanto andamos, porque não chegamos ainda ao local, onde seria o local? Porque não sabem dizer onde é o local? E porque de tudo aquilo? Porque largar o Egito? O povo era tão dependente, que não podia sequer ficar dias sem uma certa direção e postura do velho que tinha sumido da montanha…

Até que a pressão deu vazão a frase:

– Não agüentamos mais viver desta forma sem saber da verdade! Deixe que ele prove o que está dizendo e se ele provar, deixe-o ir!

– Isso mesmo! – A catarse tomava conta do povo. Todos unissonamente pediam que soltassem papai para ele provar o que estava dizendo.Todo largaram nos chão as suas pedra, como que a fome da verdade fizesse soltar as amarras de uma ignorância de forma tão rígida e tão forte como as duras pedras em suas mãos. O povo desabafava no afã de ser realmente livre e esclarecido de todo o seu caminhar.

Pela primeira e ultima vez eu vi nos olhos de Arão um semblante negro a rondar e pousar. Era um misto de medo, descrença e indecisão. Era como se Arão quisesse se juntar aos outros, mas ao mesmo tempo não perder a sua razão, pois a sua razão era o preço da sua estatura, aquela altura, não poderia ter o alicerce de seus privilégios quebrado de uma forma tão rude, mas sabia que há muito tempo o povo estava descontente com a falta de ordem e governo que havia se tomado o acampamento, na ausência do velho do pau.

– Solte-o, mas se ele não provar, ele voltara a ficar amarrado!

Ele chegou próximo ao engenheiro.

– Bom, se realmente tens como provar que estamos sendo enganados, então eu lhe solto, mas se não conseguir provar, eu lhe colocarei amarrado de volta e todos lhe lançaremos as pedras.

Arão cortou as cordas que amarravam meu pai, ele prontamente se levantou, e foi para o local onde ele marcava quantas vezes nós tínhamos passado por aquele local…Meu pai tateava o rochedo e não conseguia encontrar as marcas, ele começava a ficar muito nervoso – Jetro, me dê a sua tocha, rápido. Tomando desesperadamente a tocha das mãos de Jetro, papai vasculha a pedra. Foi tanta a demora, que Arão já ia tomando-o pelo braço, mas para alívio nosso, ele achou.

– Aqui está sua prova Arão! Nesta pedra eu marquei quantas vezes nós rodávamos por aqui, cada marca era uma vez que rodávamos e todas essas marcas não só mostram quantas foram as vezes em que nós passamos por aqui, mas mostra que essa área em que estamos também foi a nossa primeira parada no deserto.

Papai virou-se de costas e mostrou outra direção com as mãos observando o vento.

– Se andarmos bem um pouco, já estaremos em território egípcio, está vendo? É para lá que fica o Egito…

Arão abaixou-se, olhou as marcas na pedra com cuidado sem esboçar qualquer expressão. Tomou a tocha da mão de meu pai e olhou as marcas na rocha com cuidado e cautela, e olhou para a direção da mão do meu pai.

Deu um sorriso e puxou novamente meu pai pelo braço.

– Você acha que vou cair nessa sua conversa?! Você planejou isso tudo, você e sua família! Seu mentiroso sujo! Riscou essa rocha antes de planejar ir embora! Vai servir de lição ao resto do povo para não duvidar de Deus!

E um pavio se acende. Uma multidão a favor das argumentações do meu pai se levanta contra Arão e seus capangas, enquanto que uma outra multidão o defendia Arão e os outros. Gritos. Calor. Eu e Mamãe gritávamos amarrados para tentar defender meu pai de alguma forma. Jirão com a tocha tenta afastar Arão do meu pai, enquanto que meu pai, estranhamente, abaixou-se e começara a cavar.Uns capangas de Arão, tentavam derrubar Jetro e Jirão que estavam armados de tocha, enquanto que Arão, caído ao se esquivar de Jirão, da um tapa forte nos braços de Jirão, fazendo voar a tocha.   Meu pai apenas cavava, insanamente cavava, parecia que queria fugir das pedradas por uma buraco e de uma forma tão violenta, que feria as unhas e manchava de vermelho a areia, enquanto uma multidão dividida brigava pela nossa liberdade e outras pele integridade de Deus. Até que um bolo ou uma massa se formava em volta do meu pai, de forma em que não sabíamos se estava apanhando ou ainda continuava abaixado, inexplicavelmente cavando. Mas infelizmente, a multidão dos que defendiam a integridade de Deus era maior, e dominou o resto das pessoas que tentavam defender o meu pai, enquanto que agora realmente podia se ver o meu pai, que ao chão continuava a cavar, enquanto que Arão puxava as suas pernas para o centro.

– Desista! O seu motim falhou! Sua Besta! Tentou cegar o povo do verdadeiro caminho com essa conversa! Mas nós o desmascaramos e agora você vai pagar caro por isso…

Meu pai tentava puxar o ar desesperadamente, mas ainda sim não parava de cavar, até que, a força de Arão venceu os braços do meu pai, puxando-o com força, e só com uma das mãos dentro do buraco. Mas agora o segurava no ar como se fosse apenas um brinquedo de madeira.

– Agora você vai receber a lição por duvidar de Deus!

Mas ao puxar meu pai, repentinamente, Arão é possuído por um grave horror, que lhe destruiu a alma e quebrou a sua aura de líder. Os outros também estavam a olhar para o meu pai, como que estarrecidos com o que a sua mão, que estava no buraco que tinha cavado voltara com ela da terra. Todos da tribo se ajoelharam e começaram a chorar, com um grande pesar, Arão soltara delicadamente no chão, enquanto meu pai arfava como um animal. Da distancia que estávamos, parecia que papai estava segurando um saco médio de feno seco.

– Mamãe, eu não entendo…O que houve com o povo? Porque todos estão ajoelhados e estarrecidos sem saber?

– O seu pai achou alguma coisa…Eu também não vejo o que é…

Papai levanta-se do chão, e com muito esforço arremessa para o centro o que estava nas mãos.

–  Vê agora Arão?! Hein?! Eis aqui a anunciada morte do seu Deus! Eis aqui os despojos e o túmulo do seu Deus!

O que era um embrulho veio para perto da onde estávamos amarrados fazendo uma outra parte da tribo que também não viu o que os outros virão. Ao se revelar, a mesma atitude de desespero foi tomada, ajoelharam, colocaram as mãos na cabeça e começaram a gritar e chorar…Não era mais um embrulho, eram os restos mortais de um homem, que por um detalhe não se fez passar por um homem qualquer.

O tronco sem pernas e sem um braço de um esqueleto, que tinha a cabeça arrebentada como uma cuia, ainda tendo no seu coro cabeludo alguns cabelos dourados, a quase vestir um coro envelhecido que lembrava o de camelo, mas o detalhe que vez todos assim se ajoelhar foi o cordão com a mecha grisalha em trança. A mesma mecha cortada pelo filho do escravo quando o esquife de seu pai ia para a terra.

– Isso…Isso…é – gaguejava mamãe

– Olhem todos – gritava o meu pai – Olhem todos! Todos venham olhar!

Meu pai pegou o esqueleto pelo pescoço e pelo braço. E como uma lufada de ânimo e alegria, começou a falar a todos.

– Essa é a prova da justiça de Deus? Essa é a prova que Deus está levando vocês para uma terra boa?! Veja, a fé cega de vocês fez confiar a vida de toda uma congregação, ao juízo de um velho lunático…A fé cega de vocês os fez andar em círculos e até mesmo, julgar, condenar e executar esse homem, esse esqueleto que já foi homem,  que é a prova mais viva, ou morta, de que o seu mesmo Deus tem a mesma natureza que ele: Morta.

“Ele foi enterrado aqui. E essa foi a nossa primeira parada desde o Egito, esse foi o exato local em que descansamos e paramos de correr. Esse corpo foi o primeiro corpo a ser enterrado quando a primeira vez nós mal colocamos os pés do Egito para o deserto na promessa de que iríamos para uma terra que seria nossa, então, o que fazemos aqui? Andamos em círculos por anos e anos e de tanto medo, ninguém questionou ao ponto de saber onde estaria e o que poderia fazer. Vocês não eram mais ninguém a não ser joguetes de um efeito que só existe dentro de vocês. Agora eu lhes trouxe a vocês a verdadeira liberdade que desde o Egito, sim! Até agora, você não eram livres! Mas aqui eu lhes digo: Deus morreu! Façam o que quiser com as suas vidas! A terra nascerá com a promessa dos seus esforços e não com esforços que não existem! A terra será feita por vocês! A terra sempre pertenceu a vocês! O sofrimento acabou e vocês podem viver as suas vidas sem medo e livres”! Levantem-se! Não precisam mais se ajoelhar para nada, a não ser para vocês mesmos! O suor não vem do rosto de deus algum e sim de suas próprias temporas, com dedicação e trabalho poderemos recomeçar tudo de novo e seremos líderes de nós mesmos!

Papai sorria alegremente, mas murchara-se com facilidade. O olhar de desespero do povo era desolador. Alguns gritavam e o próprio Arão rasgara as suas roupas e estava completamente catatônico a olhar para o céu, gritando, como que pedisse para que alguém de cima lhe desse alguma esperança. A desolação do povo era tão irracional e desesperadora, que dava medo ao meu pai e a minha família…

– Não se desesperem! Vocês deveriam se alegrar com o que eu tenho a lhes dizer! Alegrem-se! Alegrem-se. Ale…

O choro era de soluçar. Uma cantiga agoniante de desespera

Em desespero, todos se ajoelhavam alguns como que a chorar de raiva, no pensar de tanto que foram enganados por um homem que se colocou de superior e lhes fez como escravo de uma presença que fora morta agora, mas o verdadeiro sentido do coro era outro.

Um coro de desespero tomava conta de toda a congregação e nos fazia temer pela vida do meu pai. Papai não matara uma coisa qualquer que se morre a pedradas ou um inseto que voa para perto e que pode te morder de uma forma muito dolorosa. Papai matará o criador de tudo, da areia, do deserto e de todos aqui. Papai matara aquele que os fez sair do Egito e com força se libertar do julgo perverso do faraó. Papai matará Deus, e com uma força de não existir, todos ali choravam e chegavam perto de Arão, abraçando-o, como querendo consolar, como querendo dar algum tipo de conforto ou proteção, por tantas atrocidades feitas e coisas que deixara de fazer em nome de algo que estava morto há muitos anos no deserto, que na verdade nunca existira, tinha sido criado-criador dos homens para controlar, guiá-los por caminhos, momentos difíceis e meu pai o tinha matado. Isso era pior que matar a mãe ou a um filho.

– Querido, nos desamarre vamos embora

– Mas meu bem, e o povo?

– Veja quem você matou!

Como que num lampejo de razão papai realmente teve a séria noção do risco. E concordando com mamãe, correu para nos desamarrar e a tomarmos a nossa própria jornada.

Papai nos desamarrou depressa e nos colocou de pé.

– Para onde nós vamos?

– Não sei meu amor, só sei que eu e nosso filho não podemos mais ficar aqui. Se ficarmos aqui, seremos apedrejados por um outro motivo

Fomos indo para a nossa caravana, silenciosos, ouvindo o lamento e o desespero daquela gente, pegamos as nossas carroças e provisões e partimos rumo a rota que meu pai traçara para sair do deserto.A rota, nos tiraria do deserto e nos colocaria em uma terra desconhecida que poderíamos tirar algum proveito. E assim partimos, deixando todos da antiga vila egípcia e da nova congregação.

O povo desesperado clamava a Arão:

– O que nós faremos? Se nunca houve Deus e se aquele homem que nos guiava está morto naquele monte o que nós iremos fazer? Se não há mais espaço para morte ou dor se não um grande vazio que chamávamos?

Arão não dizia nada. Apenas chorava e olhava apavorado a todos.

– Não há mais um guia! – Gritavam as pessoas.

– Sim, há um guia! E ele me revelou isso há anos

Uma voz surpreendente rompe o coro de lamentos e choros, e da improvável multidão, surge um jovem tímido, imaginativo e introspectivo, o único amigo na qual me contava os seus sonhos e fantasias. Se levantava Laefar.

– Há muitos anos povo, tenho visto e sonhado com um bezerro dourado,que me falava tudo na qual deveríamos seguir, esse é o verdadeiro Deus e devemos construir uma imagem sua e adorá-lo aqui no deserto!

Olhares de esperança se romperam em cada semblante do povo. Mas era mais uma cabeça que jogava para o imaginário toda a sorte e destino de um povo que não sabia mais o que fazer, mas com a fome de acreditar em algo, o povo começa a ouvir pretensiosas palavras de uma suposta profecia de um jovem que até então nunca levantava a voz a nada, e não tinha sequer postura de um líder. Todos atentamente, inclusive Arão, ouviam o que detalhadamente ele descrevia como um ser superior a guiar o povo através da aridez e da labuta do deserto.

O povo se levantou e clamou a Arão:

– Faça a imagem desse verdadeiro Deus, que irá nos salvar de toda a má sorte e praga que nos venha acompanhar do Egito, e que ele decida quem será o nosso novo guia com esse Deus.

Todos gritaram como que tivessem achado uma solução para a morosidade de suas vidas. Era a solução, daquele povo, para as mazelas e injurias que tinham sido cometidas até então. Seria, para eles, uma nova “expressão” de liberdade e força para os levantarem daquela situação e viverem uma vida nova e perfeita, livre o julgo, mas não sabiam que para isso sempre existem regras e as regras nunca podem ser quebradas, pois ao quebrá-las, você desagrada ao sagrado.

– Isso! Me tragam peças e adornos de ouro para que possamos fazer esse que irá nos guiar por todo Egito e nos livrar de qualquer praga que porventura possa vir.

Todo o povo começou a sair de suas tendas com objetos e itens de ouro para poder forjar a nova peça, a nova bengala a guiar os cegos no meio de um lugar na qual só estavam pela própria cegueira, que devidamente gostavam para não atribuir qualquer vitória ou fracasso, por uma mudança ou uma redenção.Os homens estavam ansiosos e o povo pediam e clamava novamente a um Deus. Mas isso tudo ocorreu quando já estávamos a quilômetros de distância dali. Talvez fosse realmente algum tipo de deus que estava nos impedindo de ir, de tomarmos as rédeas  e rumos de nossas vidas, pois assim que meu pai o matou, a vila nos esqueceu e todos os homens nos atravessaram como se nós nunca tivéssemos existido.”Talvez fosse vergonha”, pensei, sim, realmente poderia ser a vergonha por ter provado que estavam completamente cegos e andavam como burros sendo manipulados por uma pessoa que beirava a insanidade.

Talvez Laefar tenha encarnado no papel do velho do pau. Talvez o velho do pau tenha descido, levando aquele povo a loucura, empalando Laefar, ou talvez, um outro levante racional tenha feito com que todos fossem castigados ou até mesmo a morte desse novo deus. Quem saberia? Só existiria a verdade daqueles que sobreviveram ao Egito e aos anos de uma loucura coletiva que foi rodar e rodar sem ter fim aquele precipício em vertical na qual sempre andávamos e não parávamos. A verdade só será dita através de parábolas ou até mesmo, a superstição ganhe e dê contornos maiores ao absurdos que foram cometidos em nome de nada, pois se fosse realmente uma busca ferrenha e se fosse realmente uma questão de castigo do Faraó, ele teria mandado nos matar a muito tempo aqui, ou em qualquer lugar que fossemos. A caravana de comerciantes egipicios era tão bem treinada que poderia resistir a muitos fatores adversos no deserto. A caravana de comerciantes poderia resistira a vários dias sem água e sem provisão nenhuma. Mas não.

O Faraó nunca foi atrás daqueles que se foram, acredito que o Faraó só tenha tomado aquela atitude por causa de nossa família. E isso apenas eu e meu pai sabíamos, pois um homem não deixaria um povo inteiro sair do seu reino para depois tentar dizimá-lo em campo aberto, a melhor tática seria dispersa-lo dentro do próprio reino e matá-los pelo tumulto do incêndio as vilas, tínhamos quase certeza que essa investida apenas partiu pelo Faraó descobrir que estávamos indo embora também.  A fúria descontrolada era ver que até mesmo o meu pai seria capaz de traí-lo. Mas meu pai nunca nos traiu. A única religião do meu pai era a nossa família. Que era um fundamento mais sagrado e dogmático do mundo para ele.

Nós nunca olhamos para trás, nunca mesmo.

No começo foi muito difícil. Tivemos que andar mais do que o previsto, e se não fosse a ultima negociação com comerciantes mascates do Egito teríamos morrido de fome. Depois do deserto, o único afluente que encontramos ficava há uns vinte dias de viagem e o que nos castigava agora era a seda, mas enfim, encontramos uma boa área para parar. Mas depois desse afluente, avistamos o maravilhoso Rio Jordão e pela primeira vez em muito tempo, tomamos um banho digno com água mais fresca que eu senti em minha pele.

Nesse tempo e período, papai e eu fomos construindo o nosso império, e com a fácil rede diplomática que papai fazia, meu pai conseguiu ajuda de um povoado vizinho com a troca de dar conhecimento e instrução de fazer artifícios para melhorar e civilizar a população, e acabando que, com essa troca, prolongamos o nosso povo, conheci a minha esposa e há pouco tempo, o rei concordou em unificar todas as terras nos transformando assim em um país forte, independente e soberano, graças a tecnologia e a perfeita organização política de nosso povo.

E assim foi a história de nossa dinastia. Assim que chegamos a essa terra, após sair do deserto. E foi com lógica e trabalho que conseguimos sair dela.

III

                                                      Final  

 

Mas como eu queria que Papai estivesse vivo agora para ver o quanto que a ignorância se fez demorar em evoluir até o ponto que nós conseguimos aqui, sendo apenas escravos da lógica e da razão! Vendo esse povo que chega a dar pena, de maltrapilhado e castigado pelo deserto, até mesmo as crianças tem caras de pessoas velhas e sem esperanças! Mas uma terrível sensação foi tomando de assalto o meu peito que se estranhou com aquele povo entrando pelas nossas terras…

(Distante, dois dos judeus que estavam vindo da caravana confabulam)

– É esta a terra da promessa?

– Bom, a placa indicava que aqui era o lar dos Anaquins…

– Mas eles são numerosos… Como iremos?

– Sim, mas ele tinha previsto isso antes, mas isso não é nada pois aqui está escrito…

“E disse ao povo:

Escute ó povo de Israel! Hoje vocês vão atravessar o rio Jordão e vão tomar

posse de uma terra que pertence a povos mais numerosos e mais poderosos

do que vocês. As cidadelas deles são enormes, e são protegidas por muralhas

que chegam até o céu”

– É, se ele falou, com certeza iremos tomá-la…

E assim, o povo foi entrando pelas cercanias daquela nova nação, até, não se sabe como ou quando, iria tomá-la, mas isso é parte de uma outra história, a história que foi achada foi a dos primeiros ateus, lenda que é contada oralmente e passada por séculos e séculos, que desmistifica um dos vários mitos.

 

E assim, a falta de razão e lógica ganha embasamento para se tornar algo palpável e decerto, pois tudo que “está escrito”, faz parte de um mundo real, se torna regra se seguida e assim vira dentro do mesmo uma forma de conhecimento, mas nunca sabedoria e Logus, pois longe da lógica sempre morou a fé.

Mas, um judeu da tribo de Davi, separaria a má fé da verdadeira fé, que entra em conformidade com a lógica e assim, seria crucificado pelas mesmas pessoas que prefeririam regras e normas para deixar que a dinastia do mesmo povo que saiu depois de quarenta anos do deserto ainda perdido a andar em círculos a sofrer, em um cabresto e em uma dependência desumana com a falta de compreensão do que é real, racional e verdadeiro.

E mais tarde, um fariseu que compreendeu que o mesmo sistema o deixaria cego moralmente a ponto de perder a sua visão a caminho de Damasco, anos e anos mais tarde, separou assim como o seu mestre, o que era verdadeiro e justo daquilo do que realmente era sagrado dizendo: “Retem o que é bom”, abrindo uma brecha em uma ideologia que pretendia colocar os homens como seres medíocres, não como realmente filhos de uma força superior, com uma inteligência igualmente superior, que criou a tudo, inclusive a lógica, que é um caminho prático e primário para se encontrar e reverenciar mais ainda a real grandeza do Deus que criou todo o universo, com sua miríade de gazes, luzes e mistérios, alguns, revelados a nós, outros, ainda ocultos, mas nos mostrando ainda como encontrar esses mesmo através da razão.


 [MP1]Parei a verificação aqui

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~ por Água para Plantas em junho 20, 2012.

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