Vertigo Cap: 3 Capítulo 3 – “Antes o conhecia de ouvir falar, agora o conheço de SER comigo”

Vertigo

Cap: 3

 

Capítulo 3 – “Antes o conhecia de ouvir falar, agora o conheço de SER comigo”                                                            

Realmente, tomar banho depois de um trabalho pesado e sujo faz uma grande diferença. Mas realmente, não sei muito o porquê, eu não tinha muitos motivos e ainda um certo brio antigo que não me deixaria ir fedorento a falar com o Cassiano e o Ronaldo. As minha roupas não estavam amarrotadas, tinha levado alguns perfumes e estava como se estivesse saído de casa. Tinha resolvido pegar um ônibus até as barcas e de lá me encontrar com eles – Depois de anos, eu tinha mudado o trajeto da minha viagem e depois de muito tempo iria encontrar com amigos, fora os finais de semana em que trabalhava em uma lan-house do Felipe – que era mais do Bruno do que dele, e a minha relação com o Bruno estava mais do que desgastada, esta quase indo embora dalí. Iria me encontrar com os caras na sexta, mas não poderia estender o meu horário em permanecer no encontro, porque tinha que acordar cedo para varer a loja antes de abri-la.

Só de sentir as barcas e o vento correndo dentro dela, pela parte da varanda, eu sentia que algo novo e diferente me esperava. A contra gosto desembarquei – por mim aquela viagem duraria horas – Sentei e esperei alguns minutos esperando os dois.

Os encontrei: Ronaldo continuava o mesmo, mas Cassiano cultivava uma barriga que nunca tinha visto – tinha se viciado em comer em bons restaurantes, estava ganhando rasoavelmente na antiga firma onde trabalhava, por isso, ainda lhe devo algumas idas ao cinema e das vezes que me pagava algum lanche e até uma entrada ao teatro – Mas mesmo assim, o encontro foi o mesmo desde a nossa época em que nos encontrávamos na Banca do Marivaldo – Um pouco mais caloroso.

Conversamos sobre os velhos assuntos nerds que sempre conversávamos, me mostrou seu mais novo smart-phone e depois decidimos ir a um bar jogar sinuca. Antigamente, em uma das paralelas, no meio das transversais ruas de Niterói, tinha uma sinuca amistosa, não tocava funk, algumas mesas sempre ficavam vazia e enterávamos algumas fichas, e enquanto jogávamos, a idéia foi destilada:

– Bom meu camarada – disse Ronaldo – Eu estou lhe incluindo em um projeto bacana que eu tenho a fazer por indicação de nosso amigo Cassiano, porque ele disse que você escreve muito bem, e estou afim de fazer não um zine, mas um portifólio de uma revista de ensaios, na qual a gente vai ter uma tiragem pequena apenas para mostras as editoras pra ver se a gente ganha algum espaço. Vão ser contos pequenos, que ainda temos que ver com a gráfica e com o conselho dos outros colaboradores, mas não deve ser muito grande não, pense em coisas pequenas, pense em coisas realmente que possam caber em um espaço bom… Bom nada está tão decidindo ainda. Estou chamando as pessoas, mas quando todas estiverem convocadas e realmente esse compromisso foi confirmado, vou te falar o formato da fonte e o tamanho do texto do conto. Enquanto isso, como eu te falei, vai pensando em alguma coisa pra gente colocar na revista. Vai trabalhando em alguma coisa, se você for participar é claro.

– É sério isso – disse meio pasmado a olhar pra Cassiano, mais pelo seu reconhecimento de minha escrita, coisa que tinha mais do que enterrado em minha vida – Você acha que eu escrevo bem?

– Claro bicho, não pensei em outra pessoa para escrever nesse projeto além de você. Conheço outros caras, mas poucos tem a sua pegada pra escrita.

Algo tinha me enchido. Não era o meu ego, era como uma sede que tinha tido há cinco anos, desde que perdi a minha faculdade quando estava prestes a me formar. Me desisti como escritor há muito tempo, e não pensava que minha escrita tinha sido marcada como “aceitável” a alguém.

– Só que – Fazia um adendo o Ronaldo – Não vai ser só a gente, tem uma galera que eu vou chamar pra gente elaborar isso tudo, mas já quase tudo que meio engatilhado, eu vou dar a maior parte e vou dividir a menor parte com o restante dos participantes, porque o projeto é meu…

– Cara, mesmo que eu tivesse que pagar a maior parte, só por alguém lembrar que eu ainda escrevo, eu estou mais feliz do que nunca – Marejei um pouco os olhos imperceptívelmente, mas estava atento a tudo que era falado enquanto jogávamos sinuca.

Não me recordo se Cassiano dividiu ou não a maior parte com o Ronaldo ou se ele fez menção a isso logo que ele levantou a questão. Eu estava a flutuar. Minha alma tinha sido severamente refrescada com o reconhecimento de um amigo que tinha lembrado e mim. No meio da conversa, me mencionou a participação da Flaviana – que até então não conhecia – e de sua esposa, a Viviane, que iria fazer uma das ilustrações – que fui agraciado com a ilustração belíssima de um bucolismo compatível ao que eu quis passar em “Andar”.

– E ai cara, ta dentro ou ta fora – indagou Ronaldo

– É a sua chance cara, se jogar fora, não te chamo pra mais nada – Mais um dos ultimatos do Cassiano.

Pensei na quantia que iria ter que desenbolsar para poder realizar e fazer parte do tal zine, fiquei receoso, mas tinha, naquele momento, em que me desenterraram e disseram que o gongo ainda não tinha acabado, que tinha sido apenas um Knock-Down, no meio da contagem que o falso destino tinha me colocado, eu resolvi em um ato de coragem e fé – pois não tinha dinheiro, realmente para nada, tudo que ganhava era para a manutenção da casa e para os gastos com Luiza. Mas deveria romper. Não queria mais ser um homem “vencido”. Não queria mais ser uma pessoa derrotada pelas conseqüências das minhas escolhas, queria escolher outras escolhas que me pudessem fazer sonhar de novo. E de um otimismo que tirei de onde eu nem sei, eu apenas respondi:

-Tô dentro cara. Vou nessa com vocês!

– É isso ai garoto! Vamos fazer isso com qualidade e apostar nossas fichas – Me animava Cassiano.

– É cara – disse Ronaldo – Mas já vai preparando alguma coisa, já vai escrevendo o que você pretende colocar como conto, já vai bolando alguma coisa… Bom, agora, eu vou ter que marcar uma reunião com os outros colaboradores e vou passar isso por e-mail pra vc, até mesmo eu te ligo, qual é o seu telefone Rodrigo?

Trocamos os telefones. Jogamos algumas partidas de sinuca – a nossa sinuca de perebas que nunca sabemos ou dominamos, mas jogávamos porque simplesmente, gostávamos de jogá-la – E conversamos mais sobre quadrinhos, contei an passant como estava a minha vida, não tinha dimensionado ela totalmente, apenas dizia que não tinha dinheiro para nada, mas que “com certeza, já estava sendo parte do projeto”. Cassiano ainda ficou meio ressabiado, porque sabia da minha facilidade de anular encontros, de desmarcar coisas – por motivos que conheço, mas é difícil admitir que às vezes é difícil andar na rua, que às vezes é difícil tomar uma condução e não sentir medo, mas hoje em dia, eu apenas penso que cumpri o meu papel, e sempre busco novos lugares e a procurar e experimentar coisas novas.

Nem chegamos a gastar todas as fichas. O bar já iria fechar. O tempo com eles tinha sido realmente maravilhoso, de tão, que a hora passou como minutos. Estava saído moribundo de uma caverna, no sentido mais lazarento possível. Um peão ainda poderia escrever. Um cara que ensacava pedras e descarregava caminhões de cimento como um outro trabalhador qualquer ainda podia sentir e passar alguma coisa do que sentia para outras pessoas. Ronaldo tomou a sua condução e acompanhei Cassiano até pegar a dele. Me contou pouco de sua vida, como sempre, mas já dizia que os dias na boa firma estavam contados, mas mesmo assim, tentei insuflar um pouco de ânimo nele, mas ele não deu ouvidos – é um pessimista nato – então, puxamos outros assuntos, do tipo “quebra a conversa”, me perguntou o que lia, disse que estava lendo “On the Road” de novo, e estava com uma edição de sebo de “Pergunte ao Pó” que estava começando a ler também, mas que “On the Road” estava me dando um pouco mais de coragem a tentar mudar. Comentei do círculo medíocre que minha vida estava tomando, mas, em um raro gesto, apenas disse que as coisas “poderiam” mudar depois que a gente fizesse o projeto – cujo nome seria decidido em uma reunião, com outras pessoas, algumas desagradáveis, outras, não tento, mas por serem influenciadas por essas pessoas desagradáveis se tornavam mais ainda, mas isso contarei mais a frente.

Depois que Cassiano pegou sua condução e fui para o meu terminal, parecia que algo florescia de novo depois de muito tempo. Eu estava feliz em voltar pra casa pois tinha uma meta, havia um plano, havia uma coisa a se buscar além de coisas que estavam em uma caçamba de um caminhão.

Pela primeira vez em muito tempo eu sorri sozinho dentro de um ônibus – é bom gargalhar com outros, mas sorrir sozinho, é ter a certeza de que tem pensamentos bons em sua cabeça e que nada pode afetar isso. Sua mente está realmente construindo ou entretida em algo além do seu trabalho, o que era melhor, minha cabeça estava entretida com o meu sonho. Meus sonhos estavam entretendo a minha mente e alimentando ainda a possibilidade de ser seriamente um escritor.

E ao chegar no ponto de casa, não foi tão duro. A escuridão do caminho era clara por causa das idéias que fui forjando dentro do ônibus e foi me levando a construir um conto, a minha idéia era maior que os bêbados que fumavam maconha no meio do caminho, e dos carros sinistros que estupravam mulheres e assaltavam trabalhadores naquela hora em que voltava para Marambaia. Literalmente estava iluminado. A idéia que mais me veio a cabeça foi uma conversa que tive com o Seu Elias, ascensorista do antigo prédio do TJ, que agora tinha virado um museu. Ele me contava dos seus pequenos casos, mas que não tinham o romance que poderia ter. Pensava em uma coisa bucólica da década de trinta, quando os homens faziam chorar e ainda diziam um eu te amo, sem usar as três palavras de uma forma tão forte que romperia até mesmo o coração de um bárbaro. A estória de Seu Elias, que realmente foi um ascensorista no tribunal de justiça tinham me motivado a começar a construir um conto, mas não queria que fosse uma coisa de casos e flertes – Queria falar de uma coisa que há muito tempo não sentia: Amor, Paixão, Desejo e Saudade de quem realmente se amou algum dia e não tem mais como voltar no tempo para viver tudo de novo.

Cheguei em casa sóbrio. Já era mais de uma hora da manhã. Sabia que tinha que acordar as cinco, mas o mundo das idéias e das coisas boas que vinham como texto na minha cabeça não paravam de pairar sobre a minha cabeça. Abri o cadeado devagar, retirando com calma a corrente para não acordá-las. Tomei um copo de leite, e a fome de escrever era muito maior que a minha fome. Como era um quarto-sala, não poderia ascender a luz principal, então peguei um banquinho de madeira que tinha sido dado por um amigo meu e fui no banheiro, com uma caneta que insistia em falhar e sobras de formulário contínuo do galpão da Praça da Bandeira – em que aproveitava as costas pra Luiza brinca de giz de cera – E fui, como se um luz baixasse em mim, escrevi o conto “Andar” todo, em uma tacada só, com as minhas costas em pandarecos, dentro do minúsculo banheiro do sobrado que tinha alugado pra ficar com a minha família, em mais ou menos uma hora e meia. Mas nos outros dias ia passando a limpo alguns erros de português – coisa que acontece e muito aqui dentro do água, mas isso é porque eu ODEIO REVISAR TEXTO, porque sempre acrescento ou diminuo coisas, às vezes muito essenciais. No mesmo dia da proposta, já tinha o conto todo pronto. Estava como uma planta que precisava ser regada, para que apenas um broto se levantasse de uma terra seca que se chamava desesperança.

Guardei os manuscritos com cuidado em uma gaveta do berço que não era usada e fui deitar às três e meia da manhã, com medo de perder a hora, vi o dia amanhecer. Mas a primeira coisa que fiz, depois de tomar banho e me arrumar para o trabalho, foi pegar os manuscritos para poder passar a limpo no computador do galpão. Pelo menos não teria Paulo para bisbilhotar o que eu estava fazendo, e poderia já colocá-lo de forma digital e imprimi-lo para posteriores correções de história e de cronologia dentro do andamento do texto.

Trabalhei duro no dia seguinte, mas diferentemente, com sorriso nos lábios, muitos Serralheiros me olhavam com raiva, achando que a culpa da minha felicidade era a desgraça de Paulo, mas a minha real felicidade era que eu tinha certeza que a minha escrita tinha sido libertada de novo, como um touro que rompe uma cerca e corre por entre os campos a minha cabeça sonhava e inundava meus dias com idéias e coisas diferentes que iria escrever mais tarde em papel – que infelizmente, foram queimados pela mãe de Luiza pós-separação – Mas nada poderia destruir a mente livre que tinha agora, que poderia escrever sobre o céu ou dissertar em canções as minhas dores. Minha mente estava livre e o início da mudança da minha vida iria começar a acontecer à partir daquela noite, daquele dia, daquele convite que me fez ter confiança de que eu poderia mais do que tentar: Ser realmente um escritor.

O conto estava pronto. Mas ansiosamente, os dias passaram e eu esperava ansiosamente a ligação do Ronaldo para a reunião com os outros colaboradores, até que depois de duas semanas, eu ainda com a mesma empolgação do início ele tinha me dado a resposta: Seria sábado que vem, às 13:00 da tarde. Já tinha me preparado e colocado um rapaz para tomar conta da Lan-House para ir a reunião.


 

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~ por Água para Plantas em agosto 20, 2011.

 
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