Uma Alma Escrita – Capítulo 2 – “Há rochas entre a passagem do deserto”

Vertigo

Cap: 2

Capítulo 2 – “Há rochas entre a passagem do deserto”

Pra estranheza dos outros funcionários do galpão, chego com uma mochila, pois o habitual era sempre já chegar de jaleco e uma marmitinha embrulhada em um saco plástico – tinha três jalecos, que revezam na limpeza, quando eu o escovava de noite e pendurava para estar seco pela tarde e no outro dia usar, isso era ainda quando eu morava em um sobrado de telha de amianto – morar em um lugar com esse tipo de material, é sofrer no frio e queimar no verão – o amianto esquenta absurdamente quando é exposto ao sol. Não precisa ser um sol de verão, apenas um sol de meia estação já torna o ambiente completamente insuportável para viver ou até mesmo ficar por algumas horas, mas tinha uma filha pequena em jogo, e cedo, levantava, com uma marmita que tinha quase certeza de que ia azedar, pois a levava congelada, e até chegar ao rio – umas duas horas e meia com todo o trânsito que pegava e ainda de pé dentro do ônibus – eu praticamente não a comia. Jogava fora, inteirava algumas moedas e comia pão com manteiga no Barzinho do Seu Juarez, não tão distante dalí. Meus finais de semana ainda eram tomados por gerenciar uma Lan-House perto da minha casa, que me safavam para vender o meu vale transporte e ainda ainda adquirir um pouco de informação sobre o que estava acontecendo com o mundo – Emprego oferecido por Felipe, um grande amigo que também me ajudou muito na hora em que mais precisava. A lan-house era uma parceria entre ele e o Bruno – cuja minha relação já tinha ficado mais do que desgastada e além de aturar algumas de várias humilhações em meu trabalho braça, acordava cedo para varrer a Lan-House e lá ficava, sem remuneração de almoço até às dez da noite, às vezes, quando a clientela era grande, o horário se extendia até meia noite, pois era a única Lan-House de Marambaia e no dia seguinte, lá estava eu, às oito e meia da manhã, depois de um sábado sem descansar indo até meia noite, estava lá, para arrumar e gerenciar a loja. O pouco que ganhava já me ajudava na passagem, que vendia pra complementar a renda de casa.

E era esse pão com manteiga que seguravam oito horas de trabalho braçal do barzinho do Seu Juarez que me seguravam durante a semana, fora os finais em que comia nada durante meu turno de trabalho – só comeria à noite, isso quando tinha alguma comida pronta.

Um companheiro de trabalho me zombava muito por isso – de que adianta colar com uma mulher que não tem nem a dignidade de levantar pra por a sua comida, e ainda não fazer porra nenhuma dentro de casa – soou um pouco machista, mas das muitas vezes que eu discutia com ele, ele sempre “me deixava perder” – Não tem como vencer a ignorância, apenas com paciência, determinação se pode vencer a ignorância, mas apenas aquele que A TEM é que é realmente capaz de vencê-la. Muitas vezes quase entrei em embate físico com o mesmo, mas sempre Coronel, um peão mais velho que tinha problema na perna direita, nos apartava, e como um grande mestre, professor, convencia e conseguia ainda nos tirar boas risadas no final do dia – acho, que, no fundo, aquilo foi uma escola, tanto para quem “sabia de coisas que eles ou ignoravam ou não tiveram acesso” tanto pra quem tinha cicatrizes na vida:

Assim que eu entrei no Galpão, Paulo me deu um conselho há três anos atrás que iria mudar a minha vida:

– Muleque… Vou te ensinar a mesma coisa que o meu pai me ensinou quando eu era quatro anos mais novo que você – Como não tive pai para me ensinar, tudo que me diziam MEU PAI ME ENSINOU, eu sempre prestava muita atenção, mas era uma coisa que não era programada, era uma “ânsia interna de sorver um pouco de juízo e ter um referencial para tomar decisões” – Meu pai me dizia, que toda vez que você for trabalhar, trabalhe com raiva!

– Como assim, raiva?

– É raiva mermo… Pega com raiva um saco de cimento, por ser pesado, arruma esse entulho com raiva dos filhos da puta que fazem isso… Foi assim que eu aprendi a trabalhar e hoje eu trabalho bem… Trabalha com raiva que você vai ver que você vai render mais.

O que ele queria dizer, eu fui entender muito mais tarde na minha escrita: Não era a raiva em si, mas jogar todo o sentimento e esvaziar a mente e apenas pensar em terminar algo ou ter cumprido alguma coisa; a arte serve como expurgo de coisas que estão dentro de nós – uso isso muito em meus poemas, quando realmente não concordo com a vida ou com situações ,com outras coisas, amores, mas o sentimento, o esvaziar-se era e é o mais importante, o desaguar dos dedos em um teclado ou até mesmo uma caneta passando com rapidez a linha em um desvaziar era isso que eu iria associar depois, mas confesso, que todo trabalho pesado que faço hoje em dia, tudo que é desgastante, eu devo a esse conselho, pois me esvazio nele, e aplico meus sentimentos e força para poder executá-lo.

Perguntaram se eu ia viajar quando me viram de mochila. Dei meu clássico sorriso meia lua e disse que ia trabalhar e esperei a chegada dos caminhões – Foi uma tarde rotineira de trabalho como todas as outras tardes no galpão, caminhões de cimento, caminhões de ferragens e outras coisas de “sucata” que vinham do Departamento de Obras do TJRJ e que tínhamos que descarregar – às vezes, uns quatro caminhões antes do almoço, depois mais uns dois ou três depois do almoço – contávamos só com a consideração de um amigo motorista, o JJ, que via que tínhamos acabado de almoçar e deixávamos cumprir a nossa hora de almoço pra depois irmos pra labuta – Deixávamos sempre o Coronel um pouco de molho, porque era de idade e ainda tinha um problema na perna, mas quase sempre, depois do almoço, eu arregava… Era levado ao máximo todos os dias a um condicionamento de trabalho para ser realizado por “só quem viveu para aquilo desde muito cedo” – o pai de Paulo era mestre de obras, acordava-o a base de tapas às quatro e meia da manhã para ir pra obra com ele, e todos os dias Paulo dava tudo de si: “De chegar no final da noite, minha mãe lavar meus braços com água gelada e sabão de coco pra poder trabalhar no dia seguinte” dizia.

Eu não tinha esse condicionamento, e muitas vezes, isso deixava Paulo furioso, fazendo quase deixar cair um cano de chumbo de duas polegadas a milímetros da minha botina – Porra, vai trabalhar lá dentro vai… Entra pra quela merda… Berrava…

Duarte – O Coronel – Vinha atrás, dizendo pra ter calma, explicando que eu nunca tinha trabalhado naquilo, que eu não tinha muito preparo pra trabalhar com peso, mas ele apenas dizia ao Duarte, cê ta com pena, carrega por ele então, e gentilmente, um senhor de sessenta anos, deficiente, ia descarregando, até eu ir no banheiro, lavar o rosto, tomar uma água e segurar um choro de raiva e de incapacidade, não por não conseguir descarregar um caminhão, não por não ter forças pra descarregar um caminhão, e sim por NÃO TER FORÇAS DE CONSEGUIR SER QUEM EU QUERIA SER. Vendo que um inocente não pagava por minha falta de maturidade – Se entrasse, naquele momento, pelas esferas do “SE” estaria, ainda hoje, completamente infeliz, quando larguei a faculdade a troco de nada, quando não entendi que só teria o meu trabalho para me levantar, e ainda era um moleque a não perceber o quanto estavam tentando me derrubar, me mandando passar um serviço a uma pessoa que seria posta no meu lugar, mas que mais tarde seria despedida por incompetência e por falta de profissionalismo, Se entrasse pelo “SE”, estaria mais derrotado ainda, seria apenas e apenas “seria” como um objeto no tempo, como a concepção de NADA do Sartre… Uma das coisas que sempre penso hoje em dia é: HOJE SOU, NÃO SERIA! NÃO EXISTE “SE” EM NADA MAIS QUE EU FAÇO. SOU AS MINHAS DECISÕES E ARCAREI COM TODAS ELAS, E SEI QUE DECISÕES NOS TRAZEM FELICIDADES OU TRISTEZAS, E SE ALGUMA, A PARTIR DE ADIANTE ME DESSE TRISTEZA, TOMARIA OUTRA PARA MUDAR O CURSO E SEMPRE BUSCAR A MINHA FELICIDADE.

Enquanto lavava o rosto na hora da raiva, espantava toda a mitologia do “SE”, voltava quase chorando de raiva, segurava no ombro do Coronel e pedia pra ele ir sentar, ele ainda se fingia – no bom sentido de não tirar a meu moral – constrangido por achar que eu o estava afastando do trabalho por ele ser deficiente, mas mesmo assim, o afastava com delicadeza, e pedia pra ele tomar uma água e pegar o copo pra mim – Já voltou frozinha? Tá mais calminha? Vamos que depois eu vou dar um trato em você – Ai, eu entendi o que era o trabalhar com raiva que ele queria dizer.

Botei em prática tudo que Paulo tinha me ensinado…

Meu ódio era tanto, que com uma das mãos eu levantava o cano de aço e depois o escorava com a perna, eu o apoiava com uma outra mão para fora do caminhão, de forma que o tombava no canto certo e no lugar certo e não precisava da ajuda dele pra descarregar o cano, fazendo meio que uma alavanca, com uma perna e o outro braço o arremessava – Ele fingiu não se surpreender, mas no terceiro cano que eu fiz isso, sem contar com a ajuda de ninguém, ele tentou fazer uma vez, e o peso do cano caiu de quina em cima da rótula do seu joelho direito – o estalar, o barulho de “crock”, foi tão alto, que até o vigia foi ver o que estava acontecendo.

Mas eu ainda estava indiferente. Só queria que minha raiva passasse e tentava a todo custo e toda forma descarregar aquele maldito caminhão, sentindo mais raiva de mim do que dele, pois não era pra estar ali… Parecia um pesadelo e era um pesadelo, pois eu nunca imaginaria que isso aconteceria comigo, nunca imaginaria que isso pudesse acontecer comigo, eu sempre me ví em algum lugar escrevendo, pra alguém, aliás, de mim para alguém – como é sempre feita a escrita – e não carregando um caminhão, sendo humilhado quase todos os dias por uma pessoa que não conhecia, ou por falta de informação, oportunidade ou até mesmo por ignorar conhecimento – Senti o gosto amargo de estar sozinho no meio de uma multidão. De ir a festas de família e me sentir uma visita – coisa que sinto até hoje.

Descarreguei até o final o restante da metade de um caminhão lotado de tubos de cobre, enquanto o pessoal tentava tirá-lo de cima de lá – ele urrava de dor, tentava se levantar e não conseguia: Um caldo grosso vermelho escorria por entre a bota e sujava a caçamba do caminhão, enquanto o pessoal de um outro departamento – O da Serralheria – tentava levantá-lo para retirar da caçamba e levá-lo a um hospital – lembro até hoje, que o último cano, estava apoiado sobre a perna do joelho estourado, mas não foi por raiva, eu entrei em um transe depois da raiva e do ódio que eu sentia por ele, como acima eu descrevi, de me esvaziar e me preocupar apenas em cumprir uma tarefa, que eu pouco me importei com o cano. O puxei abruptamente debaixo de seu pé, fazendo bater com força o calcanhar da bota no chão, a ponto de se ouvir um outro estalo, um pouco menor, mas que causou muito mais dor do que o primeiro. Foi o filho da puta mais alto que eu ouvi na minha vida, até mesmo as crianças que estavam na escola, que ficava em frente ao galpão escutaram e ficaram olhando assustadas pra dentro do depósito.

Conseguiram tirá-lo do caminhão, com ele me ameaçando de tudo quanto é coisa, dizendo que eu tinha feito de propósito, que o tinha machucado e que a culpa era minha, mas, a ignorância nunca poderia deixá-lo ver que foi a forma a qual ele subestimou um ser humano, uma pessoa, que o fez ser prepotente e assim lhe proveu esse descuido. Podemos nos machucar seriamente quando subestimamos alguém ou ficamos sós, em um topo de lixo ou em uma cama de hospital, ou de quarto, assim como ele ficou durante nove meses. Sete para se recuperar e mais dois de fisioterapia, e o mais curioso: A perna que ele ficou mancando depois, ficou sendo a mesma perna que o Coronel mancava – se não me engano ou me falha a memória, a direita. Mas isso eu fiquei sabendo depois da volta dele ao depósito quando já estava em outro setor – tudo é transitório.

Durante os meses de sua licença trabalhamos, eu, Duarte e Leandro – um companheiro que veio substituí-lo – mas só fiquei no galpão por apenas mais um seis meses a mais, iria para um setor administrativo depois disso, mas com certeza, eu fui porque, não saberia, eu mudaria radicalmente a forma de ver as coisas com a reunião que eu tinha me preparado para ir desde ontem, que vim carregando roupas junto com a marmita. A FORMA DE COMO EU “PASSARIA” A PENSAR NA MINHA VIDA, IRIA MUDÁ-LA COMPLETAMENTE.

Deu a hora. Coronel ainda meio assustado comigo da forma de como eu descarreguei aquele caminhão sozinho: “Você não estava normal, não sei o que te deu”, e mais tarde, na surdina, em cochicho com o vigia, ouvi ele dizendo: “…não é possível, ele deve ter cheirado alguma coisa Marcelo”… Eu apenas ria – sempre tive uma certa fama de drogado por ser imprevisível, apoiar opiniões até a favor da legalização das Drogas e a ter pensamentos divergentes da normalidade – mas isso seria um outro assunto –  por ser explosivo e completamente mutante, fama que eu acho até um certo ponto glamorosa, e deixo ela escorrer por entre meus cabelos e minha escrita. Depois disso tudo que aconteceu, eu estava realmente muito mais calado que o normal. Fui seguindo calmamente até o banheiro da Serralheria – setor que ficava ao lado do galpão que também pertencia ao tribunal – mas fui surpreendido pelo encarregado: Você não pode tomar banho aqui.

– Porque?

– Aqui é todo mundo irmão. A gente não aceita trabalhador que sacaneia trabalhador, a gente ficou sabendo que você arrebentou o joelho do Paulo na hora de descarregar o caminhão, e outra, a gente até ia te dar um coro, mas seu Pedro não deixou porque ele não gosta do Paulo e falou que quem te encostasse do dedo seria rua ou coisa pior, mais daí a gente falou, pra cá ele não vem mais…

Não disse nada. Não iria me explicar. A minha fama era de playboy e de viado dentro do canteiro de obras – por causa do Paulo – mas, porém, a minha fama com o Seu Pedro era muito boa, ao contrário do Paulo que sempre negou qualquer tipo de ajuda ou auxílio a ele quando ele pedia, eu sempre fui solicito e aos poucos tinha ganhado a amizade dele, no dia seguinte, voltei a Serralheria, mesmo com todos me olhando atravessado dizendo pra eu ir embora de lá, eu entrei na sala do Seu Pedro, apertei a sua mão e lhe dei um abraço dizendo obrigado por ter me defendido: “Eu tenho certeza de que você não fez aquilo de propósito, mas mesmo que fizesse, seria bem feito… Ele pensa que é dono daquela merda e não é….” Mas tarde, Coronel iria dizer realmente o que tinha acontecido, ele foi o único que realmente tinha visto o que tinha acontecido, diferente do que Paulo ia gritando em acusação enquanto ia para a dentro de um carro para o hospital. Coronel foi um pai pra mim ali naquele galpão. Desmentiu todo o acontecimento, a ponto, de alguns de Serralheria, virem me pedir desculpas e serem meus amigos depois. Fora que o Seu Pedro, voltando a falar nele, não era “um simples patrão”, ele era e é foda, dentro e fora do trabalho. Ele é considerado tanto com gente que não presta como com gente que presta, então, uma ordem do Seu Pedro não era uma simples ordem, era quase “um voto de fé”, pois contrariar Seu Pedro, seria no mínimo rua – apesar de ser humano e atender as reivindicações de todos os trabalhadores, e famoso pela sua “festa de Departamento de Final de Ano” que dava desde Desembargador, Policial do Bope – que na época a gente nem sabia o quanto era “astuto” ser um – Policial Federal, Civil e fora umas outras pessoas que chegavam com um carro completamente diferente, com um cordão de ouro com a espessura de meu dedo médio, mas sabia ser cruel e vingativo com qualquer um que sacaneasse um “dos seus”.

Mas agradeceria a Seu Pedro muito depois… Agora era a vez do banho… Como iria tomar banho?

Voltei com a minha mochila e meu jaleco sujo de volta pro meu departamento

Não sabia o que fazer, mas fui tomar um café e fumar cigarro no Bar do Seu Juarez pra tentar me acalmar de tudo, daí, eu vi uma menina saindo do expediente de cabelos molhados e não pensei duas vezes em pedir ao Juarez, dono do barzinho onde tomava café, se poderia tomar banho lá… Sem pensar, voltei, peguei a minha mochila e tomei banho lá…

Tranquei o depósito e fui em direção a Leopoldina, pela primeira vez, feliz em voltar para um lugar – Já constatando que não era mais feliz ao voltar pra casa. Embora meu amor ser enorme por minha filha, não era feliz a voltar pra casa há alguns meses. “Olha ali Luiza, o seu pai na televisão”, me apontava um dedo que não veria mais dizendo a minha filha que era o Faustão, isso era quase que diariamente, então, era eu, esse homenzinho que voltava ao trabalho, que voltava pra minha casa e sofria a mesma coisa que sofria na escola, que não tinha nada, que agradecia o nada que tinha e não sonhava, pois pensava que a vida realmente era um grande simulacro, como na letra de “A Day in the Life”, já estava tudo previsto pelo homem, ele lia em um jornal em um sonho sobre um acidente de ônibus, que mais tarde acordaria e seria ele o acidentado ( ele escovaria os dentes, faria tudo conforme um trilho que já tinha se trilhado e não podia ser mais nada além do que aquilo que não poderia realmente ver além de “alegorias” em uma fantasmagoria onde as sombras lhe indicavam o caminho das imagens.

Mas duas coisas agora me aliviavam agora – Iria me encontrar com dois grandes amigos, o Ronaldo Santana e o Cassiano e saberia que no dia seguinte, não teria que aturar, e por um bom tempo, os insultos de Paulo. E, principalmente, voltaria tarde pra casa, e encontraria todos dormindo.

(continua)

Anúncios

~ por Água para Plantas em agosto 9, 2011.

 
%d blogueiros gostam disto: