Uma alma escrita…

Epílogo:

 

 

Asseguro a todos os leitores que toda a história do compêndio “Vertigo” é baseada em fatos reais que aconteceram comigo. Nenhum desses relatos são fictícios, algumas partes apenas não foram contadas, pois o seu desdobramento iria levar ao leitor muito longe daquilo que eu quero contar: Como consegui realizar três de meus sonhos: Recitar em público poemas meus, ganhar como artista e tocar minhas próprias músicas com independência de músico solo.

É óbvio que isso não se deve apenas a mim. Tive grandes amigos que sem eles não seria possível nada disso – de antemão, os agradecendo – amigos que citarei no meio desse conto, macro conto, sei lá… Contarei a história da realização desses três sonhos, ainda faltam uns dois e depois peço a Deus o gozo de estar com eles, pois como irão ler abaixo, nunca poderia imaginar que realizaria esses três sonhos. Tive muito apoio desses grandes amigos, cada nome citado foi importante na realização desses sonhos, as outras que apenas faço uma menção “ an passant” fizeram o contrário – Tentaram de todas as formas me iludibriar com uma realidade infeliz que construíram para as suas próprias vidas. Agradeço a todos os amigos dessa jornada que me realizaram esses três sonhos, diria até, que poderia morrer com uma grande satisfação, assim como Moisés se satisfez apenas em “ver” a terra prometida – como um alívio que Deus o deu de que não estava tratando com mentira ou leviandade a Moisés.

Uma alma estranha vaga por entre as escritas, como um eclipse, estou encapuzado e de mãos atadas ao tédio e a uma mesmice que ronda divagar, e como uma mímica francesa, quando achava que tinha achado meu ninho, fui empurrado de forma abrupta a um lugar onde os malditos também se encharcaram de lama.

Nanã criou os orixás da lama, Deus, do barro e a graça da flor de lótus nasce no lugar mais fétido e quanto mais fétido ela brota, mas sempre me reiventei – quando achava destruído, algo me levantava e me punha de pé, de volta a uma esquina desconhecida, conhecendo desconhecidos, que mais tarde, seriam grandes amigos – fofocas se confabulam, tomo ombradas e cutucadas de indivíduos invisíveis – incubus que sugam das mulheres o seu melhor depois as descartam como se fossem peles de almas mortas, mas antes, a cercam para que outro, não possa ao menos se comunicar.

Meu estágio assexuado me preenche de gozo ao perceber que não preciso ser descoberto ou conjecturado e nem de outra pessoa pra ser feliz, pois eu sou meu gárgula, sou uma estátua quando quero e quando não quero me movo como um vento, me faço vento, e me reinvento, do pó de algumas cinzas que deixo para trás ao balançar das minhas asas de fogo – todo o levantar da fênix tem a ver com uma vendeta ou uma vontade de voar.

Depois de uma anemia incrível que me indispôs de quase tudo – me arrastava ao trabalho e pouco fôlego tinha a escrever, não tenho outra coisa a não ser dizer que aos piores profetas sentiram pânico, insegurança e medo. Não sou um profeta, nem tão pouco poeta – desses classicistas, que fazem poesia métrica, que se disfarçam sobre sombras do que foram e não usam a sua bagagem, a sua vida e a sua dor na escrita – O que seria de Baudelaire e Rimbaud se não fosse o sofrimento? Pois a verdadeira alma de poeta vem de uma busca incessante por revelar uma verdade que é subjetivada através de matáforas românticas, verdade que é e faz parte de sua “subjetividade e incapacidade” de entender a si e ao que o cerca, então, como esse tal de egocentrismo pode caber em poemas? Fernando Pessoa se dizia um fingidor por ter muitas fases, por ter muitas fases e assim, não lhe descrevia apenas uma pessoa, era uma miríade humana, que também sou, a se traduzir constantemente ao mundo, ao se adaptar usando um esoterismo de auto-conhecimento que fazia voar. Mas até hoje, poucos tem o naipe de Pessoa, mas se fazem do mote “fingidor” e viram uma farsa.

Incrivelmente, ao terminar de ler a parte da biografia da Patti Smith, descobri que o seu intuito principal era ser poeta, e não cantora, e que a sua música sempre foi tocada instintivamente, talvez, uma das primeiras artistas a usar esse artifício, fundindo arte escrita a uma linguagem musical – sim já havia o Doors – Mas Patti tinha a gana de quem “queria dizer alguma coisa e assim dizia e diz”.

Ganhou o meu respeito e o que ela faz é o meu grande sonho-  criar atmosferas de palavras, de sons, de cores, de movimento que se mesclam com outras formas de arte, com outras formas de expressão. A música é rica quando ela expressa alguma coisa, quando ela foge do simples e vai pra uma coisa mais densa e conceitual.  Mas esses capítulos e partes que contarei no meu blog se determina no começo de como tudo aconteceu: Do nada, ao acaso, mas com a força de grandes amigos.

No meio do barro nasce vida. Em uma esquina é uma outra oportunidade, então porque tanto medo? Que tanto receio é esse se expor? Chegar e dizer o que eu posso fazer, mas no meio de tanto desespero, lembrei de como minha escrita foi ressuscitada, e após um show – que só de me colocar de novo em cima de um palco me deu esperanças – Olhei para as cicatrizes da minha alma e decidi renascer e me reformular, remodelar tudo e começar tudo de novo!
E tudo começa a começar de novo. É só olhar pra trás e ver o tanto que já percorreu! Aprendi que o que movimenta a todos os seres humanos são os seus sonhos, as suas vocações, e com uma pequena mão amiga, renovei a minha auto estima como artista, como ser humano, e como homem,  que estaria a ponto de ser drasticamente mudada, naquela época, conto agora o que me fez “levantar” de uma lama bem grossa e ser corajoso ao correr – com os mesmos pés no chão que tenho a ir atrás dos meus sonhos, pois aquele que deixa de sonhar, não é mais um homem, e sim, um marionete afetado pelas circunstâncias da vida.

O nome do conto se chama: “Uma alma estranha a vagar por entre as escritas” – no que se refere a sentimentos contrários que vencemos durante a reflexão da execução da escrita, mas a dividi em fases como: “Vertigo” e entre outras, para dar a impressão ao leitor do real momento em que vivia enquanto passava por certas situações.

Aproveitem a leitura. E espero que ela acrescente coisas positivas em suas vidas!

Evoé!

Que a paz de Deus reine em seu entendimento e em sua leitura!

 

 

 

Agradeçimentos – Em ordem cronológica, mas não em ordem de importância sentimental: Deus, Minha Mãe, Minha filha – por me dar equilíbrio emocional,Felipe Rocha, Cassiano Ricardo,Anésio Jr, Luís Bardo Ronaldo Santanna, Viviane Princival, Pakatto Henrique,  Rodrigo Santos, Romulo Narducci, Kleber Murilo Peres, Thiago Alecrim – meu eterno parceiro de guitarra e violão, Leandro Ribeiro e a todos os outros amigos que sempre me disseram que eu tinha algo especial.

Vertigo

Cap: 1

 

(…)” As casas. Caminho entre as casas, no meio da rua, muito direito: sou. Por baixo dos meus pés a rua existe, as casas voltam a fechar-se sobre mim, como a água se fecha sobre mim, sobre o papel em montanha de cisne, sou.

Sou, existo, penso logo sou, sou porque penso, porque é que penso?

Não quero pensar mais, eu sou porque penso que não quero ser, penso que…porque… Safa! Fujo, o ignóbil indivíduo anda a monte, o corpo violado (…)”

                                                                                                                                       A Náusea – Jean Paul Sartre;

Pág:174 – parágrafo 5º

Dedico esse textos – ou pequeno conto biográfico – a minha mãe, que me ajudou nos momentos mais difíceis da minha vida e ainda ajuda. A Ronaldo Santanna e principalmente a um amigo, Cassiano Ricardo, que me fez ver que eu ainda poderia escrever e até mesmo sonhar. E ainda a Lulusinha da minha vida, minha filha

 

Cápitulo 1 – “Ó voz que clamas do Deserto”

 

Estou escutando nesse exato momento a música que me fez pensar em desistir de tudo, dos meus sonhos e até da minha vida, há sete anos , quando eu pensei em uma tradução “literal” da canção – pensava de uma forma errônea, achando que tudo era apenas uma conclusão de decisões, predestinações e cálculos com resultados definidos. Eu tinha ciência da tradução dessa letra, apesar de não dominar o inglês, mas me peguei a pensar nela, interpretá-la há uns sete anos atrás, quando voltava com as mãos cansadas e calejadas de usar uma luva de lona grossa e uma bota que sempre esfolava o calcanhar – o intuito do empregador nunca será manter a integridade do empregado, a vida é assim desde as pirâmides,pensava – usava um jaleco, suado, completamente cansado,  e estava com uma sacola de plástico gigante cheio de pacotes de fraldas das Lojas Americanas, de algum lugar entre a Tijuca, Maracanã e uma intermediação de bairros que não sabia onde era – Luiza vai nascer – sempre vinha esse pensamento na minha cabeça e começava a estocar fraldas, a pensar em berço, a pensar em como ela iria ser, se iria nascer… Eu começava a pensar e pensava e não parava um segundo sequer de pensar em coisas que não eram positivas – Não tinha uma escora, não tinha um pai, não tinha um referencial a perguntar e se questionasse os meus atos à minha família, com certeza um dedo em riste se colocaria em meu rosto de iriam me culpar dos meus desastres, das minhas opções e de tudo que acontecia em minha vida – A vida não vem com manual, mas às vezes tem amigos mais experientes como eu que, às vezes, podia contar com uma mão e lhe ensinar algumas coisas – Lembrava do que dizia Coronel, um senhor que tinha uma deficiência em uma das pernas e que me dava algumas vezes conselhos pra minha vida, mas ele não era meu pai, tem coisas que só alguém com responsabilidade moral suficiente pode falar pra você, e esse papel tem que ser feito por um pai – Não houve ninguém na minha vida pra tentar me falar dessas coisas, algumas pessoas se candidatavam, pessoas com uma falsa moral e  apenas um ombro curioso de quem quer saber o que esta acontecendo em sua vida, mas nada para ajudar, apenas para estudar um ramster que tinha saído de uma jaula circular e estava perdido pelo laboratório – tinha se misturado com outros ratos diferentes de um esgoto próximo e por conta própria, arrumou uma prole e estava arrumando sozinho comida e abrigo. E rodava em outra roldana.

Era apenas isso, além de ser um homem sujo, de aspecto desapreciável, com um uniforme sujo e fétido de quem trabalhava em um galpão que era feito para estocar entulhos e restos de obra. Estava voltando pra casa com outros ramsteres. Via nos olhos de cada um os meus olhos. Um a um com um “Game Over” na testa, mas não tinham mais fichas pra escolher um outro lutador, ou tentar jogar mais uma vez – Não eram mais crianças, adolescentes e a vida tinha sentenciado a viver um trabalho, uma rotina que não era o que realmente tinha pensado a ser. Éramos ali, em uma caixa de sapatos, controlados a distância pelos nossos contracheques, amordaçados pelas nossas necessidades e não importa realmente quem esteja sabendo ou não as tramas do Mundo ou sobre a importância de Oswald de Andrade*, todos estávamos no mesmo lugar, pessoas de terno, sem terno, de jaleco, de jaleco limpo, de jaleco sujo, sem jaleco, ouvindo funk, pagode, samba ou até mesmo um rock, éramos todos ali, no mesmo esquema, dentro de um ônibus rodando a roldana e eu com um MP3 de pilhas a repetir incessantemente “A Day in the Life” dos Beatles me perguntando: “Era pra ser isso, era isso que Deus queria para minha vida?” Era pra eu ter a minha filha, mas como eu não consegui ver que era isso, vagava triste sem mais sonhar e achava que já tinha acabado toda a expressão da minha escrita e das minhas músicas. Me castigava por uma falsa resignação cristã e tinha muito receio e medo de sair dessa roldana, ouvia falar que devia obediência aos meus superiores – os mesmos que me exploraram e exploram, os mesmos que me colocaram em um lugar que pegaria uma doença terrível e assim não poderia questionar nada em minha vida, “tudo era obra de deus”, “não reclame, dê graças a deus pelo que tem, tem gente com muito pouco e que não tem o que você já comprou pra sua filha” isso era dito em um púlpito, recitado, copiado, mimetizado e forjado em bocas de pessoas que não conheciam a vida, não tinham estudado, e apenas estudavam o comportamento de um grupo de pessoas e depois usava uma analogia, que as prende em prisões invisíveis – somos todos culpados, imperdoáveis e inescrupulosos em nossas vontades. Meu senso de responsabilidade com as coisas e as necessidades da minha filha eram tão grandes, que graças ao Felipe, tinha conseguido arrumar um emprego como gerente em uma Lan-House perto onde trabalhava.

Esses eram meus pensamentos. Esses eram os meus pensamentos sem sonhos. Agradecia por ter um emprego que me esfolava, por um final de semana trabalhado e me tornava cada vez mais medíocre. Enquanto rato, diminuto e sujo, voltava pra casa, agradecendo e pedindo a Deus que minha vida continuasse que meu emprego fosse sempre ali, porque era aquele local que deus tinha me dado e assim achava. Assim eu me trancava em “simulacros”, e rodava como muitos uma roldana mental, um psico-drama diário que eu me enclausurava na minha rotina (meus sonhos eram pecaminosos, não poderia mais ser o rock star que sempre tinha sonhado ser, afinal de contas, era gordo, feio, maltratado, e me sentia uma das piores pessoas.

Medíocre é o homem que se deixa guiar sobre sombras, com fantasmagorias e se deixa levar por egrégoras de pensamentos contrários, por comentários de terceiros, por forças negativas de pessoas que não tem nenhum embasamento, que são como zumbis, mas piores são os zumbis que também são vampiros, que querem viver como zumbis e te levam a ser como um, a entrar na roldana do ramster e ser sempre a mesma coisas, a esperar um apocalipse, a volta de quem talvez nem queira voltar mais, e ainda cruza os braços para seu próprio sofrimento, o que dirá ao sofrimento alheio?!

Medíocre é o homem que vive uma infelicidade por uma crença. Medíocre é o homem que pensa que Deus é esse monstro sádico e idiota – a balbuciar de uma falácia sem estrutura intelectual nenhuma, usando analogias com conclusões completamente deturpadas, quando o que é realmente sagrado é simplesmente amar. Vivem a falar sobre sua vida, a dissertar sobre um conhecimento psicológico cujo embasamento vem de telenovelas – e ainda é guiado por esse mesmo, como um outro que é lama nos pés do medíocre, mas a alma, de tão pobre e podre, ainda se guia por essa mente, que é mais cativa que a mesma que não a questiona, apenas pega a sua condução, anda, volta, vai a onde tem que ir, volta para onde tem que voltar, volta para onde devia ir ou vai para onde tem que estar na hora certa que deveria estar, mas não vai pra onde quer, não quer ir para onde poderia estar e não se sente bem não indo para onde quer ir. A covardia, a árdua covardia é medida pela quantidade de notas que tem em seu bolso, que lhe impede de gastá-las ou não. A covardia também é medida pelo controle social de instituições, cujos homens se valem de um livro preto, criam estúpidas analogias dizendo que “é a palavra de deus” e que deus falou com ele – Se Deus é Pai de todos, porque só falaria a poucos? – Ou a covardia por não fazer nada por não ter dinheiro nas mãos ou apenas ser feliz por tê-lo. Ou por quantas estrelas tem em seu cheque, ou com quem andas, mas medíocre é o homem que se vale disso, pois não sonha, cobiça, levita seu ego ao maior dos altares, pensando que é deus, mas é apenas – “O ramster mais inteligente do laboratório”.

Mitos fofocas ou falsas idéias são alimentos e vitaminas para a Mediocridade. Medíocre é o homem que toma a crença por conhecimento. Medíocre é o homem que não aprende com seu sofrimento, e ainda esconde suas cicatrizes e ainda sofre por elas. As cicatrizes são presentes da vida! Medalhas do nosso manto chamado corpo que nos reveste de coragem e honra a dizer: “Eu fui até o pior lugar da minha “existência” e voltei, mas não o chamo de inferno, porque maior que todo o inferno é minha determinação e vontade de ser maior que o que pensam de mim e do lugar onde estive”.

 

A mediocridade me fez vagar por três anos no galpão…Não era mais nada, não pensava em ser mais nada… Rodava a roldana da rotina, apenas isso…

 

Os acontecimentos abaixo, aconteceram DEPOIS DE TER A TERRÍVEL SUSPEITA DE CÂNCER NO PULMÃO, QUE COMO ESCREVEREI MAIS TARDE, FOI A MAIOR PROVAÇÃO DA MINHA VIDA. – ainda me falta coragem para reviver o sofrimento que eu e minha mãe passamos, mas eu tenho que contar isso aqui algum dia.

 

Três anos depois ainda sendo um rato:

 

Eu era um rato a voltar do trabalho. Era um ser diferente daquele que pensava que seria. Eu era as minhas necessidades e as minhas necessidades viraram um temor incrível – tinha medo de Deus, medo da minha mãe, medo de cair e não ser mais aquele que seria ou que poderia ser (voltava sempre a conjecturar o simulacro de “A Day in the life”) tinha medo do Diabo e de voltar pra casa. Tinha um MP3 que me dava uma autonomia de me afastar nesse universo, o único refúgio eram as canções que me vagavam a dar um sentimento de liberdade e um celular que poderia me comunicar com um mundo, aliás, o mundo poderia, menos eu – nunca tinha crédito o celular…Uma certa vez, quando não havia mais esperança, uma ligação de uma voz que sinceramente, por não me ligar mais, eu tinha perdido completamente o senso do que seria ele essa voz – Era Cassiano, a me perguntar onde estava. Cassiano poderia ser meu melhor amigo se não tivesse um comportamento social bem atípico. Até hoje – até a data dessa postagem – eu não sei nem o nome de sua mãe ou sequer pisei na soleira de sua porta, mas estranho, pois sempre era a primeira pessoa a me colocar pra baixo, estranhamente, me colocou pra cima.

– Onde você ta cara?

– Não estou escutando direito – meu celular era uma merda, contrário do que sempre foi o dele com relação ao meu…

– Cara, eu e o Ronaldo, estamos indo conversar sobre um projeto interessante cara, faz o seguinte, vê onde você ta, volta pro centro de Niterói, que a gente vai conversar sobre isso e queria que você fizesse parte

– Cara, estou meio atolado aqui, meio cansado, já to na final da alameda… Mas é sobre o que? Tem como adiantar? Nem tem nem mais como eu descer, eu já passei do ponto pra voltar pro centro de Niterói.

– Tudo bem… Cara é um lance muito bom e não pensei em outra pessoa pra chamar a não ser você. A gente pode fazer uma coisa, marcar pra amanhã, daí a gente pode conversar sobre o que vai acontecer e ver o que vai fazer – Uma das piores coisas pra mim é esse “agrado” em fazer uma surpresa, guardar segredos, ter uma vida oculta de que Cassiano tem… Isso é uma coisa que realmente me irritava, mas estranhamente, como irmãos, era uma coisa que de tanto tempo com a convivência eu passei a entender a sua natureza e REALMENTE não esperar que ele sequer mudasse, pois sabia que era de bom intuito, e que se eu FORÇASSE ele a falar, perderia todo o sentido pra ele depois, em ver a reação de bom agrado que seria em escutar uma boa notícia, depois passei a entender e de certa forma aceitar – quase como um gostar simpático, toda essa aura de suspense que criava às vezes em cima de um assunto mais trivial possível – Mas realmente seria grande, externa e internamente falando….

– Ok Cassiano. Onde a gente pode se encontrar? – Não podia conversar muito ou estender a conversa, o ônibus realmente estava me irritando, pois além de carregar dois pacotes de fralda, estava de pé e uma mulher estava a me olhar de cara feia toda vez em que um pacote apenas esbarrava em sua perna – era um pacote de fraldas, não era um pacote de arrebites pontudos, não entendo até hoje o porquê da sua irritabilidade, mas depois foi bem recompensada.

– Em frente ao Índio pelado porra! – Cassiano gritava…Meu celular realmente era uma merda.

(No centro de Niterói, em frente a estação das barcas, existe uma estátua de um mártir pra história de Niterói, que por esquecimento, me desinformei de sua importância para o município, virando apenas um referencial nosso de turma como ponto de encontro se “Em frente ao índio pelado”, por Arariboia ser um índio, e estar a sua estátua em frente as barcas só de tanga, a olhar para o outro lado da baia, a dar as costas a Niterói)

– Aparece lá umas sete valeu?

– Cara, vou sim. Um tempão que a gente não se encontra, eu vou mesmo! Mas não tem como adiantar o que vai ser não? – A minha vida andava tão atribulada e tão “ruim”, porque realmente, se não fosse uma boa escolha ir lá, eu realmente não iria e não teria como alguém me trazer de volta desse roldana – estava lavado cerebralmente a ser resignado em viver aquela vida “casa e trabalho” e ser completamente escravo desse sádico deus…Enquanto isso, a mulher balbuciava palavras de descontentamento, por praticamente um bolo de algodão fazer uma leve pressão em sua perna – Qual deve ser a quantidade de quilogramas força que um pacote de 60 fraldas da Turma da Mônica, tamanho M pode excercer em uma perna de uma mulher sentada? Não sei, por se tratar de um “esbarrão”, creio que 0,0005 miligramas força por esbarrão, creio que o efeito poderia ser apenas de uma cócega, como o passar de uma pena por entre as narinas pra forçar o espirro…

– Ok… Mas você vai vir mesmo né cara….

– Cara, eu vou ver – Tinha entrado em uma misantropia crônica por conta da gravidez precoce, nascimento de minha filha e das responsabilidades que teria de agora em diante com a minha filha…Tinha medo e vergonha de ir pra rua…

– Cara, você não pode estar fora dessa, esse lance é pra você mesmo meu camarada… Se você não vier com a gente, pode esquecer cara, não te chamo pra mais nada – Cassiano e seus ultimatos…

Achei estranho porque nunca insistia em alguma coisa, então, eu voltando do trabalho completamente exausto e sujo, me pus a sonhar no meio do caminho, a pensar no que seria e no meio desses devaneios, uma senhora completamente mal educada, me desperta do meu estreito sonho, quando raramente sou dotado a sonhar – sonho pouco ultimamente, não lembro de meus sonhos, acho que pode ser culpa dos fortes remédios que tomo pra dormir:

– O senhor não está vendo que está me incomodando a viagem inteira com essa trouxa que está trazendo? Pelo amor de deus, me deixa viajar tranqüila, merda de gente incoveniente…

Tinha pensado instantaneamente de como o meu dia foi cansativo e o quanto eu tive que andar pelas intermediações do bairro da Praça da Bandeira até achar uma das Lojas Americanas pra comprar as fraldas para Luiza… O quanto esperei na fila. O quanto as pessoas faziam caso de desdém por causa do meu mau cheiro após trabalhar o dia inteiro dentro do almoxarifado de sucatas, carregando e descarregando caminhões de entulho, de cimento, de tijolos e a tarde, depois do almoço, ainda ajudava a ensacar pedra e areia para poder levar até a capital para a obra. Como uma pessoa dessas não pode ter um pingo de respeito com isso? – Antigamente, não conseguia aceitar a natureza hostil que todos temos, de não olhar alguém que realmente precisa de ajuda e ajudar – eu apenas fiquei pasmado com aquilo tudo que aconteceu, pois estava cansado, já tinha esperado por uma hora o ônibus e como uma síndrome de Tourete, eu comecei a xingar e dizer que a mulher não tinha noção o que tinha passado durante o dia, e ainda reclamava que um embrulho de fraldas – mesmo vendo eu, um trabalhador, que estava claro que era, pois voltava com o próprio jaleco para casa, não tinha lugar para guardar roupa e nem para tomar banho no almoxarifado onde trabalhava – por fofoca do Paulo, era hostilizado por toda Serralheria, por ter cabelos compridos e falar pouco, ele me rotulou como viado, ou então como dizia freqüentemente “frorzinha” –  então, não tinha muita escolha a não ser ir sujo… As outras pessoas ficaram tão transtornadas, pois viam o meu cansaço e viam a forma burguesa da mulher de exigir coisas que eram impossíveis para um ônibus lotado e pra um trabalhador que vinha com mantimentos pra casa – pois lotado, eu não tinha nem um pouco de apoio a me segurar em nada, então, um outro trabalhador como eu, me cedeu o lugar, e ainda disse alguns desaforos a mulher, que de tão indignada e envergonhada, desceu chorando no próximo ponto na descida do final da alameda. Estava tão exausto, que até mesmo na hora de me envergar para tomar o acento, as minhas pernas tremiam e eu sofri de cãibras que só pararam meia noite, depois de tanto rezar – não tinha remédios, tudo que tinha era comprado para Ana Luiza.

Mas no meio desses espasmos de cãibra, meio que como um cansaço e estafa mental, eu decidi que iria no dia seguinte encontrar com Cassiano. Queria saber realmente o que ele tinha a falar para mim, cuidadosamente, enquanto a cãibra ainda afetava a minha perna, fui no minúsculo armário do sobrado onde morei com minha filha e catei algumas roupas boas para ir ao encontro de um amigo, me distrair um pouco e pensar “na tal proposta” que com insistência ligava para convocar a minha presença.

Seria um longo dia. Eu procuraria um local para tomar banho depois do trabalho e partiria a me encontrar com ele e o Ronaldo no “Índio pelado”.

*Concluí que “A Day in the life” não fala de derrota, e sim de simulacros, que por uma ignorância incrível não conseguimos romper o rumo de certas horas de nosso barco, mesmo sabendo a proximidade de nosso naufrágia, mas não sei por que, ao compreender isso, a vontade de viver, conhecer outras pessoas e correr atrás dos meus sonhos tinha se tornado viva de novo, graças a um grande amigo que me ensinou, me fez ver que eu poderia ainda escrever e romper com esse dito “destino” na qual os ignorantes se lançam a justificar a perda de sonhos, propostas de mudar a vida e serem felizes.

 

A Day In The Life

The Beatles

 

Composição: Lennon / McCartney

 

(sugar, plum, fairy… sugar, plum, fairy.)
I read the news today oh boy
About a lucky man who made the grade
And though the news was rather sad
Well I just had to laugh
I saw the photograph

He blew his mind out in a car
He didn’t notice that the lights had changed
A crowd of people stood and stared
They’d seen his face before
Nobody was really sure if he was from the House of Lords.

I saw a film today oh boy
The English Army had just won the war
A crowd of people turned away
But I just had a look
Having read the book, I’ve loved to turn you on…

Woke up, fell out of bed,
Dragged a comb across my head
Found my way downstairs and drank a cup,
And looking up I noticed I was late.

Found my coat and grabbed my hat
Made the bus in seconds flat
Found my way upstairs and had a smoke,
and somebody spoke and I went into a dream

I read the news today oh boy
Four thousand holes in Blackburn, Lancashire
And though the holes were rather small
They had to count them all
Now they know how many holes it takes to fill the Albert Hall.
I’ve loved to turn you on.

 

 

(Continua)

 

*colocar fotos do arariboia e fazer uma montagem com um labirinto.

*Citei Oswald de Andrade no texto acima, pois é um dos homenageados da FLIP de 2011, que não participei por falta de dinheiro, humor e saúde – atravessei uma anemia muito forte, como alguns puderam ler na outra postagem.

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~ por Água para Plantas em julho 20, 2011.

 
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