Todos os caminhos levam para casa – Parte III – Final

 

Todos os caminhos levam para casa

Parte III – Final

“Digo apenas o que eu percebi. Os conhecimentos podem ser transmitidos, mas nunca a sabedoria. Podemos achá-la; podemos vivê-la; podemos consentir em que ela nos norteie; podemos fazer milagres através dela. Mas não nos é dado pronunciá-la e ensiná-la.”

Herman Hesse – Sidarta

Para Cassiano Ricardo
Porque foi o único que me disse que eu ainda podia escrever, quando ninguém mais acreditou nisso, nem mesmo eu.

Crucifica-o!

Mais tarde viria entender o que isso era…

O sonho que vinha constantemente tendo, era com a crucificação de Cristo, mas o que isso tem a ver com a minha filha, acho que no final eu conto!

E meu desespero era tão grande, que não entendia o porquê disso, o porquê da vida, de estar em um depósito trabalhando em um serviço braçal que me dava apenas o sustento. Mal dizia a Deus até mesmo pelo meu sustento porque achava que se fosse pra morrer sem ter nada, prefiria ser negado até mesmo a opção de sonhar, de querer alguma coisa.

Era uma época em que o desespero falava pelos meus poros. O desespero me pedia ajuda e gritava por entre o meu corpo. O desespero suava o jaleco e onde andava eu não via sentido em nada, não via sentido no que eu fazia e nem na forma eu que eu estava vivendo. Às sete já estava no sol, cavando um montante de areia. Nós do Depósito da Praça da Bandeira tínhamos que chegar mais cedo para encher sacos de areia e de pedra, para ainda carregar em uma Kombi que iria para o Tribunal. Essa era uma das nossas cotas diárias de vários trabalho que tínhamos lá dentro, e um deles era de sempre chegar cedo para cumpri a cota de estoque de sacos de pedra e areia para levar para o centro do Tribunal do Rio para os diversos serviços que eram feitos lá.

Andava uma grande distância, de onde era o ponto até a minha casa. Sentia outros trabalhadores que andavam comigo, subindo o morro até chegar ao rio onde era o trabalho deles, pude sentir que também carregavam as suas marmitas em suas bolsas e pastas. Havia uma quentura inexplicável em ver aquilo. Em saber que a honestidade acordava cedo e impulsionava várias pessoas como eu a trabalhar, a ganhar uma vida honesta, mas o que impulsionava a ir trabalhar era a certeza da falácia dos outros, do coro dos derrotados que queria ver a minha cabeça e a da minha mãe na merda, mais ainda sim, no fosso, eu andei muito, mas muito…

Essas caminhadas eram intercaladas com a casa da mãe da minha filha, e quando era a casa dele, a minha distancia do ponto até a casa dele dobrava em equiparação com a da minha mãe, andava muito até chegar ao asfalto, mas ia, a mãe de minha filha me ajudava a carregar a cruz também, me acordando cedo, mesmo com uma barriga enorme, mesmo por não conseguir dormir pela falta de posição por causa da barriga, ela acordava cedo e fazia minha marmita – mesmo não sabendo que mais tarde não a comeria, ou porque iria azedar por causa do longo trajeto até o trabalho ou porque um rato morador da estufa iria se atrever a tentar abrir a tampa – Mas, como em um tom de resignação, eu não diria nada a ela, diria que a comida estava satisfatória e que eu estava me alimentando muito bem lá.

O ônibus vinha lotado. Não sentava em nenhum trajeto e ainda teria que trabalhar de pé até meio-dia, e que ainda teria que carregar muito peso até fechar isso. Estava muito confuso, várias vezes eu saia andando até a Tijuca chorando na rua, não tinha outro lugar para chorar a não ser pelo caminho de um lugar que eu não conhecia. Certa vez, encontrei Hare-Krishnas nas ruas, peguei um papel, tentei ler alguma coisa, mas não conseguia: Não podia aceitar mais nenhuma idéia do que fosse superior ou aceitar qualquer tipo de consolo, pois acreditava que o consolo de minha vida teria que ser a minha vida mesmo, não que eu o fosse, mas que novos hábitos ou a cultura de resignação que era pregada e postulada em uma comunidade cristã que eu visitava iria me fazer aceitar a minha vida.

Mas com o tempo, fui endurecendo o meu coração e até mesmo deus tinha ido embora, a ponto de perguntar até mesmo a coisas que me cercavam se eles me responderiam, cheguei uma época em que mentalmente conversava com as pedras perguntando respostas pelo ponto que eu não estava mais feliz com nada, pelo ponto que a vida estava tão sofrida que não tinha esperanças nem mesmo na fé.

Mas, muito mais tarde, iria ver que Deus não era masoquista e que tinha mesmo era que procurar a minha felicidade, saberia que os dedos que me apontariam mais tarde iriam cair por terra, então, andei simplesmente e segui apenas a minha intuição, e passei a não culpar mais a Deus por decisões que eu deveria tomar.

Uma hora, perecida como quando simplesmente deixamos uma criança fazer a sua manhã sem se importa, eu parei de me questionar sobre o meu sofrimento e apenas agi para que eles pudessem não acontecer mais: Cheguei no meu trabalho sorrindo e brincando com todos – Até o ponto em que Paulo diria que eu estava “drogado” coisas que ouviria mais tarde pelas bocas jocosas de minha família – Iria mudar completamente o panorama de como agia correlação ao que estava passando, se matei esse deus em minha mente, então não havia mais aquele que tinha me colocado ali, naquele lugar sujo onde faria o dia inteiro um trabalho braçal que renderia somente o meu sustento, então eu simplesmente teria que contar comigo, usar a minha força para o trabalho, minha inteligência para articular a minha saída de lá – hora estudando para um concurso hora procurando por um amigo dentro do Tribunal – e a minha arte para que eu não enlouquecesse. Busquei fazer secretamente alguns concursos do dinheiro que vendíamos o lixo da Praça da Bandeira, não fui bem sucedido em nenhum deles, mas certamente uma coisa eu tinha matado: Tinha matado aquele general que me castigava, tinha matado aquele deus perverso que tinha feito uma maldade comigo e lentamente pude entender que a vida é feita de “Conseqüências de Escolhas” e nisso eu fui, aos poucos, aprendendo com o meu caminhar, mesmo torto e falho, por essas pistas e pegadas que o Verdadeiro Deus colocava em minha vida. Até mesmo o repetitivo sonho tinha parado.

Nesse meio tempo, parece que as coisas andaram mais rápidas, tive alguns sofrimentos, tive, mas daí pra frente foram coisas rápidas. O parto de minha filha foi muito turbulento, assim como toda a gestação dela, mas mesmo assim, pude ir com mais calma, até que um belo dia, sem esperar, havia um lugar pra mim na condução de manhã cedo.

Rapidamente, sentei no privilegiado lugar na janela do ônibus, e rapidamente sonhei.

O cenário era o mesmo, mas agora definidamente era o Julgamento Romano.

Via as pessoas ovacionando a crucificação de Cristo, e todo aquele cenário era visto de uma forma que parecia que eu estava no chão, com o rosto colado vendo de baixo para cima as pernas castigadas de Cristo, o sangue escorrendo pelo tornozelo, mas mesmo assim, mesmo as pessoas vendo o flagelo de ser humano que tentava aos trancos ainda por um fio viver, pediam para que ele fosse morto e todos gritavam: Crucifica-o!

Revi todo o cenário do sonho e com em um estalo pude entender o pouco daquilo que eu estava passando: Pude contemplar todos esses meses e rever com uma nitidez inacreditável toda a crucificação de Cristo, enquanto estava comprometido com o meu trabalho não pude receber nada daquilo que em meu sonho Deus estava tentando me compartilhar: Já houve o sofrimento, já houve uma batalha e ela foi ganha. E como uma serpente de Bronze que se levantava no deserto, eu não a olhava para me curar porque eu simplesmente não acreditava que isso poderia estar acontecendo, e realmente só fui entender o significado do meu sonho muito depois: Não poderia crucificar a minha filha. Não poderia abortar a minha filha por causa de uma cruz que eu teria que carregar. Não poderia aceitar isso. O coro de Crucifica-o eram daqueles que me davam conselhos a abortar a minha filha, mas isso foi incisivo, a mensagem havia realmente sido passada naqueles instantes em que tinha entrado no ônibus e pude entender o que realmente Deus queria na minha vida, mas, incrivelmente, esse temor havia enraizado, e lia muito Gênese e os textos que falavam de Moisés do deserto. Lembrei da convicção que um homem deve ter mesmo com todo o mundo lhe falando que está errado, mesmo quando ninguém vê a Deus, com exceção de você, é preciso lembrar de que ele é Vivo, e que está acima de tudo e que um deus não pode ser totalmente subjetivo. A objetividade no verdadeiro Deus estava no ponto em que eu o culpava por tudo e não tentava dar um salto para mudar minha vida e buscar minha felicidade, dentro do discernimento que tinha para as coisas que eram de minha responsabilidade e que deveriam me colocar em sacrifício por elas, mas fora isso, passei uma vida mais tranqüila e muito mais calma depois disso tudo, lembrei de quando clamava a qualquer coisa por resposta e conclui que: Se as coisas ou qualquer coisa me desse a resposta, hoje em dia não ia dimensionar aquilo que Deus fez, não ia poder admirar o quanto foi bom esperar, o quanto foi bom preservar a minha fé e o quanto foi bom sempre guardar em meu coração um verdadeiro amor e a busca pela justiça, pois esses dois eu não aprenderia em qualquer lugar ou religião que fosse buscar ou procurar a Deus, porque o verdadeiro céu não existe se não for completamente legível aquele que vai se entregar ao mesmo. Sofrendo, entendi “racionalmente” quem era Deus e qual era a função dele em minha vida e agradeço hoje por isso tendo a certeza de que tudo que Ele faz é bom e perfeito.

Estava no deserto, mais ainda ali havia um mastro de pé, com uma serpente de bronze para quando eu me ferisse, apenas olhasse para ela, e com apenas um olhar, ao seu sofrimento eu pude me reabastecer e me reanimar a continuar com a minha caminhada pelo deserto, mas de repente, abro os meus olhos, estou mais gordo e com o cabelo comprido, olho para a minha frente e vejo pessoas a me aplaudir: Acordo. Estou em um auditório sendo aplaudido por minhas palavras. E não acreditei, mas era fato: Assim como as pessoas que estavam no deserto em uma caminhada de quarenta dias que durou uma caminhada de quarenta anos, eu pude acordar. Fui transportado para o lugar onde eu deveria estar desde o início, mas só poderia entender depois, muito depois, acho que isso é sabedoria, não sei…

E, como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado;

Para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna – João 3: 14;15

E foi ai que eu acordei da minha reflexão... Na abertura do Encontro - América do Sul x Niterói

E foi ai que eu acordei da minha reflexão... Na abertura do Encontro - América do Sul x Niterói

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~ por Água para Plantas em fevereiro 14, 2011.

2 Respostas to “Todos os caminhos levam para casa – Parte III – Final”

  1. SER MULHER

    Ah, ser mulher!

    Ser mulher é ver o mundo com doçura,
    É admirar a beleza da vida com romantismo.
    É desejar o indesejável.
    É buscar o impossível.

    O poder de uma mulher está em seu instinto
    Porque a mulher tem o dom de ter um filho,
    E cuidar de vários outros filhos que não são seus.

    Ah, as mulheres!
    Ainda que sensíveis
    Mulheres conseguem ser extremamente fortes
    Mesmo quando todos pensam que não há mais forças.

    Mulheres cuidam de feridas e feridos
    E sabem que um beijo e um abraço
    Podem salvar uma vida,
    Ou curar um coração partido.

    Mulheres são vaidosas,
    Mas não deixam que suas vaidades
    Suplantem seus ideais.

    Muitas mulheres mudaram o rumo
    E a história da humanidade
    Transformando o mundo
    Em um lugar melhor.

    A mulher tem a graça de tornar a vida alegre e colorida,
    E ela pode fazer tudo isto quantas vezes quiser
    Ser mulher é gostar de ser mulher
    E ser indiscutivelmente feliz
    E orgulhosa por isso.

    – Brunna Paese –

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