A liberdade verdadeira é o gozo de uma profunda paz

Para: Minha filha, André Gustavo e Mahyná.

A raiz disso tudo está em causa e efeito. Se procurarmos a real natureza das coisas boas, colheremos coisas boas!

Pensava que ter liberdade era poder ir a uma rua, cruzar um caminho novo e quanto mais eram novos os caminhos, como uma coisa que não me saciava mais eu procurava um outro novo caminho…Pensava que ser livre era voltar para casa tarde, beber com os meus amigos até tarde, transgressão, sexo com qualquer pessoa… Pensei que ter liberdade era isso, mas por uma epifânia, eu aprendi que liberdade se trata de algo muito mais profundo. Liberdade sem paz é uma coisa nula! Para o exercício pleno da liberdade deve haver a paz, se não, não existe. Paz só acontece com liberdade e vice e versa… Quando me dei conta disso pude ser um homem um pouco mais feliz, porque mesmo em casa, mesmo no trabalho, mesmo na rua, ou mesmo viajando eu estava livre…  Eu estava em paz, não em uma paz transcendental ou um estágio próximo ao nirvana, mas me ví livre de muita culpa e dor que carregava e pude realmente abraçar uma sensação vívida de uma vivência mais tranqüila, pude somar mais as coisas boas que fiz e lentamente pude compreender que todos erram e que não deveria julgar o erro do próximo, pois na minha condição humana poderia também cometer o mesmo erro, experimentei uma tranqüilidade não artificial, experimentei uma tranqüilidade não proposital, experimentei um leve sabor de um descanso, do que seria um verdadeiro descanso quando eu apenas olhei para trás, vi meus erros e vi outras pessoas no mesmo caminho e eu  louvei a Deus por todas elas, até mesmo aquelas que não tiveram a mesma atitude que eu, pois ainda são agraciadas com o Perdão Divino e me serviram de exemplo para que eu não caísse no mesmo erro que caíram, pois admito que também poderia ter feito igualmente ou pior, então simplesmente agradeci pela vida daqueles que amo e a minha caminhada até aqui e então, percebi que contemplava a paz, ainda não estava realmente nela, mas contemplava, como um homem que subiu uma montanha muito alta e depois de muitos arranhões , topadas, cortes, sede e cansaço poderia ver mais próximo o topo, o ponto final. A paz estava próxima como o vento frio que anuncia a chuva.

Mas voltando a falar de liberdade.

Sempre usei a minha liberdade como algo descartável e sempre tive pouco acesso a uma verdadeira sensação de vôo proveniente do que é ser livre, usava a minha liberdade para transgredir tradições,  testar limitações ou até mesmo ofender opiniões ou dizer isto ou aquilo a quem bem entendesse, mas não entendia que isso não era ser livre… Essa era uma douta e falsa liberdade, um conhecimento insípido e à priori do que é verdadeiro, pois por mais que andasse, por mais que tivesse acesso e condição a ter aquilo que almejava, quando alcançava tal intento o mesmo se perdia e partia como um quebradiço vaso. Não entendia que sensação era aquela, pois havia conseguido, havia entrado, havia tomado e provado tudo aquilo que me “impedia” de ter, de fazer, de propor, mas quando alcançava, era um vento que pouco durava… Um Oasis que não me sacia e nem iria me saciar, pois tomava sempre da falsa liberdade, porque era remetido sempre a coisas perecíveis, coisas que meu próprio corpo poderia sorver ou deixar de contaminar, não tinha método e achava que não existia felicidade porque achava que felicidade era uma sensação “de entretenimento” eterno,  porque entrava em um círculo ilusório de saciar coisas pequenas, desejos pequenos, ansiedades pela sua literal formação e postura. Conseguia tudo que queria, mas esse tudo era uma atitude desesperada de quem quer o torpor, de quem quer fugir, de quem quer se afastar… A verdadeira liberdade abraça a real condição em que o homem vive sem malabarismos ou pirotecnias, pois não é preciso pular de para-quedas para se ter a verdadeira sensação, pois, se assim fizeres, fazes para entorpecer-se de uma falta que é a maior de todas e que ninguém deste mundo poderá dar: A paz.

Por isso andei e ando um pouco mais só do que o habitual e fui a alguns lugares e tive essa noção quando entrei de férias. Fiquei em casa praticamente nessas férias todas, não fui viajar a nenhum lugar e então, andando na rua sem ter nenhum propósito comecei a me questionar: Mas do que adianta ter a noção de liberdade e não ter coragem de exercer a verdadeira função que ela se aplica?  Ser livre é voar cada vez mais alto, ser livre é correr eternamente e não em instantes, mas sempre me comedi nesses instantes, sempre me preocupei com os outros, então, não fui livre realmente, fui escravo de opinião alheia ou da minha vaidade que sempre me impedia de não fazer as coisas que eu realmente queria no momento em que eu sentia que tinha algum tipo de “aza”. Então, se fazia, mais tarde, me recolhia com medo dos outros, medo de mim, medo do que eu era e do que poderia acarretar quando eu desse por conta de que tudo que eu fazia era para dar satisfação daquilo que eu supostamente “era”… E fui vivendo em um abismo de má fé em pleno ato de pura covardia. “Uma das características da pessoa que não tem paz é a falta de coragem e de ousadia”, concluí falando comigo mesmo no largo da carioca, enquanto outros me olhavam com espanto. Depois, muito mais tarde, eu conclui que meditava, esse ponto onde eu ia buscando esvaziar a minha mente, mesmo em movimento enquanto ruas, carros, pessoas, pedestres e pedintes passavam, eu realmente entrava em uma introspecção meditativa onde tentava me questionar sobre meus problemas existenciais e esvaziava a mente. Descobri que para se meditar não é preciso de muito esforço ou muitas técnicas, o caminho era o mesmo mas a forma e a postura que você deve adotar é diferente para muitas pessoas. Muito então meditei sem saber enquanto andava ou viajava para outros lugares e andava sozinho, mas não sabia.

Não podia correr na praia, não porque não tinha dinheiro, e sim porque eu não tinha coragem suficiente para abrir os braços e sentir que era parte de um mundo maior, sentir que era parte de um efeito maior, que eu poderia encarar as ondas com facilidade, se eu assim quisesse, pois de certa forma, era mais inteligente que aquele efeito repetitivo que sempre se chocava com a costa que beirava e que era de areia e quando aprendi que eu não “era um efeito” e sim um “efeito do que foi feito comigo”. Compreendi que a falta de compreensão “dos efeitos” – A velha lei de “causa e efeito”, se eu jogar uma pedra contra uma pedra, a mesma pode voltar a me acertar –  era uma falta de “coragem” em assumir que eu posso controlá-los, pois a natureza de todos os efeitos começa comigo e não com o mundo que me cerca. O mar, o costado da pedra, a forma que eu pisava aquele chão da carioca naquele momento se passou por inúmeras escolhas, escolhas que tive a coragem de fazê-las pois se as não fizesse não seria eu. Concluí que o principio para se ter paz é ter coragem para aceitar as escolhes e entendê-las, e se tivesse o discernimento das escolhas, não poderia conseqüentemente sofrer a dor de uma má escolha, mas o princípio para as escolhas nascia na coragem. Quando não se tem medo de tomar decisões é que aprendemos analisá-las: “A paz e a coragem são dois lados de uma mesma moeda, para encontrá-la, tenho que ter a coragem de buscá-la e a força de decisão para saber que eu realmente a quero e não outra ilusão” Pensei de novo. Então, consegui entender que poderia correr ou dormir em lugares estranhos e assim amar de novo, não como uma busca, mas como conseqüência da busca, então não me veio mais a sensação de arrependimento quando tomava escolhas erradas: A minha intenção era para o meu benefício, mas se o mesmo não veio então ficou o aprendizado.

E quando eu amei de novo foi mágico: Pude sentir o vento no meu rosto de novo com um outro frescor. Pude andar sozinho e assim eu andei, pude ir ao cinema só e não sentir solidão ou incapacidade de sair de uma sala escura, pude nadar, pude andar sozinho, correr pela noite na chuva estando embriagado demais para querer qualquer tipo de companhia podadora, pude ser livre realmente, eu era a minha noite e a percepção de uma lua que novamente surgia. Tudo era eu também, assim como a maresia que batia sobre o meu rosto enquanto entorpecido por muitas coisas, enquanto que entorpecido por um novo amor, pude perguntar ao meu coração se conseguiria viver sem ela de  novo, novamente me vi preso, então tive medo, tive dúvidas, as dúvidas não passaram e o que houve foi então uma intensa e violenta falta de coragem para buscar e exercer uma liberdade sem culpa, pois tinha medo de também magoar as pessoas  com essa minha busca desenfreada de ser realmente livre, daí, vi que tudo é um estágio muito transitório, hoje me sentia sozinho, amanhã confuso, depois, amargurado, então, passei a não mascarar mais a natureza das pessoas e ser eu mesmo, ser a minha real manifestação de ser como sou, de olhar o quanto sendo eu posso afetar o mesmo, de buscar as “minhas verdades”, do quanto a minha busca pela liberdade pode afetar a minha vida ou a vida das pessoas que me cercam.

Aprendi que o caminho para ser livre é ser você mesmo. O princípio da busca pela liberdade é simplesmente buscá-la! Na trajetória, eu me encontrei várias vezes e pude ser eu mesmo hoje em dia e bem mais como antes, pois pude me descobrir mais e mais e pude assumir a mim mesmo, mas ainda posso mudar, pois se permitir mudar ou rever seus próprios pontos de vista é um exercício de liberdade também. Mudar é ser livre sendo você mesmo! Que loucura isso? Mas são máximas verdadeiras! Não há a escolha em buscar a felicidade se não experimentá-la de todas as formas, não é? Então, o meio desse caminho é bem tortuoso e torturoso, nele há desilusões, há tristezas… Mas o melhor é que sempre tem você nisso tudo reagindo e se descobrindo, de uma forma em que não irá mais errar, não com medo de que um deus o castigue severamente por essa procura, mas para que não fuja do ponto principal que converge a liberdade: A paz.

Se algo que venha a lhe abstrair ou te destituir da paz então não é liberdade, é cadeia e prisão. Nenhuma droga pode lhe dar liberdade, se na busca de sua liberdade um caminho lhe sugerir as drogas, elas podem lhe dar uma momentânea noção de entretenimento e uma simulação de paz, mas no final tudo é ilusório porque no final ela apenas o fez enganar que estava “super bem”, no final ela apenas o fez enganar de que estava “super feliz”, enquanto, no dia seguinte, sempre estaremos sozinhos mesmo com multidões e zilhões de pessoas em volta de nós. Esperamos que algo novo ou um novo produto venha para trazer um pouco mais de alivio ilusório, mas esse alívio apenas ilude um eu vazio que crê momentaneamente que é a grande solução, mas os dias passam, e há o vício, e há o ócio, e, como a única visão de um dependente crônico é depender, o produto para ser eu e o eu passa a ser o produto, então se age como a droga que se consome ou que se vicia, nos tornamos ela cada vez mais, nos tornamos o seu uso cada vez mais…E se o produto termina, o “eu” morre, morrendo o “eu” morre a vontade, a razão, o discernimento…

O que uma droga lhe faz ou qualquer atividade viciante pode fazer é colocar o seu usuário em um vinculo de introspecção psíquica, sugerindo vários níveis de imagens, abstrações psicológicas e alucinatórias  fazendo que o próprio corpo produza uma sensação de bem estar, como uma “meditação artificial” o corpo gira e tenta se voltar para consigo mesmo a procura de respostas, mas elas não serão encontradas, apenas em um estágio de lucidez podemos nos convencer da verdade, ouvir a verdade e aceitá-la.  Apenas em um estágio de lucidez podemos encontrar a razão da paz, o verdadeiro sentido da liberdade e ser assim realmente feliz.

Um doce exemplo de liberdade verdadeira está na bíblia, em um dos muitos escritos que Paulo escrevia de dentro da prisão. Se a liberdade fosse um estágio “físico” e não fosse um estágio “psicológico” como um homem escreveria cartas tão lindas como essa?

Por isso sofro trabalhos e até prisões, como um malfeitor; mas a palavra de Deus não está presa.

Portanto, tudo sofro por amor dos escolhidos, para que também eles alcancem a salvação que está em Cristo Jesus com glória eterna.

Palavra fiel é esta: que, se morrermos com ele, também com ele viveremos;

Se sofrermos, também com ele reinaremos; se o negarmos, também ele nos negará;

2Timóteo 2; 9 ao 12.

Em muitas cartas Paulo narrava as suas prisões e em uma delas Paulo narra que começava a louvar a Deus dentro de uma cela e os outros presos também louvaram com ele, creio que Paulo pôde trazer muita paz a muitos presos enquanto estava preso, pois a exemplo de Cristo, que até na cruz trouxe libertação a um cativo, Paulo sempre foi um exemplo de perseverança da fé e de paz. Nesse trecho – que fazem parte das  cartas que eu mais gosto do novo testamento, em que um amigo fala a outro do seu sofrimento e da sua angústia no cárcere (1 Timóteo e 2 Timóteo) – Paulo é demasiadamente humano em contar a sua solidão, mas demasiadamente “santo” quando fala que a sua verdadeira paz não era física e reinava dentro de si mesmo. A prova disso está nos versículos abaixo, no último, ele ainda pede a Timóteo “para vir depressa” – Paulo que era um homem muito duro, imagina o quanto estava sofrendo dentro da prisão a ponto de pedir ao amigo e irmão que o fosse ver, creio que até assim Deus coloca as situações para nos quebrantar e nos moldar cada vez mais humanos:

Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé.

Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda.

Procura vir ter comigo depressa,

2 Timóteo 4 – 7 ao 9

Mesmo desesperado, Paulo ainda gozava de uma paz imensa. Nunca realmente alguém teve essa paz até mesmo quando estava nas melhores baladas!

Por esse grande exemplo de Paulo, conclui também que a paz vem de dentro e não de fora.

Não me custa repetir…

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~ por Água para Plantas em dezembro 11, 2010.

3 Respostas to “A liberdade verdadeira é o gozo de uma profunda paz”

  1. Quando eu tive essa epifania, eu estava andando e tinha acabado de tocar com o meu irmão que eu nem sabia quem era. Eu estava andando pela carioca e sentia uma paz muito profunda, quando veio essa “luz”, depois eu resolvi entrar em uma loja de música, porque estavam tocando louvores, como há muito tempo eu não escutava um louvor, resolvi entrar, mais tarde, esse encontro daria nisso aqui: https://aguaparaplantas.wordpress.com/2011/03/18/o-girar-da-roda/

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  2. Maravilhoso, quanto alento vc trouxe em suas palavras!!!!!!!!!!!!!

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