Sorriso Meia Lua

A ultima e invisível batalha do bem contra o mal

A ultima e invisível batalha do bem contra o mal

No meio de um turbilhão, quando não se tem muita coisa a fazer, apenas acenda um cigarro, certas coisas ficam um pouco mais claras quando pra quem fuma e infelizmente tem esse triste vício é assim. A gente fuma e ganha alguns segundos de paz, mas não é uma paz duradoura, ele te entreve por momentos incertos e confusos, eu sou um reflexo ridículo e muito obtuso das paranóias e esquisitices da minha mãe – Mas qual mãe não é esquisita e quem não se faz um reflexo de sua própria mãe ? – Mas ela cumpriu os doze trabalhos hercúleos em me criar e aturar meu pai, uma pessoa que há vinte anos não se faz mais presente até esta presente data.

O estado de bipolaridade é uma coisa nitidamente perturbadora, conheço a quilômetros quem tem: Geralmente são pessoas de um humor difícil de alcançar ou às vezes nem tem, em estados de crise preferem constantemente o isolamento e levam quase tudo muito a sério e quando não levam, tendem a ser sarcásticas, de um humor acidamente negro. Geralmente são criativos (nos vários aspectos em que se engloba a criatividade) e tem uma percepção impar sobre arte (também, nos vários aspectos em que se engloba a arte), nutrem algum hábito vicioso ou sofrem de T.O.C (em graus elevados ou brandos), mas todos esses sintomas são de difícil percepção porque quase ou todas (ou todos), tem um comportamento social dissimulado, mas sempre deixam a escapar algum hábito desses – Fora insônia, ansiedade, compulsividade …. Tenho todos esses sintomas, mas sem entrar em mais detalhes, talvez mais tarde conte, cômicamente ou não, cada um deles.

Resumindo as minhas crises são: É como se fosse o departamento financeiro, administrativo e de recursos humanos do meu cérebro se juntassem pra fazer uma pauta, e nessa pauta, todos falam ao mesmo tempo dos problemas em que cada setor vem tendo ao longo dos anos, mas eu, em vão, tento dizer que a reunião acabou, só que não consigo! Os engravatados me cercam por corredores e vem como ratos atrás de mim me cobrando daquilo que eu fiz e o que eu deixei de fazer…

Não me esqueço de nenhum instante de mágoa de minha vida – no instantes de crise –  e no momento em que me fragilizo mais ou tenho um momento mais agudo de estresse,as coisas chegam e bem forte e como se fosse uma grande onda arrastando dejetos de um dia seguinte de Reveilon, mas não houveram promessas, eu fiz muitas, mas muitas não cumpri, não sou um homem de palavra, não sei porque, mas poucas vezes cumpri compromissos ou tentei me fazer responsável, tenho medo que a minha falta de responsabilidade machuque a mim e a quem eu amo – minha filha, namorada, mãe, amigos… Esse é um dos pensamentos que chegam quando alguém está em crise bipolar. E é como ficar com o corpo vermelho e ainda a mostra do sol. Lembro de tudo, de tudo mesmo… Tudo que me aborreceu e isso me tira o senso do que é real, daquilo que de fato eu preciso realmente me focar, como no meu destino, e joga a minha auto-estima em um fosso muito profundo e de difícil acesso.

A ultima coisa que meu Pai me deu foi um robô do Paraguai e um relógio. Lembro de conversar com um grande amigo – que curiosamente tem a mesma história que eu – e passou a mesma situação que eu, ele disse que também foi o ultimo contato que teve com o pai foi esse, um brinquedo e um relógio. Acho então que pode ser um chavão para abandono de paternidade, dar um brinquedo e um utensílio que lembre que “há tempo de tudo, e o meu tempo com você acabou, é a hora de caminhar sozinho”…

Acho que é por isso que nunca me acostumei a usar relógios, eu usava apenas como um troféu a dizer quando perguntassem: “Que relógio bonito? Quem te deu? Enfaticamente diria com um sorriso meia lua: “Meu Pai” creio que meu amigo fez a mesma coisa, mas hoje em dia ele não usa tanto relógios assim. Mas tenho certeza que o mesmo impulso, a coisa de preservar uma identidade que foi perdida com a ausência de uma pessoa que seria mais do que importante para a própria formação, isso sim falta. Não como uma crise de identidade, não como a dizer coisas do tipo de “quem eu sou”, mas da pergunta chave que sempre reflete em horas de crise e insegurança existência que se reflete em: “como eu vim parar aqui, e o que eu estou fazendo aqui e até aqui”. Por não ter essa certeza e clareza que na vida de outros que se faz substância ou meta, me encaixo no simulacro das palavras, das coisas que dizem muitas outras, mas a olhos desdenhosos e clinicamente técnicos que não querem dizer nada. A técnica não me fala nada, o arroubo de saber o porque e como se faz a fórmula da tal dita boa escrita não me conjura nenhum sabor, apenas sim, distanciamento, pois quando tento a tender me rebuscar eu me perco, não nas palavras, mas na hipocrisia que a fria e seca decisão de uma linguagem traçante, que não corte apenas as formas e fôrmas do que se escreve, mas sim o senso do que é dito e o coração maldito de quem não raciocina com o peito, e sim com o cérebro, que às vezes é o pior lugar que pomos para conjecturar coisas e conceitualizar seres humanos, tão burros que fogem do que é mais perfeito: sê-lo.

Antes de me roubarem o relógio do meu pai – que até hoje foi a única coisa que me roubaram – eu nunca me atrasava para nada. Nunca mesmo. Cumpria todos os meus compromissos e de ante-mão organizava perfeitamente o meu tempo e nunca me atrasava. O começo da minha digressão foi quando roubaram. Parece que era um tempo certo ou uma preocupação paterna que havia que eu tinha que me tornar um homem de responsabilidade – como se o cumprimento do tempo certo, da hora exata em chegar ou aparecer fosse primordial para um ser humano ser responsável – mas acho que o princípio da responsabilidade realmente vem com o tempo, tempo que escoe e não para, quebrei a ampulheta há anos atrás quando decidi, por uma forma meio que marginal, em levar a minha escrita de uma forma não estatutária, a levá-la de uma forma marginal, que faça ferir como faca e que doa aqueles que não a entendem, mas pouco me importa a escrita também, é como o cano de descarga no carro sendo que ao carro, o que importa realmente é andar pra frente. Mas no meu carro, a primeira é colada com a ré, então, muitos quilômetros andei de costas, mas, espero, dar a volta, e mesmo de ré, andar certo na contramão.

Aprendi uma coisa muito sábia com o Pastor Ernani, enquanto me apascentava na antiga Comunidade S8 – “Não era à toa que Jesus, ao entoar e ensinar o Pai-Nosso, depois de Enaltecer o Nome do Senhor, clamava “VENHA A NÓS O VOSSO REINO”. Quando Jesus, assim conclama àqueles que fazem a oração a pedirem a presença do Reino de Deus, é para que: A PAZ, QUE HABITA NO CEIO DO SENHOR VENHA E ABUNDE O DIA E A HORA DOS AFLITOS QUE ASSIM O PEDEM . É um pedido para que as coisas boas que vem de Deus façam parte do nosso dia. É um pedido para que a “REALIDADE” E O “JUÍZO” (o juízo no que se caracteriza: Clareza e discernimento da realidade)  que vem do céu, dessa sobre a vida e a súplica dos que o pedem ou o exaltam ”  – Essa foi uma das coisas que mais aprendi na S8, a ter o distanciamento do meu sofrimento através da oração e da introspecção às coisas que são ligadas a uma perfeição de estado de espírito e pureza que habitam nas coisas boas que Deus nos deu, nos dá e nos dará. E assim me ligo a uma outra coisa me desligando a reunião absurda que os executivos do meu cérebro fizeram em minha consciência.

Algumas coisas em minha memórias são muito nítidas. Fernanda era mais ligada ao meu avô e eu era mais ligado a minha vó, desde pequeno eu tive essa certeza,  tinha essa coisa muito materna correlação a minha vó mas não tinha muito juízo a expressar e a me fazer entender, mas quando eu realmente entendi, dediquei a minha primeira poesia a minha vó, e fui premiado, dei a medalha a ela mas ela não aceitou. Não merecia apenas uma medalha, merecia minha vida, pois é ela que me recorro quando não estou bem ou quando acho que nada vai dar certo. Lembro de todo cuidado interiorano, de todas as medidas tipicamente da roça: “Machucou o joelho, deixa eu ver”…. Prontamente, vinha com uma gosma verde e passava no meu joelho e enrolava com um pano. Era gelado e gelava a perna toda. Tristes hoje em dia são os netos, que não tem uma vó da roça com um bom socado de saião para colocar na perna de um gordinho que tinha corrido como um raio atrás das primas, e com todo o seu grande peso em compensação com o seu corpo, caiu no chão com o joelho diretamente na terra dura, abrindo ferida e choradeira no meio da terra que só levantava pó, mas, que bem mais tarde esse pó iria sumir como mágica quando o cheiro mais gostoso do mundo iria aparecer, não as vistas, mas às narinas em forma de enxurrada. O cheiro de terra molhada. A correria das tias a tirar as cobertas dos varais, pois também sentiam como nós o cheiro da chuva, e, inutilmente, tentavam nos chamar para dentro de casa. Meu avô da cadeira anunciava as filhas para chamarem seus filhos, pois iria vir uma trovoada, mas a criança, antes eu, rodava, rodava, pulava… Era um pássaro solto do apartamento que queria corda, queria roda, queria chão, queria bola e corria para subir em um velho caminhão, fingindo que o dirigia, mas não sabia, fingindo que corria, mas era um velho caminhão, carregado de lenha e de farpas e as muitas entraram no meu pé liso, sem calo, sem proteção. A chuva era pra gente um refresco da tarde, pra mim um delicioso refresco, pois abria os braços ao céu e olhava o pé de ingá, verde verde, cheio de ingá pronto pra madurar e a chuva me molhava todo. Era ótimo. Era um prêmio a chuva da tarde.

Um barulho forte. Treme a terra e o caminhão: “Corre criança! Já deu trovão!” A gente corria pra dentro de casa, corria tanto que esquecia o pé na topada e a havaiana no caminhão. Corríamos para casa, lá dentro, minha vó encolhida na cama, tinha medo dos barulhos e meu avô, na varanda mascando fumo e cozia uma rede de pesca, que mais tarde venderia para um amigo da venda, e uma outra tarrafa fazia para outro homem da birosca.

Fernanda ficava com meu avô, vendo o trovão e sempre pedia para que a ensinasse a cozer  e eu ficava junto com minha vó e Renata, deitados do lado dela, não disputando atenção, mas ficando abraçados com medo dos roncos, se abrigando dos rugidos que tremiam e emudeciam todo o pequeno bairro.

E era, nessa hora, nessa exata hora de minha infância que eu me sentia perto, mas muito perto de Deus. Era uma casa muito velha, de telha e em alguns pontos chovia, mas nunca era onde eu e minha vó estávamos com medo da tempestade e eu sentia, que se não fosse a Mão de Deus, algo poderia quebrar e arrebentar aquelas telhas e nos partir junto com a casa. “Deus às vezes nos coloca uma tempestade para saber que realmente estamos seguros ao lado dele” Assim pensei e num relance todo um flashback de infância se desfez mas uma maravilhosa e bendita paz contínua se instala como um fio filete de água de cachoeira em meu peito, não mais descompassado, mas feliz, porque “Veio em uma noite de desespero o Reino de Deus no meu Coração, me aplacou uma furiosa depressão e me fez relembrar da minha vó, que um dia irei reencontrá-la na eternidade”

E me vem um marejo de lágrima

E um sorriso meia lua, como no da infância.

E assim, deixei de acender um cigarro.

Mas ainda me falta parar de fumar.

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~ por Água para Plantas em novembro 4, 2010.

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