Influências Sonoras: “I Wanna be your Dog”: Gênese embrionária do Punk

The man called chameleon - By Rodrigo Vieira

The man called chameleon - By Rodrigo Vieira

Não quero falar aqui sobre a origem do punk, quero falar dos milésimos de atômos lançados que fundamentariam o Big Bang ao surgimento do mesmo, que pra mim não foi em Kick out the Jams do MC-5, ou em qualquer lugar do passado em um remoto rockabilly tocado mais acelerado (já que todo baile rocker da década de cinqüenta em que saia uma briga de gangue, era denominado um “show punk”, ou seja, na década de cinqüenta, foi no baile, curtiu Elvis e saiu porrada, então foi “punk”, era uma gíria que adolescentes americanos usavam pra designar “baderna”)

Voltamos a falar dos milésimos que aconteceram em “I Wanna be Your Dog” do Stooges, portanto, não me aprofundarei muito, sim na concepção da música e na importância da música.

A expectativa de se gravar um álbum apenas apressou o processo natural da banda de estruturar ainda mais suas músicas no formato de canções. Ron Asheton conta que ficava com Iggy trocando idéias para canções, ele criando os riffs enquanto Iggy dava sugestões quanto o que seria a primeira parte da canção, a segunda e o refrão. Baseando-se no tema criado, ele depois escrevia uma letra. Nascia assim “I Wanna Be Your Dog” e “1969.”

Assim nasceu “I Wanna be your Dog.” Por incrível que pareça, despretensiosamente e transgressora, como a arte deve ser.

 

I Wanna be Your Dog dos Stooges é uma das músicas mais executadas por outras bandas de rock, e pilar fundamental de todo o movimento punk pela fôrma e forma de se abordar uma “nova” harmonia dentro do conceito de Rock N’ Roll . Achei em apenas meia hora de procura na internet, algumas das principais versões da música, que foi tão importante, que uma fez um dos percursores do punk, David Johansen (Líder do New York Dolls), falar que só ouvia a MESMA música durante um mês ou até vários outros- “A ponto dos vizinhos fazerem um abaixo assinado para que eu escutasse o som mais baixo – (vide documentário “Punk Attitude”) e que tinha se juntado a amigos que faziam a mesma coisa. Não se fala simplesmente sobre sexo, pois se fosse apenas isso, não atrairiam uma multidão de admiradores – como eu – por uma única faixa. Posso até corrigir-me ao leitor dizendo: Sim, fala sobre sexo, mas a conclusão e a lógica não é essa, assim como em outras letras que são decodificadas de uma forma diferente.

Sou suspeito a falar porque acho que é uma das coisas mais agressivas que já ouvi e tinha ouvido em termos de música, um quê de perversão que faz alardear qualquer ser humano, mas óbvio e idiota seria se eu interpretasse ao pé da letra o que a letra tem a me dizer. Acho que a música é uma ode rebelde a sexualidade e a esse jogo todo, mas não existe como separá-la contextualmente e prender a música nisso. Mas em mim desperta agressividade e acho que em muitos ouvintes também. Mesmo que ele estivesse falando sobre vasos sanitários, foda-se, seria ainda sim, uma coisa agressiva. E é assim que chega aos meus ouvidos. Interpretar I Wanna be Your Dog  dos Stooges  “só como uma coisa sobre sexo”, é a mesma coisas que ouvir Carmina Burana pensando em matemática ou exame de próstata. Mas fala sobre posturas, tramas, e trejeitos ao “jogo” que se forma o sexo, as contra-posições e as sequências, mas isso foi intuído como um escarro, foi sem pensar, um desejo, uma coisa contida em um adolescente. “I Wanna be Your Dog” foi expelida e não composta como uma junção racional de letra a uma abstração sonora, não existe complexidade e era a primeira vez que a mass-media tinha isso, essa irracionalidade iverborrágica que traria o punk, essa coisa volátil da música sensação sem querer um ponto de abstração maior ou esforço para cálculos ou medidas de interpretação veio ser a raiz do punk, que foi um vírus que contaminou o mundo de uma forma positiva e negativa Positiva: Arte, liberdade artiística, revolução estética e social – Negativa: Culminou com a abertura para a falta de abstração e sensibilidade em se interpretar a arte atualmente (sem nos esquecer da pop art, praticamente um braço punk em uma outra mídia, mas como disse, vou me ater a “I Wanna be your Dog”). Vejamos um pouco a posição do seu autor sobre adulação sexual:

Iggy tomava uma atitude definitivamente cínica em relação a toda adulação que ele recebia como cantor principal de uma banda de rock. Ele faria tudo para conseguir a atenção de seu público. E uma vez conseguido essa atenção ele prontamente dava as costas para as pessoas. Iggy passava a adotar o hábito de tirar meleca do nariz em palco, uma forma de agressão visual. Após cada show, ele escolheria umas cinco meninas para levar para casa, sentava lá com elas em círculo e ouvia discos e conversavam. Em dado momento ele soa o nariz na mão e depois joga o catarro na boca e engolia, continuando o papo como se nada de anormal acabara de acontecer. Pior, as meninas igualmente fingiam que nem notavam.

Voltando a música:

Era a primeira vez em que se criava uma “coisa sonora” com três acordes com uma peculiaridade tão insana e contra qualquer norma formal de harmonia vigente na mídia. O intuito era causar hipnose e choque, nada que remetesse a paz ou a mensagens positivas. Sim, há nela uma hipnose catártica para qualquer um que escutasse (remetendo ainda ecos da psicodelia, com o uso de wah-wah). Mas a idéia não era mais outra do que “transgredir e chocar” como o Motherfucker do MC-5 – a primeira música a ser gravada contendo um palavrão. Mas com essa força, em que outras bandas viriam a ouvir a mesma canção, repetidamente, para entender o que queriam e achavam um espanto uma harmonia simples ser tão destruidora, tanto que, fez ser causadora do surgimento do movimento Punk (voltemos “causadora do surgimento”, não fundadora). Sem “I Wanna be your dog” não exitiriam New York Dolls, Ramones e os Sex Pistols. Os adolescentes da época colocavam cartazes que queriam fazer uma banda que a base seria basicamente : MC5 e Stooges, ambos influenciadícimos pela falta de fôrma vocal de Sr. Mick Jagger, na qual o próprio pai do punk, Mr. Iggy Pop se referiu como influencia. O vários adolescentes colocaram em anúncios – Dentre eles os que formaram o Dolls, encabeçavam o anuncio “…tendo influências de Stooges e MC-5”

“… A primeira canção que os Sex Pistols tocaram foi “I wanna be your dog”, a maior canção punk já escrita até hoje. A primeira e única canção punk, se tivesse que haver uma só…” – Danny Fields, sobre o primeiro show dos Sex Pistols na América, e sobre a música que mudou os rumos da música e do que hoje chamamos de punk rock – extraído do livro Please Kill me.

Danny Fields foi ex-empresário dos Stooges e depois ex-empresário dos Ramones, e principal fonte de pesquisa para o livro “Mate-me por favor” que narra o surgimento do Punk Rock.

 

Outro interessante trecho…

 

Danny Fields ficou estasiado pela apresentação. “Eu não conseguia acreditar no que eu estava vendo e ouvindo, um cliché eu sei, mas uma realidade para mim naquela primeira noite. Eu jamais vi um ‘performer’ tão incrivel quanto Iggy.” disse Danny a respeito de sua primeira impressão. Com o fim do show, ele imediatamente se aproximou de Iggy se apresentando como executivo da Elektra. Iggy lhe olhou com desdem dizendo “tá legal, fala com o meu empresário.” Iggy não acreditou que alguem sério iria se interessar pelo o que os Stooges estavam fazendo.

Porém, a impressão fora tão forte que na segunda-feira de manhã, Danny com Jimmy Silver e John Sinclair presentes, telefonou da cozinha da Translove House para Jack Holzman, negociando ali mesmo a autorização para contratar as duas bandas. Elektra Records era um selo folk até que Holzman assinou The Doors e Love em 1967. O resultado de seus esforços acabaram por transforma o Elektra Records em representante do novo som da costa oeste americana para o mundo. A fama que The Doors conseguiu para si foi diretamente proporcional ao prestígio que Elektra Records atingia.

A atitude punk começou daqui, Iggy tinha uma verdadeira idolatria por Jim Morrison, que o inspirou artisticamente em tudo, tinha como ato de “viscerar” o público, de instigá-lo e de ir de contra a normalidade e a verborragia vigente do “Love and Piece”.

Inicialmente Iggy usava a tática que ele aprendera com Jim Morrison, a de insultar o público. Qualquer reação é melhor do que nenhuma reação. Mas contam alguns que foi no Henry Ford College, em Dearborn, perto de Detroit, que Iggy começou a extrapolar com as fronteiras do que é permissível e aceitável fazer sob um palco. Iggy insultava todo mundo entre canções, contudo continuava a ser ignorado. Por tanto, ele pula em cima de uma menina que sentava a frente e começa a tirar um sarro e se esfregar nela, como se tivesse copulando. Meteu a mão e depois começou a agredi-la verbalmente.

 

Ok… Já existia MC5? Sim, com sua atitude rebelde e o famoso “motherfuckers” no início de Kick out the Jams, mas a batida seca, em um vocal esporrado, o minimalismo do punk em ser três acordes batidos sem nenhuma preocupação com a harmonia, por favor, “I Wanna be Your Dog” foi a primeira coisa genuinamente punk a ser executada, que de tão atual, ainda é executada, mesmo depois de quarenta e um anos da música. Inclusive, MC5 e Stooges assinaram contrato juntos. (Stooges – 5 mil dólares, enquanto MC5 20 mi)

 

Curiosidades sobre Punk:

Shakespeare usava a palavra punk para designar prostitutas. Alguns séculos mais tarde, a palavra significava sadomasoquismo (Engraçado! Outra convergência para “I wanna be your dog”?). Legs McNeil diz ter sido o primeiro a usar a palavra punk associada ao estilo musical. Ele é co-fundador da revista Punk, editada em Nova York na década de 70. Malcom McLaren apoderou-se da palavra para vestir sua criação, acreditando que ela transmitia a idéia central de sua nova empreitada: garotos sujos expondo o que pensam. John Lydon, em sua autobiografia, diz que punk não tem um pai, mas a mãe é a jornalista Caroline Coon, da Revista Sounds.(Um dos mais diversos caminhos etimológicos para a palavra Punk)

 

Eis a Letra (ou escarro) de “I Wanna be your dog”:

 


 

I Wanna Be Your Dog

The Stooges

 

So messed up i want you here
In my room i want you here
Now we’re gonna be face-to-face
And i’ll lay right down in my favorite place

And now i wanna be your dog
Now i wanna be your dog
Now i wanna be your dog
Well c’mon

Now i’m ready to close my eyes
And now i’m ready to close my mind
And now i’m ready to feel your hand
And lose my heart on the burning sands

And now i wanna be your dog
And now i wenna be your dog
Now i wanna be your dog
Well c’mon

 

 

http://www.youtube.com/watch?v=vUQQ-Yxfr4o&feature=fvst

 

Se alguém tiver algum link de  um cover de I wanna be your dog, manda pra mim por favor!

Valeu

Obrigado por lerem!

 

Escolha abaixo a melhor versão:

Eu prefiro a primeira:

Os eternos originais:

 

The Stooges – A volta em 2004

http://www.youtube.com/watch?v=iSN-Y1W4Jm4

 

Emillie Simon – Essa mais novinha, com uma “roupagem” a lá “Hot Chip” (bluuuuuurrrrgl!!!)

http://www.youtube.com/watch?v=b_j0LjvTQLw

 

The White Stripes

http://www.youtube.com/watch?v=HVXiFM6N5eA

 

David Bowie – O namorado, é claro, tinha que fazer das suas…

http://www.youtube.com/watch?v=uJl49g5KKcs&feature=related

 

Joan Jett

http://www.youtube.com/watch?v=7X0SWf347zA&feature=related

 

REM and Patti Smith

http://www.youtube.com/watch?v=nb31X1pmrag&feature=related

 

Stereophonics

http://www.youtube.com/watch?v=nOzqkUv6lw0

 

Cat Power

http://www.youtube.com/watch?v=gxMz0mk-QVc

 

Slayer

http://www.youtube.com/watch?v=rECoRXtd7LQ&feature=fvsr

 

Sonic Youth

http://www.youtube.com/watch?v=2BII01gneTU&feature=related

 

Sex Pistols – Sid Vicious no Vocal

http://www.youtube.com/watch?v=u4hMv0etf4Q

 

Benzzina

http://www.youtube.com/watch?v=HRo7UFru8zk

 

Relespública & Nazi

http://www.youtube.com/watch?v=VAWVzHvUZ7g

 

Gossip

http://www.youtube.com/watch?v=df9XwsZSRj4

 

Red Hot Chili Peppers

http://www.youtube.com/watch?v=YTiJLlvxmm8

 

 

Jerry Cantrel – Alice in Chains

http://www.youtube.com/watch?v=euBGyeH5LDU

 

 

 

Fontes de Pesquisa:  http://whiplash.net/materias/iggypop/000714-iggypop.html

http://omelete.com.br/musica/sugestoes-dos-chefs-inever-mind-the-bollocks-here-s-the-sex-pistolsi/

Mate-me por favor (please kill me) – Uma história sem censura do punk – de Legs McNeil e Gillian McGain

 

Colaboração: Anésio Vargas Jr.

 

 

Anúncios

~ por Água para Plantas em outubro 8, 2010.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

 
%d blogueiros gostam disto: