Praça Chico Mendes

Baseada em fatos reais

A base foi alterada  e misturada com argumentos fictícios. Quaisquer semelhança de caso, é mera coincidência, a não ser se for a fundo pesquisada com a vida do autor da crônica: Rodrigo Vieira Serra

A cada dia que passa tenho andado mais sozinho.

Na busca de ir e ver coisas novas e encontrar pessoas que eu não tenha referencial, porque a todos que te cercam, volta e meia quando encontra alguém, algum ser humano tem sempre algum conceito formado do seu caráter. Tenho único caráter, mas sou uma pessoa imprevisível e não sou o mesmo sempre, posso mudar conforme uma brisa ou um desentendimento, por isso, não gosto que me tenham como um ser humano pré-definido. Tenho usado pseudônimos, indo a lugares sozinho, conhecendo gente diferente e andando por ruas e caminhos totalmente opostos. Ultimamente, venho não querendo me relacionar com um ser humano que “acha que sabe quem eu sou” ou o que eu posso fazer… A previsibilidade torna a vida um tédio e quando relações humanas se tornam exatas como equações, é a melhor hora de cair na vida! Conhecer pessoas diferentes, ser diferente com as pessoas, reconhecer os defeitos não errando de novo e aprender mais o que é ser humano.

Desci ontem do ônibus com um propósito estranho, na verdade, quis andar como muitos fazem, um pouco sem rumo na rua, pra ver nada, pra conseguir tirar um sentimento de stress e solidão que tenho. Havia saído cedo do trabalho, e como eram horas antes do recital, eu decidi voltar e ver a praça que foi crucial na minha vida: A Praça Chico Mendes em São Gonçalo.

O Lema da minha vida sempre foi assim: Dobre uma esquina e mude a sua vida. Meus melhores amigos, amigos de verdade mesmo, irmãos, eu conheci ao acaso, na fila de um banco ou em um bar ao comentar uma música, eu dobrava uma esquina e encontrava alguém que mudava radicalmente a minha vida, vamos ter um exemplo: Uma amiga irmã que tenho, a Meriele, eu conheci sentada no banco dessa mesma praça, tomando cerveja com um outro amigo – mas irmã mesmo, de dormir juntos no sereno, sem ter nenhum tipo de interesse a não ser a lealdade entre amigos, além de enfrentarmos juntos os perrengues dos mais diversos, do tipo que se preocupa realmente comigo e com minha saúde – Pakato, Rodrigo Santos e Rômulo eu conheci no SESC informalmente no recital e hoje são grandes amigos meus, grandes mesmo, minha ex-mulher eu também conheci em uma praça, e o que dirá Mhayná, que a conheci no meio de bombas de gases lacrimogênicos na passeata contra tirar os direitos dos estudantes a passe livre. Voltei a praça porque a praça foi um grande Vortex na minha vida, fiz bandas lá, toquei violão, comecei a participar de um grupo proto-cristão – fui batizado em barra de guaratiba, no meio da praia com água salgada e é esse o batismo que reconheço até hoje – Mas sempre achei que tinha deixado o meu passado naquela praça, pois eu já homem feito, olhava com saudades e muitas vezes eu tinha quase o arroubo de ir lá, me misturar com a meninada, pular e rir com eles, tocar uns rocks novos no violão, conversar sobre o que eles não gostam e sobre o que eles temem no futuro, não era só um sentimento que tinha deixado ali, como uma situação que não sabemos explicar, algo que impele a voltar e rever tudo o que se houve e passou pra poder olhar de novo e ir embora,mas como não haviam jovens ainda, eu resolvi andar solitário mesmo por ela. Era uma tarde gostosa, mas a praça estava decadente. Não eram os gravites, era a trave de basquete quebrada, sujeira no chão, telas de arame arrebentadas e etc…

O velho bar do Carlos não era mais do Carlos, eu nem sei de quem era agora. A igreja tinha se transformado em um bar também, e mais a frente tinha o Barba. Fui cumprimentá-lo ele me abraçou forte…

O Barba era um Hippie romântico que tinha no final da praça. A birosca do Barba era conhecida como a birosca mais “não visitada”. Não era mais o ultimo bar da praça porque na área de recreação infantil, haviam colocado um trailer. A gente ficava de saco cheio por causa dos punks que ficavam fazendo merda no inicio da Chico Mendes, na época,  que um dia eu Crine, Meri e Jairo, decidimos ir pro final da praça pro ultimo bar até o ponto que a gente não visse ninguém querendo chamar atenção ou fazer presepada, mas lá estava o mal humorado Barba. No final da noite, como querendo selecionar um público, ele amarrava a cara e colocava Roberto Carlos pra afastar os punks, mas uma vez, eu estava “além da noite e do sereno” puxei Meri e Jairo pelo braço e falei é aqui! Estava tocando “Amada Amante” no barba. Entrei cantando alto dentro do bar como que representasse a música, bem teatral, quase como um gay. Ainda tinha o cabelo grande e estava como sempre todo de preto, como eu estava em uma fase que adorava ouvir teclado Mogi em tudo quanto é música eu simplesmente adorava o disco de 1969 de Roberto, que pra mim é o melhor dele! Acabou que eu e Barba cantamos a noite inteira vários álbuns do Roberto: “…Não há dinheiro no mundo que me pague a saudade que eu sinto de você…” Fechamos abraçados cantando essa canção… Conquistei tanto a amizade dele que fui um dos primeiros a ter pindura no Barba, minha mãe já foi me buscar trêbado de carro no Barba – do ponto de uma vez: “Só estava esperando a senhora para arriar a porta”, beijava o rosto dele chorando e agradecia por ter apoiado o meu cotovelo de novo naquela noite, mamãe me chamando de filha da puta pra baixo abrindo puta a porta do carro e eu caindo igual a um pacote no banco “ele é só um menino Dona Jane, eu só faço isso porque sei que ele é um garoto bom” ridículo contar isso, mas a maturidade e o bom senso me colocam distante da vergonha, até mesmo porque, quem ligava do meu celular pra minha mãe era o Barba e não deixava que eu levantasse da cadeira, tinha dezoito anos, tinha rompido com a minha primeira namorada (Passional até o talo) e foi a primeira e ultima vez que minha mãe foi me buscar trêbado em um bar –  no final dessa noite, da primeira vez que o encontrei, eu pedi que ele “tratasse melhor os caras de preto, que nem todos eram como ele pensava”, daí passou a não ser mais o bar mais não visitado… (porque não falar menos visitado? Falo como a gente falava na época..rs) E passou a não ser mais tão mau humorado assim. E há muitos anos, antes dessa tarde, eu não o visitava de novo…

– Como vai Rodrigo?!! Quanto tempo cara! Quase não te reconheci, deixou o cabelo crescer de novo, aê, toma uma aê… Vou te mostrar uma coisa rara que eu comprei…

Me sentei em uma mesa de frente ao outro lado da pista, não em direção ao Half, mas em direção ao lado de recreação infantil que as crianças ficavam de manhã. Olhei as crianças brincando e lembrei de Luiza, como sempre faço todos os dias… O parque estava cheio de crianças de todas as idades. Era uma tarde bonita de sol, nos dias em que o sol não esquenta muito o dia.

– Tenho uma surpresa que eu comprei a pouco tempo, você vai gostar de ouvir, esperaí que eu vou pegar…

Volta Barba meio que me assustando. Estava me balançando junto com uma criança nos meus olhos.

– Esse aqui ninguém tem. Eu encomendei  lá no rio!

– “Roberto Carlos – Ao vivo em San Remo”?!

(Barba não sabia o que era internet. Me pedia sempre para tirar a boleta do RENAVAM pra ele)

– Você sabe, que álbum ao vivo do Rei é difícil… Então, eu sempre quis ter esse disco, na época era muito caro, só tinha quem tinha dinheiro e na época ainda não havia K-7, mas agora ta aqui caralho – balançava como troféu o cd – Eu tenho o ao vivo! Vou botar pra gente escutar…

Não podia falar ao Barba que aquele ao vivo eu não gostava muito e que a gravação dele não foi muito boa, aliás, tecnologia para gravações ao vivo só foi melhorar mesmo depois de Woodstock, mas mesmo assim, poucos albuns tiveram acesso a essa tecnologia. Barba disse que a praça não era a mesma coisa, não era mais o mesmo banco e nem aquele velho mote musical. Disse que a rapaziada nova não tinha respeito por ninguém, que estavam usando drogas, que estavam cheirando no meio da rua, fudendo no meio da rua, e que espancaram um gay na frente do bar dele. Mortes, Assaltos, tiros, drogas, tudo que há em uma praça de uma cidade agitada, mas tudo isso acontecia quando caia a noite. Barba estava fechando dez horas (ele ficava aberto até as cinco. Quando eu estava lá, às vezes era até as sete.) Não podia falar ao Barba que detestava aquele álbum ao vivo do Roberto e nem que, a maior parte das coisas que a garotada estava fazendo eu já fiz também. Mas segundo ele “eles não tem respeito com ninguém”. O dia em que a rebeldia der bom dia eu troco de nome. A rebeldia não faz nada disso e esse é o grande momento da vida, onde a energia brota como uma cachoeira e temos sempre o dever de fazer algo por alguém, pelo mundo, e por nós mesmo, seja positivamente ou negativamente. Mas a merda é que crescemos e acabamos vendo que não passa da gente, é sempre a gente querendo atenção. Quando fazemos isso é sempre isso que importa mais… Mas o que importa é:  Pessoas que possam direcionar essa energia e aproveitá-las de  uma forma positiva, transformando uma juventude em uma revolução – o que toda juventude deveria ser, mas quem sou eu pra cobrar se não fiz a diferença? -Homofobia é crime e nenhum crime pode ser cometido, nem muito menos por tédio ou por acúmulo de energia. Todas as coisas na vida devem ser feitas de uma forma que sempre produzam alguma coisa positiva, se não é apenas discurso, ímpeto e destempero…Enquanto Barba foi colocar o cd, meus olhos se perdem na praça de novo. Um copo de antártica extremamente gelada, como a Geladeira G.E antiga do barba sabe fazer . Me desse a goela. Um gole gelado e saboroso refrigera a minha garganta, e pude, na distração, ver no fundo de uma arvore, em um banco de praça, acho que era o ultimo da Chico Mendes, um garotinho gordinho, com uma camiseta de colégio público sentado com a cabeça no joelho, horas levantava, enxugava os olhos e descia de novo a cabeça, mas não tinha nenhum barulho de choro, não tinha nada. Mas ele chorava tanto que balançava os ombros.

– Barba, vou dar um pulo aqui na praça. – Levantei-me levando copo e garrafa.

– Não vai ouvir o cd não caralho?

– Põe o sessenta e nove quando esse acabar… Já volto.

Quando me aproximo do banco, o menino pegou devagar a mochila, mas o seu gesto foi tão recolhido e impelido, que ele o fez no intuito de não “querer atrapalha” quem fosse sentar ou ir para o banco…Parecia não querer importunar ninguém com a sua dor.

– Calma, não vai me atrapalhar se você ficar aqui, mas não quero atrapalhar se você for embora… Eu te vi de longe e fiquei preocupado…

(O garotinho era mais novo que eu pensava, devia ter uns treze anos ou no máximo quatorze)

– Eu estava tomando uma cerveja e perguntei a mim: O que um garotinho dessa idade faz nesse banco sozinho? E ainda por cima chorando desse jeito? Será que machucaram ele? Nessa idade, eu estava em um fliperama, com um quadrinho dos X-men embaixo do braço…Olha, você sabia, que na época, a gente não falava o “xis” como “ékquís” a gente falava “Xis-Men? Como “Xis-burger” e por ai vai? Bom, nessa época, eu não estava chorando igual a você assim, eu tava em um fliperama!

– Não tem fliperama em Alcântara.

(É verdade! Assim como os cinemas nas ruas estão sendo extintos, estão acabando com os Fliperamas nas ruas! Agora só tem Lan House e a interação se dá a quilômetros! Mas me assustei, o garotinho estava com um almanaque dos X-men!)

– Bom, acho que hoje em dia é lan-house que é a moda da garotada? Não é isso? Eu tenho que ir a Lan House pra fazer algumas coisas e vejo a algazarra que fazem…

– Eu não quero ir. Quero ficar aqui… Sozinho…

Uma coisa eu aprendi com a vida: Quando crianças querem ficar sozinhas, algo de muito estranho está acontecendo com elas. Crianças nunca gostam de ficar sozinhas, crianças não nasceram para ficar sozinhas. E quando isso acontece, há algo errado…

Um silêncio chato me incomodou. Não tinha mais como fazer nada, não tinha mesmo. Xeque-Mate! Eu não quero falar com você, então você não fala comigo. E no momento de silêncio eu percebi o quanto o garotinho perecia comigo! Era eu com dez anos mesmo! De cabeça baixa, horas levantando para enxugar o rosto. Era eu… E ainda com quadrinhos!

– Qual é o seu nome?

– Douglas…

– Prazer Douglas! O meu nome é Rodrigo – Estendi a mão e ele me cumprimentou.

– Sabe que eu era muito parecido com você quando era pequeno?

– Ninguém se parece comigo…

– Não? Olha, tem sempre alguém parecido com você… Tem um cara que volta e meia me confundem…

– Eu sou horroroso! Quem vai se parecer comigo?! – Falou mais alto e pendeu a cabeça de novo entre as pernas.

Não sei porque, mas meus olhos se marejaram um pouco?! Não entendi o porque daquilo… Essa coisa… Esse sentimento… Porque estava me misturando com a juventude daquele menino? Mas acho que é natural quando alguém quer ajudar uma pessoa, acho que o nome disso é envolvimento.

– Tem duas formas disso acontecer e as duas são: Ou você se acha ou te dizem isso. Mas o que mais importa é: Se dizem isso de você é mentira. Ninguém pode chamar ninguém de feio, mas se você acha isso, pode ser por causa dos outros e você pode melhorar o que quiser em você, mas não pode melhorar o que te dizem…

– É pior é que ela acha! Eu queria que ela não me achasse assim! Eu não sou assim, eu sou uma boa pessoa e a amo muito! Eu queria que ela soubesse o quanto eu estou apaixonado por ela… Mas ela me acha feio…Muito feio…. – Chorava copiosamente de cabeça baixa.

Decidi não acabar com os sentimentos dele. Nessa idade achamos que amamos e sabemos o que é amar, e quando ficamos velhos achamos que conhecemos porque já passamos por isso, mas como sabemos, se quando passamos não conseguimos entender? Mesmo até quando uma esquina dobra, um perfil se abre ou um site lhe joga por acaso uma pessoa e de repente você se vê de novo, como uma criança querendo atenção chorando em um banco de praça, com todos passando indiferente a você. Posso dizer a qualquer apaixonado: Viva, você vai achar outra pessoa! Você irá se apaixonar de novo! Mas não acredito em nada disso, pra mim isso não funciona, talvez para outras pessoas, mas como já falei, sou como aquela mulata de barro que fica eternamente debruçada na janela esperando alguém chegar… Sentimentos são vividos e são únicos quando passamos por ele. Nunca e nada é igual…A grande questão é que a maturidade lhe dá resistência a suportar essa dor e não deixar de trabalhar ou se divertir, mas mesmo assim, tudo é a mesma coisa. Paixão é arder dia e noite, pedindo para que um outro corpo se apague ou se ascenda no seu braseiro, sendo mais fogo ou uma sensação de paz quietante de se sentir em outro corpo. Como disse, decidi não acabar com os sentimentos dele:

– Na vida nada se sebe se não perguntarmos. Como você sabe que ela não te dá assunto? Tem muitas garotas que gostam de gordinhos como nós…

Ele nem levantou a cabeça. Estendeu a mão com um bilhetinho…

“Também queria te conhecer… Acho lindas as cartas que escreveu pra mim!

Me encontra no ultimo banco, que fica na parede do parquinho, no final da praça!

Beijos Raquel.”

– Putz! Então Douglas!? Qual é o motivo do choro!? Você vai se encontrar com ela! Vamos rapaz! Enxuga esse rosto e se arruma ela deve estar chegando…

– Eu já encontrei com ela…

– Bom, e o que ela falou?

Crianças podem ser os seres mais insensíveis e nocivos do mundo. Eles não tem ainda a formação total do super-ego para que eles tenham noção exata do que é ferir e machucar os outros. Crianças podem ser demônios, dependendo do lar em que foram criadas…

Douglas assim havia, mais ou menos me contado. Me mesclei tanto ao problema que me coloquei com propriedade a narrar em primeira pessoa e a usar de algumas palavras que ele não usou para definir o que ele passou e sentiu:

“A primeira vez que a vi, eu não sabia o que era direito, o meu coração pulou e começou a palpitar. Foi quando eu estava sentado na reserva do futebol e ela passou correndo atravessando a quadra, linda. Desde então, ninguém tinha me explicado o que era estar apaixonado. Meu pai sumiu da minha vida quando eu tinha dez anos, então, tudo que eu aprendi sobre sexo era o que eu vivia na rua e na escola. As mulheres pra mim não eram nada, eu andava distraído com coisas de criança então eu vivia ,mas vivia sempre brincando, mas daí eu vi, uma menina como ela. Meu coração pulava.

Queria sentar a duas carteiras atrás para ver ela chegando no corredor de carteiras da qual eu sentava. Ela tinha um perfume muito cheiroso e, eu sem coragem , nunca falei nada a ela. Eu sou gordo, então eles me põe muitos apelidos, as meninas nunca ficaram muito perto de mim por causa disso, mas confiei ao único amigo que tinha, Daniel, pra mandar umas cartas pra ela, pra ver seu eu conseguia quebrar um pouco o coração dela correlação a mim.

Daniel ficou um tempo mandando todos os bilhetes, mas eu não tinha percebido que ele tinha contado a todo mundo, e que era uma questão de tempo, até que todos soubessem, ele e pudessem marcar com todos”.

A história ficava cada vez mais assustadora e impressionante… Me dava calafrios quando a expressão de Douglas mudava quando contava isso.

– Mas marcar com todos, como assim.

– Ontem ele me entregou esse bilhete e disse que foi ela

– Mas você não me falou que ela veio?

– Ela veio?

-Veio

– Então?

– Tá vendo essa mureta ali, essa que fica atrás do banco?

(Era a mureta de acesso a área de recreação infantil da Chico Mendes)

– Sei

– Então, não tem como saber se tem alguém do outro lado.

– Não estou entendendo…

“Eu tinha me arrumado todo. Não estava com essa blusa da escola, no mesmo dia que eu recebi esse bilhete, eu fui na Leader com a minha mãe, comprei essa calça que eu estou usando e uma camiseta nova pra mim, eu não estava com essa roupa da escola, eu estava arrumado pra me encontrar com ela”…

– Cadê então a sua roupa…

– Não quero mostrar…

– Me mostra, agora eu quero te ajudar,  se te sacanearam, eu vou até a polícia – Meu coração já pulava de ódio, já tinha matado que era alguma espécie de Bulliyng, mas não sabia que seria uma coisa tão sórdida, inimaginável de ser tramada até mesmo por um adulto, mas mesmo assim, ele falou que ia me mostrar só depois de contar o que houve…

“Eu fiquei esperando ela aqui, eu matei aula pra poder me arrumar em casa, chegar na hora certa, sem me atrasar, usei escondido um perfume da minha mãe, escovei dos dentes várias vezes. Minha mãe pensou que eu tinha ido na escola, mas eu combinei com o Daniel de me arrumar na casa dele para poder dar tempo de ir me encontrar com ela. No caminho, comprei três rosas para dar a ela, era realmente o que o dinheiro ia dar. Então eu fui até o banco e esperei. Esperei e esperei. Depois de uma hora de atraso, eu a vi, com um vestido vermelho e curto. Achava estranha a movimentação ao meu redor, mas a ansiedade de encontrar com ela era tão grande que eu não tinha reparado “no que estava acontecendo ao meu redor”

Eu me levantei

Ela chegou perto com uma cara de surpresa e falou:

– Ah, é você que me mandava essas “cartinhas” Douglas?

– Era… É…Desculpa…

– Desculpa pelo quê??

– Não sei, às vezes as pessoas acham que as outras são malucas quando ficam mandando cartas, mas eu não tinha palavras para perguntar ou me aproximar, então eu escrevia e pedia ao Daniel pra te entregar…

– Eu até pensei que fosse o Daniel que estava escrevendo isso…

– Não era eu… Olha, eu comprei pra você… – Lhe dei as três rosas que estavam no banco.

Olhou com um desdém e como se não fossem nada, ela jogou as rodas em cima do banco onde estava a minha mochila.

– Senta ai. – Me jogou sentado no banco da praça e ela, lentamente foi sentando no meu colo.

– Porque você ficava me mandando cartas?

– Porque eu não tinha coragem…

– E porque você acha que eu teria? Dizia isso quase beijando a minha boca e ia se esfregando em mim…

– Porque você acha que eu teria? Me perguntava de novo sussurrando no meu ouvido, a ponto de raspar os lábios na minha orelha…

E eu ficando excitado, inocente e idiota perguntei…

– Porquê o quê Raquel? – Perguntava já relaxado, como se tivesse ganho a partida.

– Porquê você acha que eu teria coragem de dar idéia a um gordo ridículo e feio igual a você!!! – Dizia aos berros, enquanto quase todos os alunos da minha sala apareceram atrás da mureta, me chamando de otário, idiota, tirando fotos do celular, me chamando de baleia, de ridículo, enquanto os outros”….

Já tinha escutado demais…E ele não conseguia mais contar de tanto chorar…

– Já chega garoto, eu quero ver a sua camisa agora, abre já essa mochila! – Fui mais enérgico pensando que bateram nele e escondia a camisa manchada de sangue na mochila, mas tem coisas que são mais dolorosas que paus e pedras.

Quando abri a mochila, estava na sacola a camiseta nova que tinha comprado. Talvez inutilizada, em tons de marrom e fedendo como uma latrina. Aquilo na camisa era escarro e com certeza merda. De cima da mureta, além de xingar, cuspiram e tacaram merda de cachorro em cima de Douglas. Agora era impossível tentar conversar com ele. Ele chorava compulsivamente. Não o questionei como conseguiu se limpar, creio que tinha sido no trailer que fica na área de recreação infantil, depois montando o quebra-cabeças, descobri porque não queria nem sair do banco da praça: A vergonha era tamanha que não tinha coragem de levantar, não tinha coragem de fazer mais nada, a não ser ficar sentado, esperando que alguma coisa o movesse a sair. Tudo tinha acabado. Como diria a sua mãe o que houve? Como diria a sua mãe que a expectativa nunca tinha existido? “Foi uma armadilha” Talvez seria o mais adequado a falar, mas não tinha o que se dizer disso tudo. Até mesmo a sua calça nova estava suja, creio que até mesmo, o projeto de meretriz tenha tacado e cuspido coisas em cima dele. Mas ele não estava sozinho…

O levei até em casa, ele não morava muito longe da praça. A localização exata e o nome certo eu não daria nunca, mas ele não está sozinho. Expliquei a sua mãe tudo que aconteceu e a esclareci que aquilo era um crime, que a escola e os pais poderiam ser penalizados pelos danos físicos e morais, e, pela idade, psicológicos também. E que seria eventual testemunha. Meu reencontro com o Barba durou muito pouco. Não podia deixar que isso acontecesse de novo comigo. Abraçei Douglas mesmo sujo e fedorento, e disse bem baixinho no ouvido dele:

– Você não está sozinho… Isso já aconteceu comigo também…Disse bem baixinho no ouvido dele, quando ele ouviu isso me abraçou muito mais forte – Eles não vão mais fazer isso, eu te prometo, a gente vai rir depois disso tudo.

Creio que a mãe peça retratação e no caso de uma testemunha para uma ação, não vou me regar de nenhuma forma a não ajudá-la.

Só quem sofreu Bullying sabe como essa prática é traumatizante e cria feridas que se demoram a cicatrizar, por causa dessa pratica insana de agressão que a sociedade com a sua cultura “ariana”, muitas pessoas futuramente usam de diversos subterfúgios para recompensar a falta de uma adolescência que foi arrancada com violência e preconceito. O bullying só gera magoas e preconceitos, que não aparecem em matérias de jornal, e quando aparecem, sempre são formas trágicas, como em Colunbine, onde um adolescente sofria com anti-semitismo, ao ponto de metralhar e matar vários outros americanos. A cultura de massa nada favorece e excluiu, a cada dia que passa a imagem de pessoas “estéticamente não aceitáveis”. E isso incluem homoafetivos, negros, pessoas acima do peso, imigrantes… Quando é que vão começar a não tratar essa pratica como uma brincadeira simples e tratar como uma chaga nociva, que começa desde cedo na escola? Quando vamos aceitar as diferenças?

Não há respostas. Mas há o Gossip, uma banda cuja vocalista é uma gordinha com atitude e com um som que não me agrada, mas pela postura punk, merece todo o meu respeito, já que a Beth Dito não cansa de usar e abusar dos tops e de roupas que somente veríamos em pessoas “estéticamente aceitas”.

Já sofri com Bullying e postei isso em uma outra crônica –https://aguaparaplantas.wordpress.com/2010/05/01/voce-nao-esta-mais-nos-dias-de-escola/ -, mas voltar a Chico Mendes naquela circunstância foi enterrar um pouco e ajudar a sanar naquele momento aquela situação. Os mineiros do Chile, por questões mais pessoais, vão ficar para outro post.

Obrigado a todos por me lerem

Mídia independente sempre!

Se informem sobre Bullying e ajude, como eu que fui vitima a varrer essa prática da nossa cultura!

P.s: Escrevi essa crônica no impulso da raiva dos fatos, se tiver algum erro esdrúxulo, perdoem esse que vos escreve, pois a raiva falou mais alto, e terminei de escrever e quis logo postar como um expurgo a essa prática nojenta.

Bom, mas nem tudo é tristeza, às vezes, transformação:

Minha poesia e outros poemas vão estar com as pessoas, os poetas e com a Mara Bombo, uma mulher com uma energia muito boa que me cedeu espaço a escrever no blog do Centro Literário de Piracicaba. Mara, a imagem escolhida eu achei tão perfeita, que vai fazer parte agora da imagem correspondente a minha poesia. Obrigado pelo carinho!

http://centroliterariopiracicaba-clip.blogspot.com/2010/09/poetamigos-rodrigo-vieira-ensaio-sobre.html


Eu também fui você Douglas!

Um beijo e um abraço de um irmão.

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~ por Água para Plantas em setembro 12, 2010.

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