Fado (Ou prisão de um Ilusionista)

 

        (…) Libertem-me de minha atroz prisão ainda agora.

        Com palmas, com aplauso, com as mãos tão generosas.

        E as cálidas palavras que das bocas vão soprar e

        Meus planos vão frustrar ou minhas velas enfunar; (…)

                                                               A Tempestade – William Shakespeare

                                                               Epílogo – Última fala de Próspero

      Descobri esse delicioso som português que me encantou no instantâneo. Amália Rodrigues é uma diva, uma Deusa portuguesa a cantar um amor desdenhoso como Piaf, que diz que não se arrepende do que fez, com ares de “Cry me a river” de Billie Holiday . “De quem eu gosto nem as paredes confesso”. Um tiro para quem ama, uma dor também para quem canta.

                Me remete a uma época em que ouvia muitas coisas antigas, a uma época em que me apaixonar era fácil e também muito doloroso. Nunca ouvi os sons do meu corpo, as dores e as qualidades de “ser” macho-alfa, de ser determinante em ter ou precisar sexo, nunca fui muito fissurado em sexo, em certa idade era como se fosse assexuado, realmente nunca pensei em sexo ferrenhamente, como outros rapazes, querendo colocar o pau em qualquer buraco que aparecesse, pensava mais em vídeo-game, quadrinhos, rock e literatura. Isso pode soar fake, mas é um fato. Conto nos dedos as mulheres com quem me relacionei sexualmente, mas não sou tão santo, conto com os das duas mãos. Enquanto muitos tocavam puteiro, eu ficava em casa tentando passar uma fase, tentando entender o que escritores e poetas tinham a me dizer, meu arroubo a sexo sempre começava com uma paixão, quando uma química fluía e rolava com alguma pessoa, daí era mais fácil, mas não tardei a beijar, tardei a namorar, só começei a namorar quando encontrei uma outra pessoa que também estava de saco cheio de andar com alguém que no dia seguinte vivia a sua vida, ia aos seus compromissos e seguia. Verdadeiros amantes não vivem suas vidas normalmente no dia sequinte: Pensam no que o que o outro pensa, pensa em estar, pensa no que come pensa no que o outro pensa, pensa, pensa, pensa… Tentei ser um pouco mais artificial, tentei ser um pouco mais macho nesse sentido, mas acho que nunca rolou na sua plenitude, sim, já fiquei com pessoas em baladas, mas como uma mulher, esperava em uma janela imaginária a pessoa aparecer, eu ligava, corria, mas era em uma esteira sempre. E nessas “baladas” estava bêbado e me sentindo muito só, realmente só. Me sinto só.

                Era doloroso me apaixonar porque eu me perdia em pensamentos e esses eram um fluxo de idéias ilusórias, esperanças de coisas baratas que se toma, como benflogin, rivotril e frontal xl… Nada a não ser imagens depois, imagens, decepções, e o pior, ressaca moral que engof nenhum da um jeito.  Mas isso é Fado talvez não Fato ou o contrário.

Passei, há um bom tempo, desde que cursava a cadeira de jornalismo em ser um leitor ferrenho de crônicas, a que sempre gostei foi a do João Ubaldo Ribeiro, que tem uma forma simples de se falar de tudo, e no meio dessas explanações, no ultimo domingo falou da tentativa da Europa de se acabar com o dinheiro (papel).

                Creio que aqui será longe, pois o forte do Brasileiro é a economia informal. Sofreriam então os hippies, os autônomos, que fazem parte de uma raça a ser extinta pelo ferrenho capitalismo, almejando o controle em hegemonia de qualquer tipo de tarifação tributária. O que tem isso a ver com o início.

                Tolstói, que apaixonadamente discursava em um dos seus textos anarco cristãos, dos muitos que eu tenho impresso de e-book e guardados de uma forma desorganizada, pregava que a verdadeira conduta moral do homem seria indispensável uma conduta casta, chegando ao radicalismo de pregar a castidade para que o homem se entregasse ao homem sem nenhum tipo de outro co-interesse, contraditório a sua biografia, já que teve muitos filhos e casamentos, mas faço aqui a meia culpa de Tostói: Em grande parte o que atrapalha qualquer indivíduo de se relacionarem intelectualmente falando é em grande parte questões sexuais: Sejam em relações genéricas ou como um empecilho a desenvolver a prática e o estruturamento  de doxas, ou pelo arroubo inculto do corpo procurar outro, no meio de uma conversa importante em um debate acalorado de calouros de faculdade, já que, nessa sociedade contemporânea onde a massa de indivíduos sem informação é um número muito maior daqueles que a tem, conversar sobre Anita Malfatti ou sobre qualquer outra história cult se torna uma disputa de egos e vaidades. Dizer não sei, não conheço e não sabia é um pecado mortal àqueles que buscam informação, independente de classe.  A elite intelectual cobra bagagem, uma certa sanidade e crachá, impedindo a expressão de artistas, que só são considerados  bons quando morrem, ou quando aparece um entusiasta com dinheiro e lhe apontam os dedos afirmando : Isso é bom.  Daí vem a corriola de puxa sacos e pseudos. Conheço várias pessoas com potencial de escrita muito bom que caem nessa estúpida armadilha, já que a bravo custa muito caro, mas o mais barato é a expressão, ponto inicial que o artista de qualquer mídia não pode perder o foco, mas com tantas normas e formas, a espaço para quem fala de seu intimo em uma poesia concreta e forte quando escreve “espreção”?

                Uma famosa diretora de teatro francês deu uma entrevista ao jornal “O globo” de domingo de lucidou um poucos essa crônica, Ariane Mnouckine, quando foi pergunta sobre uma frase de Antoine Vitez de que “o teatro popular é o teatro elitista para todos” (O que não deixa de ser uma verdade, já que a moda “mambembe” não é mais ícone de resistência e sim de vanguarda, estilismo e elitismo) ela genialmente respondeu:

                (…)É algo muito importante.Porque há essa tendência de se dizer: “É preciso algo de popular, então vamos fazer uma merda”. É uma coisa de nossa época, é só olhar a TV.O que Vitez diz, e que é belo, é: “Não, é o melhor para todos”. Não se trata de “tudo para os melhores”, mas do “melhor para todos”. Do melhor acessível, apreensível… Mesmo que haja mistério, que seja um mistério radiante, e não opaco e agressivo (…)

                A arte, em sua “feitura” é um ponto objetivo a ser analisado subjetivamente de uma forma ampla pela introspecção e ponto.E essa feitura deve ser feita, conforme concordo com a diretora, de uma forma acessível e apreensível, e o mais importante, toda arte deve te surpreender  e lhe causar a mesma sensação de surpresa quando assim novamente executada, não como uma forma tendenciosa, mas por fazer parte de sua natureza: A arte deve mover objetivamente o inconsciente subjetivo. A arte foi feita para surpreender. E o ponto acima, que completamente concordo, é que quando o objeto da prática objetiva da arte não é a própria arte, então criamos elites ou grandes lixos, privatizamos pontos de vista, grupos, questionadores, olhares… É como se você sempre precisasse de acompanhamento ao fazer um passeio a uma exposição ou ser de uma favela para entender um funk proíbido.

                Uma vez, há um certo tempo atrás, numa de suas primeiras visitas ao Brasil, Lou Reed foi perguntado sobre o seu espólio artístico e sobre a fraca venda do seu último cd, genialmente respondeu. “O que eu fiz, está ai, os que julgam a arte com olhos técnicos nunca poderiam aceitar o que aquilo iria se transformar em muitas coisas (como o Punk, por exemplo). Não devo explicações sobre o meu trabalho ou se o meu cd não vendeu ou qualquer outra merda do tipo. Era aquilo que eu queria fazer, se não gostou, você pode dar para amigos ou devolver a loja, ou talvez compre um de Jazz, já que ali ninguém questiona nada”

                Um discurso com um pouco de uma ótica pop-art, mas em um ponto de vista aceito. Abraporu é “incompreensível”, mas feito de uma forma objetiva e a muitos subjetivamente mexeu, mas é o Abraporu e ponto. Não existe questionamentos se o cactus deveria ser maior ou se o corpo é desproporcional, é um objeto com um objetivo – natureza artística – e por si só não merece e nem deve ter nenhum tipo de questionamento, análises cabem, comparações, talvez, mas o intuito é subjetivo, se não te atinge, ou não houve amadurecimento ou não serve para você, ai parafraseio o Lou, devolva e compre um outro, ou tente achar questionamentos ou se aprofunde mais sobre a sua relação com a arte. Não se questiona Dali por ser surrealista porque não se julga o que suportamente não tem referências? Mas até que ponto, qualquer tipo de mídia merece ou não questionamento?

                Pra mim, nenhum. Eu como Beatlemaniaco também posso afirmar que o álbum que mais gosto é o Branco, mas artisticamente nunca ignorar ou questionar: É uma obra e ponto. Assim como questionar ou “analisar” “Yellow Submarine” porque é o que não me atrai muito, ou dizer isso ou aquilo do “Soft Parade” do Doors – apesar de gostar de todos – em comparação a outros. Não se analisa a obra de um artista dessa forma, e sim, a sua intenção, agora, caber se foi bem sucedida ou não, isso é mera subjetividade, especulação e às vezes despeito e desrespeito. Existe uma crítica a arte? Sim, como existe pra tudo, mas quando pautada com respeito e inteligência é até um esclarecimento a quem procura por um referêncial ou fundamento dentro da mesma, mas ninguém precisa delas como rótulo ou definitiva descrição. A obra está feita. Ou é ou não é, e é isso que se resume o ponto objetivo inicial de sua criação, que parte do âmago do artista que é onde todos os críticos querem entrar, mas acabam sempre se fudendo. E como dizer que João Gilberto tem uma voz esganiçada e ridícula, sem entender que aquilo é feito de uma forma psicótica para que o violão se entrecruze com sua voz, tornando às vezes uma música um ressonar único e hipnótico, agora, poderemos dizer que em tal momento esse intuito não aconteceu,mas até ai, foda-se, foi uma análise subjetiva. O objeto em comparação é arte pela arte pelo ponto de vista de seu intuito e fundamentos, que não cabe a ninguém dizer e sim ponderar e a muitos, ganhar dinheiro ou cercear artistas de aflorarem em suas habilidades, parando em “modismos”, “estilismos” e “maneirismos”.

                Ave os três acordes do Punk! Que escrachadamente avançaram as décadas sem pedir explicações, embora, dentro do underground que amo andar, ainda existam alguns acalorados a discutir que álbum tal não foi bom ou isso não faz parte… Tem uma linha ideológica nova dos amantes de Rock Progressivo que dizem que Pink Floyd nunca foi Progressivo ou Psicodélico, sendo que os “fundamentos sonoros” sempre estiveram lá desde o início da banda. Ai se abre um ponto de análise, pois estamos falando de fundamentos para a formação dessa mídia de arte e abre um outro debate, dizer que David Byrne, ex Talkinheads se afaste da new wave que o emergiu, também abre debate, mas não venham com groselhas sobre se não vendeu ou não, ou com que intuito, ou isso é aquilo, pois se analisa ai “fundamentos” da criação artística ou seja, a “feitura de uma obra”. Analisando a própria arte, dentro do seu claro fundamento, que é uma outra crônica a escrever. Analogias que foram precisas a fazer entender do que eu acho de uma  “crítica coerente”.

                Para finalizar, acabo com um pensamento de Tolstói, que foi reproduzido de uma outra forma pela mesma artista supracitada: Uma outra pergunta feita a ela pelo “O globo”.

 (…)- Você resistiu a todas as tentativas de ideologização – esquerdismo, maoísmo, stalinismo – e afirmou que lhe basta ser de esquerda. O que é, para você, ser de esquerda hoje?

(Silêncio) Penso que ser de esquerda é ainda se ter uma certa confiança nos seres humanos, e uma não-resignação à exploração, à miséria, à ignorância. E há 30 ou 50 anos existe uma nova dimensão importante: A ecologia. Deveria ser uma dimensão de esquerda, porque ela implica uma partilha totalmente diferente das riquezas naturais. (…)

                E é isso que me basta também… Acabo esta crônica ouvindo: “Faluas do Tejo” do Madredeus. Um fado muito gostoso. Ouçam. Vale e muito a pena.

P.S: Tem uma crônica sobre a volta do Confucionismo também genial no Globo de Domingo passado.

É só conferir como são parecidas: “Cry me a river” com Ella Fitzgerald

E “De quem eu goto nem as paredes confesso” de Amália Rodrigues:

 http://www.youtube.com/watch?v=jAoABuJS1MA

 http://www.youtube.com/watch?v=NtTlYiaANMM&feature=player_embedded

Cadeado nº2

Na verdade me atrevi

Não fui, entrei de açoites

Bebi, fumei, passei a noite

Mas depois, escrevi.

Pulei no mar, me corroí até doer

Secou a água salubre que do rosto desceu

Socou o corpo não por merecer

Você em mim, assim jurava eu

Factóides escritos por escritas

Dia a dia, o mesmo, pelos jornalistas

Provérbios a doces profetas

Mas minh’alma , ninguém diserta

A entrar no labirinto o som do sim

Mandrágoras murcham e Minotauros  gruem

Balé do corpo, bocas unidas, corpos que se assumem

Travam um inútil xadrez. Contra as línguas, carmesim

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~ por Água para Plantas em agosto 25, 2010.

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