Todos os Caminhos Levam Para Casa – Parte II

Todos os caminhos levam para casa

Parte II

“Genie finalmente conseguiu comprar o televisor tela plana (LCD ou OLED?) que se coloca na parede… Ela se casou recentemente  com o Patrick e diz que “morreria sem o Patrick”. Mas descobriram o amor por um acaso. Estavam se sentindo sozinhos, começaram a ser confidentes e um abraço definiu uma paixão. Se entregaram e hoje tornaram a oficializar esse amor casual e divertido (qualidades essenciais para se viver e  não deixar morrer um amor ).

Antes Patrick era o seu companheiro de casa. Tinha completado os estudos recentemente, mas havia passado para um concurso no exército junto com o seu companheiro de casa, digo companheiro porque compraram juntos essa casa, aliás, os seus pais, na medida interiorana de tentar dar “aos filhos estudo e uma vida fora da roça”. Começaram em uma casa medíocre e compraram aos poucos os seus pertences, mas com muito esforço e estudo galgaram coisas melhores e agora, a casa tem uma linda piscina, jardim, um computador de ponta e uma casa remodelada com um estilo clássico e arrojado. Torço muito por eles e acompanho quase que diariamente a sua vida.São tão auto-suficientes (emocionalmente falando) que não visitam ninguém e nem são do tipo que “adoram viver debaixo da asa de amigos”, preferem viver a vida juntos e os dois se bastam. A novidade era que estavam juntando para investir em imóveis: “Talvez comprar uma lojinha de flores” disse Genie sorridente com um ar simples. Ela é a gótica mais linda e feliz que eu conheci “…

Quando me chamaram eu levantei a cabeça. Meu olhos estavam vermelhos. Todos se assustaram e perguntaram se eu estava bem. Disse que estava. Mas não estava nada bem. Não dormia há dias. Estava exausto e pensava em me matar todas as manhãs, mas pensei que seria um gesto covarde, ainda mais com um ser que saiu de mim, sendo gerado em uma barriga, no silêncio aquático, ali, mergulhada, submersa sem se preocupar com nada…

Crucifica-o!

– Você está bem? – Perguntaram de novo…

– Tô… Não estou dormindo direito mais é que e estou tendo uns proble….

Nesse momento eu pude continuar a dizer o que eu sentia e via claramente descaso nos rostos daqueles a quem eu era subordinado. Como dando ouvidos a um cachorro ou a um mendigo que pedia um prato de comida, eles apenas atinaram a sua atenção para mim para que o brilhantismo e a alvura do seu senso da justiça não tivesse nenhuma mácula – pois uma diretoria desumana não fica muito tempo com o seu  *DAS  – eles olhavam com um desdém incrível, apenas queriam saber se eu tinha a certa capacidade de “raciocinar”, tendo completado esse julgamento, eles continuaram a fingir que me ouviam, e eu continuei a ser o locutor idiota, interpretando agora que eles realmente estavam a fim de me ouvir.

As outras palavras eram mais duras.  Mas só descobriria a dureza delas um ano mais tarde.

Com a pretensa proposta de aumentar o meu ordenado, eles me colocariam em um setor novo que após ser organizado, iriam me designar como chefe, encarregado ou supervisor.

– Onde seria então?

– Bom, é na praça da Bandeira, o tribunal tem um velho depósito lá, mas não está em condições de opreações e como a viagem até Niterói para pegar o material é mais dispendiosa,  estamos pensando em fazer esse pólo de atendimento lá. Estamos tendo problemas com o transporte do material de Niterói até aqui… Tem sempre alguma coisa que cai do caminhão ou esquecem alguma coisa, e se esquecermos, o trajeto até a Praça da Bandeira não dura nem cinco minutos…

– Quando eu começo?

Um sorriso escroto na cara de um pseudo-aristocrata burguês é como um regurgito de algo podre que você teve que comer a força. Como se fosse um mendigo que urrou por horas com fome e só achasse uma coisa podre e bem fedorenta dentro de um lixo velho, cheirando a azedo, sendo mordido por moscas que fedem a umidade…Não tinha outra oportunidade. Era aquilo que eu tinha que fazer. Fazer algo que você tinha que comer para não perder o emprego. É como só ter olho de cabra. E ainda você tem que estourá-lo com os dentes, sorver saborosamente o liquido preto e não reclamar… Esse é o sabor e o gosto que fica na alma depois de ver um sorriso assim…  Humilhação. Nojo. Enjôo… Vergonha de si mesmo…

No primeiro dia, eu peguei carona com uma Kombi que foi até lá para pegar os materiais mas nos outros dias eu trabalharia de vez lá. Nos próximos dias, teria que ir com as minhas pernas. Descobri um caminho mas rápido até lá. E cheguei…

Na entrada do portão principal haviam vários carros largados. Clássicos automobilísticos largados no tempo a própria sorte.Opalas, Comodoros, Corcéis e alguns deles, apesar da ferrugem e de estarem largado ali, ainda davam partida. Tão amontoados, que tínhamos que pular as sucatas e rodas que haviam ali. Fora inúmeros gatos. Milhares de gatos e muitos, realmente não muito difícil, eram vistos com ratos de médio porte na boca. A sucata fedia a lixo ,bicho morto e fezes de animais por todos os lados e em tudo que pisávamos para chegar lá, fora as fezes e a urina de gato, que de tão forte, emprenhavam em qualquer pano que ficasse do lado de fora – me recordo de uma vez ter comprado uma camisa básica preta na Taco, eu não tinha deixado ela na parte de fora do depósito, e sim em uma das alas que abrem o portão do escritório do depósito, mas mesmo assim, o cheiro de podre era tão impertinente e se embrenhou tanto na camiseta que tive de joga – lá fora, com etiqueta de recém comprada e tudo. “Não adianta lavar” – disse Seu Duarte quando comentei – “Nem com confort  lavando várias vezes vai sair essa murrinha, você não deveria ter esquecido aqui fora”. A minha cabeça doía desde que eu entrava para trabalhar, mas só passava quando eu ia embora de lá e tomava um analgésico. “É craro, você aí, todo preibóizinho, trabalhava em escritório, agora que veio trabalhar mermo vai estranhar… É assim mesmo frorzinha, no inicio é ruim pra daná o chero, mas essa istória que tá com dô de cabeça por causa do chero… É foda, pra mim isso é desculpa pra num trabalha… Pobre é que é acostumado com chero de merda” me irozinava Paulo, com uma semana de trabalho no galpão. O cheiro de tão insuportável causava mau estar físico e na altura de todo perrengue que tinha passado, até mesmo tinha esquecido que um dia eu tinha trabalhado em um outro setor.

Não trabalhava sozinho no depósito, éramos três: Duarte, um senhor ultrapassando a meia idade que mancava de uma das pernas e Paulo, que tinha uma disposição que valia por dois de nós ali, embora de um temperamento muito forte. Meu trabalho seria apenas de catalogar e planilhar todo bem “reaproveitável” dentro do depósito, mas veria que a minha mão iria ser posta na massa sim. Duarte era um senhor muito simpático e foi muito fácil de apegar e fazer amizade.Fora o segurança do depósito, o Marcelo, que muitas vezes, até hoje, me injeta ânimo e boa palavra pelo telefone. Assim são os verdadeiros amigos, que são aprovados pelo fogo e caminham com discernimento lado a lado contigo.

E foi o mesmo que me apresentou todo o depósito. Mostrou que toda estrutura era precária.  “Mas seria bem pior se não fosse as minhas gambiarras” – retrucava Duarte.“Essa estufa, esse papagaio de ferro para pendurar roupa e o sofá foi eu que arrumei aqui pro escritório”disse Duarte, que realmente tinha habilidades incríveis. Entendia de elétrica, carpintaria, alvenaria, mecânica e fazia muitas outras coisas, desde objetos jateados a vidro a consertar televisores.  Assim fui apresentado ao depósito e após deixar as minhas coisas no “escritório”, fui olhar todo o galpão.

Crucifica-o!

O que descrevia o “suposto depósito” era um amontoado de lixo e sucata. Lixo mesmo. Do lado da viela que era também o “suposto escritório do galpão”. Uma barcaça enorme de ferro ficava encostada ao lado da porta onde os peões guardavam os seus pertences e improvisaram ali uma estufa de madeira com uma lâmpada de cem watts para esquentar as marmitas. A madeira da estufa era podre e fedia a mofo. A estufa era enorme e era como um cartão de visitas na entrada do escritório, e sempre, mas sempre mesmo fazia uns barulhos estranhos que mais tarde me fariam vomitar. As roupas ficavam dependuradas em uma armação de ferro achada na sucata e guardavam as roupas em um armário de madeira que fedia a mofo. Mas mesmo assim as roupas apenas “ficavam ali durante o turno de trabalho” se ficassem de um dia pro outro, era lixo na certa. Tudo que se organizava no escritório foi ou era encontrado no ferro velho. Assim era o “mobiliário” do escritório. Não tinha banheiro, não tinha ar, não tinha limpeza, não tinha absolutamente nada. Todas as coisas que não serviam mais no tribunal eram jogadas ali. Todas elas iam para lá, inclusive, eu, que me sentia humilhado, de antes fazer parte de um setor com limpeza e organização, era agora parte de um amontoado de coisas que não prestavam mais, coisas que não serviam, coisas desconexas. E junto com essas coisas eu me tornava elas todos os dias, me sentindo abandonado, largado, despresado e inútil. Eu tinha medo. Ia dormir com medo. Não sonhava mais. Apenas era um espectador de coisas repetidas, as palmas sempre voltavam em um descompasso estranho, fitas e vidas sendo rebobinadas em uma forma estranha de se contar uma estória sombria e triste.

Mas era meio dia agora. Hora do almoço. Não importa se você não está com fome, você tem que comer, pois depois não vai poder parar para comer. Nós três lavamos as mãos e tiramos as luvas para pode almoçar. A água batia na mão e saia preta, como se estivéssemos pintando o galpão de preto o dia inteiro.

Durante a refeição que fazíamos o Duarte me viu levantar bruscamente para vomitar em um buraco empoeirado ao lado do que chamávamos de estoque, nos fundos do escritório do depósito. Duarte me perguntou o que houve … O que houve foi que eu tinha descoberto o “porque da estufa fazer barulho de vez em quando”

– Eu vi um rato roendo um pão…Um pão com manteiga que eu tinha colocado dentro da estufa (…) pra eu comer mais tarde, ele tava em cima tampa da minha (…)  marmita… Ele correu pelo meu braço – respondi vomitando.

O rato era enorme e bastante sujo. Senti nojo porque eu comeria aquele pão. Fora que pela distancia, pude até mesmo sentir o cheiro do rato. Até hoje isso me embrulha o estômago.

– Ô frorzinha, e você vumitô por causa disso?É um viado mesmo! Cadê a sua comida?! Eu com tanta fome aqui… Coronel (O apelido do Duarte era Coronel) Como é que mandam um merda dessa trabalhar aqui?  Levantava Paulo do seu lugar com uma cara de deboche.Olhava pra mim como se fosse um ser pior do que o rato.

Cagava para o que ele dizia. Estava passando mal e de tanto nojo faltava até o ar para vomitar… Ele veio na minha frente e de pé com a minha marmita na mão veio me perguntando:

– Vai comer o que você deixou na marmita frorzinha?

Fiz um não com a mão sem me virar.

– Posso comer?

Apenas levantei meu polegar. E por incrível que pareça ele começou a comer. Desesperadamente.

Não tinha mais nojo do rato. Tinha nojo daquele ser humano medíocre e ridículo que não tinha nojo de si. Que não tinha nojo de comer daquela forma, como um animal sendo mais voraz do que o rato, devorando a minha comida que com certeza não poderia mais ficar no meu estômago. Não vomitava mais por causa do rato e sim por causa de Paulo. Como, por raiva, uma pessoa pode comer de uma comida que um rato passou por cima só para humilhar um outro ser humano? Será que ele não via que estava na mesma situação que eu? Será que ele achava que não estava ali junto comigo? Às vezes, mesmo um homem estando em igualdade de sofrimento com outro ele consegue alívio no repudio. Como a atitude do outro ladrão que zombou a Cristo, perguntando se ele fosse Cristo, desceria da Cruz e castigaria os outros. Não refletia que iria morrer e que, por estarem em igualdade de posições não existiria nem a separação de seus corpos. Era um só o sofrimento ali. Era um só corpo a sofrer o castigo. Os três eram indivisíveis no sofrimento, mas o homem só “recompensa” o seu esforço e o seu fracasso vendo situações piores, e as vezes, em nossas atitudes e mentes medíocres, o consolo vem em perceber que “outros sofrem mais do que nós”. Somos uma unidade no instante em que sentimos e temos as mesmas necessidades. Somos  um não só quando a situação é igual, somos um no que diz respeito a ser, também. Mas essa metafísica era impossível ser ensinada aquele homem, que agora devorava com gosto a minha comida e o seu sobejo me enjoava e me fazia golfar jorros de vômito. Vai ver, a sua vida o fez ser assim. Vai ver ele é apenas uma pessoa calejada, mas acho que quanto mais eu sofro ou eu tenha sofrido, mas compaixão eu tenho pelos outros, mas às vezes, eu não sou assim.

Seu Duarte me escorava e me ajudou a levantar. Botou a minha cabeça debaixo do tanque e mandou que eu tomasse um copo de água super gelada de uma vez. Que aliás, é um santo remédio para enjôo.

Meus dias eram sofríveis, mas estranhamente passavam rápido demais. Acho que meu desinteresse e desgosto com a vida era tão grande que eu apenas esperava a cumpria as expectativas do dia como um zumbi. Nada me emocionava mais. Tudo era opaco e sem cor. Eu esperava as oras, contava nos dedos os dias, matinha uma sanidade suspensa por um medo ridículo de não dar nada certo. Eu morri muitas vezes por dia. Eu me matava muitas vezes pela minha mente. Esse era o meu desejo. Simplesmente não voltar pra casa. Me entregar ao mar, ser levado junto com um corpo…

Crucifica-o!

Mas lembrei de um aviso de antes, uma coisa que antes me dizia claramente para não me desesperar… Lembrei, no meio de toda a confusão mental que a minha vida havia se transformado de um martírio que tinha passado…

Estava encostado com as costas doloridas em um banco de uma igreja evangélica. Uma igrejinha bem pequena e humilde, na qual o meu desespero moveu meu corpo a procura de respostas e cura.  A senhora havia me dito que : “O Senhor mandou lhe dizer que você não tem problema nenhum e que ele lhe dará vida em dobro”. Eu não entendia nada e achava aquilo tudo uma charlatanice…

Já estava na terceira bateria de exames e eles não comprovaram nada. Eu tinha febre e dores no corpo, muitas dores. Minha garganta quase fechava e eu não conseguia respirar nada. O ar faltava e muito nos pulmões e uma vez a noite eu quase tinha morrido de tanta falta de ar, o que me salvou foi um gesto desesperado de rolar o corpo da cama e bate-lo de costas no chão, me fazendo cuspir uma bola grossa  e escura de catarro, que não parecia, pois a viscosidade era muito mais sólida. As baterias de exame não tinham mostrado nada, eu não tinha mas esperanças até começar a fazer outros testes.

Mas isso é uma outra história. Que não vou contar neste post. No outro, finalizo a série: “Todo o caminho leva para casa”.

(Continua)

Acho que é a ultima vez que faço uma crônica continuada. Bom, não digo essa é a ultima vez quase nunca em minha vida, aliás, acho que nesse tempo todo eu só disse isso uma vez. Bom, esse blog serve como um desabafo autobiográfico… Eu posso colocar uma crônica em continuidade mas com uma separação “interna”, tipo, acho que devo colocar um espaço máximo de páginas, acho que até seis não fica muito cansativo para o leitor… Bom, como vocês podem perceber, eu não sou uma pessoa muito equilibrada podendo não escrever merda nenhuma ou até exceder o limite de linhas ditado por mim… Bom, intua-me. Melhor, assim não tenho que me contradizer (pelo menos não em público)

RVS

Anúncios

~ por Água para Plantas em julho 16, 2010.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

 
%d blogueiros gostam disto: