Todo caminho leva para casa – Parte I

Todo caminho leva para casa

Parte I

Bom, Rubão tinha razão, mas como eu não sigo nenhuma ordem cronológica, eu lembrei de um outro fato que me aconteceu, mas a crônica, ou estória, não começa agora. Ela vai começar lá embaixo.

Comecei a escrever está crônica e deu mais de dez páginas, como eu quero arrebanhar mais leitores, vou começar a colocá-las em doses homeopáticas, portanto, dividi a crônica em duas partes, mas essa com certeza eu vou postar na cronologia e no tempo certo…

Era difícil ter sonhos, sou uma pessoa de sono pesado, mas quando tenho sonhos eles acontecem de uma forma repetitiva e impertinente…

E estava tendo o mesmo sonho há quinze dias

Era o mesmo cenário. O mesmo tudo…

Via claramente um tribunal antigo em minha frente… Parecia mas com uma festa de coreto, mas outras autoridades e pessoas que circulavam aquele palanque sugeriam que era uma espécie de “Juri” popular todo aquele espetáculo…

A visão era como se eu estivesse deitado olhando com o rosto encostado no chão todos aqueles acontecimentos. Olhava agora para os pés de um homem inteiramente castigado e outro com sandálias de fivelas douradas, enquanto uma multidão enfurecida gritava e cuspia nos seus pés. As pessoas gritavam. As pessoas na multidão execravam o homem. Cuspiam no homem e até mesmo as pessoas que o seguravam, não mais um homem, mas um trapo de carne, tentavam se proteger dos objetos lançados pela multidão, mas riam, escarravam na sua cara, mas não via o seu rosto, apenas ângulos diferentes de uma tortura forte e agonizante que faziam minha consciência se despregar do sonho e querer acordar.

(!!!)

Mas um tilintar agudo de ferro me levantava de novo. Eu tinha que trabalhar há uma hora atrás e de novo eu estava muito, mas muito atrasado.

Desde que soube que Luiza “estava sendo gerada” tinha sonhos estranhos. Sonhava com um tribunal e com um homem que pingava sangue e que subia em um palco. Não havia decifrado o sonho, mas até então, não ligava muito. Minha vida não estava muito boa, meu emprego no Tribunal estava na corda bamba – é, há muito tempo, até nessa época- e não sabia o que fazer. Quando não acordava com um despertador – sim daqueles antigos mesmo que tinha um sino em cima – acordava com bordoadas na porta do tipo “acorda caralho, quem mandou largar a faculdade?” Coisa que na verdade nunca aconteceu, eu tinha perdido a bolsa porque repeti cadeira, então, não pude mais pagar e um ano depois, Luiza viria. Para minha redenção. É, mas voltando as antigas coisas, as coisas realmente não andavam muito bem mesmo, minha mãe na época não me tratava, apenas me hostilizava com todas as forças de um arrependimento enorme por ter me gerado, acho que ela via as coisas como um fundo de investimento, mas desde que aconteceram coisas estranhas, eu via a vida como um arrastar de acontecimentos e não como um prazer de sempre descobrir e assim viver – pois não há outro sentido para a vida senão descobrir, aprender e mudar – A vida era uma programação: Trabalho, faculdade, casa, e isso se repetia até quinta, pois na sexta eu bebia, no sábado eu bebia e no domingo também, mas isso foi depois que eu tive a grande suspeita, mas isso é uma outra crônica.

Crucifica-o!

Morar com a minha mãe tinha se tornado um grande inferno, pois não agüentava ela prever e preconizar sobre um futuro que era incerto. Dizia que tudo ia dar errado na minha vida e que depois de ter “largado” a faculdade, só faltava isso a me acontecer e que depois não iria me ajudar em nada. No trabalho, assim que chegava, meu chefe dizia que eu não ia mais durar no setor e que iria me despedir, era colocado agora para escanteio e numa nova reunião que iria acontecer no próximo dia, eles “iriam” decidir tudo que iria acontecer por diante. Nem eu realmente sabia o que iria me acontecer.

Na volta do trabalho passava para ver se estava tudo bem com Luiza e por incrível que pareça estava, às vezes, vozes mesquinhas me empurravam para uma armadilha que cairia mais tarde e quase me venceu, mas vi que era preciso tudo aquilo, eu precisei e mais ninguém precisou passar por tudo que passei, agradeci e agradeço muito por isso, mas devo também muitas desculpas, mas tudo foi no exato tempo em que Deus tudo determinou. Mas não importava mais nada, o que me importava mais era Luiza, queria que tudo estivesse realmente bem e em paz. Queria todo o amor do mundo para Luiza e graças à Providência de Deus, parecia que estava tudo bem e realmente estava. Estava quietinha, parada, talvez sonhando dentro de uma barriga, flutuando em silêncio em um liquido que só deixava ouvir o que realmente era conveniente. Estava submersa em um mundo de água, na temperatura certa, flutuando, tendo as suas sinapses sendo construídas e sua consciência se desenvolvendo… Estava em uma segurança aparente…

Ó minha filha, o quanto toquei nas paredes de sua morada e desejei entrar e ficar lá escondido contigo! Ali, quente, dentro de uma redoma, protegido, sendo vigiado e não participando de uma vida que “diziam” que era minha e que eu talvez fosse desistir, mas o teu cordão umbilical ainda não partido não me fez partir, e ainda ficar, mesmo que do lado de fora, mas desejando ficar ao teu lado, para não deixar você sair, com medo de deixar você enfrentar e de enfrentar aquele mundo cinza, que me tragava e me dava ânsias de morte. Queria desde sempre, desde o ventre estar sempre do teu lado, mas quis o destino que não fosse eu a estar sempre do teu lado, mas sim acima de ti, como uma águia vigiando os filhotes, de longe, mas sempre assistindo e presente…

Crucifica-o!

Certa vez voltava pra casa depois de ver como Luiza estava. Estava exausto e era umas onze horas da noite. A rua era deserta, de chão esburacado e enlameado. Meu corpo cambaleava de cansaço mas sabia que era inútil, tinha uma caminhada de dez minutos a pé ainda para percorrer até o ponto, mas de tão cansado, caminhava com os olhos fechados e tentava relaxar os ombros, cansados de trabalhar no almoxarifado do departamento de obras do tribunal. Carregava peso o dia inteiro. Caixas de azulejo. Caixas de conexões de ferro. Vergalhões… Finalmente tinha chegado no asfalto e atravessei, depois de dez minutos caminhando, ao ponto de ônibus. Estava com um vale transporte – que antigamente, era um ticket de papel menor um pouco que um cartão, na qual guardávamos no bolso com cuidado, porque se rasgasse ou molhasse ficaríamos a pé – e quando mal o tirei do bolso, uma rajada de vento cuspiu para o meio da pista. Lentamente, eu vi, por todas as coisas sagradas eu vi o vale batendo no paralama de um carro, em alta velocidade e indo embora com o efeito da física, eu fiquei sem passagem. Maldita física, me deixou a pé a filha da puta!

E fui de Marambaia – bairro do município de São Gonçalo – até a minha casa a pé. É uma distancia como ir a pé do centro do rio até Copacabana. Meu corpo não era mais corpo – cabeça, tronco, joelho e pé – meu corpo era dor e cansaço. Não dormia, desmaiava pesadamente na cama, sem pestanejar… Tinha insônia até porque eu pensava que não ia conseguir acordar no dia seguinte, entrava então em pânico. Ficava acordado por ter medo de não acordar (?) É verdade, ficava acordado com medo de não acordar na hora certa, então eu simplesmente não dormia. Várias vezes minha mãe acordou e eu estava de cabeça baixa, esperando o dia amanhecer com a roupa do trabalho… Mas as coisas iriam piorar ainda mais…

Trabalhava pesado em um setor e achava que esse setor iria ser o pior setor do tribunal que eu poderia estar, mas ainda haveria um lugar pior… Cheguei, com todas as coisas e situações na minha cabeça para trabalhar, bom, eu não era eu no trabalho, eu era um amontoado de problemas e preocupações, mas ainda sim, eu estava lá, esperando trabalho… Querendo trabalhar, mas me deixaram meia hora para eu falar com um diretor que eu não conhecia e nem ele fazia um pingo de questão de nos conhecer… Um almoxarife é um pouco maior que um peão, mas não em tese.

Só quem trabalhou ou trabalha no almoxarifado de construção civil do Tribunal de Justiça sabe o quanto é importante esse setor.

Magistrados fazem parte de um poder. Desembargadores são deuses dentro de qualquer departamento do Poder Judiciário. Eles mandam e desmandam. Um bom dia mau dado, dependendo do desembargador ou do dia em que o desembargador esteja, significa uma rua. A casos em que, as pessoas no corredor deveriam se levantar para cumprimentar com excelência um “desembargador togado” saindo e entrando no exercício de sua função. O caso mais famoso e ridículo desse tipo de autoridade sem sentido foi de um desembargador que deu voz de prisão a um peão por ter sujado o banheiro de seu gabinete a ao engenheiro responsável pelo departamento por “não saber gerir os funcionários de uma forma eficaz a pratica ao que exerciam oficio forense”, assim estava no oficio, que foi enxugado com muito deixa disso e com muita puxada de saco. Uma das coisas ridículas, é que após estar arrumado o almoxarifado da Praça da Bandeira, eu não pude ir para a celebração, porque o meu “jaleco” tinha “rasgado” quando eu estava tentando colocar as ultimas conexões de ferro na prateleira. Desde o inicio da minha ida até lá, quando iriam colher os louros – fotos no jornal da abaterj, pólo de reciclagem e coisa e tal – eu não estava. Sendo que eu fui o responsável em operar o depósito da Praça da Bandeira. Eu fui um dos que catalogaram peça por peça o que tinha na praça da bandeira. Eu coloquei tudo o que tinha de físico do depósito em um sistema de baixa – esse sim, eu criei sozinho – para se ter o controle de entrada e retirada de qualquer parafuso que entrasse no depósito. Mas como sempre, eu não levei o lucro. Não apossei nada, não ganhei nada, o que ganhei na época, é o que ganho até hoje: A subsistência. Ganho papéis que me fazem imóvel e que me iludem de que algum dia eu estarei no topo, mas ainda sim, eu agradeço…

Crucifica-o!

Um almoxarife de construção civil é responsável por um monte de coisas. O almoxarife cuida da manutenção das ferramentas, lava, lubrifica e guarda as ferramentas e geralmente elas não são tão leves assim – falo de marteletes, sexta-feiras, marretas… –um almoxarife toma também conta da parte – ou pelo menos tomava na época em que eu trabalhei – de toda a parte de segurança e consumo de uma obra. Um bom almoxarife sabe como fazer gambiarras e indicar as melhores soluções para vários tipos de profissionais da construção civil. E quem abastece um almoxarifado é um almoxarife também. Não pode ser um peão ou uma pessoa qualquer. Tudo que entra e sai do almoxarifado e principalmente de dentro do estoque, só pode entrar o almoxarife. Tudo que entra, e, são coisas que com certeza irão sair, entram no almoxarifado não pelas mãos de peões, e sim pelas mãos de um almoxarife. E tantas vezes, eu de jaleco sujo como o cu de um porco sujo de lama, carreguei varetas de vergalhão maciço, aos montes de um caminhão lotado, não só com essas varetas, mas muitas outras coisas, como sacos e mais sacos de cimento, telhas, peças de cerâmica para banheiro, ou seja, louças de banheiro… Eu estava no pior lugar para se estar. Mas com certeza, acredite e aceita a Providência Divina, pois as coisas poderiam estar piores e realmente ficaram. A corda iria com certeza ceder mais ainda… (continua daqui a quinze dias)


Impressões sobre o mágico

Sobre o tema de “Brilho eterno de uma mente sem lembrança”

Theme – Jon Brion 2:24

Com uma suíte clara e límpida ele colocou uma orquestra a tocar uma toada linda, de trás para frente, como se a mente rebobinasse em um descompasso triste,é como se a mente tentasse não esquecer alguém, existe um compasso na música repetitivo que remete ao dia a dia, dentro de sua estrutura de som, algo como se fosse difícil lembrar e levantar sempre… E querendo não esquecer, como um velho HD que não pode ser apagado porque ele é feito de carne. De trás pra frente volta o cello magistral, hipnótico, repetitivo, vida em maniqueísmo, rompendo lindamente com poderosos dedilhados, lindas cordas, famosas aberturas. Momentos de arrepios. A música desfecha com uma melodiosa e simplória harmônica, do tipo de dizendo: “Fazer o quê, é a vida, se prepare para mais um dia”… Os olhos se encharcam d’água. Algumas gotas caem… Daí você lembra… É só uma música… É só um filme… São apenas dois minutos e vinte e quatro segundos de música, e neles existem tantas sensações!

Daí você se lembra da frase de Joel no inicio do filme: “Areia é apenas uma pequena rocha”… Como as pessoas que um dia foram importantes em sua vida. Como problemas que se desmancharam, mas assim como a areia, são as pessoas que entram nos nossos olhos e nos fazem lembrar como foram grandes. Guardemos então, nossos grãos de areia.

Foi difícil de baixar, mas recomendo aqueles que gostam e que são pessoas sensíveis a baixar a trilha, já que o filme é maravilhoso e a trilha sonora é simplesmente gigante e dimensiona todo o seu peso”.


(…)A nostalgia de um viajante corta o meu coração quando à noite ouço as arvores sussurrarem. Escutando longamente, e, quieto, descubro a essência dessa saudade, que como poderia parecer não é uma fuga do sofrimento, senão a nostalgia por uma pátria, a saudade de uma mãe ou a procura de novos símbolos para a vida. É a saudade que nos guia para casa. Todo caminho leva para casa, qualquer passo é um nascer, um morrer, qualquer sepultura uma mãe.

É assim, quando à noite sentimos medo de nossso pensamentos infantis, que a árvore cicia. As árvores têm pensamentos extensos, calmos e de fôlego comprido, da mesma forma que sua vida muito mais longa que a nossa.

Enquanto não aprendemos a ouvi-las, são mais sábias que nós, mas quando conseguimos, então, especialmente essa pressa e rapidez infantil em nossos pensamentos se enche de uma alegria sem igual. Quem já aprendeu a ouvir uma árvore não deseja ser uma, não desejará ser nada mais do que é, e isso é a pátria, a felicidade. (…)

Hermann Hesse – Extraída da pág. 61 do

Livro: Caminhada– 2ª Edição

Editora Record.

P.S:. Tenho que caminhar mais, acampar mais…


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~ por Água para Plantas em junho 19, 2010.

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