Você não está mais nos dias de escola…

Para André Luis Martins

                A minha pré- adolescência e adolescência foi uma merda…

                 Até mesmo por que, creio eu, tive certo “retardo” em aceitar entrar no competitivo mercado dos machos, que desde cedo, aprendem a competir como nenhum outro mamífero, sim, os homo sapiens sapiens são a espécie mais competitiva da terra. E sempre fui um cara que não gostei de competir. A minha estória sempre foi comigo mesmo. Sempre fui um cientista e cobaia de mim mesmo. Me coloquei em muitas experiências, das diversas, e sempre me testei em todos os meus limites, sendo eles físicos, mentais, sociais e espirituais… Me enfiei diversas vezes em lugares que com certeza sempre me desagradaram para testar quem eu era e saber definitivamente o que eu fui buscar, e me encontrei sempre,  no bom sentido de assim saber do que eu gosto e não gosto e do que faz parte de mim, e descobri que sou muitas coisas e muitas pessoas também. E muitas de todas as vezes que eu me vi deprimido, foi quando eu entrei para essa competição ridícula que tentaram me impor. Sim, essa sociedade escrota em que vivemos não gosta de agregar, pelo contrário, desagrega a todos e tenta agrupar indivíduos de uma forma diferente dentro do mesmo, se você não é igual é diferente e se é diferente é estranho, errado e completamente inaceitável…

                Era muito acima do peso, tinha muitos nomes e apelidos e com certeza, com o estigma que carregava nunca entraria nessa disputa – sim,   eu era realmente “maior” do que sou hoje, dentro daquela comparação massa, altura e etc. Se no Orkut nenhum dos leitores viu alguma foto minha nesses dias de trovão, acho que seria porque eu realmente não quero lembrar dessa minha fase, até porque, existia uma lacuna de fotos nesses dias, eu não tirava fotos, acho que a única foto que eu tenho dessa fase, é da época em que eu ganhei o meu primeiro festival de poesia na escola – Eu não tinha muitos amigos, andava só e tentava tirar lascas de atenção das pessoas, em troca, elas me ridicularizavam e me hostilizavam de todas as formas possíveis, e isso me metia mais ainda em um buraco escuro e sombrio… E era linchado moralmente todos os dias e essas marcas perdurariam até hoje.

                Lembro de um “amigo” de escola que era quase um vizinho meu, que em troca de informação sobre rock e outras coisas culturais, me fazia companhia e de vez em quando, muito raramente, me dava carona até a escola – mesmo passando de carro todos os dias na porta da minha casa. Pensava que só me dava carona quando ele e seus pais estavam com algum tipo de saco em me levar para a escola, ou quando ele queria, sei lá… Só sei que era bem esporádico mesmo… E o mais engraçado é que eu chegava na escola e perguntava se ele tinha chegado há muito tempo, ele sempre dizia que sim, quase sempre  o via chegando na porta da escola, passando de carro  quase do meu lado enquanto eu esperava o ônibus no ponto ou quando eu, de longe no ponto onde eu descia na chegada da escola – pois eu chegava atrasado, tinha ainda que ir para fora, subir um morro íngreme até chegar ao ponto, pegar um ônibus lotado e finalmente chegar no Alcântara – Eu tinha vergonha de perguntar se eu poderia pegar sempre carona com eles, mas um dia, aproveitei que ninguém, inclusive ele, não tinha ainda destilado nenhum tipo de veneno em cima de mim, eu apenas perguntei se poderia. Ele me disse um não enfático. Descobri depois o porquê do não. Quando eu ia de carona com ele, eu não saltava na porta da escola, eu saltava com ele no ponto, que ficava a meio quarteirão da frente da escola. Ele tinha vergonha das pessoas saberem que eu tinha ido com ele de carona para escola (daí a razão da esporadicidade) porque muitas vezes ele falava que eu chegava fedendo na escola, o que era mentira, o que me curava a insônia era um banho demorado, coisa que eu sempre fiz questão de fazer antes de ir pra qualquer lugar… Resumindo: Ele só me dava carona para saber alguma coisa de rock ou música e bem mais tarde se tornou meu amigo porque o principal amigo que o influenciava constantemente, tinha se mudado para uma cidade distante. Ele ficou só. E mais tarde descobriria que teria mais em comum do que qualquer outra coisa com uma banda que eu o tinha apresentado e era fanático na época: O Nirvana.

                Eu tinha e tenho uma sensibilidade enorme, é como um demônio com bons sentimentos e é quase como dizer, como um cara enorme e gigante pode ser gentil, gostar e artes, ser sensível e culto? Quando foi dos trezes aos dezenove, realmente, isso foi o pior, foram seis anos de umbral. Seis anos em uma prisão sem muros – parafraseando “Caverna do Dragão”.

                Não gostava de roupas de marca – até porque muitas vezes, não se achava tamanho GG para gordinhos, mas fora isso, eu nunca gostei que me ditassem o que usar e o que vestir – não gostava de funk – e ainda não gosto – não gostava de música vulgar, de pessoas vulgares e de viver falando de mulheres, de sexo – um sexo que sempre foi mentiroso, sexo que eu nunca fiz – e de carros ou de favelas ou violência… Essa era o papo de toda a minha geração… Eu gostava de música, de desenho animado, de H.Q’S, de filmes, vídeo-game, arte e computadores…

                Quase ninguém gostava disso na época…

                De muitos sofria um extenso, excessivo e sofrível linchamento moral. Não saia de casa pra nada e assim mesmo não era convidado para nada. Via o meu amigo vizinho passando de carro para ir a uma festa, na qual eu ouvi comentários na escola, comentários que faziam ao meu lado, mas ainda sim não fui chamado… Não era bonito, nunca fui… Não era apresentável… As pessoas tinham nojo de me chamar às festas, tinham receio de serem minhas amigas, tinham medo de que eu ligasse e de alguma forma as importunasse com atenção… Estava só…

                Mas um belo dia tive um estalo. Uma luz.

                Vi que haviam outras pessoas que estavam sozinhas! Essas pessoas não eram amigas das outras pessoas também! Eu poderia ser amigo delas, pensei na época, e melhor do que isso eu descobri o que me fazia não ser realmente feliz: Todas as pessoas na verdade tentam fazer  com que as  outras pessoas sejam elas mesmas – mas isso é para a conclusão.

                 Pessoas que gostavam do que eu gostava e não tinham amigos também estavam lá, sozinhas e esperando outras pessoas para conversar, mas eu nunca me aproximava delas porque eu tinha medo de ser rejeitado. Mas o que aconteceu foi o contrário, eu conquistei amigos e pude viver o que ali eu queria realmente viver: Queria conversar sobre as coisas que eu gostava e ser eu mesmo, sem me preocupar com nada. Passei a conversar e interagir com as pessoas e depois de um bom tempo passei a ter amigos de verdade. Passei e ir à casa de alguns deles e alguns deles passaram a ir na minha casa… Vi que parei de sofrer um pouco porque deixei de jogar o jogo que estavam me ditando a perder: Não tinha e nem vou ter nenhuma vontade de me adaptar a merda nenhuma. Não tenho vontade disso.

                Por um bom tempo eu andei com os mesmos amigos, mas aconteceram algumas coisas inversas…

                Eu não queria ficar horas e horas futucando um computador…. Eu não queria ficar falando direto de quadrinhos em pé por horas ou ficar falando sobre cultura nórdica, também em pé, por horas – que sempre tive certa antipatia por causa da modinha que era de se falar no meu meio sobre a mesma coisa – O pessoal não bebia. Não buscava na música o que eu sempre busquei uma coisa que me colocasse em uma escala mais transcendental, enquanto eles, os meus amigos, ouviam uma casta de músicos, que em minha opinião, faziam e fazem parte de uns retardados infantis que ainda vivem a falar bem do Diabo e que não percebem que o mundo mudou e  não acredita mais em lendas medievais, mas ainda sim, eu apreciava a companhia, porque eu não era o centro de tudo – o foco de todo linchamento  que estava em minha volta me hostilizar, me lembrando de como e quanto eu era horrível e asqueroso…

                 Então era complicado. O meio termo seria, se um grande camarada meu me chamasse para tomar um porre ouvindo Soundgarden ou Alice in Chains, e falar sobre as coisas que eu estava descobrindo, como a bebida, a capacidade de compor e tocar, minha paixão por literatura e poesia… Mas não havia o meio termo. Quando eu queria encher a cara, eu tinha que falar com meu amigo vizinho, aturar os seus linchamentos morais – sim, estavam ficando cada vez mais curtos porque eu estava conquistando um pouco mais de respeito da parte dele – mas ainda sim, desagradáveis, quando o que eu mais tentava era encontrar pessoas, ditas ou não amigas, que me fizessem esquecer de mim, esquecer da realidade que tinha que era a de agora, me achar um pária, um homem grotesco e repugnante.  O único meio termo que eu achei foi com um outro amigo meu, que saiamos para tomar cerveja e roubar quadrinhos em bancas de jornal em Niterói, mas a mãe era crente e um belo dia ela descobriu que ele estava fazendo algo de errado, e um belo dia ela o fez confessar e então a nossa amizade mudou completamente… Mas a contraparte estava um pouco abalada. Quando souberam que eu gostava de outras coisas também, outras coisas mais “marginais”, então aconteceu o inverso: Eu passei a ser hostilizado por eles também.

                Como dizia Raul Seixas, é preciso muita coisa para fazer parte dessa casta: “Já serviu? Você prestou serviço militar? Você sobrou? Sabe dirigir? Tirou a carteira de motorista? Já comeu um cuzinho? Já traiu a sua mulher? Viu o Flamengo ontem? Sabe a escalação? Já foi ao Maracanã? Já comeu a prima? Foi a puteiro? Mora sozinho? Tem casa própria? E etc.” E em contrapartida, o outro lado era: “Já leu Machado de Assis? Já leu Shakespeare? Gosta de Teatro? Já assistiu Godard? Quando você ouviu a segunda fase de Miles Daves? Quantos livros você leu? Quantas poesias escreveu? Tem todos os álbuns do Frank Zappa? Comprou a ultima Sandman? Foi a Bienal e pegou o autografo do Neil Gaiman? Curte…” Realmente… Não sei se é só Brasil, mas medíocre é essa merda de gente, que só compreende a vida no que é oito ou oitenta…Que merda de sociedade que cobra crachá e inscrições para que todos façam parte!

                São muitas as perguntas no extenso questionário da confraria dos machos e hoje em dia, não me orgulho nem um pouco em me afirmar heterossexual, pois, mesmo em tribos onde o não convencional está, se existem questões desse questionário a cumprir e a responder… Não há dúvidas, isso é um saco, mas não é de sexualidade que eu quero realmente falar, e sim de obrigações e linhas que a sociedade impõe. As doces normas de que todos devem seguir do que é bom para ser feliz. Eu não me arrependo de não ter feito as coisas que “eu deveria ter feito” para fazer parte daquilo que nunca quis fazer porque todas as vezes, sim, todas as vezes, eu fui eu mesmo. Mas eu sofria demais com isso, porque eu não me aceitava e não sabia o que eu realmente queria, com isso, nada me bastava. Não gosto de fazer nada forçado. O que faço a força é por extrema obrigação da minha necessidade de subsistência – que influi o pagamento da pensão da minha filha, casa, mãe e pessoas.

                Odeio trabalhar onde trabalho. Aliás, a forma como eu trabalho me faz odiar. Eu não nasci para ter carteira assinada ou compromissos com horários, eu queria ter um esquema de trabalho como o da minha mãe. Queria ser autônomo, poder ir a hora que quer, mas sabendo que se eu não for, eu não vou conseguir o meu dinheiro, sim, eu teria que ter esse jogo de cintura, mas “queria” e “se” fazem parte de um vocabulário de ilusões em uma fórmula que apenas coloca as pessoas em um estágio maior de infelicidade, até porque, “se” não é e “queria” é quando não se quer mais… Como alguém pode desejar o que não quer ou conjecturar sobre aquilo que não aconteceu, analisando o mesmo como fato?

                As coisas simplesmente são. E sobre o que é – mesmo que não possamos confirmar o que realmente é – nós não podemos questionar. Podemos apenas aceitar o que assim foi ou é… A verdade destrói essa obrigação com o que é o nada – Aquilo que se disse ser, mas na verdade era outra coisa. Agora, sejamos nós mesmos. Afirmemos a dinâmica dos nossos acontecimentos e liberemos as vontades, analisando as suas conseqüências, por leve que seja, pois se for pesada, é melhor medir com mais cautela, aquilo que pode nos ferir ou magoar. O que se faz ferir somos nós mesmos… Sim, eu sei que nunca aprendi isso realmente, mas eu preciso ter alguém para dizer o quanto tudo isso é dessa forma, quando o frio do desespero chegar, quando o frenesi da ansiedade vier, quando existem noites em que se morre de vontade, mas a vontade não chega a pé, ela se teletransporta para dentro de nós mesmos. Eu me vi nu e descoberto quando certa vez me vi só e me sentindo sozinho de novo, depois dos muitos anos de umbral. E depois de rememorar tudo isso que eu escrevi, eu descubro alegremente que todas essas preocupações – grandes infernos na minha adolescência – eram apenas uma brisa idiota fedendo a baia da Guanabara, que fatalmente iria passar quando eu chegasse na outra margem. Ainda não cheguei onde eu queria chegar, mas a brisa chata foi embora e me mostrou o quanto era insignificante em minha vida. Foi como ver um desastre automobilístico dentro de um carro a cem quilômetros por hora, mas na hora dessas passagens nós precisamos de alguém para dizer que tudo passa. As coisas são breves e nada deve ser levado tão “a sério”. Acho que eu tenho que lutar por coisas mais essenciais… E o que passou na verdade não era nada. Era apenas eu, levando toda a consideração sobre tudo que falavam de mim.

                Depois disso aprendi que a vida é dinâmica e que os meus melhores amigos eu conheci na vida, encontrando e buscando outros espaços, freqüentando outros lugares e procurando por coisas que eu realmente gostava, tanto que, a minha ex-mulher, mãe da minha filha, eu encontrei em uma praça e a minha namorada e companheira eu conheci em uma passeata! Estar aberto a vida é o melhor caminho de mudar a sua condição de vida e dar a volta por cima. Escute a verdade que diz em seu peito. É sempre uma voz que é sincera e que está dentro de nós mesmos que fala quando e como precisamos realmente mudar. E procure sempre amigos, mas só os verdadeiros, pois os verdadeiros sempre estão por perto e não te deixam para trás, mesmo se vão para o mesmo lugar ou se não estão no mesmo lugar e como o Tim Maia dizia, “tentando sempre atingir o bom senso”. Eu ainda não sou perfeito e posso fazer o contrario de tudo isso que eu disse, algum dia ou alguma hora em um momento de desíquilíbrio… Mas, cá entre nós… Como é bom provar o consolo de um pensamento esclarecedor e se permitir tropeçar de novo! Como é bom relembrar disso tudo e saber que há muito tempo já sabia a resposta, que já tinha aprendido, mas como todo bom ser humano, se deixou enveredar de novo e provou de uma ressaca forte do vinho mais gostoso da vida, que é a vicissitude! Viver é bom!

                E a paisagem catastrófica que era o meu passado se resume a: Era apenas eu aceitando tudo que diziam que era prejudicial a minha imagem. E o que dizem de você não é você. Só você pode dizer quem você é.  Ainda bem, ainda bem que eu cresci e consegui me desvencilhar da minha adolescência… Ou da ignorância de aceitar por verdade o que mal falavam de mim.

 

“Quero que as pessoas saibam que quase tudo com que se preocupam não tem importância nenhuma. Não há nada nem ninguém realmente importante. As pessoas, ao compreender isso, deveriam seguir com sua vida, enlouquecer, tirar a roupa, pular no rio, apostar corrida num carrinho de supermercado, roubar chocolate e andar na boléia de um caminhão. As pessoas deveriam fazer seja lá o que for que as faça felizes, porque o tempo é muito pouco e a vida não é nada”.

                                                                                                              Morrissey

                                                                                                              Em um texto curto sobre a importância das pessoas, na Men’s Health de Março de 2008, pág.66

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~ por Água para Plantas em maio 1, 2010.

2 Respostas to “Você não está mais nos dias de escola…”

  1. Amém!!!

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  2. PARABÉNS! ÓTIMO INSIGT. A VIDA REALMENTE É DINÂMICA. NÃO ADIANTA FICAR PRESO AO QUE ACONTECEU CONTIGO E DEIXAR QUE OS OUTROS DEFINAM A SUA VIDA. OS CARAS MAIS DESCOLADOS DA MINHA ÉPOCA DE ESCOLA SÃO AS PESSOAS MEDÍOCRES DE HOJE/VIDA REAL (O TREINO ACABOU, AGORA É JOGO!). TORNE-SE QUEM VOCÊ QUER SER!

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