Merda é Merda… (Não importa a bunda de onde saiu)

Merda é merda…
(Não importa a bunda de onde saiu)

Há um hiato entre o que se escreve sempre. Teria coisas a dizer, mas no meio de um desastre, fiquei literalmente mudo, perplexo com a estática de uma sociedade superior que vê a tragédia e a apalpa com as suas matérias. Vi uma modelo chorando em um famoso programa de auditório no domingo e vi a mentira. O susto houve de que, de uma hora para outra, a segurança do seu automóvel poderia estar ameaçada e o que era externo poderia entrar no seu carro, lhe dar um tapa na cara e fazer a mesma interagir com o lixo, com os sacos plásticos e afirmar a ela que ela era igual aquilo que boiava no meio de suas pernas. Sim, ela era como a merda que tentava entrar no carro com a água pela metade. Ela também era aquele sofrimento, e a sua esfera de segurança tinha sido quebrada fragilmente com a marretada de um bombeiro. Quebrou o vidro. Era o outro braço do mundo lhe estendendo e fazendo ver que a morte era barata e poderia subir de um esgoto da General Osório junto com um bolo grande e gigantesco de merda e sacos de plásticos. Ela pega a sua sacola de pano, que comprou em uma vernissage, o pano barato que custava caro, lembrou quão era ignorante o povo que havia “escorregado” do bolo de lixo. E ao vivo, chorou de raiva.
A platéia aplaudiu
Se comoveu com o lindo rosto a chorar
Esqueceu que pessoas ainda estavam debaixo de outros dejetos
Dejetos que não tinham identidade
Poderiam ter vindo de todos
Dos ricos, dos pobres, dos governantes, dos poderes estaduais
Dos artistas…. Sim, o saquinho de alguma Brizola de um cantor também estava ali
Não foi comprada na favela. Foi enterrada lá
Junto com o povo, o fosso
A fossa
A merda nossa que foi matar pessoas que nada tinham
Mas muitos disseram
Que eram merdas de pessoas que caíram de lá
Que não comiam nada
Que corriam da boca grande cheia de dentes de ouro
Que culpa o pobre pela pobreza
Como parafraseou 04 em “Édipo, o homem que virou veículo”.
Assim como o vaticano culpa o “homossexualismo” pela pedofilia
A sociedade, a nata da sociedade, culpa o deslizamento pelos pobres
Esse é o escuro do mundo, a mente torpe do futuro
Que esqueceu que o Haiti ainda está destruído
E que o efeito já é uma estufa.
Mas, canos embaixo do chão
São como palavras.
Não servem de nada
Poesias estão no chão, nas calçadas
Nas praças, mas não valem de nada
Não cobrem as sacadas das casas. Não vendem votos
Como um cano ou uma encosta que segura a favela ela é vital
Mas não promove e nem redime ninguém.

Estreito e escuro, andamos lentamente, com um governo estático, mas o pior são as coisas invisíveis que regem, os governos por trás dos falsos e os falsos por trás dos não governáveis.
Andamos, ainda sim insistimos, como aranhas com as pernas arrancadas, andamos, lentos possessos de nós mesmo, andamos.
Pra que serve a poesia? Poderia viver eternamente sem coisas banais, mas o essencial é aquilo que toca o meu peito, que esvazia uma planta e encobre a mente de incertezas ou esperanças, mas contudo ainda andamos. Não refletimos sobre nada. Elegemos os nossos lideres pelos seus palanques e não pelas suas palavras, mas como antes disse, a palavra não importa. Ela é exportada…
A palavra é uma franquia, e se você pagar mais cinqüenta centavos poderá adicionar uma fatia de bacon a mesma, pois já é insossa. Tudo que dissemos se torna insípido mas o que nunca foi escrito é o que é mais escutado ou apreciado pelos nossos ouvidos. A violência, que matou a inocência com vários golpes de faca, ainda estuprou e esquartejou a inocência, que foi fotografada e apresentada em primeira página, mas perdeu para o gol do Vagner Love contra o Vasco. Perdeu para a nudez de uma suburbana que venceu o BBB, e ainda sim estava lá a palavra, cobrando cinqüenta reais meia hora com direito a kelvin.
Acabou o queijo
Os ratos devoram assim mesmos, não é canibalismo, diz uma voz na platéia, é mesmice, responde uma outra voz. Enquanto malabarismos lingüísticos se travam no palco, eu me perco tomando algo sujo, algo que tem gosto de cogumelos e tem um sabor nauseante. O cara com as tesouras nas mãos não traz mais atenção. Teremos de ver a sua morte. Teremos de conclamar a sua morte.
Ele irá morrer se não dermos um telefonema
Faremos um circo, colocaremos estátuas para falar por nós
Oraremos aos nossos mesmos deuses, esperando em vão, um pouco de atenção
Mas de nada adiantará
Pois mesma é a palavra
O teor de sua prostituição faz o som que os verdadeiros famintos não querem ouvir
Pois não há surpresa.. Não há mistério.
Há uma tropa de entediado querendo morrer e matar por alguma coisa nova, mas de nova, a palavra é conhecida
O que se desconhece é dito sempre
É verborrágico, e me faz lembrar políticos
Tentando calar o povo com coisas bobas, atitudes ridículas
Andamos sempre…
Ainda andamos, vai ver somos vampiros, disse isso a um amigo
E na hora que iria afirmar toda a condição do que se encontra a nossa cultura contemporânea
Ele se desfez. Disse não e correu de encontro a pessoas egoístas
E assim que se faz a arte. Todos seguiram cartilhas
Mesmo sendo ateu, Michelangelo pintou Deus
Mesmo sendo insensível para com o outro
O poeta dele falou
Ou querendo de si mesmo falar
As tragédias iram aparecer de novo na Televisão. Será uma surpresa! Você ira se emocionar com a queda de um miserável! Chorar com o resgate de um cachorro e ovacionar um bombeiro que salvou uma menininha, mas isso vai passar. O ódio vai passar. A insatisfação irá passar. A imagem irá te comover e tudo, tudo, será reprisado no final do ano em uma retrospectiva. Os sentimentos iram voltar e tudo, tudo que acontece vai ser: Voltar ao trabalho. Feriado pela morte de miseráveis. Água nas calçadas. Dengue nas casas. Surto nos pulmões e uma breve e constante sensação de não ser parte de merda nenhuma, ou até incomodar uma linda modelo, escrota, com o seu mundo escroto, que quase abocanhou na enchente um viçoso tolete de merda, que poderia ser de qualquer um.
Bom, não espero que entenda
Não espero nada
As palavras estão mortas
Todas elas
A imagem as mata diariamente
E da onde elas saem
Não existe nenhum senso de cognição plausível que te faça interagir com o que aconteceu la fora
E não te culpo…
Aconteceu comigo também!

(Segue abaixo a letra do mundo livre s/a,. uma crítica a visão direitista que culpa o miserável pela miséria)

Édipo, O Homem Que Virou Veículo
Mundo Livre S/A
Composição: Fred Zero Quatro

Isso é o que dá viver catando lixo
Que falta de educação, mané
Que tal criar vergonha, quem já viu ser
Transportadora de bicho de pé

Na secretaria há uma enorme preocupação
Com uma nova epidemia que ameaça a população
Pois um infeliz parece um mutante
Quando ele anda o que se vê
Segundo a secretária faz dó
O pobre é uma malha ferroviária ambulante

Sua excelência o prefeito homem de coração
Se declarou perplexo e horrorizado
Tanto que já mandou tomar providencias
Todo lixão será protegido por vigilantes armados
Que vão entregar cartilhas aos pés inchados

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~ por Água para Plantas em abril 13, 2010.

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