Conto – A confraria dos Machos

   Esse seria o primeiro conto da ídéia principal do que seria o meu livro de contos, intitulado, com o título do mesmo conto. O livro mostra, em alguns contos, a merda que é e o universo asqueroso e impressionante dentro das várias formas e moldes do que é “ser homem”´. Que também é um vasto universo de cores, sons e sentimentos, estranhos e vís.

Esse é um dos aspectos que apresento.

Tenho medo de colocá-los a esmo aqui, mas não me incomodo mais com nada. Não consigo mais definir a função e a mistura que é esse blog que eu criei… Talvez eu tenha que fazer outro, separando a obra da minha vida pessoal,  deixando ainda este magno como a função da mistura de todas as coisas.

Não tente me ver nele. Não tente achar coisas. Sinta-o como uma necessidade de cuspir ou como a curiosidade de se ver além dos seus culhóes ou sexo.

Mude para tudo que acha para uma leitura densa e insana,  para apenas ouvir e ler o que está pelas paredes e por todas as coisas que a vista do que é ou não normal se deixa entregar.  

 

A confraria dos Machos

No meio a flashes e luzes e a alguns olhares de ângulos obtusos eu vou entrando  à noite suja em um lugar excluso e essencialmente diferenciado. Não ligo mais para estrobos ou exibicionismo em uma pista louca e inerte que cobre mais uma noite vazia de pessoas comuns a mim vestidas de preto. Entro por uma porta que só é transpassada por pessoas de passagem, homens impessoais sempre como uma sociedade posta coloca. Agora, pouco me importa. Passo pela porta apertada e entro em meu paraíso branco e ordinário, com espelhos também ainda se ressaltando alguma coisa mesma que se toca lá fora. Pias, mármores, espaços, sulcos, sulcos, nomes e nomes por entre eles. Aqui é a minha bolha mágica e tem algum tempo que a achei. Venho aqui há algum tempo, mas acho que há pouco tempo, mas há pouco tempo mesmo é que eu realmente achei as verdadeiras noções e formas que esse espaço realmente me proporciona agora.

Sou alto, de feições bem gregas, tenho os cabelos negros ligeiramente compridos e ralos. Tento andar sempre de uma maneira sóbria com cores neutras e desejos muito bem escondidos dentro de uma enorme repressão materna, que vive agora de fraldas geriátricas e não se alimenta sem mim, mas como cansei de atender expectativas, venho aqui atender as minhas necessidades.

Minha roupa sempre cheira a pinho, eucalipto e essência de limão, e esse cheiro não sai facilmente das roupas, mas não me importo mais. Corto marcando o meu braço esquerdo, a dois ou três dedos de altura acima do pulso fazendo um profundo “V” com uma caneta zero sete preta, sem pegar em nenhuma veia até que possa marcar o “V”. Me previno de tudo que me afaste daqui agora. Me previno com pacotes de maços de cigarros, bolinhas – Remédio para dormir. Remédio para ficar quieto. Remédio para prestar atenção na aula. Remédio para dizer “Mamãe eu te amo” antes de ir para a cama… E agora, era esse o remédio do “Cala a boca e escuta a titia Rute”, coisinhas de farmácias – biscoitos, perfumes, papéis higiênicos e uma roupa impecável.  Passo horas em pé escorado em uma parede. Aqui já me cortei, quebrei torneiras, vidros, criei cacos e cuspi em minha imagem no espelho. Tentei em desespero deformar a minha cara com as mãos em um gesto de pânico e obsessão, com o sangue do meu pulso escrevi “Tem alguém pra me amar ai?” e depois coloquei o meu telefone. Não houve ninguém aqui para costurar os meus pulsos e sequer para me ligar dizendo: “Tenho casa, cama e vara pra você”. Um faxineiro me jogou dentro da ambulância como um saco e só. Seguranças sempre me puxam para fora agressivamente por ser uma “figurinha” dentro desse espaço e universo-ilha. No outro dia, ou semana, não importa, sempre há um outro espelho limpo cheirando a Veja. Sons e cores permeiam as suas saídas, mas não me importo, pra mim não há barulho, verve ou movimento lá fora… Esqueço de coisas essenciais que possam existir fora desse cubículoso espaço e eu simplesmente esqueço que a rotina daqui é vir rapidamente, ou apenas retocar a maquiagem com cocaína e ir para uma pista de luzes, caçar prazer, sim entendo isso, mas ainda sou eu aqui me olhando no espelho – se é que ainda me coloco como medida de distancia alguma, mas me asseguro de que aqui é o melhor lugar para estar e ficar. Magro, de sangue sujo, esquálido, pálido, desbotado e intrincado, na verdade, instalado perto da bancada de mármore, ao lado da valetinha com os sobressaltos da gilete em que puxam a trilha de coca. No mármore com uma liga de gesso, cimento branco e areia refinada, mas não ali, digo, no meio de dois espaços brancos de cerâmica, que são colados com essa mesma argamassa, liga oriunda de uma difícil fusão e se torna uma camada arenosa, com zero ponto cinqüenta e três milímetros de distância entre uma extremidade cerâmica a outra extremidade cerâmica. Ali é formado um grande vale, para outros é apenas um pequeno sulco, que erroneamente elas chamam e acham que é uma linha branca. Mas não estou preso à argamassa ou a forte liga, na verdade eu estou no sulco e posso até dizer que às vezes eu sou ele. Pra mim também era apenas uma linha branca ou um sulco… Um sulco não. Na verdade ninguém se dá conta, acho que todos pensam que é apenas uma linha branca mesmo, mas na verdade é um sulco. Mas um dia, entrecruzado entre os sulcos em tons de um marrom viscoso que ia atravessando várias extremidades de cerâmicas, um nome e um telefone me puxaram para dentro dele. Do sulco.

Entrei por ele. Por esse número, nome e símbolo. E daí ele pôde me alimentar e me saciar de toda a minha primazia perversiva. Fui além do que todos podem e por entre eles. Passei a me viciar nesse universo e a freqüentá-lo sempre, não por mera necessidade mais, mais sim por uma obsessão compulsiva e doentia de encontrar o prazer no meio de uma necessidade. Assim misturei-me como em uma baila louca e me envolvi em uma salsa cubana, escorregadia como essência de erva doce e que cheirava a sexo e andava como um eucalipto. Estático de cores e sons avermelhados e marrons. E lembro que onde há água há vida, então aqui eu poderia viver pra sempre, me alimentando com lascas de parede, de rebocos, de restos da lixeira e tomando água da pia. Choro de alívio por isso com a cabeça voltada pra parede. Do sulco.

Na verdade, no sulco é onde se dá o pequeno vale. O pequeno vale está em um grande sulco e ali existem pequenas coisas perversas, bizarras e hediondas e diria até que o inferno é uma composição micro cósmica… Quando é sempre a merda de um vírus que te mata, quando é sempre um espermatozóide fecundando um óvulo que realmente te fode, quando é sempre um câncer que te mata ou até mesmo uma pequena troca malfeita de elétrons no óleo do seu freio pode te fazer perde-lo, e por segundos, quando em uma curva, quando há uma troca de moléculas de uma infusão alcoólica, que ingerida excessivamente, afeta os seus neurônios de forma drástica e precisa na hora da curva se torna fatal. Tudo acontece sem ninguém ver. O inferno é microscópico e não pode ser visto a olho nu e nem por nenhum aparelho conhecido. O mal que vem pra todas as coisas é de todas as coisas pequenas e vem de coisas bem pequenas; O que é mesquinho – propriamente dito – diminuto e completamente impreciso vem de coisas tão pequenas como esses seres que moram nesses vales. E são esses seres que criam os vírus, que edificam células cancerígenas, quebram parafusos, alteram a troca de moléculas e de elétrons de freios de carros. As grandes bombas precisam apenas de algum punhado de átomos… Mas mesmo assim, eu não diria que ali estou ou até mesmo atribuo a mim valores e até mesmo a esse recém descoberto lugar. Troco, com o sulco, elétrons, prazeres, idéias, fluídos, sentidos, cheiros, cores, átomos e ligações elétricas em uma sopa quântica que é misturada com conhaque e prozac e outras coisinhas de farmácia. Acho. Até porque já passei de uma convenção que possa dizer se isso é bom ou mal – se é que eu posso discernir agora essas duas palavras em um fonema ou um significante realmente concreto – Porque esse sulco é um grande vale residual de coisas, cores, sentidos e sobretudo aspectos – E não afirmaria a ninguém, exceto a mim mesmo, que vi pessoas andando naquele sulco e em outros, como que uma vista de cima de uma grande avenida com prédios brancos cerâmica, carros vermelhos sangue, ônibus manchados de marrom com caminhões e pessoas azuis andando com pressa, como espuma de detergente escorrendo. Mas não digo a ninguém, muitas coisas eu não digo a ninguém, mas acho que haverão muitos ainda a observar essa movimentação no sulco. Diria que é um passo a frente na ciência. “A descoberta do micro cosmo consciente”.

Milhares de cientistas,  homens lindos  e altos com fuzis e emblemas da Confraria e centenas de outros cientistas mais cautelosos, vestidos de jalecos, mascara de gás e aventais de cirurgião iriam com os seus aparelhos tentar ver essas pessoas e coisas, enquanto as pessoas dentro dos sulcos iriam tentar descobrir que olhos enormes são aqueles olhando uma cidade inteira,fazendo grandes espaçonaves para explorar esse fenômenos estranhos e desconhecidos enquanto os médicos e cientistas tentam desenvolver uma nave pra chegar lá sem danificar a cidade, enquanto pequenos falsos profetas nos sulcos dizem que são os “olhos de algum deus pagão os observando”, enquanto eu injeto valium na minha veia, sentado com a bunda no chão sujo, sujando a minha calça de amanhã vir pra cá, rindo de todos dizendo eu falei. Jornais criariam alardes e temores para dentro desse lugar, e ele deixaria um pouco de ser meu pra ser de todos e como que em uma louca seita, várias pessoas venerariam esses seres que também nos venerariam por sermos apenas fisicamente maiores que eles, mesmo sem compreender que a nossa natureza suja ainda está ligada a deles, e que um pedreiro, em descuido por concertar um encanamento, poria vim a toda uma cultura fálica, de nomes e desejos que foram escritos por outros deuses em longínquas instancias de solidão e incompreensão. Apagariam os registros de Vado, de Nilson e até mesmo o meu e fundariam fontes de fio de loucuras e pesquisas.

E há milhares de sulcos aqui! Cada um é uma descoberta fascinante da ciência! Cada um com uma cultura e organização! Cada ponto dele é uma junção de dois entre – espaços brancos de cerâmica nesse gigantesco mundo claustrofóbico! Milhares deles bailando se difundido profundamente, criando políticas internacionais e tratados de religião entre os quadrados brancos – que na verdade se agrupam como continentes ou até mesmo como prédios ou casas – e cada um deles há uma cultura, um ponto de observação, um sistema de observação como uma câmera me vigiando sobre o que eu estou fazendo aqui ou acolá… Cada uma dessas extremidades que se entrecruzam e é um caminho e um ponto que se evolui e se mostra diferentemente peculiar e característico de cada um. Único entre todos, apesar de igual quando olhamos de longe. Cada um com uma espécie de organização diferente e estrutura física também diferente.

A partir dessa descoberta,  depois que Vado me fez ver esses espaços de vida aqui dentro, vi verdades que pelo menos pra mim se aplicam como uma luva: Não existe marginalidade porque essa linha simplesmente não existe. Vivemos muitas vezes sobre bases irrisórias de aspectos e convenções. Daqui, da porta para fora nada é real. Me repeti várias vezes e me coloco isso sempre como verdade. Ao ver aqui máscaras caindo e se desfazendo, como a minha, tudo pra mim lá fora se resume aqui dentro, minha visão está dentro deste quadrado branco assim como a de muitos outros homens que pensam também dentro de outros tipos de quadrados e agora vejo que é aqui que poderão se reunir – Em um resolvido futuro das figurativas identidades sexuais – A verdadeira Confraria dos Machos, liderado por Vado, é claro. Talvez seja por isso que eu esteja aqui… Disse uma vez pra alguém que convenção era uma porta que poucos atravessavam, ou se atravessam, olham por ela e depois a tornam a fechá-la como em uma porta de um banheiro masculino. Sempre com um sorriso amarelo no rosto, com um pedido de desculpas recém tirado dos bolsos.

 Não existem correias, carros, freios, moedas, modas, luzes, sons, sujos, biscoitos, bolhas, bolas, balas, práticas, políticas, religião ou opinião. Tem sempre um “Eu” que faz tudo e cria outros criadores. Daí se cria grupos que recriam e retomam as vertentes, as valetas e os sulcos de outros pólos e visões de culturas ou criaturas… Mas depois aparece alguma corrente pseudo ortodoxa que retoma as “chamadas” tradições daquela gasta casta, mas nunca é como era, porque o “Eu” que criou aquilo, já morreu há um bom tempo, pois se não tivesse morrido há muito tempo, não deixaria que aquela merda daquela coisa que criou com toda a força do seu egoísmo mudasse. Todas essas movimentações giram em torno de uma unidade que se sobrepõe as outras por ser por si só mais forte e egoísta… Unidade chamada “Eu” que altera, gira constantemente em torno de seu próprio eixo, denomina e impõe vontade. Cria coisas, molda outras e sobrepuja as coisas simples que são somente denominadas de criaturas. E essas que não criam que apenas são criadas, vivem aqui? Talvez. Mas tudo se resume a “o que” realmente se quer caralho… Uma frase me define hoje em dia: Me sinto bem quando me distraio e só me distraio com o que me tira daqui e quando eu saio daqui vejo que tudo é melhor. O que é melhor é sofrível?  O que ser quer? Evitar sofrimento? Mas aqui? Como evitar?

 Muitos ajudam os outros e acham que são socialmente ativos, mas não sabem que isso é apenas um sinônimo de distração na maioria das vezes… E até sabem, porque pode sair até mais barato que uma psicóloga… Dar atenção a mendigos, comprar sabonetes e cestas básicas para velhos em azilos… Mas será que eles ajudariam os mesmos a ter prazer?

O prazer é egoísta. E quando se tem não se divide e se quer só pra si mesmo.

 Tem gente que gosta de ler coisas sobre os outros – sim, isso é uma distração. Tem gente que gosta de ver os outros – outra distração. Tem gente que não gosta de ver gente… Onde está o limite para o prazer então merda?

Limites são convenções idiotas que me fazem temer em parte por várias coisas. Regras são como grandes semáforos ambulantes e apenas te dizem quando parar, se é que é a hora em que se deve parar, isto é, se deve ou não parar… Conheci gente que não tinha mais veia e nem tempo para nada depois de tantas coisas que colocaram para ela usar. Temo muito por causa dessas pequenas coisas, dessas pequenas pessoas, dessas pequenas atividades e gente que não sabe e nem tem noção do que é preciso fazer para se comportar e ter de uma forma diferente – pois como acho e creio, o inferno é formado por coisas pequenas – ou algum tipo de noção de controle, que eu perdi há muito tempo, em uma brecha de memória que eu esqueci quando estava no meio de um caminho tortuoso e tenebroso que se chama lapso.

Tomava coisas redondas que produziam outras coisas desde muito novo. Tenho distúrbios de atenção e concentração desde muito pequeno e tomo vários tipos de remédios pra controlar coisas que eu não tenho muito controle desde cedo. Queria tê-lo, mas acho melhor não. Não agora, não nunca. Aqueles que o tomam sempre acabam me comprometendo a não ser quem eu sempre fui ou pretendia ser. Pílulas para dormir, para acordar, para estudar, para ler, para escrever, para sentar e dizer te amo mamãe… Descobri que em parte todas elas vinham do sulco. Tudo veio por eles, construído mais tecnicamente dentro de suas cidades onde uma tecnologia mais avançada pode produzir mais e mais barbitúricos eficazes que podem controlar mais e mais indivíduos, até que vai chegar o dia em que eles realmente saíram do sulco e controlaram a maior parte de produção de desejo da terra. Mas hoje em dia quando é um bom dia, um daqueles que o mundo sorri e lhe presenteia com um bom trocado que lhe rende a compra de um bom barato, tirava onda na pia trilhando várias coisas e depois via meu nariz escorrendo pelo espelho, mas sempre rindo.  Faço de tudo…

 Conheci, uma vez aqui mesmo, um homem que se tornou mendigo porque gostava de ver as pessoas conversando na rua.

 – Desde muito tempo meu filho, eu sempre gostei de ver pessoas andando e conversando na rua – Me dizia enquanto eu vestia as minhas calças – Mas chegou um dia que eu sai do meu trabalho, que a partir daquele dia não era mais meu, sentei num banco da praça e apenas admirei as pessoas andando, comprando coisas na banquinha de doces, vendo e falando da vida, esperando ônibus, carros, Kombi ou Vans… A cada hora, sempre uma pessoa nova, a cada hora uma nova coisa pra se ver… E quando eu vi, eu estava sempre esperando alguém ali.

Me contou da Dulce, que tinha sido traída pelo próprio sobrinho enquanto ia trabalhar, me contou a história de Marina, uma garota de quatorze anos que vivia debaixo de sua peleja e que era puta e que tinha Aids por ter pego do padrasto. A vida não dá trégua a quem vive nesses vales. Dei o pacote de cigarros e acreditei nele. Acredito em muita coisa depois que passei a habitar em um espaço que existe em todos os lugares, das mais diversas formas e das mais diversas cores e cheiros… Mas não disse a ele como eu fim parar aqui… Apenas lhe paguei o preço continuei de pé enquanto ele voltava em busca de sobrevivência, acho. Talvez se fosse criada uma seita de “observadores urbanos”, talvez assim fosse considerado um sujeito completamente normal dentro de sua esquisitice. Seria criado então um CNPJ? Sei lá… Alguma merda de tipo de cadastro ou registro numérico para a “seita de observadores urbanos” e tudo se tornaria perfeitamente normal. O que faz uma coisa deixar de ser estranha, é quando se há um controle de uma espécie de “consenso normal” para ela subsistir. Haveriam então postos de observação legalizados por um órgão ou governo competente, sustentados por praticantes desta seita que pagariam mensalmente por novos vídeos ou acessos a essas cabines, situadas e legalizadas por uma cidade que criaria fatores e fatos simples para incluí-la como referência de cidade e de ponto de observação em forma de pequenas cabines, até que esse louco fundador teria sua essência deflagrada e desmascarada para não ser mais ele e sim um coletivo simbiôntico e permissivo de “aspecto normal”.

Depois que o rapaz se foi me peguei em devaneios a pensar em Vado e ainda me recordo de como foi… Que eu entrei aqui…

Como sempre entrei impecável, depois de um árduo dia de trabalho, entro sem perceber ainda nada, entro sem notar coisas e objetos. Apenas por uma necessidade básica vinha aqui…

Minha cabeça ainda pensava em papéis, corte nos gastos da empresa e coisas que sempre me faziam perder. A puta da minha chefa falando em meu ouvido claramente que “cortes haveria, mas cabe ter o bom senso do profissionalismo de ainda prezar o bom trabalho e o campo profissional para ainda concluir, como uma grande equipe”. Queria saber onde está a grande equipe quando eu me fodo de insônia durante a noite. Queria saber onde está a equipe que não me chama para participar das confraternizações do final de ano quando eu fico só, cuidando das fraldas da minha mãe.

Minha mãe vive agora em uma bolha de sofrimento, não como a minha, mas minha mãe espera ainda como eu por uma espécie de equipe de salvação, como a confraria dos machos. Como um boneco vive em uma cama que a dá conforto, escaras, e uma paralisia inconformada por causa de um AVC. Sou responsável por ela agora. A mantenho viva, pois não posso apenas alivia-la com dar um stop em um filme de sofrimento e desilusão. A vida nunca foi o que a minha mãe esperava e eu não era e nunca serei o que ela esperava de mim, mas não posso privá-la disso tudo, não posso dar o que ele pede sempre todos os dias: O simples descanso de não sentir mais nada e dormir para sempre. Ainda não se deram conta de que viver faz parte de uma infinitude gama de prazeres que ela não, mas desfrutava, porque pra muitos viver faz parte de uma orquestração sádica e desumana. Esperava sua morte chegar dentro de fraldas geriátricas e gemidos constantes, que eram divididos comigo e com uma enfermeira, contratada a estar quando eu estou aqui… Onde está a equipe que pode me compreender quando eu preciso de muito auxilio, com minha insônia e minha insatisfação? A equipe foi feita apenas para fuder com os outros. A equipe foi feita apenas para ilustrar um chefe, elegendo um macaco muito bem treinado que fica com o culhão na mesa com o chicote invisível lhe fazendo perguntas e exigindo formulários, horário e trabalhos “ os mais assíduos ganham prêmios” “que prêmio – pergunta a bostinha da estagiária – Sabonetes ou cremes importados de baunilha”. Sempre fez parte de mim as folhas de ponto, os cartões de saída na hora do almoço, protocolos administrativos, as cotas e cotações e era isso que a empresa queria, homens máquina pra fazer parte de uma equipe disposta a querer comer seu fígado todo dia em forma de dinheiro e status dentro de metros quadrados.

Somos gado atravessando um semáforo com um chicote nos ombros e marcas no rosto. Somos formigas que exigem papéis, carência e solidão que são marcas imperceptíveis dentro da sociedade “normal”. Tudo acaba virando números, processos, procuras, trocas, gastos, roupas e souvenires… Sim meu amor, a vida a um grande souvenir me diria meu ouvido, Rute:

– Às vezes eu tenho muito medo de mim Rute – Disse tragando fundo um cigarro preto e fedorento que tomava a sala com a minha indiscreta pose, agora meio afeminada.

 – Temo pela minha morte, mas poucos sabem o quanto a desejo, achei que era eu apenas querendo fugir de tudo e entrar em uma bolha meio quadrada na qual o tempo não passa e eu sempre tenho tempo suficiente de fazer tudo o que eu quero, mas acho que sou eu a maioria das vezes, sabe?

 – Você toma algum tipo de estimulador de humor? Não sei… Eu valo em um âmbito geral…

 – Acho que tudo pode estimular o nosso humor Rute… Desde o cafezinho a um bagulinho noturno… Considero estimulo tudo que me alivia de uma sensação, talvez, real de desconforto… A realidade te desconforta Rute? Então eu sempre estou desconfortável…

 – Te acho engraçado sabia?

(Sorri com um ar de deboche)

 – Engraçado porque? Eu não tenho senso do humor…

 – Você me fala de coisas completamente atípicas em volta de uma aura de uma ideologia utópica. Mas você sofre de coisas que são comuns a várias…

 – Pessoas? Não existem pessoas. Existem médicos, irmãos, crentes, políticos, budistas, macumbeiros, homoafetivos… Deixamos de ser pessoas com simples opções e criamos rótulos idiotas para classificar o que é peculiar caracterizando seres humanos com adjetivos. Todos temos adjetivos e seremos estranhos e iguais a um outro grupo que possa pensar da mesma forma que nós… Ai então criamos grupos, efeitos, protestos, pessoas reivindicando o direito de ser como assim desejam fugindo de um agrupamento que possa associa-lo e trata-lo pseudamente como um indivíduo normal, mas fogem mais ainda simulando uma realidade que parece ser libertadora, mas por si só já é alterada. Não deveriam existir cinemas para homoafetivos, clubes para cegos e entre outras coisas classificatórias… Então, assim como abandonamos uma noção de ética há séculos atrás e a disfarçamos em uma aura religiosa, por causa da solidão ou porque perdemos o controle? Não sei… Você sabe Rute?

 – Não sei. A utopia é sua. A idéia é sua. Creio que uma noção sociológica que pouco tem a ver com a causa real do seu tratamento. Creio que estamos sendo superficiais  continuando a conversar sobre as suas idéias que partem para um concreto muito mais grosso do que você está me mostrando.Você não me fala mais de você. Ta vendo… Vem você querendo me catequizar de novo. Acredito que seres humanos precisam viver em grupos…

 – Já vivemos em grupos Rute. Nos agrupamos para ir trabalhar. Nos agrupamos no trabalho, nos agrupamos indo trabalhar, nos agrupamos voltando do trabalho, nos agrupamos em várias outras ocasiões… Eu só gostaria de saber quem criou essa distância de pedra que nos faz agora parar de nos comunicarmos livremente uns com os outros… Eu venho aqui para entender isso Rute! Eu tenho a resposta, mas gostaria de ensina-la há muitas e muitas pessoas…

 – A quanto tempo toma psicotrópicos pesados?

 – Não sei, acho que desde que nasci. Não tenho tempo de pensar em mim, eu apenas penso no que os outros pensam de mim sabe? È o efeito disso tudo que não me deixa ser o que realmente quero. Não me deixam fazer nada do que eu realmente quero fazer comigo, pois se fizer, não tenho emprego e todos iram me incomodar… Gente que eu não conheço ira me incomodar, sabe? Acho que eu perco com essas armadilhas que aprontam comigo.Acho que perco por pensar em perder e quase sempre não entro em nada… Crio soluções mágicas pra tudo…

 – Como o quê?

 – Como ganhar na mega sena. Abrir um banheiro público só pra mim, explodir coisas, deixar o cabelo crescer mais ainda, arrumar algum macho decente pra mim que não me coloque chifres e nem muito menos aids e em  fazer bandas de rock fantasmas que do nada que fazem sucesso. Como ser um escritor famoso sem escrever uma linha… Essas coisas sabe… Acho ainda que serei um super-herói,não sei. – Acendo um outro cigarro preto e fedorento.

 – E você… Atribui isso a que?

 – A massificação da obrigação que essa sociedade moderna tem de atribuir valores e status aos outros. A gente tem sempre que ser alguma merda de coisa… E eu nunca quis ser nada. Preciso de pouco pra sobreviver e preciso de muito menos pra me contentar com alguma coisa… Acho isso… Sempre me perguntaram o que eu queria ser quando eu crescer…

 – E o que você respondia…

  – Até os meus dez anos eu não respondia nada… Mas depois minha mãe me falava que era feio não responder nada, ai eu passei a dizer que ia ser advogado como os meus pais, embora o meu pai ainda estivesse em casa…

 – E hoje, o que você é ou almeja ser? A propósito, está tomando os remédios que eu lhe receitei?

 – Nada. Não quero ser nada Rute… E às vezes eu tomo sim, os remédios… Trabalho em um emprego massificante que me sufoca até o meu talo. Vivo em uma corda bamba e a qualquer momento posso perdê-lo… Mas um dia se levantará a Confraria e eu estarei ao lado de Vado…

Sorri levemente dando uma idéia sem noção a ela… Mas contei sobre a Confraria.

Voltando pra cá, para a pia e para os sulcos.

 Um dia, dentro de um banheiro, quando não havia esperança nem voz no meu ombro, tentei ligar de novo para um ouvido que eu alugo por cinqüenta reais a consulta um dia na semana, liguei para minha psicóloga Rute… Há alguns dias, anos talvez… Eu regularmente não dormia, tinha grandes e maiores espaços de sono que não compreendia… Dormia na condução, dormia no escritório, dormia enquanto os outros falavam mas não dormia onde eu deveria realmente dormir, que era em minha casa, na minha cama… Então, em um banheiro, liguei para o meu ouvido.

 – Chega, de me falar isso Rute…

 – Até que ponto você quer que eu chegue com esse história toda que você me contou? Você está sempre me falando como louco sobre nomes, idéias e mictórios e o que eu posso concluir disso tudo e desse ponto é que você não está tomando a medicação que eu lhe receitei!

 – Eu não quero chegar a ponto nenhum, eu apenas estou me sentindo só, eu queria tomar cerveja com alguém e coisa e tal…

 – Eu não bebo…

 – Eu sei, eu tomo e você me escuta só isso…

 – Eu não me envolvo com meus pacientes e é anti profissional eu me envolver com algum paciente meu fora do meu escritório…

 – Rute, eu não estou te chamando para um motel, para fuder com você… Eu não quero te comer. Não quero meter piru nessa sua buceta velha… Eu quero alguém pra poder conversar.

 – Cale a boca…

 – Rute, me deixa falar com você…

 – Cale a boca… Você já tomou seu remédio?

 – Não Rute, não…

 – Toma então… Daqui a pouco você me liga…

Remédio para dormir. Remédio para ficar quieto. Remédio para prestar atenção na aula. Remédio para dizer “Mamãe eu te amo” antes de ir para a cama… E agora, era esse o remédio do “Cala a boca e escuta a titia Rute”. E acho que vou ter que procurar um outro ouvido…

Engoli dois comprimidos e me esforcei pra urinar no mictório. Sempre pensava em jorros de água, em barulhos para fazer isso, mas não conseguia, simplesmente não conseguia urinar em mictórios… Mas todos os vazos dali estavam entupidos com merda e a porta de um dos que estavam bons, estava quebrada, então infelizmente, vinha o martírio do mictório.

Enquanto urinava no mictório e fechava o vidro de comprimidos, prestei atenção em um recado que quase recobri a parte de cima do azulejo, quase escrito no teto, muito em cima mesmo… Quase indo para parede em uma área que recobre e redobra e ocupa vários espaços de sulcos e azulejos…

            “Vado 9977-7799”

            O começo de tudo foi Vado… Me entreguei aquele signo por completo… Compreendi que não era um nome apenas, se tratava formalmente de um pedido de socorro de um homem desesperado como eu. Por se tratar de estar sendo escrito de uma forma distante e de difícil acesso até porque, ele teve que praticamente subir por entre os mármores das colunas que dividiam o mictório pra colocar apenas um recado louco e insano que se pronunciava como uma corneta do inferno pelas entrelinhas… “Eu tenho telefone. Mas não tenho com quem conversar”. Assim como eu. Se é que existia esse teoria ridícula que teima em querer lhe colocar um “eu” padrão como referência a se conhecer alguém. Goste ou não, o ser humano se relacionava restritamente por interesse e aceitava isso desde então e tudo se confirmou aqui.

            Meus olhos se fixaram por essa mensagem. Imaginava Vado, alucinado como eu por causa dos carros, doente por esbarrar em pessoas sem conhecê-las, doente por se espremer a homens fortes dentro de conduções que só lhe querem por agressão e ignorância… Imagino Vado agora, se esforçando em equilíbrio, físico e mental para colocar em uma área perigosa, entre o banheiro e entre os sulcos, um recado que poderia lhe dar o inferno dentro de sua casa, em forma de um michê para lhe comer, roubar e matar como se mata um cão… Imagino Vado, solitário, inconseqüente e louco por uma pessoa e um objeto que o faça sair de sua loucura… Imagino Vado, lindo, pelado, com seu corpo pedindo o meu e me querendo dentro desse inferno podre em higiene… Me tomando em devaneios e loucuras enquanto eu sussurro como uma criançinha que ele me achou…

            Quando acordei, era mictório gozado, olhos fechados e ainda, solidão, muita solidão. Minha cabeça havia pendido para cima, olhando o nome de Vado por muito tempo… Eu não me dei conta, estava por horas fixo em meus devaneios procurando razões e soluções pra mim e para Vado. Liguei:

             – Oi…  Oi…

             – Quem ta falando – Uma voz grave como que me oprimindo me rompe no telefone.

             – Vado?

             – É ele mesmo… Quem ta falando?

             – Bom… Eu vi seu telefone no banheiro e achei que estivesse sozinho…

             – Onde é que você está?

             – Estou no banheiro…

            Foi apenas questão de tempo e pude conhecê-lo com mais alguns quatro olhares passados pela sua desconfiança natural como de um caçador… Ele era como um tanque. Era lindo, e não havia ninguém ali. Eu e o tanque ali…  E ninguém mesmo… Como em um pronto socorro ele veio depois de algumas horas que eu o procurei, no escuro, sozinho, ao lado da valetinha de mármore onde estou agora. Não pensei que viria e achava loucura o que havia feito bom, loucura por loucura é se repetir em uma rotina que não lhe foi posta e sim apenas lhe confinada como que uma prova de que continuar é melhor do que desistir. Quando ele entrou foi mágico, tinha cabelos como uma camurça, mas ainda sim dava pra perceber que a coloração predominante na “penugem” que cobria o seu crânio era mesclada com alguns tons levemente grisalhos. Sua passada era firme e decisiva dentro do banheiro. Se vestia socialmente como eu e exalava a perigo e desconfiança. Imaginava um homem magro e esquálido como eu, mas era forte e alto e não havia algum tipo de ternura em seu semblante, por isso, no principio, pensei que era um criminoso ou um traficante – o que não seria uma desagradável surpresa também – mas depois em um outro breve olhar percebi que não, estava apenas se certificando, não como eu, que tudo aquilo não era uma cilada, mas entrou decidido, como um colosso entrando em um circo de espetáculos romano antigo, procurando por um leão ou por um gladiador famigerado a procura de…

             – Foi você que me ligou?

             – Eu?

             – É…

            Por um momento ele me olha. Meio que me cheirando a distância, como uma fera ou um animal que sabe quem procura ou quem é a sua caça pelo simples sentido olfativo. Ele me estende a mão e me pede desculpas pela forma a qual entrara. Sabe como é, me disse, existem muitos trotes e gente tentando me cercar sempre… E eu estou cansado de pessoas em volta de mim e não realmente me cercarem, pensei, mas não disse por medo de me parecer idiota, mas ainda sim, estendi aliviado a mão. 

             – É… Fui eu que te liguei…

             – E ai, qual vai ser… – Me indagava com um sorriso safado nos olhos.

            Abriu uma porta escura e fria em sua frente e eu apenas abria a minha boca e me fechei dentro de uma estranha falta de luz que cobria de negro todos os azulejos e iluminava os sulcos, mas que ainda sim reluzia as fendas e frestas da porta do banheiro, como que se o proibido fosse morada dentro daquela saleta imunda de cheiro nauseante. Persistiam os sons, que de acordo com nossa freqüência, se tornavam cada vez mais insignificantes, mas, por breves segundos, um pouco presentes dentro de uma nova experiência… E ele como quem sabe muito bem ler a cartilha, não falou mais nada e apenas me tomou como um gigante, me abordando com pressa, sem cautela… Me levando o rosto a perto de uma fenda, perto da porta ao lado, me fazendo entender que era esse o universo que eu escolhera viver em uma propulsão de gozo e imoralidade que eu gostava e nauseavam como o cheiro de merda do vazo entupido. Não era eu. Era o banheiro em sua infinitude de bactérias e sulcos me esperando para me entorpecer e guardar de todos os chás que algum chapeleiro pudesse me dar. Era agora Alice e Vado era forte e machucou um pouco a minha bunda. Sua agressividade, entrada e violência, mão em meu peito e corpo, depois que cuspiu na minha nuca, caída no chão com o meu corpo sujo e de calças arriadas, levou a minha carteira e alma para uma pista de dança a procura de mais clientes. Havia escuridão. Sabia que sons, luzes e cores me chamavam por porta a fora, mas ali decidia ficar em uma homenagem sombria.

            Depois disso eu nunca mais o vi. Se soubesse que teria medo por ter me roubado, abriria o meu peito pra ele e diria que poderia até mesmo me roubar a alma, mas que apenas me ligasse de vez em quando ou que me visitasse aqui mesmo, em qualquer horário eu estaria aqui para procurá-lo no meio de suas calças Levis apertando os culhões de ouro que tinha. Lambia cada parte branca e até mesmo suja daquele banheiro como se lambesse Vado. Me ajoelhei em um frenesi que mesclava orações e perversões me fazendo comum a toda aquela colônia de seres pequenos que ali habitam ou habitaram, usando a pia sagrada para entupir narinas com o mágico pó branco. Gritei por solidão buscando seu nome e seu rosto por outros, mas era impar. E aqui, me absorvi e me quietei dentro de minha própria loucura.

            Aqui deixei de ter medo de ser homem, aqui deixei de ter medo de ser eu mesmo, de falar com alguém que existisse, aqui deixei de ter medo de perder o emprego e de não poder me sustentar, aqui deixei de ter medo de ser quem eu sou aqui deixei de ter medo de escrever o que penso por entre os sulcos. Descobri, vindo mais aqui, que não havia homens. Ninguém é homem aqui dentro, muitas das vezes, e sem preconceito, diria que noventa por cento que entram aqui não são. Não existe isso de ser homem ou não ser. Sou uma infinitude louca de desejos e possessões que me faz permitido agora a ser o que eu nunca quis ser em uma consciência idiota e preconceituosa. O que havia era um exército a ser formado oficialmente, que já havia instalado fronteiras e fortificações, denominando territórios em séculos de ocupações maciças dentro da sociedade e de mim. Sabia que eles estavam chegando, não por escolha, mas a minha – por escolha doentiamente própria é essa.  São eles que são as bases desse universo sempre alvo manchado de merda e todo o tipo de coisas sujas e acho que ali moro. Como uma bactéria que vive e se instala entre coisas alvas e inertes em paredes no meio de desejos e assombros, gemidos masculinos e uivos assexuados, pois há muito tempo me instalei junto com bactérias, germes e microorganismos. Conheço o seu nome. Seu nome é Nilson, trinta e quatro anos, vinte e três centímetros e ativaço. Me instalei ao lado dele na parede em diversos nomes, como uma bactéria carente, procuro atenção, dinheiro, sexo, nome e telefone escrito de rosa e um pouco mais de cigarro. Ainda espero ela sair dos guetos e se tornar oficial, como que a volta de um grande mal, ela ira se levantar oficialmente e ira me destruir por completo, ou me transformar em uma grande borboleta mártir de uma moderna sexualidade que vem se tornando ímpar por causa da deformação do amor e a formação gigante desse mal que cresce como um concreto cravado em penteados cafonas de mulheres que se acham mulheres. É a solidão meu bem, e ela às vezes não vem como o frio, porque o mesmo se cura com agasalhos. A solidão fere e mata pessoas todos os dias como um raio radioativo nocivo.

Então, depois de vários retornos pra cá concluí que pra eu estar feliz, hoje em dia, eu preciso apenas estar constantemente distraído e estar distraído é o que torna qualquer indivíduo socialmente ativo – digo sobre “os normais” que andam em ruas, avenidas, marquises, sorriem e cumprimentam os vizinhos como todos… A ciência já descobriu que qualquer unidade biológica só poder viver por estímulos, qualquer tipo de estimulo, seja o efeito do sol sob a sua pele, ou de qualquer outro fator natural, mas com os humanos são diferentes. Seres humanos precisam mais do que água e luz para sobreviver e o que o coletivo chama de “viver” é estar “sociavelmente bem com tudo e com todos”? Muitos se acham “socialmente ativos” ajudando os outros a terem direitos, a ter comida, a ter educação e uma série de outras coisas… Mas como alguém que se odeia vai pensar em alguém? Como alguém que não tem vontade de viver e que vive como um verme quer ajudar alguém a se arrastar assim como ele a ser como um verme, pois se é assim que acha que se compreende esse jogo chamado vida nessa esfera?  Até porque as características daqueles que são pessoas normais estão associadas a padrões e não ao que eu realmente se quer ser ou fazer. Mas ninguém me ajuda no que eu quero, e o que eu quero é apenas ter prazer, aliás, ninguém ajuda ninguém a tê-lo porque o mesmo é egoísta e vive em uma espera louca de troca e recebe como uma bilheteira prostitua de um estádio de futebol. Esqueço dessas falácias e apenas me concentro a tentar encontrar  Vado de novo. Preciso de Vado. Vado no banheiro. Vado na minha cama no meu quarto comendo o meu rabo. Não preciso de nada, apenas de Vado. Depois daquilo tudo, nunca mais consegui sequer revelo em qualquer circunstância de consciência.

Lavo compulsivamente as mãos. Tomo atitudes incoerentes e repentinas que me fazem aqui jaziguado como um transtorno obsessivo sem culpa.Tento passar a imagem de que vim aqui e já vou, mas sabem que fico aqui por horas, e que se deixassem, ficaria por aqui por dias. Olho em disfarce, para o reluz de minha própria imagem em imagens em luzes de um conhecido espelho sabendo que já fiz muitas coisas com um espelho de banheiro, me resta ainda perguntas que me machucavam no que ainda faltava fazer. De pulsos calejados e várias partes mutiladas em tipos e retenções de alívios diferentes, não tenho respostas as freqüentes perguntas que a minha mente faz correlação a espelhos e punições. Procuro a porta mais próxima do vaso pra fazer a cena do “acabei de cagar”, que já é conhecida por muito, que em seguida vem a observação do espelho seguida de uma longa e demorada lavagem de mãos, que vivem constantemente enrugadas por uma atitude, digamos, “obsessiva”?  Me seduzo por segundos com homens idiotas, pessoas estranhas e gente de todo tipo e formato inparticular que guardava entre o zíper e a cueca… Muitos me conhecem, mas se afastam, pois sabem de certo o que eu procuro quando aqui me instalo e fico como os outros nomes e desenhos que decoram, o que digo hoje em dia, ser a minha sala de estar, meu deleite como uma televisão doentia de um mundo solitário. Pra tudo eu tenho um cálculo aqui e já tenho de certa forma calculado para tentar achar uma brecha, um ponto sequer que dê mais um pouco de sede a minha libido e pela qüinquagésima vez eu lavo as minha mãos, que aparentam ter um pouco mais de alergia por causa desses tipos de detergentes vagabundos que usam nessas merdas. Sou um cara a procura de outro cara, sou um cara que precisa ver um pênis essa noite para poder descansar.Queria ver um cabeçudo. Um chatinho ou até mesmo uma veiazinha pra fora…  Qualquer merda que me faça relaxar, na esperança da confraria se assumir e vir pra cá, me estuprando com um prazer que vai me levar a redenção. Tenho certeza, que ela realmente se levantará.

Mas um dia a Confraria dos Machos irá se levantar aqui mesmo, não importa em que circunstância ela virá. O seu marco zero virá daqui e dai não haverá mais sexos. E eu estarei aqui, de pé, em cima do salto e impecável, esperando espermas e homens ao meu deleite, sem me importar com a sociedade e com nada, pois aqui estou cercado do meu mundo, dentro do meu azulejo, cheirando a pinho e bebendo essência de erva-doce. Sei que como uma unidade biológica humana, eu preciso de muito mais do que isso, mas é isso que eu quero, e talvez não seja humano, ou seja, só que da forma que eu quero ser. Eu sou o azulejo branco, o pinho no vazo tentando vencer o cheiro da merda, eu sou líder espiritual dos homens azuis do sulco e de outros que aqui me acham e me tem por igual, dentro desse espaço, eu sou a pia, sou Nilson, Geraldo, Marcelo, Nizete, quase mulher a procura de um macho quente e Luiz, coroão pirocudo a procura de menininhos… Sou todos eles nos lugares em que estão, hora em cima da descarga, hora na porta ou até na porta do vaso… Quero continuar vivendo aqui, de preferência com Vado – que será Tenente Líder máximo do pelotão da Confraria – me currando eternamente me colocando pra morar com ele, onde teremos filhos azuis dentro do sulco, em um outro país desse banheiro imundo ou a procurar por outros que assim também procuram por mim… Talvez… Meu nome já está aqui, é só anotar e me ligar…

Mamãe deve estar morta. Não sei…

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~ por Água para Plantas em fevereiro 26, 2010.

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