Visceral

                Crônicas – Visceral…

                A vida também é uma arte de se desencontrar, ou dar o troco na hora certa, pois o dinheiro e a paga não é minha, então eu vou devolver, um dia eu tenho que devolver, eu penso um pouco assim, alías, eu penso muito assim.

                Nenhum relacionamento humano é igual quando se rompe. Tenho perfeita noção disso depois de muitas feridas, mas eu não posso blefar aqui, aqui eu sou eu mesmo, mas aprendi a malandragem de se florear as coisas, aprendi a deixar de fora o que nunca foi e nem pode ser essencial a ciência de todos, talvez todos saibam de tudo um dia sobre alguém, mas isso é tão improvável já que ninguém sabe de si mesmo, mas não é tão importante isso agora…

                Estou escutando o maravilhoso álbum do Scott Walker, chamado “Tilt”, se alguém não sabe o que é uma sonoridade gótica, ouçam esse álbum, maravilhoso, tempestuoso, inquieto, decadente, como a arte deve ser, a arte deve se degradar a ponto de não ser bela, de não se usada por ninguém e ao mesmo tempo não ser esquecida. A minha arte e a arte que eu quero é assim. Não é pretensiosa a olhar o homem, a tentar resolver ou falar de algo ou tecer algum tipo de diálogo ou qualquer merda que alguém possa achar de alguma coisa… Ninguém pode afirmar merda nenhuma sobre nada, eu digo sobre o digo, que é subjetivo e sempre será eu mesmo. Eu sou, e é isso que eu sei somente. Então, quem será a me dizer sobre tudo? Ninguém pode dizer, ó homem medíocre, sobre a realidade dos seus próprios pés… Então a arte é sempre o artista. A canção é sempre o cantor e o seu interlocutor. Ó Homem! Regrado a ser apenas. Não sentindo o resto… Então, eu sempre sou naquilo que escrevo, não digo a dor de ninguém, digo as minhas impressões … As flores vistas sempre serão os meus olhos. As cores sempre virão de um lugar comum dentro de mim que sempre estará aqui e não irá tão cedo embora.

                Certa vez alguém me chamou de derrotado. Então eu me recolhi e voltei para a minha batalha. Certa vez alguém me chamou de fraco. Então, nesse ridículo mote, eu voltei para as minhas feridas e tomei a lambê-las, não com tanta força, e nem com muito esmero em tentar curá-las, as suas dores me fazem sentir melhor. Doer e se fazer doer é meio mágico, e viciante, não  é bom, mas sou eu… O dia que o vento mudar e eu for sol, assim será, mas aqui, sou eu mesmo, essas linhas escritas são minhas veias abertas a tentar mudar nada, a tentar ser nada a não ser eu… Não tenho mais que atingir expectativas, não tenho mais que preencher currículos ou ter requisitos a preencher a ninguém, a mulher nenhuma… Não pedirei  nenhuma ridícula misericórdia a ninguém… Não vou olhar com um olhar de pena a ninguém… Um olhar piagas a suplantar um prato de comida. Certa vez, a primeira vez em que eu tive um surto de polifonia, estava dentro de um ônibus voltando de Botafogo. Eu estava em uma janela sem nenhuma abertura, e em um acesso estranho, eu golfei um jato grosso de vômito e esse mesmo jato voltou e me molhou todo com o meu próprio vômito… Pessoas riram no ônibus, ouvi gargalhadas, muitas gargalhadas de diversas partes da condução, mas como eu não me encontrava normalmente em meu estado de razão, pasmado os outros ficaram… Lambi o meu rosto com uma vontade de sangue. Lambi os meus braços e olhava de pé a todos dentro do ônibus e o riso se transformou em uma espécie de pânico. Muitos bravos e homens sem nenhuma ternura me olharam com medo e aprendi um pouco a natureza do que é aquilo. Medo é quando você vê descendo da escada do seu prédio um homem com feridas pelo corpo. Medo é quando você não entende a natureza do que seria normal ou costumas. Como  ouvir o arrastar de uma pá em uma rua deserta urbanizada as altas horas da noite. Não há razão para o arrastar de uma pá e nem mesmo razão para um homem, que parecia ser um homenzinho medíocre que volta da faculdade, passar, insanamente, a lamber o próprio vômito em um ônibus de itinerário burguês, que leva pessoas dos seus trabalhos até as suas tocas todos os dias. Ver um homem medíocre se lamber como um animal, jogando vômito em outras pessoas, fez com que eu não fosse o alvo. Eu fui eu mesmo. Minhas feridas, pensaram que iriam me oprimir e me fazer descer, me fazer arrastar pela cidade a procura de esconderijo para o que foi natural, pensaram que iria esconder o que eu fiz, mas eu não escondi. Fui eu até o talo. Temeram. Fugi ao controle e a norma. Pensaram que iria fazer o que a humilhação deles pediu pra fazer, mas eu não fiz. Me espalhei pelo ônibus, com cada gota de suco gástrico que eu espalhei por outras pessoas, por aqueles que riram, por aqueles que não… Temeram, eu gargalhei alto. Domei a fera mais forte e temeu, porque até mesmo a minha natureza eu não compreendi, mas tarde, na ressaca, eu temi a mim mesmo, mas não deixei que me pisassem na sarjeta, e nunca deixarei. A minha dor sempre será um incomodo a dizer que sou e não preciso dessa falsa piedade. Desci do ônibus, todos em silêncio. Havia uma fila para descer no Alcântara, e eu fui Moisés. Todos voltaram aos seus lugares e em silêncio, com medo, voltaram aos seus lugares e eu passei só, sendo o ultimo, mas o primeiro a sair, e não houve nenhuma interjeição sequer…

                Assim a arte foi feita, a se fazer vício, a se fazer uma parte de derrota que não quer vencer e nem ser derrotada. A arte desse ser sempre fora de sua intenção. Certa vez, vi um quadro tão lindo que me fez emocionar. Aqueles tradicionais quadros panorâmicos de paisagens de praia, lindo, com todos aqueles elementos, sol, mar, casa, água e praia, mas pasmem, todo em preto e branco. A arte, a linda arte, não foi convencional ao que foi feita, mas foi arte assim. Ela me surpreendeu.

                O que fiz foi arte? Não sei, acho que não. Eu não me surpreendi, acho que eu deveria ser a pessoa mais surpresa na estória, mas ainda sim não foi de todo uma surpresa, mas ainda assim mesmo teve seu grau de “surpreendência”.

                Deixo as pessoas para decidir o que é surpresa, horror ou arte. Mas espero que tenha colocado um pouco o que são as vísceras aqui. Tudo que te coloca em uma percepção estranha do que é natural é medo e tudo aquilo que te surpreende e faz parte de uma concepção e composição é arte.

                O que é horror?

                O que é arte?

Não se esfregue em mim achando que sou uma lâmpada mágica

Solução não trago, nem muito menos os seus desejos realizo

Então, se não quiser, não vá embora, espero por luzes

Sou um desses caras sem brilho

Anúncios

~ por Água para Plantas em dezembro 23, 2009.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: