Sobre um sonho…

Do dia onze para o dia doze de dezembro de dois mil e nove, eu tive um sonho estranho… E era sobre Copacabana que o sonho me falaria mais tarde, é por isso que a citei em um outro post. Copacabana é um grande equilíbrio entre bem e mal jamais visto em cidade alguma do mundo. O mar impede que o mal avance, mas assim mesmo ele convive em perfeita harmonia com tudo…Estranho, mas não o considero como um pesadelo.

Assim foi o sonho:

Estava no inicio ou no final da Prado Junior. A única coisa que sei é que estava de costas para a praia, nem sei se estava à beira do calçadão ou se realmente já estava bem na fervura da rua. É a famosa Rua de Copacabana, conhecida pelos cabarés e pelas mulheres de vida fácil, estava com uma bolsa que cruzava as minhas costas e peito e com uma roupa comum, de camiseta e calça jeans  mas olho no final ou início da rua um homem de pé, com uma postura marcial em descanso a me fitar pequeno pela distancia com as mãos para trás, o homem tinha um cabelo comprido e era barbudo, estava muito bem vestido com um terno cinza escuro, camiseta branca, e uma gravata em dégradé de preto a vermelho, sapatos de vinil italianos…Completamente impecável no modo de vestir. Me fitava os olhos no meio da rua a ignorar carros que se desviavam dele, sem ele sequer dar um segundo de atenção a sua retaguarda. Apenas me fitava em uma mesma posição, com a mesma postura como se me chamasse, mas sem fazer um gesto sequer. Uma simetria paralela se travava entre nossos corpos e a rua.

Não sei por que, mas a presença desse cara, no inicio ou final da rua, me faziam hipnotizar. Era como se um chamado iminente, para um velho amigo, que tinha feito muitas coisas más com todo mundo, mas ao mesmo tempo, ele queria fazer as pazes e lhe dar uma grande ajuda, e não sei realmente o porquê, eu queria desesperadamente ir a sua direção, ou para cumprimentá-lo, ou para lhe matar. O elegante homem que estava muito, mas muito a minha frente, de certa forma, me “provocava” a ir ao seu encontro.

Tomado de uma curiosidade enorme e uma grande raiva eu comecei a me despir de pertences que simplesmente apareciam do meu corpo, me despia porque estranhamente a minha roupa pesava e muito o meu corpo, me impedindo de me mover ou até mesmo levantar uma perna depois da outra. Tentava tirar a minha roupa, mas outra blusa aparecia no meu corpo como se eu as tivesse aos montes por baixo de uma pele de lá saiam objeto dos mais variados, como cruzes, cordões, facas, alfinetes, retratos, e cartelas vazias de remédios, enquanto eu começava a andar rápido pela rua, em uma direção retilínea até o homem, que mantinha a sua postura, apenas fitando o meu caminhar. Quando tentava jogar uma bolsa ou uma mochila que estava nas minhas costas, era como se eu apenas tirasse a alma de uma, logo então, uma outra de diferente formato ou bolsa, aparecia no meu corpo, não em um mesmo lugar, mas na mesma disposição de outra em que estava querendo me desfazer, assim como as roupas, que em vão tentava despir-me. As pessoas, os transeuntes esboçavam ódio e descontentamento com a minha passagem. Eu trazia um estranho vento chuvoso que vinha nas minhas costas, que revelava a sujeira das ruas, aborrecia os mendigos, agravando o ódio de todos. Todos vinham a minha direção, mas eram lentos, vinham em slow-motion, mas quando olhavam a pessoa que eu ia a direção, mudavam a direção, reclamando sozinhas, esboçando uma raiva irracional do tipo que não podiam fazer nada, embora encolerizadas, se rasgavam por não poderem me ferir, outras até, se ajoelhavam ou choravam caídas no chão.

Andava me despindo e soltando bolsas e objetos que simplesmente surgiam do meu corpo como se eu os carregasse,  tentava me liberar de um fardo que sempre saia de mim, com forma de inúmeros objetos de diversos lugares, dos bolsos, fechos e mangas, saiam  latas, mp3, carregadores, celulares, bolsas, calças e sapatos sobrepondo outros que também tentava tirar, e assim ia andando e lotando as laterais da rua enquanto algumas prostitutas, que largavam de homens mais normais de bem mais vestidos do que eu – talvez até mesmo gringos- e elas  tentavam em vão balbuciar em meus ouvidos, apenas sentia o sibilar dos lábios, mas quando voltavam a atenção ao que eu focalizava a minha reta, elas apenas saiam se esfregando como se temessem o homem bem vestido que ia ao seu encontro. Quando retirava do meu corpo uma blusa, aparecia um casaco, quando retirava o casaco, aparecia uma camiseta longa… Eram peças de roupas de várias formas, cores e tamanhos.

As coisas que ia arremessando longe para os lados para me aliviar e melhorar o meu caminhar iam se tornando um engodo maior porque me impediam de chegar mais rapidamente ao homem, e quanto mais eu tirava as coisas que me pesavam, mais eu ficava furioso e tentava andar com mais rapidez e uma nítida desconformidade pela dificuldade de alcançar o homem. Eu andava em linha reta, enquanto que os carros agora também se desviavam da minha frente a medida que lotavam as laterais da rua e ainda sim vinham as prostitutas se desfazendo dos seu clientes a tentar se comunicar comigo, mas era indiferente, queria ir até o final da rua para descobrir quem era que me encarava. A fúria do meu caminhar era latente e perceptível, enquanto o amontoado de lixo e coisas ia lotando conforme eu passava, e os carros, que seguiam a rua indo em frente a minha direção,  passavam a se desviar do meu caminhar, batendo em outros carros pela lateral da rua que eu andava, que era relativamente curta, mas as outras pessoas que estavam ainda na rua, tantos os gigolôs, os gringos que procuravam os seus serviços e as prostituas não se importavam com a estranha relação que havia entre eu e o homem que parecia me encarar, me chamando para uma suposta guerra, os únicos que se importavam eram os carros, que tanto desviavam dele – já não estava tão distante – e de mim, que como um zumbi, andava me livrando de zilhões de coisas . O homem mantinha a sua posição como uma estátua, apenas movendo a cabeça acompanhando os meus movimentos e caminhar.

Até chegar o homem de pé que me encarava, havia três encruzilhadas a atravessar. Três transversais me separavam de ver o homem.

Atravesso a primeira, enquanto carros se desviavam de mim, e até alguns batiam nos objetos e coisas que arremessava, derrapavam na pista, e batiam uns nos outros e nas coisas,. Venci a primeira transversal, enquanto que o objeto de minha busca ainda parecia imóvel e estático, apenas me esperando pacientemente enquanto me dispunha a encontrá-lo em um esforço muito grande.

A outra quadra da rua ainda se comportava como no inicio. As putas, os gigolôs, os clientes, os objetos lotando as transversais… Tudo ainda era repetido com o meu caminhar até a próxima transversal que se comportou como a outra, com mais acidentes, mais derrapagens e uma pilha de uma destruição que causei com a minha passagem e a passagem do meu lixo apenas estavam a se acumular sobre aquilo tudo. O homem se mostrava mais nítido agora, ressaltava mais ainda a sua elegância, embora o seu rosto permanecesse em uma penumbra, pois estranhamente descobri que o quarteirão da rua em que estava, não havia sequer uma luz em local nenhum, mais ainda eram os seus cabelos longos e barba que ressaltavam o biótipo do seu rosto, e do seu terno e roupas impecáveis. Nada me deteve até então e o rastro de coisas e destruição aclamavam e mobilizavam putas e transeuntes a olhar aos poucos um encontro que aconteceria em breve.

O que me separava dele agora era apenas uma ultima transversal e ainda me livrando e me despindo das coisas fui atravessá-la como se fosse nada de novo. Era mais ofegante agora e meu olhar não havia só raiva, havia cansaço e medo também, mas não tinha medo de morrer atropelado ao de algumas pessoas que sibilavam reclamações ou ameaças, estranha mente não havia som nenhum de nenhuma parte, apenas dos meus passos e dos carros que violentamente atropelavam as pessoas para não me ferir e espalhavam o lixo que eu jogava de lado a outro enquanto eu andava como um estranho zumbi. E sim, a minha respiração também era ouvida assim como as batidas do meu coração.

Estranhamente, parei ofegante na ultima transversal, enquanto atrás de mim, putas, pessoas, mendigos, em câmera lenta reclamavam e tentavam me alcançar inutilmente, de uma forma insana, mas a velocidade era completamente incompatível com a minha, meu corpo sangrava todo, de tanto eu me vestir e arrancar objetos, utensílios e coisas de dentro de mim, e num suspiro de fôlego, abri a boca e pus me atravessei à última transversal.

Pus me atravessar. Assim como as outras duas, nada me ateve e as outras mesmas manifestações se repetiram: Carros desviaram de mim, e violentamente bateram com força em outras coisas que estavam no meio do caminho, as coisas que eu tirava de mim se chocaram com os outros carros, mas quando estava mais próximo do homem, há apenas um passo de atravessar a ultima encruzilhada, um taxi vindo da lateral, se choca violentamente com a minha mão esquerda, fazendo espirrar sangue na rua, e na roupa em que estava vestindo.  Meu grito não era ouvido, mas eu gritei até estourarem os meus pulmões e garganta, o sangue, depois de espirrado, agora descia como uma gosma, me empalidecendo prontamente. Cai no chão de tanta dor.

A dor era insuportável. O maldito Taxi quase tinha decepado a minha mão, que se agarrava a um fiapo de pele bem fino, mas em um gesto de frieza, tirei uma blusa – uma outra agora que me cobria – e fiz uma espécie de tapagem, unindo de novo o meu pulso e o meu antebraço, que estavam apenas ligados pelo fino fiapo de pele.  Tremia enquanto fazia essa amarração, doía muito, gemia um gemido rouco e surdo, pois no ambiente agora só poderia escutar os carros passando e uma chuva grossa que fazia a cidade se emudecer também.  A chuva estranhamente espalhava o meu sangue por toda a rua, escorrendo até o final e cobrindo como um rastro todo o caminho e objetos que eu espalhara por aquela estranha travessia. Todos da lateral da rua agora me olharam caído, riam, gargalhavam, e outros saiam do bar para  me ver ajoelhado tentando juntar o meu pulso ao meu antebraço. Era uma humilhação em slow-motion, as pessoas saiam de vários lugares, mas apenas das dimensões daquela rua para verem e me humilharem. Eu me sentia menos ainda, e quanto terminei de amarrar o meu pulso , pude observar a linha pintada de branco do meio fio, indicando o término da transversal, mas havia algo escrito em caracteres estranhos logo acima do meio fio.  Por fim, o atravesso, e fico em cima da estranha linha formada por aqueles caracteres, não a do meio fio, e sem perceber, não sei se pela dor ou pela humilhação que sofria das pessoas atrás de mim, não notava, mas já estava de frente a frente com o homem que me despertou este estranho sentimento de “busca”.

Levanto e tento retirar, apesar da dor de enlouquecer no braço, um sobretudo que agora vestia. Cabisbaixo a olhar para baixo, humilhado pelas outras pessoas atrás de mim, e ainda segurando o braço, felizmente me livro daquela mortalha e olho para cima. Frente a frente estou com o homem.

Sim. Ele tinha os cabelos longos e tinha uma barba não muito grande, mas a beleza dos seus olhos e brilho não me fez reparar outras coisas mais obvias. Era de um azul ágape mais lindo que eu tinha visto em toda a minha vida.  Era como se luzes de várias tonalidades de azul se cristalizassem naquela tonalidade, e de certa forma, rodavam esses brilhos e cintilavam, mas estranhamente não falou nada, mas reparei pasmado com outras coisas.

Um ultimo fecho ainda prendia o sobretudo e ao retirá-lo finalmente do meu corpo percebo que a ultima roupa que vestia era a mesma que a dele. O terno, a calça, o alinho de sua combinação era toda igual. Até mesmo os sapatos italianos e tudo mais. A única coisas que me prendia ainda ao sobretudo era o meu braço esquerdo ferido, mas ao com cuidado, tirar a manga do sobretudo, a minha mão estava novamente reconstituída e sem dor nenhuma.

E ao me reparar, eu pude agora verdadeiramente reparar no homem que estava a minha frente. Era eu mesmo. Era uma imagem minha que estava a minha frente, com os meus mesmo cabelos longos e barba, mas estava elegantemente mais bonito que eu de uma forma que eu não saberia explicar e a diferenciar os olhos.

– Sabe o que está escrito na linha que você está pisando? – Me perguntou.

– Claro que eu não sei…

– “Torne-se quem você quer ser”

“É a frase que te trouxe aqui, nesse tempo todo, você se machucou, adquiriu coisas, se desfez de outras, objetos, pessoas passaram no meio do seu caminho, mas sempre essas coisas, pessoas e utensílios sempre te afastaram de tudo aquilo que você sempre soube… Mas se soubesse realmente, saberia que no início da sua caminhada, quando você me descobriu a te chamar desde o início, você poderia ler, não em uma outra língua estranha, mas na sua língua a mesma frase que lhe faz andar e se desfazer e ter tantas coisas… Ela também estava escrita no início da praia, de onde você partiu… E é a mesma frase sempre…”

– Torne-se quem você quer ser.

– Exato. Nesse tempo todo, o que te atraiu a mim, é o que é você mesmo sem muitas coisas que te fizeram sofrer e sangrar, de tanto ter e repor. Eu sou o seu final o tempo inteiro e seu final sempre esteve do seu lado na largada, mas eu apenas  serei eu sempre. Me fiz assim para perceber o que tu és…Os que te humilham e humilharam serão sempre mais lentos do que você, porque você percebe outras coisas, mas isso não é só pra você é pra quem merece entender, mas se você não entender, considere então uma dádiva eu me deslocar para fazer esse teatro de merda pra você, muitas coisas existem ainda para você entender disso tudo aqui que eu materializei para você, mas você vai escrever e tem coisas que são só para você aqui…

– O que tem mais nisso tudo, isso foi tudo um símbolo, e os carros porque eu me feri?

Ele apenas deu as costas e foi embora. Desfez-se o sonho, acordo, mais ainda sonho…

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~ por Água para Plantas em dezembro 16, 2009.

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