Siamesas


Sobre ontem…

Feriado, Zumbi, 20 de Novembro de 2009.

São mesmas as noites, iguais em fundamentais paços e similares em todas as suas vertentes. Por duas noites vi homens travando relações conflituosas e tramando relações amorosas, com mais uma caça, mais um corpo e mais uma fruta a se deflorar. Correm as presas e lutam os leões mas com tudo isso, eu vejo tudo apenas com um tédio mortal, enquanto telefones tocam, relações de ciúmes vão se configurando devagar, problemas entre amigos são resolvidos, mas em essência, estou entre irmãos, sim,  gosto muito da companhia dos dois que estavam a mesa.

Creio que não procurava o que a noite me oferecia. Não queria chupar um seio. Queria me debruçar sobre um colo. Encontrar uma pessoa que fosse para casa comigo, comentando tudo e rindo no meio do caminho, seja de qual forma for que fossemos para casa, iríamos unissonamente cantando, rindo e comentando a noite. Mas mesma era a noite de muitas outras, com os seus mesmos personagens, a salvar um anjo, que me daria pequenas asas no final da noite, que era mesma com as mesmas pessoas.

Mas não por ser o mesmo lugar, seria capaz de beber na minha varanda e ter sempre a mesma contemplação como se visse sempre um monte ou uma colina verdejante, são os mesmos arquétipos, as mesmas pessoas, as situações, o não falar, o medo de se conhecer, e a velha tática de aproximação, análise as fêmeas, as tatuagens nas cochas não me surpreendem mais, mas mesmo assim, ainda há de se louvar a liberdade, mas com certo tédio em não se ver algo autêntico.

Mas ainda sim, a noite ainda de um todo não era perdida. Estando com irmãos é mais fácil suportar o fardo que já chega a ser um questionamento existencial. Um tédio letal, que foi quebrado por encontrar um dos maiores músicos que já ouvi, ao lado dos irmãos certos a se ouvir esse tipo de música, a se apreciar a noite como realmente se deve, sem compromisso ou forquilhas a te dizer a hora de ir. Esqueci por instantes toda a mediocridade noturna, e me forcei a sentar em um bar a esperar, impacientemente, que o músico se apresentasse.

Pedi pra cantar Little Wing e cantei. Não pedi pra cantar, queria ouvir bizarro executar com a alma perfeita de um digitador violonista uma canção que foi feita com alma, cantada por mim com desprezo, pois queria ouvir a sua execução, mas apreciada com contemplação e veneração. Um grande vortex se abre no Bin Laden, bar da Cantareira, o maior violonista de que essa baixada vai ouvir falar está tocando todas as sextas as noites, já tenho um lugar pra me esconder – mas a inserir um pouco de anarquia, um vírus letal contra a mimética do Hard Rock meloso, e um protesto contra um loiro poser, que nada faz a não ser ofuscar o brilho preciso do violão de, agora, de novo nome, Wallace, que pra mim sempre será Bizarro, em me surpreender com uma mesma canção, mas tocada com uma alma selvagem, cheia de criatividade.

Lembro que a primeira vez que prestei homenagens a esse brilhante músico, eu estava em uma festa gratuita em um dos lindos monumentos que Niemeyer fez em Niterói, eu me ajoelhei na frente de muitas pessoas e bradei: “Você é foda Bizarro, você é o maior guitarrista que eu já ouvi ao vivo” – ele me olhou com certa raiva, pois pensou que eu estava em um irônico deboche, mas verdadeiro deboche é não reconhecer uma brilhante dádiva, assim como João Batista fez, ao ver Jesus e a multidão de seguidores a sua volta sem entender porque o homem que faz seguir presta veneração a um desconhecido e o exalta. Porque muitos não vêem hoje, mas se o bom destino o conservar, esse rapaz será o músico mais impressionante que a baixada já pode presenciar. Filho e integrante dá ótima e energética Dolls on Dop, há de se protestar a falta do vocalista Felipe, que de certa forma é impossível ouvir Bizarro sem o vocal medidamente calibrado do Ex – e creio que sempre – vocalista do Dolls on Dop, uma ótima, se não, excelente, banda de Hard Rock.

Mas realmente, se eu pudesse dar uma letra ou uma música para essa noite que passou, pediria aos leitores que interpretassem “Come as you are” do Nirvana, com certeza, a noite foi toda essa em essência, e se possível lessem enquanto a escutam ou vice-versa.

Volto em boa companhia. A lembrar a Anésio, que o fundamento daquela noite foi reflexão, coisas estranhamente boas poderiam começar a acontecer conosco e era por isso todo o meu incomodo a ficar. Acho que o que está acontecendo com a gente é meio parecido com a ida a Índia dos Beatles… Mas de resto, a companhia era e sempre será ótima, pelas pessoas amigas que, na mesma mesa, sentados comigo estavam, mas era um mesmo cenário… E de todo o saco, eu um poema fiz.

P.s: Mas a noite seria muito pior se não fosse a companhia do Rogério, do Anésio, e no final, a ir pra casa lembrando as brilhantes intervenções e digitações, Wallace, o Bizarro.

Mesas Siamesas

São siamesas sempre

Entrepostas as mesas a noite

se alinham sempre as mesmas

Cores, funções e bares,

São verdes, mas sempre se tornam

Mesas.

As noites se embrenham,

Enfastiam-me com o seu ar de mesmo

Não sendo tarde, nem mesmo cedo

Uma lagarta de pele  preta, noite escura

Assim se arrasta, queimando a minha pele parada

Arrastando horas, mostrando gente a mostra

Querendo hora frio, hora calor

Tentei  me inebriar

Mas a droga de tanto usar não faz efeito

E a medida do meu tédio é como o copo a mesa

Até a metade

Ainda não acabou, e nem transborda

Difícil de sorver, quente e morosa

Bebida sozinha, nem corpo, nem vício.

Medíocre mesmo é a alma que te deixa surpreender

Simulando de novo uma espera de nada

Uma promessa de guerra

Mas densa é, não cura

E nem mata

Espero por outros que ainda sim vem a novidade

Mas sempre os velhos encontros, as pessoas esperam

Mascaras, tatuagens, bolsas, tênis, sandálias

Calças caras, caras falsas, papos furados

Malas com bolsas, bolsas cheias de nada

Entreolham, criam sujas análises

Era mesma a mulher de uma outra noite

Com sua atitude blasé, seu espírito inviolável

Trocou o nome, usou Neutrox

Fedeu a baunilha, comprou o ingresso, fez a pose

Mudou de cara, mas ainda sim, faz parte de uma função

Ainda há de se ter o sonho, mesmo quando não se dorme

A meia medida, copo mesmo

Corpo conhecido, meias palavras

Mesmas pessoas em suas mesmas atitudes

Não está vazio, mas nem é cheio

É certa a medida do tédio

Grupies a beira do palco

Uma loira querendo provocar

Um bar a fechar que já roubou o meu dinheiro

Um sereno que não quer cair

Uma barca que não vai sair

Dois aposentados de bronze

Parados, estáticos, sem conversar

A olhar uma folha, sem mover

Termina a noite, parodiando e resumindo

O que era desde o inicio

Siamesa, a sofrer sem se dividir

Presa ao tédio, moroso tempo

Sem andar sozinha

E deixar viver.

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~ por Água para Plantas em dezembro 16, 2009.

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