Morre Miles Davis

Crônica – Morre Miles Davis.

Quando é que uma tristeza se despede? Quando uma dor que rói por dentro e sufoca cada vez mais a sua alma, vai embora e não pede dispensa? Não vai, ela apenas se entreve enquanto você, distraidamente, vivia um sonho propício e maculado. Quando uma noite não foi pouca, e você olhou dos lados, mas antes você se vestiu e sinceramente vestindo despiu-se então de sua vergonha e do simples fato de odiar conhecer pessoas e vestir-se para sair, quando a vontade era entregar o seu corpo a rua e pregar o coração na porta de alguém, para que, assim achando-o, você poderia ter uma simples ilusão de que tudo estaria bem, estaria ele então com uma pessoa desconhecida, no desejo que o invisível lhe pegasse de jeito, que o destino lhe desse alguma rota louca e esse desconhecido seria então o seu derradeiro ponto final.

            Mas, mesmo vestindo-se bem, não atrai a todos. No meio do tumulto, de carros, fumaças, cidades cheias de pessoas, estas só. As pessoas são como cones móveis que lhe impedem de andar corretamente, mas, em uma linha reta, quando se esbarra por um desses cones, você respira em alívio. Ainda vive. É visível e portanto sente e pode interagir. No meio a esbarrões e multidões pode até mesmo encontrar alguém a atender as suas necessidades de imediato – o máximo de um pessimismo social – ou até mesmo ela ser eterna em sua vida. Nada é eterno e tento desesperadamente achar um texto do Morrisey que diz que: “Pessoas não são importantes” para finalizar essa crônica, aos que não sabem, o Morrisey é um puta escritor, colho alguns de seus textos pela net, mas “Pessoas não são tão importantes” é de uma contradição humana fantástica, ao mesmo tempo que ele “diz” que não “são” ele não deixa de citá-las! Isso que eu li é fantástico! É como quando alguém diz: “Você é meu mundo, mas sempre andarei de costas à você”. Até hoje não sei como ele ainda não se deu ao luxo de escrever um livro, se escreveu, eu não sei (se alguém achar, se é que alguém lê isso aqui, me mande por e-mail, já joguei no Google e não achei de jeito nenhum, e se alguém sabe que ele escreveu um livro, se possível, mandem pra mim o nome, ou até mesmo o livro)   

Minha pele ficaria enrugada, passada e transtornada de tanto passar pelo mundo. Andaria como Moisés, com um cajado a guiar um povo ignorante, mas meu pensamento, assim como o dele, sempre estaria em seu verdadeiro amor. Como um homem endurecido pelo vento da vida, ainda sim, esperaria dobrar a esquina e encontrar com você de novo, e de novo e de novo… Mas passou uma semana, sete dias composto de sete horas apenas, sete horas passaram para mim, sete horas apenas de dias compostos em sua natureza de vinte e quatro horas, mas do seu lado vi passando meses, e meu estoque de cartas mágicas na manga, como dinheiro, piadas e terapias herméticas está acabando, então como te manteria em meus braços? Mas ainda seriam os seus braços diferenciados pelos meus quando eu te abraço. A dor é a maior conclusão subjetiva e individual do ser. Sei que sinto. Nem mesmo sei, na certeza se essa dor é o não parte de um eu.

Teria que crucificar um estranho. Morrer em atos de violência. Cortar pulsos e fazer juras inebriantes ciente de que sou eu mesmo, mas mesmo assim, me descaracterizando de tudo que fui com outros e de tudo que fui comigo, mas quem me conhece sabe que eu sou muitos, sou de muitas formas mas por extensão nunca fui e nem nunca serei vazio, cheio de muitas coisas, até demais, mas nunca vazio…

Uma casa que não tem nada. Sala de jogos, playgrounds… Mas não há ninguém para usar, ousar desafiando meu senso amigo, minhas feridas sempre cuidei. Sem família, cadafalsos a contar… Nada… Sigo só, escrevo por uma força que me impede de ser alvo de alguma coisa, sou alvo de nada, sem ter força, vou seguindo em uma lógica que me detona a cada dia… E uma outra lógica que pede ao meu senso por outras experiência de equidade sensorial. Mudo. Apenas fala a minha escrita, e se traduzi – lá conseguirão me esquartejar como um animal ou um porco bem manso, mas meu escudo de metáforas é forte e minha passada é firme.

Não queria chorar, mas choro. Queria falar, mas escrevo. Que se danem todas as coisas e que venham os psicotrópicos que me colocam de novo naquilo que chama de sociável. E agora, enterro isso, assim como morre Miles Davis, que nunca deveria morrer, mas morreu quando escrevi a ultima linha desta mesma linha.

Há um bordado teu.

É meu peito com o seu nome

Nunca quis arrancá-lo, mas para morrer

Tive que destecê-lo, mas não todo…

Ainda sobrou linhas violetas e o contorno do seu nome

Deveria tirá-lo assim, e como eu te destronei

E ainda ousei destruir também quebrar o seu espírito

Na mesma marcha e freqüência

Descia alguém contigo o corcovado

E foi ao teu lado que eu empocei teu vício

E também te coloquei na mesma cruz que eu o coloquei

E cobri um desconhecido com todos os espíritos

Que minha banda e força podem

Pra te mostrar telemia

Pra fazer voltar o Egito a minha frente

Coloquei um homem em uma cruz de pó

E ele ficou ali, dependurado acho…

Mas aos pés dele tu choras, eu sei…

Querendo freneticamente aspira-las

Para vê-lo de novo descer de um corcovado

Com um cristo de pedra já crucificado

Em uma rapidez voraz

Enquanto o seu Bope não vem

Deixando em casa a senil vovozinha

Pra ver de novo o outro corcovado

Mas levanto de novo

Tiro as minhas marcas

Sem lutar ou sem ter o bom combate

Ando ainda, louco, a uivar

Esperando ter você

Com a força que veio do mar

Quando tentei te libertar em frente ao posto seis

Ordenando a mecânica da amizade

A louca matemática dos amantes

A magia negra dos viciados

A cor dos condenados

O sustento do morro

Onde sobe o Olimpo a procura do que ninguém te prometeu

E você sabe que é preciso subir

Mas não sabe que já desceu a tocha

Não tocaram fogos

Voltou aos trapos

E quebrastes, com meu peito, o meu cachimbo…

Estranho.

Dependurado pelo nariz

Desfeito do pó. Oráculos em flocos de neve.

Esperando o que não me disse e nem me quis.

Esperando o que me iludi

Sem ouvir a passagem de um avião.

Anúncios

~ por Água para Plantas em dezembro 15, 2009.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

 
%d blogueiros gostam disto: