Crônicas – Sobre a Espera

Crônicas – Sobre  a espera…

Áspero. Como é áspera a espera…

Como uma pequena gota de pimenta escorrendo por entre as pernas. Vadia. Percorre lentamente a espinha, esfria a alma dorsal daqueles que amam e querem ouvir o doce som do fico, aclamada proclamação que me libertaria de tudo aquilo que eu possa esperar de novo, de novo um mesmo tom,  vem e vai ressequido, mas quando acaba é jazz, um triste blues amargo chamado solidão, câmara dos desesperos e lente dos acuados que passam, por vezes caminhos, centrais de encontros, relógios vão incriminando e instigando que você na verdade está sozinho. Será que calmantes servem pra isso? Só sei que continuo a me sentir sozinho, no auge do meu desequilíbrio vou buscando reencontros, pessoas que passaram momentos bons, mas esses momentos bons não rondam a minha cabeça como sempre, e pra quem não sabe esperar pela vida, e se embrenha a conhecer a vida adiantada por meio de esquinas, tudo é mais complicado. Mais um trago. Trago outras coisas também, como solidão e carência, e por mais carente e complicado, vão trazendo nuances de desespero, formando um desassossegado atestado de mal amor amado, mas com tons e riscos de pecado, perfumando todo um jardim de agonia. Ao contar as horas. Ligar sempre. Ouvir a senilidade inocente ao telefone que de quinze e quinze minutos esquece a mesma ligação, mas a persona principal não se encontra, está no muro, com alguém, ou estática a sorrir feita as bonecas de Aila, dizendo que sempre há alegria, mesmo que artificial e transloucada no meio de uma noite suja, a se desarmar pela inocência, mais ainda sim em um muro qualquer, a se valer pejorativamente de ser uma puta ou uma santa a alegrar meios dias perdidos, meias noites pé frias, e almas congeladas por indas e vindas esperando na espera do pra sempre ter. O que mais ter a não ser o que já se teve? Inútil e indócil idiota que roda, entra, entreolha o mesmo lugar, sendo bobo a esperar por alquém que não tem o direito e não a obrigação de ir e vir ou cumprir o que já se foi feito. O tempo não é um ábaco, a voltar as contas, a zerá-las e se começar todo um cálculo, uma matemática imperfeita de se somar ou esquematizar uma fórmula para resolver tão severa e complicada equação. A cumprir como estorvos noturnos, impacientes a pedir trocados quando o que se mais quer é dinheiro, para se fugir de um mesmo lugar, para se estar na hora certa e ter alguém a encontrar, sem ter que esperar ninguém e ter a certeza de si mesmo que quando só, é o momento da melhor companhia e de melhor fastio.

A espera não te deixa. Ela te tortura como um fino torniquete abrindo o peito de quem anda, lá e cá… Almejando encontrar o que se deve ou talvez o que era pra realmente ser esquecido de uma forma definitiva, mas o grande mal da espera e a esperança, palavras quase iguais, mas que se somadas são, gera tumulto, desespero agudo e sofreguidão. Mais um cigarro, mais um maço. Amasso o mesmo e depois de novo o compro, na loucura do abandono, no revés que outros se encontrem, na mesma miríade daqueles que se esperam. Mas se fiz esperar também, que dor há?

Que se faça uma prece a todos que esperam! Não há um santo sequer a se recorrer para acalmar a espera, São Longuinho é para as coisas que se perderam, mas há alguma para as coisas que se querem se reencontrar, já de antes uma forma marcada? Ainda não se perderam, apenas não se encontraram no resultante caçulo de horas, minutas e memorandos de espera a agonia que se fazem por si, a siamesa noite que se repete, não há ninguém novo, mas a espera lhe remete a rever quem de novo se quer ter por conseqüente companhia, substrato que se torna desespero quando tardia é a chegada e tão certa a partida.

 Que se fabriquem remédios, analgésicos para o peito e filtros eficientes de nicotina a não prejudicar aquele que sempre conta com um cigarro a acompanhar a triste espera que morde como aço no peito acelerado pela estática célere de se sentir sozinho, de ver a alvorada rumar ao contrário, bem longe da esperança, a imaginar o gozo alheio, a imaginar o gosto do agridoce sangue vingado, somos nós, eu, eles e vós, que sempre espera, a sair semi-tonada a voz pedindo “volta”, em uma Copacabana lisérgica, que hora se torna leme, e mais a frente é Ipanema.

Ao trancar o peito, deixa a chave por perto. E se esqueça de abrir de novo, pois isso faz parte de “sua” espera, para não esperar o que se deve esperar, quando o sinônimo vem do sofrer, do aguardar sem notícias, sem celular, desligada, então, devo desligado estar…

            Um ar é vadio do que se fazem esperar, por conseguinte, um doce sadismo colocando como réu e culpado a quem espera… Mas eu sempre espero. Sempre me sobra um fôlego sobre-humano a se aceitar, como quem brinca no fundo do lodo de uma alma masculina, que só é porque assim definem, não sendo como todos, a ser parcialmente nada, em uma esfera que circula o medo de rejeição, vazio, sozinho e sem encontros. Nada te espera. Só você espera…

Mas qual é a prece mais adequada a se orar?

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~ por Água para Plantas em dezembro 15, 2009.

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