Cefaléia

Uma insuportável dor de cabeça me abateu estranhamente no trabalho, eu fui até a enfermaria do TJRJ e eles me falaram que era apenas um pequeno estresse. Lembro de There There do Radiohead tocando no Corsa Branco da minha mãe, e eu chorando compulsivamente enquanto eu passava pelo elevado do Juá em direção a minha via-crucis, lembro de quando a minha mãe dormia chorando, pedindo a Jesus de Porto das Caixas para que eu me recuperasse, e isso, uma vez me deu ânimo a viver, do contrário, eu ainda rezava para que tudo apenas se consumasse, com uma dor sutil, a pedir a Deus a gentileza de uma dor suave e branda e uma boa morte. “Pense nos tetraplégicos, nos anões, nos mutilados”, vozes assim sempre rondam e falam aos meus ouvidos até mesmo no silêncio, mas a angustia é o pior sentimento que existe a se ter em qualquer ser humano. Eu sinto a angústia de um tetraplégico tendo braços e pernas e sou um a andar, a correr, até mesmo a sorrir, mas ninguém sabe que isso é apenas uma tentativa branda de fazer com que o destino me consuma. Pensei no rapaz que morreu de uma bala perdida na Lapa, na mesma esquina que costumo a ficar, penso que poderia ser eu e isso é uma grande inveja. Poucos sabem da minha aversão a sair de casa, até os meus dezoito anos eu realmente sentia pânico de sair a noite, enquanto outros adolescentes da minha idade sempre saiam e pegavam alguém, eu me marcava a ler mais um capítulo da enciclopédia Larousse que minha mãe acabava de comprar no domingo com o Globo… Eu tenho pânico de multidões e sou tímido a conhecer pessoas novas, e até hoje tenho pânico de multidões e se alguém é ou quer saber me conhecer um pouco, se me pegarem no meio de pessoas ou multidões, irão reparar que é fácil me verem de olhos fechados. Aprendi a vencer parcialmente esses medos e não é muito mais difícil eu não aceitar multidões, se não tiver um grande bom motivo – Do tipo, Nação Zumbi, Radiohead ou outra coisa que me desperte arte ou sentimento – Mas isso veio com o tempo, mas mesmo assim, é completamente ruim tentar passar por isso, ou eu fico na frente do palco para não sentir a multidão me apertando ou eu realmente respiro fundo e tento não passar mal, e às vezes isso acontece. Passo a noite por não ter mais nada a perder, portanto sou escritor por saber escrever e por não ter uma outra opção. Poetas são palhaços, floricultores… Como diria Mr. Bob Dylan, o resto são apenas pessoas querendo atenção, não me considero e nem me consideraria um poeta, mas tento florear a realidade, tento massacrar o belo e combater um bom combate na medida da descrença e da fé, mesmo assim, há lutas e luas boas para se navegar… Mas no meio de uma tentativa suicida de se viver ao máximo, como o bom mestre Bukowski me ensinou a ser, encontramos grandes amigos e grandes pessoas no meio disso tudo que se passa – como Anésio, Pakato, Bardo, Fábio – E grandes corações que se encontram no meio desses abismos que te abraçam e te dizem com todas as boas intenções do mundo, assim como a mãe de Deus – como Mhayná, Biulla, Jaciana – E isso lhe distrai da meta principal que é parar de sofrer. A existência arranha a minha alma, fere o meu espírito de uma forma amarga e cruel, elucidei isso com uma amiga minha a distância, amiga que os papos rendem e se frutificam de uma forma doce e proveitosa, através de uma conversa meramente existencialista – daquelas que eu adoro, que poderia ter a noite inteira – descobri que o meu sentimento de morte é confundido com um sentimento de “transcender ao que é puramente efeito e físico”, e isso não é morte, mas de tudo e todo eu fiz para ter esse sentimento e fazê-lo perdurar de uma forma eterna, a me desprender de todo sentido, sentimento, preocupação e senso, mas não vejo uma outra alternativa a não ser na morte, que seria a verdadeira nulidade dos sentidos, não havendo outro subterfúgio, nem narcótico, religião, filosofia ou boate para que isso te faça acontecer. A minha polifonia é mental. Eu me lembro de tudo a todo instante e hora, lembro todo dia do que meu pai fez a mim e a minha mãe, lembro do que eu passei com o meu casamento, lembro do que aconteceu ontem com o meu trabalho, eu lembro de tudo na minha cabeça, e tudo acontece em um segundo… Eu não distraio, quando pensam que estou distraído, é quando a minha cabeça mais funciona de uma forma mais drástica e nociva, e isso me angustia muito mesmo… Não ter uma distração e uma pausa, me faz muito mal… Quando era criança, eu jogava Mário e isso passava, quando adolescente um filme pornô, hoje em dia, eu faço famílias, tenho filhos, vivo relacionamentos, fodo, passo noites loucas e isso nunca acaba! Disse isso uma vez a um amigo, que felicidade pra mim era tempo de entretenimento, no sentido de se permitir distrair, se enganar enquanto se sofre, que pra mim jogar Cadilac Dinossauro e fuder me davam o mesmo prazer, porque era similar, da mesma forma eu estava entretido e esquecido da situação angustiante que é pra mim andar e me socializar. Depois que eu disse isso, seus olhos se liquefizeram, e ele me respondeu enfático, “eu sinto a mesma coisa, só que você foi o primeiro a me traduzir isso”.Não importa um beijo, não me importa um filme, não me importa um show, todos eles acabam. Todas essas sensações vão embora e lhe remetem a uma mesma merda sempre. Tudo acaba pra lhe dizer que isso é a merda que é a vida.Tenho amigos, me socializo por simplesmente não agüentar essa condição angustiante do sentir e por ainda acreditar que eu possa encontrar alguma coisa que me faça mudar, que mude a minha vida de uma forma repentina, que me mostre outros horizontes e me entretenha por mais tempo, o que pouparia o sofrimento de muitas pessoas que talvez gostassem de mim, e da minha filha… Mas a noite, o dia, o tempo, é tudo a mesma coisa, é como uma corrida de formula 1, você sempre passa pela mesma curva, pelo mesmo carro, e é circular, não é uma espiral. É difícil, mas isso não vai acabar. Talvez eu não queira. Talvez eu entre por dentro de um grande mundo sobre os fungos do canto da parede do meu quarto e de lá eu não saia nunca mais, apenas olhe, com uma freqüência estúpida e eterna, sem me importar com nada, apenas com uma coisas que ainda me faz conectar com essa realidade, Luiza, minha luzinha no meio da sombra que é projetada do meu espírito para o meu corpo a minha vida. Controlo esse ânimo com remédios antiansiolíticos e calmantes, que me ordenam o sono e a calma, e com isso vou relaxando mais, esquecendo que a merda é essa, e que isso é o pior que pode acontecer sempre. Viver é sempre o pior que pode acontecer, na sorte, um entretenimento entre o caminho tortuoso. Aproveito que o rivotril começa a fazer efeito e me despeço. Vou fumar um cigarro, escovar os dentes e dormir pois tenho que trabalhar amanhã, enquanto isso, vou sonhando que essa dor de cabeça venha de novo de uma forma mais séria, mas de uma forma indolor, que respeite a mim e aos que me gostam, e que me dê um verdadeiro descanso, descanso merecido a um velho ramster que está cansado de rodar a sua roldana.

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~ por Água para Plantas em novembro 19, 2009.

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