A curva da Luz

•outubro 9, 2011 • 1 Comentário

 

A curva da Luz

O homem que só caminha

O sol que levanta o dia

Os homens tomam café na esquina

Zumbis voltam pra casa sozinhos

As chamas abarcam lembranças

Nos olhos pulam as esperanças

No meio das pedras

No verdeio do nada, algo solta

Desprende-se de um espaço inanimado

E convulsiona, lentamente vem o tédio

Algo é mimético

E tendencioso

Virtuosa e clara luz

Venha

Porque a noite

Se repetiu

De novo.

 

As trevas me abraçam

Movimentos minha pele sente

Meu tato sente a luz da pista

Mas não há claro envolvimento

Entre minha catarse e meu corpo

Por que algo

Mesmo nas trevas

Repete-se

De

Novo

 

Dançam mortos na pista

Corpos se exibem, noite esquiva

Há certa tendência no estrobo

Algo se repete

De novo

 

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Estudo da curva da luz II

•outubro 4, 2011 • Comentários desativados em Estudo da curva da luz II

Enchi a minha alma de esgoto

Lixo humano no coração, odiando

Parodiando, Gerundiando,

tornando a alma mais pobre que esse poema

 

Em litros de raiva e consumação para um peito

Que só bombava o mais venoso do sangue

Que ficou preso no olho, vermelho fogo

Foge da fúria, a falsidade insana

Desce os exus às cascatas. Falange

 

A boca pulsava a pus

O coração salivava ódio

A carne a cozinhar uma raiva

Que seria estandarte a me erguer

Levantar minha mão e cerrar os punhos

Morder a língua e dizer uma palavra fudida

Em uma hora escrota, em uma hora pouca

A dizer tanto rancor, a cor vermelha no peito ficou

Porque assim sou:

Mau ao desarmar a boca

Cruel a cerrar os punhos

E louco abrindo o zipper…

D.G.Funny.

Estudo da curva da luz I

•outubro 4, 2011 • Comentários desativados em Estudo da curva da luz I

Passamos as horas vendo reflexos

A clara e custosa luz do dia nos incomodava a vista

Que escorria pelo blackout, e entrava sorrateira pela cozinha

Breve fora a noite – porque o sol tinha que nascer hoje?

 

Não deveria o brilho lhe dever a majestade?

Que de arroubo tua beleza tomou toda a tarde?

E se vez realeza e cortejo entre astros e pasmo entre as pessoas

Que olhávamos a andar pelo dia, nós éramos um quarto

Um quarto de tudo sem pertencer a nada

Um quarto no escuro tateando até a sala

Não sobrou razão para consumir meu e teu corpo

Sem divisão, como um perfeito andrógeno

Perdidos entre roupas assim passamos o dia

Nada era palpável depois de uma noite de outro dia

De outro dia perfeito, sobrou a harmonia

Harmoniosa tarde, arde quente a outros

Porque a renegamos nus, corpos expostos ao sexo

Tarde desprovida de nexo, canto ou tato

Vertigo Cap: 4 Capitulo 4: “O tédio vem da ânsia da espera que é à priore ao fastio.”

•setembro 27, 2011 • 1 Comentário

Vertigo

Cap: 4

 

Capitulo 4: “O tédio vem da ânsia da espera que é à priore ao fastio.”

 

Os tempos que se seguem a algo que realmente se espera ou sonha são torturantes. A rodana ainda estava a roda e eu como um ramster estava dentro dela, rodando mas não esperando a hora de me libertar de uma sensação terrível que me tomava todas as vezes que voltava, ia ou estava no meio do caminha ao trabalho: Tédio. Uma semana foi uma eternidade, conturbada pela ignorância que quase fez perder o meu trabalho.

Um grande exemplo disso é meu estado atual: Ando em uma produtividade razoável e acho que isso não me deixa “a esperar” muitas coisas, não tenho mais a preocupação que tinha, a qual citei no início do texto, pois não estou a esperar nada, hora não sei se aprendi a esperar ou aprendi que há o momento certo de tudo acontecer e ter quase a certeza de que coisas podem vir a acontecer, bom, pior que esperar é estar inerte como estava, mas soube recentemente quando estava a refletir sobre as coisas que me aconteceram que o tédio é o prelúdio de um estado profundo de ansiedade, que começa com um simples anseio, que nossa mente o transforma em conjecturas de coisas que não aconteceram e isso vira um grande círculo mental que lhe pode trazer sérios riscos psicossomáticos: Como inicialmente, insônia – que hoje é minha grande parceira de produção – Stress, Histeria, Síndromes de oscilações de humor e a culminar com a depressão e depois a coisas mais severas – Como TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) Síndrome do Pânico e outros males mais severos e psicossomáticos.

Um grande exemplo disso está no nosso querido e empoeirado dicionário. Vamos começar etimologicamente a ver isso:

De acordo com o Aurélio:

 

Ân.sia: sf. 1. V. Angústia (1). 2. Desejo ardente; anseio. 3. Esterior, vasca.

An. si. a. do: adj. 1. Que “padece” ânsias. 2. Desejado ardentemente; Almejado

An. si. ar: v.t.d 1. Causar ânsia ou ansiedade a. 2.Desejar com ardor; almeja. T.i 3. Ansiar (2). Ter Ânsias. [Conjug.: 12 [ans][iar]

An. si: e. da. de: sf. Psiq. Estado emocional angustiante acompanhado de alterações somáticas (cardíacas, respiratórias, etc.), e em que se prevêem situações desagradáveis, reais ou não

 

Podemos observar, a esfera daquilo que “se espera”, ou se “tem esperança” a onde pode parar. Se encontrar em qualquer dicionário – no meu pelo menos, a ordem seqüencial das palavras se deu a própria resposta a tudo: Desejamos uma coisa, esse desejo passa a ser uma condicional constante, até que, entramos em Ansiedade: “(…) e em que se prevêem situações desagradáveis, reais ou não”. Isso por apenas desejar, obcecar e tornar cativa a mente a um único propósito, agora, vamos ver o que o nosso amigo Aurélio nos mandou procurar quando nos indicou a ver “Angustia” quando eu fui ver o significado de ânsia.

An.gús.ti:a  sj 1. Grande ansiedade ou aflição; ânsia, agonia. 2.Sofrimento, atribulação.

Nosso amigo, o Aurélio, nos remete agora a um “palíndromo” de significantes e significados, e nos coloca mais três palavras nessa busca, que se formos “a fundo” rondaremos o dicionário inteiro e minha história não vai ser contada nessa capitulo; mas não se esqueçam que ele nos remeteu a mais “quatro” palavras: Sofrimento, Agonia, Aflição e Atribulação. Como o sentido entrou em uma “esfera circular de significados”, vamos nos ater a duas palavras: A inicial que é o tédio e depois a uma outra:

Té.di:o: sm. Aborrecimento, fastio.

Te.di.o.so: (Ô) adj. Que inspira ou causa tédio [PL.: – osos (Ó)] .

De.pres.são: sf. 1 Ato de deprimir (-se). 2. Abaixamento de nível por pressão ou peso. 3. Baixa de Terreno. 4. Abatimento moral ou físico. 5. Econ. Período de declínio ac4entuado na atividade produtiva e no emprego. 6. Psiq. Estado mental caracterizado por tristeza, desespero e desestímulo quanto a qualquer atividade. [PL.: – soes.].

De.pri.mir v.t.d  1. Causar depressão (2,4 e 6) em. 2. Debilitar, enfraquecer. P. 3. Sofrer de depressão (4). [Conjug,: 3 [deprim]ir] & de.pri.men.te adj2g,; de.pri.mi.do adj.

                Desestímulo quanto a qualquer atividade, como cita acima nosso amigo quando se refere a depressão, não seria “Aborrecimento” ou até mesmo “Angústia”? Ou rasguem os seus dicionários ou mudem a forma de pensar, acho, mais econômico, – pois dicionário não é tão barato, mudarmos a forma de pensar, porque tudo começa na esfera do ansiar, do querer e não alcançar: Esse dilema moderno de sermos eternamente felizes. Só somos quando alcançamos alguma coisa, nos ensinam que devemos ter um “sonho” ou uma “meta”, esquecendo que nos ensinarem a sonhar ou a nos ensinar a descobrir quais são as nossas metas. Por isso estamos cansados de ver uma sociedade afastada da realidade, que não a mostra com clareza e em apenas em flashes podemos “sentir” alguma coisa. Não temos a verdadeira noção do que queremos e quando a queremos ela se encontra na esfera do impossível. Tudo é possível, desde que sua mão lhe faça alcançar, desde que lute e queira que aconteça. Se não, todo resto é angustia, é ânsia e depressão é enfraquecer. Definir o quanto é ansiedade e o quanto é depressão é o mais difícil internamente falando.

Sábio Cazuza que disse uma vez: “Prefiro morrer do que morrer de vontade” Mas ai vem uma outra fórmula ou uma outra busca ou uma outra verdade: Mas se nós direcionarmos a “nossa vontade” a coisas que podemos alcançar? E se nós direcionarmos a nossa vontade a coisa que podemos lutar e conquistar? Sábio mesmo foi Boris Plasternak – Autor de Doutor Jivago que disse: “Que a felicidade só existe se for compartilhada”.

Mas era esse “fastio” da roldana que me matava. Ainda mais somada a “ânsia” de muito querer que essa reunião acontecesse, e sem contar a ninguém, guardei como um segredo de força, assim como Sansão não o fez, eu fiz: Guardei aquele projeto e não contei a ninguém que ele pudesse acontecer. Mas os dias se passavam, o trabalho braçal era mais pesado agora – ainda não tinha colocado o substituto de Paulo para o trabalho – ficando a cargo dos peões que vinham buscar o material a me ajudar ou não a carregar ou descarregar os caminhões com entulho ou cimento. Às vezes, era uma pessoa conhecida, um trabalhador, um peão como eu conhecido e que sempre tomava café conosco – eu e o Coronel – no nosso canto cheio de ratos – já mencionei em um outro post que o local da estufa onde colocávamos a nossa marmita pra esquentar era dormitório de ratos durante a noite – com certeza por causa do calor, eles iam pra lá se proteger do frio.

Já tinha impresso “Andar” várias vezes, lido e relido, aumentado o texto, começado apenas com diálogos, ou apenas olhares, eu tinha mudado o formato várias vezes, corrigindo no pequeno banheiro do sobrado onde tinha alugado em Marambaia e ainda não tinha decidido realmente o que iria acontecer ou como seria o texto. Tinha umas dez ou doze versões diferentes de “Andar” com finais diferentes, mas ainda não tinha decidido o inicio ou o término real do conto. Seria um conto curto. Pensava. Mas, a linha contextual era realmente como eu sou – oito ou oitenta – ou tinha quatro páginas ou meia. Tive que ler todas as vertentes daquele mesmo personagem que era um ascensorista, que sempre colocava a mulher que amava a um andar acima dele, assim como eu, que vivi altos e baixos na vida, eu me identifiquei com estória de Elias. Era um ascensorista que via muitas pessoas descerem ou subirem por andares diferentes, mas não importava o quanto eu continuasse, eu vivia em uma circular perpétua de altos e baixos – internos e externos – e não saia do mesmo lugar.

Acordei mais cedo do que de costume e comecei a procurar os papéis de rascunhos de Andar, e por infelicidade, tinha descoberto, que em uma de suas arrumações, a mãe de Ana Luiza pos todos as minhas cópias do conto fora – achando que eram coisas sem valor, mas depois descobri que era um ataque de pura ignorância por “achar que era um acsensorista apaixonado por uma mulher e que a estava traindo” – bom, o significante está todo no conto e o significado é sempre subjetivo, mas em contra-análise com o autor, sempre conseguimos ver o que realmente significa tal escrita, pois como todos sabem todo escritor é egoísta. Mas “Andar” não se tratava disso, o próprio nome é metafórico ao passar de uma vida circular, só que Elias andava em uma repetição vertical, enquanto eu andava em círculos e sinceramente, só havia amor realmente, naquela altura da crise conjugal, eu só tinha amor pela minha filha – a única mulher atualmente que realmente amo. Depois de muita briga e discussão – sem revelar o verdadeiro intuito do que seria o projeto, apenas dizia “que eram coisas que eu escrevia e que sempre escrevi, e que não seria ela e nem ninguém que me impediriam de escrever – Ela tinha uma cópia guardada, a mais compacta, pois tinha e tem preguiça de ler, então acho “a prova mais incriminadora” e a guardou para tentar lê-la várias vezes como alguém que tenta desvendar uma charada. Sou bom com charadas, mas aquilo ali não tinha nada disso. Era a reconstrução e a mistura de minha estória com o de um bom e velho amigo de café. Tomávamos café juntos quase sempre na hora do almoço no Xamego, – um bar perto do TJRJ – mas isso antes de eu ser transferido para o Depósito da Praça da Bandeira, mas um dia estranhamente, Elias não tomava café, tomava conhaque. E me contou uma triste estória que eu a romanciei e o prometi que não a contaria na integra. Ela morrerá comigo, assim como os altos e baixos de uma vida morrem com aqueles que não alcançam esse tal sonho da Era Digita – Essa triste obrigação de ser feliz, de ter uma família, de ter um carro, de ter, de ter e de ter que todos tem que ter. Mas por incrível, o conto não é uma integra das duas estórias, não existem quebra-cabeças ao saber da real estória e do conto que eu criei – é semi-ficional. Mas a porcentagem do que é ou não verdade, vai morrer com um senhor, um velho ascenssorista, boêmio, tocador de bandolin, que vivia na estudantina e conheceu meu tio – Dalmo Niterói, seu nome artístico – E dizia que gostava de ir a serestas com ele. Compôs também muitas das serestas que hoje em dia tem nomes de outras pessoas. Morre comigo e com Elias – ainda vivo – A verdadeira estória de “Andar”, que há mais ou menos uns oito anos atrás, tinha conseguido achá-la dentro de uma caixa de sapatos que tinha esmaltes e outras coisas femininas – Não sei porquê, ele tinha escondido muito bem dobrado a tal ponto de não conhecer que era meu ou que aquilo era realmente um manuscrito meu.

Muito do lirismo que tinha construído para uma página e meia tinham se perdido com a ignorância. A ignorância é capaz de destruir o amor. A ignorância destrói a inocência e suga, como um vampiro, tudo que é bom de uma pessoa, só restando a outra apenas a odiar e a não sentir mais nada a não ser nojo.

Volto com o manuscrito ao trabalho e redigito completamente o que tinha pensado, certo, tinha uma cópia digital salva, mas a construção do meu trabalho – por não ter um computador em casa onde eu posso rever, recontar ou colar – Salve a informática que salva muitos escritores! – Eu fazia essas alterações em várias cópias, de caneta em um mesmo amontoado de originais, então, muitas coisas  melhores que eu pensei, para tornar a história mais bucólica, se foram, ou com vassoura, ou pelo lixo mesmo, fora uma pilha da contos e poesias que se foram, mais um violão de naylon, que simplesmente desapareceram, ou foram queimadas, ou vendidas…Não sei. Mas isso eu vou contar mais tarde. Bom, com o “verdadeiro” original, sim, o primeiro que tinha escrito no banheiro assim que soube da proposta estava nas minhas mãos e o que tinha digitalmente era um punhado de idéias que eu não sabia mais o que fazer. Me restou voltar a beber da fonte.

Liguei para seu Elias, mas dessa vez, marcamos no dia seguinte de nos encontrarmos no Xamego para conversar – Me pediu pra adiantar a conversa, mas eu apenas disse que queria “homenagear” um homem de verdade que tinha conhecido entre andares e outros. Não dei desculpas no trabalho, apenas não fui trabalhar e o galpão literalmente parou. Não justifiquei a minha falta. Apenas faltei e ponto.

Na quinta-feira tomamos o tradicional café pós almoço. Ele ficou meio espantado, mais espantado ainda, porque tornaria pública a sua estória, mas após eu lhe garantir sigilo, ele me autorizou a contá-la desde que de uma outra forma. Mas manteria apenas uma frase que talvez eu nem aprendesse com o mais sábio dos monges. Viver é empírico e ponto.

Ele me recontou mais ricamente e com mais lirismo do que antes. Seus velhos olhos marejaram de novo como na vez do conhaque e assim, eu meio que vampirizei a sua dor. É com desgosto que falo isso, mas completamente me alimentei daquilo que o homem me  passou. No início da andar, eu “recito” a única coisa que “digo” que vem realmente da sabedoria de um dos homens mais boêmios que eu conheci: “Um homem de verdade só ama uma vez.”

E foi assim que na sexta, fiquei até as oito no galpão, reformulando o original e como um trabalho artesanal fui tecendo a pequena colcha que seria Andar. O fiz. Mas antes, deixei uma cópia na casa da minha mãe e fui de mãos vazias para casa. Não poderia esperar que, sorrateiramente, alguém rasgasse o meu sonho ou minha escrita, ninguém nunca mais terá esse direito ou poder na minha vida.

Bom, esse foi um dos rounds da luta para escrever Andar. Sábado, às 13:00hs no Índio Pelado, me encontraria com Ronaldo e com sua Esposa para a reunião do projeto. Estava nervoso e já com a cópia de Andar no bolso. Os dias e horas foram contados nos dedos, mas finalmente, estava em um ônibus para me encontrar com Ronaldo e os outros colaboradores para a dita reunião…

(continua)

Oração a Minha Senhora

•agosto 26, 2011 • Comentários desativados em Oração a Minha Senhora

 

Ó Minhya Senhora…

Mulher que me tirou da terra

Vem depressa e me tira o ar

Me eleva e me joga fora de órbita

A viajar em um outro sistema Solar

 

Tire a calma do nosso amor…

Tire a calma de nossa insônia

E saiba que te espero ainda

De outras eras

Pra outras vindas

De onde eras

Em outras eras

Verde. Calma como a brisa

Era tu a me acalmar

Mas agora lhe suplico

Calma

Teu rosto não sai do meu

Assim tão fácil…

 

Mulher que me tirou tudo

Antes, me tirou o mundo

 

 

Mulher que me invade

Como um corpo estranho

Que há muito conhecia

E por meu tomava

Agora

Lhe digo calma

Não é propícia a hora

De chutar a todos por nós

Nós seremos tolos se fizermos isso

Porque tudo será perfeito em nossa volta

Como o formato da doce escadinha dessa prosa

 

Capítulo 3 – “Antes o conhecia de ouvir falar, agora o conheço de SER

•agosto 25, 2011 • Comentários desativados em Capítulo 3 – “Antes o conhecia de ouvir falar, agora o conheço de SER

 

Vertigo

Cap: 3

 

Capítulo 3 – “Antes o conhecia de ouvir falar, agora o conheço de SER comigo”                                                            

Realmente, tomar banho depois de um trabalho pesado e sujo faz uma grande diferença. Mas realmente, não sei muito o porquê, eu não tinha muitos motivos e ainda um certo brio antigo que não me deixaria ir fedorento a falar com o Cassiano e o Ronaldo. As minha roupas não estavam amarrotadas, tinha levado alguns perfumes e estava como se estivesse saído de casa. Tinha resolvido pegar um ônibus até as barcas e de lá me encontrar com eles – Depois de anos, eu tinha mudado o trajeto da minha viagem e depois de muito tempo iria encontrar com amigos, fora os finais de semana em que trabalhava em uma lan-house do Felipe – que era mais do Bruno do que dele, e a minha relação com o Bruno estava mais do que desgastada, esta quase indo embora dalí. Iria me encontrar com os caras na sexta, mas não poderia estender o meu horário em permanecer no encontro, porque tinha que acordar cedo para varer a loja antes de abri-la.

Só de sentir as barcas e o vento correndo dentro dela, pela parte da varanda, eu sentia que algo novo e diferente me esperava. A contra gosto desembarquei – por mim aquela viagem duraria horas – Sentei e esperei alguns minutos esperando os dois.

Os encontrei: Ronaldo continuava o mesmo, mas Cassiano cultivava uma barriga que nunca tinha visto – tinha se viciado em comer em bons restaurantes, estava ganhando rasoavelmente na antiga firma onde trabalhava, por isso, ainda lhe devo algumas idas ao cinema e das vezes que me pagava algum lanche e até uma entrada ao teatro – Mas mesmo assim, o encontro foi o mesmo desde a nossa época em que nos encontrávamos na Banca do Marivaldo – Um pouco mais caloroso.

Conversamos sobre os velhos assuntos nerds que sempre conversávamos, me mostrou seu mais novo smart-phone e depois decidimos ir a um bar jogar sinuca. Antigamente, em uma das paralelas, no meio das transversais ruas de Niterói, tinha uma sinuca amistosa, não tocava funk, algumas mesas sempre ficavam vazia e enterávamos algumas fichas, e enquanto jogávamos, a idéia foi destilada:

– Bom meu camarada – disse Ronaldo – Eu estou lhe incluindo em um projeto bacana que eu tenho a fazer por indicação de nosso amigo Cassiano, porque ele disse que você escreve muito bem, e estou afim de fazer não um zine, mas um portifólio de uma revista de ensaios, na qual a gente vai ter uma tiragem pequena apenas para mostras as editoras pra ver se a gente ganha algum espaço. Vão ser contos pequenos, que ainda temos que ver com a gráfica e com o conselho dos outros colaboradores, mas não deve ser muito grande não, pense em coisas pequenas, pense em coisas realmente que possam caber em um espaço bom… Bom nada está tão decidindo ainda. Estou chamando as pessoas, mas quando todas estiverem convocadas e realmente esse compromisso foi confirmado, vou te falar o formato da fonte e o tamanho do texto do conto. Enquanto isso, como eu te falei, vai pensando em alguma coisa pra gente colocar na revista. Vai trabalhando em alguma coisa, se você for participar é claro.

– É sério isso – disse meio pasmado a olhar pra Cassiano, mais pelo seu reconhecimento de minha escrita, coisa que tinha mais do que enterrado em minha vida – Você acha que eu escrevo bem?

– Claro bicho, não pensei em outra pessoa para escrever nesse projeto além de você. Conheço outros caras, mas poucos tem a sua pegada pra escrita.

Algo tinha me enchido. Não era o meu ego, era como uma sede que tinha tido há cinco anos, desde que perdi a minha faculdade quando estava prestes a me formar. Me desisti como escritor há muito tempo, e não pensava que minha escrita tinha sido marcada como “aceitável” a alguém.

– Só que – Fazia um adendo o Ronaldo – Não vai ser só a gente, tem uma galera que eu vou chamar pra gente elaborar isso tudo, mas já quase tudo que meio engatilhado, eu vou dar a maior parte e vou dividir a menor parte com o restante dos participantes, porque o projeto é meu…

– Cara, mesmo que eu tivesse que pagar a maior parte, só por alguém lembrar que eu ainda escrevo, eu estou mais feliz do que nunca – Marejei um pouco os olhos imperceptívelmente, mas estava atento a tudo que era falado enquanto jogávamos sinuca.

Não me recordo se Cassiano dividiu ou não a maior parte com o Ronaldo ou se ele fez menção a isso logo que ele levantou a questão. Eu estava a flutuar. Minha alma tinha sido severamente refrescada com o reconhecimento de um amigo que tinha lembrado e mim. No meio da conversa, me mencionou a participação da Flaviana – que até então não conhecia – e de sua esposa, a Viviane, que iria fazer uma das ilustrações – que fui agraciado com a ilustração belíssima de um bucolismo compatível ao que eu quis passar em “Andar”.

– E ai cara, ta dentro ou ta fora – indagou Ronaldo

– É a sua chance cara, se jogar fora, não te chamo pra mais nada – Mais um dos ultimatos do Cassiano.

Pensei na quantia que iria ter que desenbolsar para poder realizar e fazer parte do tal zine, fiquei receoso, mas tinha, naquele momento, em que me desenterraram e disseram que o gongo ainda não tinha acabado, que tinha sido apenas um Knock-Down, no meio da contagem que o falso destino tinha me colocado, eu resolvi em um ato de coragem e fé – pois não tinha dinheiro, realmente para nada, tudo que ganhava era para a manutenção da casa e para os gastos com Luiza. Mas deveria romper. Não queria mais ser um homem “vencido”. Não queria mais ser uma pessoa derrotada pelas conseqüências das minhas escolhas, queria escolher outras escolhas que me pudessem fazer sonhar de novo. E de um otimismo que tirei de onde eu nem sei, eu apenas respondi:

-Tô dentro cara. Vou nessa com vocês!

– É isso ai garoto! Vamos fazer isso com qualidade e apostar nossas fichas – Me animava Cassiano.

– É cara – disse Ronaldo – Mas já vai preparando alguma coisa, já vai escrevendo o que você pretende colocar como conto, já vai bolando alguma coisa… Bom, agora, eu vou ter que marcar uma reunião com os outros colaboradores e vou passar isso por e-mail pra vc, até mesmo eu te ligo, qual é o seu telefone Rodrigo?

Trocamos os telefones. Jogamos algumas partidas de sinuca – a nossa sinuca de perebas que nunca sabemos ou dominamos, mas jogávamos porque simplesmente, gostávamos de jogá-la – E conversamos mais sobre quadrinhos, contei an passant como estava a minha vida, não tinha dimensionado ela totalmente, apenas dizia que não tinha dinheiro para nada, mas que “com certeza, já estava sendo parte do projeto”. Cassiano ainda ficou meio ressabiado, porque sabia da minha facilidade de anular encontros, de desmarcar coisas – por motivos que conheço, mas é difícil admitir que às vezes é difícil andar na rua, que às vezes é difícil tomar uma condução e não sentir medo, mas hoje em dia, eu apenas penso que cumpri o meu papel, e sempre busco novos lugares e a procurar e experimentar coisas novas.

Nem chegamos a gastar todas as fichas. O bar já iria fechar. O tempo com eles tinha sido realmente maravilhoso, de tão, que a hora passou como minutos. Estava saído moribundo de uma caverna, no sentido mais lazarento possível. Um peão ainda poderia escrever. Um cara que ensacava pedras e descarregava caminhões de cimento como um outro trabalhador qualquer ainda podia sentir e passar alguma coisa do que sentia para outras pessoas. Ronaldo tomou a sua condução e acompanhei Cassiano até pegar a dele. Me contou pouco de sua vida, como sempre, mas já dizia que os dias na boa firma estavam contados, mas mesmo assim, tentei insuflar um pouco de ânimo nele, mas ele não deu ouvidos – é um pessimista nato – então, puxamos outros assuntos, do tipo “quebra a conversa”, me perguntou o que lia, disse que estava lendo “On the Road” de novo, e estava com uma edição de sebo de “Pergunte ao Pó” que estava começando a ler também, mas que “On the Road” estava me dando um pouco mais de coragem a tentar mudar. Comentei do círculo medíocre que minha vida estava tomando, mas, em um raro gesto, apenas disse que as coisas “poderiam” mudar depois que a gente fizesse o projeto – cujo nome seria decidido em uma reunião, com outras pessoas, algumas desagradáveis, outras, não tento, mas por serem influenciadas por essas pessoas desagradáveis se tornavam mais ainda, mas isso contarei mais a frente.

Depois que Cassiano pegou sua condução e fui para o meu terminal, parecia que algo florescia de novo depois de muito tempo. Eu estava feliz em voltar pra casa pois tinha uma meta, havia um plano, havia uma coisa a se buscar além de coisas que estavam em uma caçamba de um caminhão.

Pela primeira vez em muito tempo eu sorri sozinho dentro de um ônibus – é bom gargalhar com outros, mas sorrir sozinho, é ter a certeza de que tem pensamentos bons em sua cabeça e que nada pode afetar isso. Sua mente está realmente construindo ou entretida em algo além do seu trabalho, o que era melhor, minha cabeça estava entretida com o meu sonho. Meus sonhos estavam entretendo a minha mente e alimentando ainda a possibilidade de ser seriamente um escritor.

E ao chegar no ponto de casa, não foi tão duro. A escuridão do caminho era clara por causa das idéias que fui forjando dentro do ônibus e foi me levando a construir um conto, a minha idéia era maior que os bêbados que fumavam maconha no meio do caminho, e dos carros sinistros que estupravam mulheres e assaltavam trabalhadores naquela hora em que voltava para Marambaia. Literalmente estava iluminado. A idéia que mais me veio a cabeça foi uma conversa que tive com o Seu Elias, ascensorista do antigo prédio do TJ, que agora tinha virado um museu. Ele me contava dos seus pequenos casos, mas que não tinham o romance que poderia ter. Pensava em uma coisa bucólica da década de trinta, quando os homens faziam chorar e ainda diziam um eu te amo, sem usar as três palavras de uma forma tão forte que romperia até mesmo o coração de um bárbaro. A estória de Seu Elias, que realmente foi um ascensorista no tribunal de justiça tinham me motivado a começar a construir um conto, mas não queria que fosse uma coisa de casos e flertes – Queria falar de uma coisa que há muito tempo não sentia: Amor, Paixão, Desejo e Saudade de quem realmente se amou algum dia e não tem mais como voltar no tempo para viver tudo de novo.

Cheguei em casa sóbrio. Já era mais de uma hora da manhã. Sabia que tinha que acordar as cinco, mas o mundo das idéias e das coisas boas que vinham como texto na minha cabeça não paravam de pairar sobre a minha cabeça. Abri o cadeado devagar, retirando com calma a corrente para não acordá-las. Tomei um copo de leite, e a fome de escrever era muito maior que a minha fome. Como era um quarto-sala, não poderia ascender a luz principal, então peguei um banquinho de madeira que tinha sido dado por um amigo meu e fui no banheiro, com uma caneta que insistia em falhar e sobras de formulário contínuo do galpão da Praça da Bandeira – em que aproveitava as costas pra Luiza brinca de giz de cera – E fui, como se um luz baixasse em mim, escrevi o conto “Andar” todo, em uma tacada só, com as minhas costas em pandarecos, dentro do minúsculo banheiro do sobrado que tinha alugado pra ficar com a minha família, em mais ou menos uma hora e meia. Mas nos outros dias ia passando a limpo alguns erros de português – coisa que acontece e muito aqui dentro do água, mas isso é porque eu ODEIO REVISAR TEXTO, porque sempre acrescento ou diminuo coisas, às vezes muito essenciais. No mesmo dia da proposta, já tinha o conto todo pronto. Estava como uma planta que precisava ser regada, para que apenas um broto se levantasse de uma terra seca que se chamava desesperança.

Guardei os manuscritos com cuidado em uma gaveta do berço que não era usada e fui deitar às três e meia da manhã, com medo de perder a hora, vi o dia amanhecer. Mas a primeira coisa que fiz, depois de tomar banho e me arrumar para o trabalho, foi pegar os manuscritos para poder passar a limpo no computador do galpão. Pelo menos não teria Paulo para bisbilhotar o que eu estava fazendo, e poderia já colocá-lo de forma digital e imprimi-lo para posteriores correções de história e de cronologia dentro do andamento do texto.

Trabalhei duro no dia seguinte, mas diferentemente, com sorriso nos lábios, muitos Serralheiros me olhavam com raiva, achando que a culpa da minha felicidade era a desgraça de Paulo, mas a minha real felicidade era que eu tinha certeza que a minha escrita tinha sido libertada de novo, como um touro que rompe uma cerca e corre por entre os campos a minha cabeça sonhava e inundava meus dias com idéias e coisas diferentes que iria escrever mais tarde em papel – que infelizmente, foram queimados pela mãe de Luiza pós-separação – Mas nada poderia destruir a mente livre que tinha agora, que poderia escrever sobre o céu ou dissertar em canções as minhas dores. Minha mente estava livre e o início da mudança da minha vida iria começar a acontecer à partir daquela noite, daquele dia, daquele convite que me fez ter confiança de que eu poderia mais do que tentar: Ser realmente um escritor.

O conto estava pronto. Mas ansiosamente, os dias passaram e eu esperava ansiosamente a ligação do Ronaldo para a reunião com os outros colaboradores, até que depois de duas semanas, eu ainda com a mesma empolgação do início ele tinha me dado a resposta: Seria sábado que vem, às 13:00 da tarde. Já tinha me preparado e colocado um rapaz para tomar conta da Lan-House para ir a reunião.

(Continua)

Thay Dai

•agosto 23, 2011 • Comentários desativados em Thay Dai

Cai uma pétala

Estala na mão aberta

Ao lado de uma sala

Um living

Perto da varanda flores

Sorrio assim, sentindo assim

Passeia minha alma alegre

Um gracejo faço em teu rosto

Enquanto dormes.

 

Corre uma lágrima

Desperta.

Quando isso acontece

Sempre você se endurece

E se assume não humana

Levanta como um espanto e esquece a cama.

 

Pra não saber quem manda em você

Se é o seu brasão ou se é seu querer

Quem dirá do teu coração

Sem roubar

A maresia que lhe toma o ar

O vento fresco que refresca a barra

E te faz girar, em torno, de outro

Em outra que toma por nada a lhe afetar

 

Compra uma flor

Não, uma crisálida

Exagerada como sempre

Pede ela em um shopping Center

Passa por uma praça

Sente o cheiro do expresso

E com a mente confessa

Que aos poucos, medo tem

De que um engano lhe roube de novo

A razão…

 

Razão é uma prudência lerda a nos demorar

Razão é uma velha reza que desaprendi a rezar

Desde o momento em que te vi, passei a te amar

De cores neutras, borrei uma blusa

E pintei um monocromático Thay Daí.

Lua um

•agosto 21, 2011 • Comentários desativados em Lua um

Lua

Ó Lâmpada celeste que rege o céu

Que acolhe a noite, que é

A pior carta a ser tirada no tarô

Quando se quer o sol.

Lua.

Rege a madrugada dos amantes

Levanta marés e ouve os loucos

Que vagam por suas crateras milenares

Se embriagam na terra, mas nela

Não estarão.

Lua.

Rua muda, estrada louca

Quando acho que estou sozinho

Abraço uma boa garrafa de vinho

Sereno é minha roupa.

Vertigo Cap: 3 Capítulo 3 – “Antes o conhecia de ouvir falar, agora o conheço de SER comigo”

•agosto 20, 2011 • Comentários desativados em Vertigo Cap: 3 Capítulo 3 – “Antes o conhecia de ouvir falar, agora o conheço de SER comigo”

Vertigo

Cap: 3

 

Capítulo 3 – “Antes o conhecia de ouvir falar, agora o conheço de SER comigo”                                                            

Realmente, tomar banho depois de um trabalho pesado e sujo faz uma grande diferença. Mas realmente, não sei muito o porquê, eu não tinha muitos motivos e ainda um certo brio antigo que não me deixaria ir fedorento a falar com o Cassiano e o Ronaldo. As minha roupas não estavam amarrotadas, tinha levado alguns perfumes e estava como se estivesse saído de casa. Tinha resolvido pegar um ônibus até as barcas e de lá me encontrar com eles – Depois de anos, eu tinha mudado o trajeto da minha viagem e depois de muito tempo iria encontrar com amigos, fora os finais de semana em que trabalhava em uma lan-house do Felipe – que era mais do Bruno do que dele, e a minha relação com o Bruno estava mais do que desgastada, esta quase indo embora dalí. Iria me encontrar com os caras na sexta, mas não poderia estender o meu horário em permanecer no encontro, porque tinha que acordar cedo para varer a loja antes de abri-la.

Só de sentir as barcas e o vento correndo dentro dela, pela parte da varanda, eu sentia que algo novo e diferente me esperava. A contra gosto desembarquei – por mim aquela viagem duraria horas – Sentei e esperei alguns minutos esperando os dois.

Os encontrei: Ronaldo continuava o mesmo, mas Cassiano cultivava uma barriga que nunca tinha visto – tinha se viciado em comer em bons restaurantes, estava ganhando rasoavelmente na antiga firma onde trabalhava, por isso, ainda lhe devo algumas idas ao cinema e das vezes que me pagava algum lanche e até uma entrada ao teatro – Mas mesmo assim, o encontro foi o mesmo desde a nossa época em que nos encontrávamos na Banca do Marivaldo – Um pouco mais caloroso.

Conversamos sobre os velhos assuntos nerds que sempre conversávamos, me mostrou seu mais novo smart-phone e depois decidimos ir a um bar jogar sinuca. Antigamente, em uma das paralelas, no meio das transversais ruas de Niterói, tinha uma sinuca amistosa, não tocava funk, algumas mesas sempre ficavam vazia e enterávamos algumas fichas, e enquanto jogávamos, a idéia foi destilada:

– Bom meu camarada – disse Ronaldo – Eu estou lhe incluindo em um projeto bacana que eu tenho a fazer por indicação de nosso amigo Cassiano, porque ele disse que você escreve muito bem, e estou afim de fazer não um zine, mas um portifólio de uma revista de ensaios, na qual a gente vai ter uma tiragem pequena apenas para mostras as editoras pra ver se a gente ganha algum espaço. Vão ser contos pequenos, que ainda temos que ver com a gráfica e com o conselho dos outros colaboradores, mas não deve ser muito grande não, pense em coisas pequenas, pense em coisas realmente que possam caber em um espaço bom… Bom nada está tão decidindo ainda. Estou chamando as pessoas, mas quando todas estiverem convocadas e realmente esse compromisso foi confirmado, vou te falar o formato da fonte e o tamanho do texto do conto. Enquanto isso, como eu te falei, vai pensando em alguma coisa pra gente colocar na revista. Vai trabalhando em alguma coisa, se você for participar é claro.

– É sério isso – disse meio pasmado a olhar pra Cassiano, mais pelo seu reconhecimento de minha escrita, coisa que tinha mais do que enterrado em minha vida – Você acha que eu escrevo bem?

– Claro bicho, não pensei em outra pessoa para escrever nesse projeto além de você. Conheço outros caras, mas poucos tem a sua pegada pra escrita.

Algo tinha me enchido. Não era o meu ego, era como uma sede que tinha tido há cinco anos, desde que perdi a minha faculdade quando estava prestes a me formar. Me desisti como escritor há muito tempo, e não pensava que minha escrita tinha sido marcada como “aceitável” a alguém.

– Só que – Fazia um adendo o Ronaldo – Não vai ser só a gente, tem uma galera que eu vou chamar pra gente elaborar isso tudo, mas já quase tudo que meio engatilhado, eu vou dar a maior parte e vou dividir a menor parte com o restante dos participantes, porque o projeto é meu…

– Cara, mesmo que eu tivesse que pagar a maior parte, só por alguém lembrar que eu ainda escrevo, eu estou mais feliz do que nunca – Marejei um pouco os olhos imperceptívelmente, mas estava atento a tudo que era falado enquanto jogávamos sinuca.

Não me recordo se Cassiano dividiu ou não a maior parte com o Ronaldo ou se ele fez menção a isso logo que ele levantou a questão. Eu estava a flutuar. Minha alma tinha sido severamente refrescada com o reconhecimento de um amigo que tinha lembrado e mim. No meio da conversa, me mencionou a participação da Flaviana – que até então não conhecia – e de sua esposa, a Viviane, que iria fazer uma das ilustrações – que fui agraciado com a ilustração belíssima de um bucolismo compatível ao que eu quis passar em “Andar”.

– E ai cara, ta dentro ou ta fora – indagou Ronaldo

– É a sua chance cara, se jogar fora, não te chamo pra mais nada – Mais um dos ultimatos do Cassiano.

Pensei na quantia que iria ter que desenbolsar para poder realizar e fazer parte do tal zine, fiquei receoso, mas tinha, naquele momento, em que me desenterraram e disseram que o gongo ainda não tinha acabado, que tinha sido apenas um Knock-Down, no meio da contagem que o falso destino tinha me colocado, eu resolvi em um ato de coragem e fé – pois não tinha dinheiro, realmente para nada, tudo que ganhava era para a manutenção da casa e para os gastos com Luiza. Mas deveria romper. Não queria mais ser um homem “vencido”. Não queria mais ser uma pessoa derrotada pelas conseqüências das minhas escolhas, queria escolher outras escolhas que me pudessem fazer sonhar de novo. E de um otimismo que tirei de onde eu nem sei, eu apenas respondi:

-Tô dentro cara. Vou nessa com vocês!

– É isso ai garoto! Vamos fazer isso com qualidade e apostar nossas fichas – Me animava Cassiano.

– É cara – disse Ronaldo – Mas já vai preparando alguma coisa, já vai escrevendo o que você pretende colocar como conto, já vai bolando alguma coisa… Bom, agora, eu vou ter que marcar uma reunião com os outros colaboradores e vou passar isso por e-mail pra vc, até mesmo eu te ligo, qual é o seu telefone Rodrigo?

Trocamos os telefones. Jogamos algumas partidas de sinuca – a nossa sinuca de perebas que nunca sabemos ou dominamos, mas jogávamos porque simplesmente, gostávamos de jogá-la – E conversamos mais sobre quadrinhos, contei an passant como estava a minha vida, não tinha dimensionado ela totalmente, apenas dizia que não tinha dinheiro para nada, mas que “com certeza, já estava sendo parte do projeto”. Cassiano ainda ficou meio ressabiado, porque sabia da minha facilidade de anular encontros, de desmarcar coisas – por motivos que conheço, mas é difícil admitir que às vezes é difícil andar na rua, que às vezes é difícil tomar uma condução e não sentir medo, mas hoje em dia, eu apenas penso que cumpri o meu papel, e sempre busco novos lugares e a procurar e experimentar coisas novas.

Nem chegamos a gastar todas as fichas. O bar já iria fechar. O tempo com eles tinha sido realmente maravilhoso, de tão, que a hora passou como minutos. Estava saído moribundo de uma caverna, no sentido mais lazarento possível. Um peão ainda poderia escrever. Um cara que ensacava pedras e descarregava caminhões de cimento como um outro trabalhador qualquer ainda podia sentir e passar alguma coisa do que sentia para outras pessoas. Ronaldo tomou a sua condução e acompanhei Cassiano até pegar a dele. Me contou pouco de sua vida, como sempre, mas já dizia que os dias na boa firma estavam contados, mas mesmo assim, tentei insuflar um pouco de ânimo nele, mas ele não deu ouvidos – é um pessimista nato – então, puxamos outros assuntos, do tipo “quebra a conversa”, me perguntou o que lia, disse que estava lendo “On the Road” de novo, e estava com uma edição de sebo de “Pergunte ao Pó” que estava começando a ler também, mas que “On the Road” estava me dando um pouco mais de coragem a tentar mudar. Comentei do círculo medíocre que minha vida estava tomando, mas, em um raro gesto, apenas disse que as coisas “poderiam” mudar depois que a gente fizesse o projeto – cujo nome seria decidido em uma reunião, com outras pessoas, algumas desagradáveis, outras, não tento, mas por serem influenciadas por essas pessoas desagradáveis se tornavam mais ainda, mas isso contarei mais a frente.

Depois que Cassiano pegou sua condução e fui para o meu terminal, parecia que algo florescia de novo depois de muito tempo. Eu estava feliz em voltar pra casa pois tinha uma meta, havia um plano, havia uma coisa a se buscar além de coisas que estavam em uma caçamba de um caminhão.

Pela primeira vez em muito tempo eu sorri sozinho dentro de um ônibus – é bom gargalhar com outros, mas sorrir sozinho, é ter a certeza de que tem pensamentos bons em sua cabeça e que nada pode afetar isso. Sua mente está realmente construindo ou entretida em algo além do seu trabalho, o que era melhor, minha cabeça estava entretida com o meu sonho. Meus sonhos estavam entretendo a minha mente e alimentando ainda a possibilidade de ser seriamente um escritor.

E ao chegar no ponto de casa, não foi tão duro. A escuridão do caminho era clara por causa das idéias que fui forjando dentro do ônibus e foi me levando a construir um conto, a minha idéia era maior que os bêbados que fumavam maconha no meio do caminho, e dos carros sinistros que estupravam mulheres e assaltavam trabalhadores naquela hora em que voltava para Marambaia. Literalmente estava iluminado. A idéia que mais me veio a cabeça foi uma conversa que tive com o Seu Elias, ascensorista do antigo prédio do TJ, que agora tinha virado um museu. Ele me contava dos seus pequenos casos, mas que não tinham o romance que poderia ter. Pensava em uma coisa bucólica da década de trinta, quando os homens faziam chorar e ainda diziam um eu te amo, sem usar as três palavras de uma forma tão forte que romperia até mesmo o coração de um bárbaro. A estória de Seu Elias, que realmente foi um ascensorista no tribunal de justiça tinham me motivado a começar a construir um conto, mas não queria que fosse uma coisa de casos e flertes – Queria falar de uma coisa que há muito tempo não sentia: Amor, Paixão, Desejo e Saudade de quem realmente se amou algum dia e não tem mais como voltar no tempo para viver tudo de novo.

Cheguei em casa sóbrio. Já era mais de uma hora da manhã. Sabia que tinha que acordar as cinco, mas o mundo das idéias e das coisas boas que vinham como texto na minha cabeça não paravam de pairar sobre a minha cabeça. Abri o cadeado devagar, retirando com calma a corrente para não acordá-las. Tomei um copo de leite, e a fome de escrever era muito maior que a minha fome. Como era um quarto-sala, não poderia ascender a luz principal, então peguei um banquinho de madeira que tinha sido dado por um amigo meu e fui no banheiro, com uma caneta que insistia em falhar e sobras de formulário contínuo do galpão da Praça da Bandeira – em que aproveitava as costas pra Luiza brinca de giz de cera – E fui, como se um luz baixasse em mim, escrevi o conto “Andar” todo, em uma tacada só, com as minhas costas em pandarecos, dentro do minúsculo banheiro do sobrado que tinha alugado pra ficar com a minha família, em mais ou menos uma hora e meia. Mas nos outros dias ia passando a limpo alguns erros de português – coisa que acontece e muito aqui dentro do água, mas isso é porque eu ODEIO REVISAR TEXTO, porque sempre acrescento ou diminuo coisas, às vezes muito essenciais. No mesmo dia da proposta, já tinha o conto todo pronto. Estava como uma planta que precisava ser regada, para que apenas um broto se levantasse de uma terra seca que se chamava desesperança.

Guardei os manuscritos com cuidado em uma gaveta do berço que não era usada e fui deitar às três e meia da manhã, com medo de perder a hora, vi o dia amanhecer. Mas a primeira coisa que fiz, depois de tomar banho e me arrumar para o trabalho, foi pegar os manuscritos para poder passar a limpo no computador do galpão. Pelo menos não teria Paulo para bisbilhotar o que eu estava fazendo, e poderia já colocá-lo de forma digital e imprimi-lo para posteriores correções de história e de cronologia dentro do andamento do texto.

Trabalhei duro no dia seguinte, mas diferentemente, com sorriso nos lábios, muitos Serralheiros me olhavam com raiva, achando que a culpa da minha felicidade era a desgraça de Paulo, mas a minha real felicidade era que eu tinha certeza que a minha escrita tinha sido libertada de novo, como um touro que rompe uma cerca e corre por entre os campos a minha cabeça sonhava e inundava meus dias com idéias e coisas diferentes que iria escrever mais tarde em papel – que infelizmente, foram queimados pela mãe de Luiza pós-separação – Mas nada poderia destruir a mente livre que tinha agora, que poderia escrever sobre o céu ou dissertar em canções as minhas dores. Minha mente estava livre e o início da mudança da minha vida iria começar a acontecer à partir daquela noite, daquele dia, daquele convite que me fez ter confiança de que eu poderia mais do que tentar: Ser realmente um escritor.

O conto estava pronto. Mas ansiosamente, os dias passaram e eu esperava ansiosamente a ligação do Ronaldo para a reunião com os outros colaboradores, até que depois de duas semanas, eu ainda com a mesma empolgação do início ele tinha me dado a resposta: Seria sábado que vem, às 13:00 da tarde. Já tinha me preparado e colocado um rapaz para tomar conta da Lan-House para ir a reunião.


 

Uma Alma Escrita – Capítulo 2 – “Há rochas entre a passagem do deserto”

•agosto 9, 2011 • Comentários desativados em Uma Alma Escrita – Capítulo 2 – “Há rochas entre a passagem do deserto”

Vertigo

Cap: 2

Capítulo 2 – “Há rochas entre a passagem do deserto”

Pra estranheza dos outros funcionários do galpão, chego com uma mochila, pois o habitual era sempre já chegar de jaleco e uma marmitinha embrulhada em um saco plástico – tinha três jalecos, que revezam na limpeza, quando eu o escovava de noite e pendurava para estar seco pela tarde e no outro dia usar, isso era ainda quando eu morava em um sobrado de telha de amianto – morar em um lugar com esse tipo de material, é sofrer no frio e queimar no verão – o amianto esquenta absurdamente quando é exposto ao sol. Não precisa ser um sol de verão, apenas um sol de meia estação já torna o ambiente completamente insuportável para viver ou até mesmo ficar por algumas horas, mas tinha uma filha pequena em jogo, e cedo, levantava, com uma marmita que tinha quase certeza de que ia azedar, pois a levava congelada, e até chegar ao rio – umas duas horas e meia com todo o trânsito que pegava e ainda de pé dentro do ônibus – eu praticamente não a comia. Jogava fora, inteirava algumas moedas e comia pão com manteiga no Barzinho do Seu Juarez, não tão distante dalí. Meus finais de semana ainda eram tomados por gerenciar uma Lan-House perto da minha casa, que me safavam para vender o meu vale transporte e ainda ainda adquirir um pouco de informação sobre o que estava acontecendo com o mundo – Emprego oferecido por Felipe, um grande amigo que também me ajudou muito na hora em que mais precisava. A lan-house era uma parceria entre ele e o Bruno – cuja minha relação já tinha ficado mais do que desgastada e além de aturar algumas de várias humilhações em meu trabalho braça, acordava cedo para varrer a Lan-House e lá ficava, sem remuneração de almoço até às dez da noite, às vezes, quando a clientela era grande, o horário se extendia até meia noite, pois era a única Lan-House de Marambaia e no dia seguinte, lá estava eu, às oito e meia da manhã, depois de um sábado sem descansar indo até meia noite, estava lá, para arrumar e gerenciar a loja. O pouco que ganhava já me ajudava na passagem, que vendia pra complementar a renda de casa.

E era esse pão com manteiga que seguravam oito horas de trabalho braçal do barzinho do Seu Juarez que me seguravam durante a semana, fora os finais em que comia nada durante meu turno de trabalho – só comeria à noite, isso quando tinha alguma comida pronta.

Um companheiro de trabalho me zombava muito por isso – de que adianta colar com uma mulher que não tem nem a dignidade de levantar pra por a sua comida, e ainda não fazer porra nenhuma dentro de casa – soou um pouco machista, mas das muitas vezes que eu discutia com ele, ele sempre “me deixava perder” – Não tem como vencer a ignorância, apenas com paciência, determinação se pode vencer a ignorância, mas apenas aquele que A TEM é que é realmente capaz de vencê-la. Muitas vezes quase entrei em embate físico com o mesmo, mas sempre Coronel, um peão mais velho que tinha problema na perna direita, nos apartava, e como um grande mestre, professor, convencia e conseguia ainda nos tirar boas risadas no final do dia – acho, que, no fundo, aquilo foi uma escola, tanto para quem “sabia de coisas que eles ou ignoravam ou não tiveram acesso” tanto pra quem tinha cicatrizes na vida:

Assim que eu entrei no Galpão, Paulo me deu um conselho há três anos atrás que iria mudar a minha vida:

– Muleque… Vou te ensinar a mesma coisa que o meu pai me ensinou quando eu era quatro anos mais novo que você – Como não tive pai para me ensinar, tudo que me diziam MEU PAI ME ENSINOU, eu sempre prestava muita atenção, mas era uma coisa que não era programada, era uma “ânsia interna de sorver um pouco de juízo e ter um referencial para tomar decisões” – Meu pai me dizia, que toda vez que você for trabalhar, trabalhe com raiva!

– Como assim, raiva?

– É raiva mermo… Pega com raiva um saco de cimento, por ser pesado, arruma esse entulho com raiva dos filhos da puta que fazem isso… Foi assim que eu aprendi a trabalhar e hoje eu trabalho bem… Trabalha com raiva que você vai ver que você vai render mais.

O que ele queria dizer, eu fui entender muito mais tarde na minha escrita: Não era a raiva em si, mas jogar todo o sentimento e esvaziar a mente e apenas pensar em terminar algo ou ter cumprido alguma coisa; a arte serve como expurgo de coisas que estão dentro de nós – uso isso muito em meus poemas, quando realmente não concordo com a vida ou com situações ,com outras coisas, amores, mas o sentimento, o esvaziar-se era e é o mais importante, o desaguar dos dedos em um teclado ou até mesmo uma caneta passando com rapidez a linha em um desvaziar era isso que eu iria associar depois, mas confesso, que todo trabalho pesado que faço hoje em dia, tudo que é desgastante, eu devo a esse conselho, pois me esvazio nele, e aplico meus sentimentos e força para poder executá-lo.

Perguntaram se eu ia viajar quando me viram de mochila. Dei meu clássico sorriso meia lua e disse que ia trabalhar e esperei a chegada dos caminhões – Foi uma tarde rotineira de trabalho como todas as outras tardes no galpão, caminhões de cimento, caminhões de ferragens e outras coisas de “sucata” que vinham do Departamento de Obras do TJRJ e que tínhamos que descarregar – às vezes, uns quatro caminhões antes do almoço, depois mais uns dois ou três depois do almoço – contávamos só com a consideração de um amigo motorista, o JJ, que via que tínhamos acabado de almoçar e deixávamos cumprir a nossa hora de almoço pra depois irmos pra labuta – Deixávamos sempre o Coronel um pouco de molho, porque era de idade e ainda tinha um problema na perna, mas quase sempre, depois do almoço, eu arregava… Era levado ao máximo todos os dias a um condicionamento de trabalho para ser realizado por “só quem viveu para aquilo desde muito cedo” – o pai de Paulo era mestre de obras, acordava-o a base de tapas às quatro e meia da manhã para ir pra obra com ele, e todos os dias Paulo dava tudo de si: “De chegar no final da noite, minha mãe lavar meus braços com água gelada e sabão de coco pra poder trabalhar no dia seguinte” dizia.

Eu não tinha esse condicionamento, e muitas vezes, isso deixava Paulo furioso, fazendo quase deixar cair um cano de chumbo de duas polegadas a milímetros da minha botina – Porra, vai trabalhar lá dentro vai… Entra pra quela merda… Berrava…

Duarte – O Coronel – Vinha atrás, dizendo pra ter calma, explicando que eu nunca tinha trabalhado naquilo, que eu não tinha muito preparo pra trabalhar com peso, mas ele apenas dizia ao Duarte, cê ta com pena, carrega por ele então, e gentilmente, um senhor de sessenta anos, deficiente, ia descarregando, até eu ir no banheiro, lavar o rosto, tomar uma água e segurar um choro de raiva e de incapacidade, não por não conseguir descarregar um caminhão, não por não ter forças pra descarregar um caminhão, e sim por NÃO TER FORÇAS DE CONSEGUIR SER QUEM EU QUERIA SER. Vendo que um inocente não pagava por minha falta de maturidade – Se entrasse, naquele momento, pelas esferas do “SE” estaria, ainda hoje, completamente infeliz, quando larguei a faculdade a troco de nada, quando não entendi que só teria o meu trabalho para me levantar, e ainda era um moleque a não perceber o quanto estavam tentando me derrubar, me mandando passar um serviço a uma pessoa que seria posta no meu lugar, mas que mais tarde seria despedida por incompetência e por falta de profissionalismo, Se entrasse pelo “SE”, estaria mais derrotado ainda, seria apenas e apenas “seria” como um objeto no tempo, como a concepção de NADA do Sartre… Uma das coisas que sempre penso hoje em dia é: HOJE SOU, NÃO SERIA! NÃO EXISTE “SE” EM NADA MAIS QUE EU FAÇO. SOU AS MINHAS DECISÕES E ARCAREI COM TODAS ELAS, E SEI QUE DECISÕES NOS TRAZEM FELICIDADES OU TRISTEZAS, E SE ALGUMA, A PARTIR DE ADIANTE ME DESSE TRISTEZA, TOMARIA OUTRA PARA MUDAR O CURSO E SEMPRE BUSCAR A MINHA FELICIDADE.

Enquanto lavava o rosto na hora da raiva, espantava toda a mitologia do “SE”, voltava quase chorando de raiva, segurava no ombro do Coronel e pedia pra ele ir sentar, ele ainda se fingia – no bom sentido de não tirar a meu moral – constrangido por achar que eu o estava afastando do trabalho por ele ser deficiente, mas mesmo assim, o afastava com delicadeza, e pedia pra ele tomar uma água e pegar o copo pra mim – Já voltou frozinha? Tá mais calminha? Vamos que depois eu vou dar um trato em você – Ai, eu entendi o que era o trabalhar com raiva que ele queria dizer.

Botei em prática tudo que Paulo tinha me ensinado…

Meu ódio era tanto, que com uma das mãos eu levantava o cano de aço e depois o escorava com a perna, eu o apoiava com uma outra mão para fora do caminhão, de forma que o tombava no canto certo e no lugar certo e não precisava da ajuda dele pra descarregar o cano, fazendo meio que uma alavanca, com uma perna e o outro braço o arremessava – Ele fingiu não se surpreender, mas no terceiro cano que eu fiz isso, sem contar com a ajuda de ninguém, ele tentou fazer uma vez, e o peso do cano caiu de quina em cima da rótula do seu joelho direito – o estalar, o barulho de “crock”, foi tão alto, que até o vigia foi ver o que estava acontecendo.

Mas eu ainda estava indiferente. Só queria que minha raiva passasse e tentava a todo custo e toda forma descarregar aquele maldito caminhão, sentindo mais raiva de mim do que dele, pois não era pra estar ali… Parecia um pesadelo e era um pesadelo, pois eu nunca imaginaria que isso aconteceria comigo, nunca imaginaria que isso pudesse acontecer comigo, eu sempre me ví em algum lugar escrevendo, pra alguém, aliás, de mim para alguém – como é sempre feita a escrita – e não carregando um caminhão, sendo humilhado quase todos os dias por uma pessoa que não conhecia, ou por falta de informação, oportunidade ou até mesmo por ignorar conhecimento – Senti o gosto amargo de estar sozinho no meio de uma multidão. De ir a festas de família e me sentir uma visita – coisa que sinto até hoje.

Descarreguei até o final o restante da metade de um caminhão lotado de tubos de cobre, enquanto o pessoal tentava tirá-lo de cima de lá – ele urrava de dor, tentava se levantar e não conseguia: Um caldo grosso vermelho escorria por entre a bota e sujava a caçamba do caminhão, enquanto o pessoal de um outro departamento – O da Serralheria – tentava levantá-lo para retirar da caçamba e levá-lo a um hospital – lembro até hoje, que o último cano, estava apoiado sobre a perna do joelho estourado, mas não foi por raiva, eu entrei em um transe depois da raiva e do ódio que eu sentia por ele, como acima eu descrevi, de me esvaziar e me preocupar apenas em cumprir uma tarefa, que eu pouco me importei com o cano. O puxei abruptamente debaixo de seu pé, fazendo bater com força o calcanhar da bota no chão, a ponto de se ouvir um outro estalo, um pouco menor, mas que causou muito mais dor do que o primeiro. Foi o filho da puta mais alto que eu ouvi na minha vida, até mesmo as crianças que estavam na escola, que ficava em frente ao galpão escutaram e ficaram olhando assustadas pra dentro do depósito.

Conseguiram tirá-lo do caminhão, com ele me ameaçando de tudo quanto é coisa, dizendo que eu tinha feito de propósito, que o tinha machucado e que a culpa era minha, mas, a ignorância nunca poderia deixá-lo ver que foi a forma a qual ele subestimou um ser humano, uma pessoa, que o fez ser prepotente e assim lhe proveu esse descuido. Podemos nos machucar seriamente quando subestimamos alguém ou ficamos sós, em um topo de lixo ou em uma cama de hospital, ou de quarto, assim como ele ficou durante nove meses. Sete para se recuperar e mais dois de fisioterapia, e o mais curioso: A perna que ele ficou mancando depois, ficou sendo a mesma perna que o Coronel mancava – se não me engano ou me falha a memória, a direita. Mas isso eu fiquei sabendo depois da volta dele ao depósito quando já estava em outro setor – tudo é transitório.

Durante os meses de sua licença trabalhamos, eu, Duarte e Leandro – um companheiro que veio substituí-lo – mas só fiquei no galpão por apenas mais um seis meses a mais, iria para um setor administrativo depois disso, mas com certeza, eu fui porque, não saberia, eu mudaria radicalmente a forma de ver as coisas com a reunião que eu tinha me preparado para ir desde ontem, que vim carregando roupas junto com a marmita. A FORMA DE COMO EU “PASSARIA” A PENSAR NA MINHA VIDA, IRIA MUDÁ-LA COMPLETAMENTE.

Deu a hora. Coronel ainda meio assustado comigo da forma de como eu descarreguei aquele caminhão sozinho: “Você não estava normal, não sei o que te deu”, e mais tarde, na surdina, em cochicho com o vigia, ouvi ele dizendo: “…não é possível, ele deve ter cheirado alguma coisa Marcelo”… Eu apenas ria – sempre tive uma certa fama de drogado por ser imprevisível, apoiar opiniões até a favor da legalização das Drogas e a ter pensamentos divergentes da normalidade – mas isso seria um outro assunto –  por ser explosivo e completamente mutante, fama que eu acho até um certo ponto glamorosa, e deixo ela escorrer por entre meus cabelos e minha escrita. Depois disso tudo que aconteceu, eu estava realmente muito mais calado que o normal. Fui seguindo calmamente até o banheiro da Serralheria – setor que ficava ao lado do galpão que também pertencia ao tribunal – mas fui surpreendido pelo encarregado: Você não pode tomar banho aqui.

– Porque?

– Aqui é todo mundo irmão. A gente não aceita trabalhador que sacaneia trabalhador, a gente ficou sabendo que você arrebentou o joelho do Paulo na hora de descarregar o caminhão, e outra, a gente até ia te dar um coro, mas seu Pedro não deixou porque ele não gosta do Paulo e falou que quem te encostasse do dedo seria rua ou coisa pior, mais daí a gente falou, pra cá ele não vem mais…

Não disse nada. Não iria me explicar. A minha fama era de playboy e de viado dentro do canteiro de obras – por causa do Paulo – mas, porém, a minha fama com o Seu Pedro era muito boa, ao contrário do Paulo que sempre negou qualquer tipo de ajuda ou auxílio a ele quando ele pedia, eu sempre fui solicito e aos poucos tinha ganhado a amizade dele, no dia seguinte, voltei a Serralheria, mesmo com todos me olhando atravessado dizendo pra eu ir embora de lá, eu entrei na sala do Seu Pedro, apertei a sua mão e lhe dei um abraço dizendo obrigado por ter me defendido: “Eu tenho certeza de que você não fez aquilo de propósito, mas mesmo que fizesse, seria bem feito… Ele pensa que é dono daquela merda e não é….” Mas tarde, Coronel iria dizer realmente o que tinha acontecido, ele foi o único que realmente tinha visto o que tinha acontecido, diferente do que Paulo ia gritando em acusação enquanto ia para a dentro de um carro para o hospital. Coronel foi um pai pra mim ali naquele galpão. Desmentiu todo o acontecimento, a ponto, de alguns de Serralheria, virem me pedir desculpas e serem meus amigos depois. Fora que o Seu Pedro, voltando a falar nele, não era “um simples patrão”, ele era e é foda, dentro e fora do trabalho. Ele é considerado tanto com gente que não presta como com gente que presta, então, uma ordem do Seu Pedro não era uma simples ordem, era quase “um voto de fé”, pois contrariar Seu Pedro, seria no mínimo rua – apesar de ser humano e atender as reivindicações de todos os trabalhadores, e famoso pela sua “festa de Departamento de Final de Ano” que dava desde Desembargador, Policial do Bope – que na época a gente nem sabia o quanto era “astuto” ser um – Policial Federal, Civil e fora umas outras pessoas que chegavam com um carro completamente diferente, com um cordão de ouro com a espessura de meu dedo médio, mas sabia ser cruel e vingativo com qualquer um que sacaneasse um “dos seus”.

Mas agradeceria a Seu Pedro muito depois… Agora era a vez do banho… Como iria tomar banho?

Voltei com a minha mochila e meu jaleco sujo de volta pro meu departamento

Não sabia o que fazer, mas fui tomar um café e fumar cigarro no Bar do Seu Juarez pra tentar me acalmar de tudo, daí, eu vi uma menina saindo do expediente de cabelos molhados e não pensei duas vezes em pedir ao Juarez, dono do barzinho onde tomava café, se poderia tomar banho lá… Sem pensar, voltei, peguei a minha mochila e tomei banho lá…

Tranquei o depósito e fui em direção a Leopoldina, pela primeira vez, feliz em voltar para um lugar – Já constatando que não era mais feliz ao voltar pra casa. Embora meu amor ser enorme por minha filha, não era feliz a voltar pra casa há alguns meses. “Olha ali Luiza, o seu pai na televisão”, me apontava um dedo que não veria mais dizendo a minha filha que era o Faustão, isso era quase que diariamente, então, era eu, esse homenzinho que voltava ao trabalho, que voltava pra minha casa e sofria a mesma coisa que sofria na escola, que não tinha nada, que agradecia o nada que tinha e não sonhava, pois pensava que a vida realmente era um grande simulacro, como na letra de “A Day in the Life”, já estava tudo previsto pelo homem, ele lia em um jornal em um sonho sobre um acidente de ônibus, que mais tarde acordaria e seria ele o acidentado ( ele escovaria os dentes, faria tudo conforme um trilho que já tinha se trilhado e não podia ser mais nada além do que aquilo que não poderia realmente ver além de “alegorias” em uma fantasmagoria onde as sombras lhe indicavam o caminho das imagens.

Mas duas coisas agora me aliviavam agora – Iria me encontrar com dois grandes amigos, o Ronaldo Santana e o Cassiano e saberia que no dia seguinte, não teria que aturar, e por um bom tempo, os insultos de Paulo. E, principalmente, voltaria tarde pra casa, e encontraria todos dormindo.

(continua)

In Arcádia Ergo Sum

•agosto 5, 2011 • Comentários desativados em In Arcádia Ergo Sum

 

In Arcádia Ergo Sun

 

Certas noites não tem estrelas

Não brilham como outras

Você se preenche com a meteorologia

Mas, na noite em que esperava

No dia que decidiria

Na hora decisiva

Não veio o céu

Lhe faltou o chão

Perdeu o ar

Cuspiu sangue na lama

Ao lado de um corpo

Orando por outro

Sendo menos

Do que poderia ser

Por outro lado

Fume um cigarro

Desligue a sua mente

E pense:

Apenas foi uma noite

Em que: In Arcádia ergo Sun

E tudo foi consumado

Como as cinzas de um cigarro

Agora, nem preso a um cinzeiro

É jogado em bueiro

Ou digitado em I-Pads

Sendo carregados em um carro.

Uma alma escrita…

•julho 20, 2011 • Comentários desativados em Uma alma escrita…

Epílogo:

 

 

Asseguro a todos os leitores que toda a história do compêndio “Vertigo” é baseada em fatos reais que aconteceram comigo. Nenhum desses relatos são fictícios, algumas partes apenas não foram contadas, pois o seu desdobramento iria levar ao leitor muito longe daquilo que eu quero contar: Como consegui realizar três de meus sonhos: Recitar em público poemas meus, ganhar como artista e tocar minhas próprias músicas com independência de músico solo.

É óbvio que isso não se deve apenas a mim. Tive grandes amigos que sem eles não seria possível nada disso – de antemão, os agradecendo – amigos que citarei no meio desse conto, macro conto, sei lá… Contarei a história da realização desses três sonhos, ainda faltam uns dois e depois peço a Deus o gozo de estar com eles, pois como irão ler abaixo, nunca poderia imaginar que realizaria esses três sonhos. Tive muito apoio desses grandes amigos, cada nome citado foi importante na realização desses sonhos, as outras que apenas faço uma menção “ an passant” fizeram o contrário – Tentaram de todas as formas me iludibriar com uma realidade infeliz que construíram para as suas próprias vidas. Agradeço a todos os amigos dessa jornada que me realizaram esses três sonhos, diria até, que poderia morrer com uma grande satisfação, assim como Moisés se satisfez apenas em “ver” a terra prometida – como um alívio que Deus o deu de que não estava tratando com mentira ou leviandade a Moisés.

Uma alma estranha vaga por entre as escritas, como um eclipse, estou encapuzado e de mãos atadas ao tédio e a uma mesmice que ronda divagar, e como uma mímica francesa, quando achava que tinha achado meu ninho, fui empurrado de forma abrupta a um lugar onde os malditos também se encharcaram de lama.

Nanã criou os orixás da lama, Deus, do barro e a graça da flor de lótus nasce no lugar mais fétido e quanto mais fétido ela brota, mas sempre me reiventei – quando achava destruído, algo me levantava e me punha de pé, de volta a uma esquina desconhecida, conhecendo desconhecidos, que mais tarde, seriam grandes amigos – fofocas se confabulam, tomo ombradas e cutucadas de indivíduos invisíveis – incubus que sugam das mulheres o seu melhor depois as descartam como se fossem peles de almas mortas, mas antes, a cercam para que outro, não possa ao menos se comunicar.

Meu estágio assexuado me preenche de gozo ao perceber que não preciso ser descoberto ou conjecturado e nem de outra pessoa pra ser feliz, pois eu sou meu gárgula, sou uma estátua quando quero e quando não quero me movo como um vento, me faço vento, e me reinvento, do pó de algumas cinzas que deixo para trás ao balançar das minhas asas de fogo – todo o levantar da fênix tem a ver com uma vendeta ou uma vontade de voar.

Depois de uma anemia incrível que me indispôs de quase tudo – me arrastava ao trabalho e pouco fôlego tinha a escrever, não tenho outra coisa a não ser dizer que aos piores profetas sentiram pânico, insegurança e medo. Não sou um profeta, nem tão pouco poeta – desses classicistas, que fazem poesia métrica, que se disfarçam sobre sombras do que foram e não usam a sua bagagem, a sua vida e a sua dor na escrita – O que seria de Baudelaire e Rimbaud se não fosse o sofrimento? Pois a verdadeira alma de poeta vem de uma busca incessante por revelar uma verdade que é subjetivada através de matáforas românticas, verdade que é e faz parte de sua “subjetividade e incapacidade” de entender a si e ao que o cerca, então, como esse tal de egocentrismo pode caber em poemas? Fernando Pessoa se dizia um fingidor por ter muitas fases, por ter muitas fases e assim, não lhe descrevia apenas uma pessoa, era uma miríade humana, que também sou, a se traduzir constantemente ao mundo, ao se adaptar usando um esoterismo de auto-conhecimento que fazia voar. Mas até hoje, poucos tem o naipe de Pessoa, mas se fazem do mote “fingidor” e viram uma farsa.

Incrivelmente, ao terminar de ler a parte da biografia da Patti Smith, descobri que o seu intuito principal era ser poeta, e não cantora, e que a sua música sempre foi tocada instintivamente, talvez, uma das primeiras artistas a usar esse artifício, fundindo arte escrita a uma linguagem musical – sim já havia o Doors – Mas Patti tinha a gana de quem “queria dizer alguma coisa e assim dizia e diz”.

Ganhou o meu respeito e o que ela faz é o meu grande sonho-  criar atmosferas de palavras, de sons, de cores, de movimento que se mesclam com outras formas de arte, com outras formas de expressão. A música é rica quando ela expressa alguma coisa, quando ela foge do simples e vai pra uma coisa mais densa e conceitual.  Mas esses capítulos e partes que contarei no meu blog se determina no começo de como tudo aconteceu: Do nada, ao acaso, mas com a força de grandes amigos.

No meio do barro nasce vida. Em uma esquina é uma outra oportunidade, então porque tanto medo? Que tanto receio é esse se expor? Chegar e dizer o que eu posso fazer, mas no meio de tanto desespero, lembrei de como minha escrita foi ressuscitada, e após um show – que só de me colocar de novo em cima de um palco me deu esperanças – Olhei para as cicatrizes da minha alma e decidi renascer e me reformular, remodelar tudo e começar tudo de novo!
E tudo começa a começar de novo. É só olhar pra trás e ver o tanto que já percorreu! Aprendi que o que movimenta a todos os seres humanos são os seus sonhos, as suas vocações, e com uma pequena mão amiga, renovei a minha auto estima como artista, como ser humano, e como homem,  que estaria a ponto de ser drasticamente mudada, naquela época, conto agora o que me fez “levantar” de uma lama bem grossa e ser corajoso ao correr – com os mesmos pés no chão que tenho a ir atrás dos meus sonhos, pois aquele que deixa de sonhar, não é mais um homem, e sim, um marionete afetado pelas circunstâncias da vida.

O nome do conto se chama: “Uma alma estranha a vagar por entre as escritas” – no que se refere a sentimentos contrários que vencemos durante a reflexão da execução da escrita, mas a dividi em fases como: “Vertigo” e entre outras, para dar a impressão ao leitor do real momento em que vivia enquanto passava por certas situações.

Aproveitem a leitura. E espero que ela acrescente coisas positivas em suas vidas!

Evoé!

Que a paz de Deus reine em seu entendimento e em sua leitura!

 

 

 

Agradeçimentos – Em ordem cronológica, mas não em ordem de importância sentimental: Deus, Minha Mãe, Minha filha – por me dar equilíbrio emocional,Felipe Rocha, Cassiano Ricardo,Anésio Jr, Luís Bardo Ronaldo Santanna, Viviane Princival, Pakatto Henrique,  Rodrigo Santos, Romulo Narducci, Kleber Murilo Peres, Thiago Alecrim – meu eterno parceiro de guitarra e violão, Leandro Ribeiro e a todos os outros amigos que sempre me disseram que eu tinha algo especial.

Vertigo

Cap: 1

 

(…)” As casas. Caminho entre as casas, no meio da rua, muito direito: sou. Por baixo dos meus pés a rua existe, as casas voltam a fechar-se sobre mim, como a água se fecha sobre mim, sobre o papel em montanha de cisne, sou.

Sou, existo, penso logo sou, sou porque penso, porque é que penso?

Não quero pensar mais, eu sou porque penso que não quero ser, penso que…porque… Safa! Fujo, o ignóbil indivíduo anda a monte, o corpo violado (…)”

                                                                                                                                       A Náusea – Jean Paul Sartre;

Pág:174 – parágrafo 5º

Dedico esse textos – ou pequeno conto biográfico – a minha mãe, que me ajudou nos momentos mais difíceis da minha vida e ainda ajuda. A Ronaldo Santanna e principalmente a um amigo, Cassiano Ricardo, que me fez ver que eu ainda poderia escrever e até mesmo sonhar. E ainda a Lulusinha da minha vida, minha filha

 

Cápitulo 1 – “Ó voz que clamas do Deserto”

 

Estou escutando nesse exato momento a música que me fez pensar em desistir de tudo, dos meus sonhos e até da minha vida, há sete anos , quando eu pensei em uma tradução “literal” da canção – pensava de uma forma errônea, achando que tudo era apenas uma conclusão de decisões, predestinações e cálculos com resultados definidos. Eu tinha ciência da tradução dessa letra, apesar de não dominar o inglês, mas me peguei a pensar nela, interpretá-la há uns sete anos atrás, quando voltava com as mãos cansadas e calejadas de usar uma luva de lona grossa e uma bota que sempre esfolava o calcanhar – o intuito do empregador nunca será manter a integridade do empregado, a vida é assim desde as pirâmides,pensava – usava um jaleco, suado, completamente cansado,  e estava com uma sacola de plástico gigante cheio de pacotes de fraldas das Lojas Americanas, de algum lugar entre a Tijuca, Maracanã e uma intermediação de bairros que não sabia onde era – Luiza vai nascer – sempre vinha esse pensamento na minha cabeça e começava a estocar fraldas, a pensar em berço, a pensar em como ela iria ser, se iria nascer… Eu começava a pensar e pensava e não parava um segundo sequer de pensar em coisas que não eram positivas – Não tinha uma escora, não tinha um pai, não tinha um referencial a perguntar e se questionasse os meus atos à minha família, com certeza um dedo em riste se colocaria em meu rosto de iriam me culpar dos meus desastres, das minhas opções e de tudo que acontecia em minha vida – A vida não vem com manual, mas às vezes tem amigos mais experientes como eu que, às vezes, podia contar com uma mão e lhe ensinar algumas coisas – Lembrava do que dizia Coronel, um senhor que tinha uma deficiência em uma das pernas e que me dava algumas vezes conselhos pra minha vida, mas ele não era meu pai, tem coisas que só alguém com responsabilidade moral suficiente pode falar pra você, e esse papel tem que ser feito por um pai – Não houve ninguém na minha vida pra tentar me falar dessas coisas, algumas pessoas se candidatavam, pessoas com uma falsa moral e  apenas um ombro curioso de quem quer saber o que esta acontecendo em sua vida, mas nada para ajudar, apenas para estudar um ramster que tinha saído de uma jaula circular e estava perdido pelo laboratório – tinha se misturado com outros ratos diferentes de um esgoto próximo e por conta própria, arrumou uma prole e estava arrumando sozinho comida e abrigo. E rodava em outra roldana.

Era apenas isso, além de ser um homem sujo, de aspecto desapreciável, com um uniforme sujo e fétido de quem trabalhava em um galpão que era feito para estocar entulhos e restos de obra. Estava voltando pra casa com outros ramsteres. Via nos olhos de cada um os meus olhos. Um a um com um “Game Over” na testa, mas não tinham mais fichas pra escolher um outro lutador, ou tentar jogar mais uma vez – Não eram mais crianças, adolescentes e a vida tinha sentenciado a viver um trabalho, uma rotina que não era o que realmente tinha pensado a ser. Éramos ali, em uma caixa de sapatos, controlados a distância pelos nossos contracheques, amordaçados pelas nossas necessidades e não importa realmente quem esteja sabendo ou não as tramas do Mundo ou sobre a importância de Oswald de Andrade*, todos estávamos no mesmo lugar, pessoas de terno, sem terno, de jaleco, de jaleco limpo, de jaleco sujo, sem jaleco, ouvindo funk, pagode, samba ou até mesmo um rock, éramos todos ali, no mesmo esquema, dentro de um ônibus rodando a roldana e eu com um MP3 de pilhas a repetir incessantemente “A Day in the Life” dos Beatles me perguntando: “Era pra ser isso, era isso que Deus queria para minha vida?” Era pra eu ter a minha filha, mas como eu não consegui ver que era isso, vagava triste sem mais sonhar e achava que já tinha acabado toda a expressão da minha escrita e das minhas músicas. Me castigava por uma falsa resignação cristã e tinha muito receio e medo de sair dessa roldana, ouvia falar que devia obediência aos meus superiores – os mesmos que me exploraram e exploram, os mesmos que me colocaram em um lugar que pegaria uma doença terrível e assim não poderia questionar nada em minha vida, “tudo era obra de deus”, “não reclame, dê graças a deus pelo que tem, tem gente com muito pouco e que não tem o que você já comprou pra sua filha” isso era dito em um púlpito, recitado, copiado, mimetizado e forjado em bocas de pessoas que não conheciam a vida, não tinham estudado, e apenas estudavam o comportamento de um grupo de pessoas e depois usava uma analogia, que as prende em prisões invisíveis – somos todos culpados, imperdoáveis e inescrupulosos em nossas vontades. Meu senso de responsabilidade com as coisas e as necessidades da minha filha eram tão grandes, que graças ao Felipe, tinha conseguido arrumar um emprego como gerente em uma Lan-House perto onde trabalhava.

Esses eram meus pensamentos. Esses eram os meus pensamentos sem sonhos. Agradecia por ter um emprego que me esfolava, por um final de semana trabalhado e me tornava cada vez mais medíocre. Enquanto rato, diminuto e sujo, voltava pra casa, agradecendo e pedindo a Deus que minha vida continuasse que meu emprego fosse sempre ali, porque era aquele local que deus tinha me dado e assim achava. Assim eu me trancava em “simulacros”, e rodava como muitos uma roldana mental, um psico-drama diário que eu me enclausurava na minha rotina (meus sonhos eram pecaminosos, não poderia mais ser o rock star que sempre tinha sonhado ser, afinal de contas, era gordo, feio, maltratado, e me sentia uma das piores pessoas.

Medíocre é o homem que se deixa guiar sobre sombras, com fantasmagorias e se deixa levar por egrégoras de pensamentos contrários, por comentários de terceiros, por forças negativas de pessoas que não tem nenhum embasamento, que são como zumbis, mas piores são os zumbis que também são vampiros, que querem viver como zumbis e te levam a ser como um, a entrar na roldana do ramster e ser sempre a mesma coisas, a esperar um apocalipse, a volta de quem talvez nem queira voltar mais, e ainda cruza os braços para seu próprio sofrimento, o que dirá ao sofrimento alheio?!

Medíocre é o homem que vive uma infelicidade por uma crença. Medíocre é o homem que pensa que Deus é esse monstro sádico e idiota – a balbuciar de uma falácia sem estrutura intelectual nenhuma, usando analogias com conclusões completamente deturpadas, quando o que é realmente sagrado é simplesmente amar. Vivem a falar sobre sua vida, a dissertar sobre um conhecimento psicológico cujo embasamento vem de telenovelas – e ainda é guiado por esse mesmo, como um outro que é lama nos pés do medíocre, mas a alma, de tão pobre e podre, ainda se guia por essa mente, que é mais cativa que a mesma que não a questiona, apenas pega a sua condução, anda, volta, vai a onde tem que ir, volta para onde tem que voltar, volta para onde devia ir ou vai para onde tem que estar na hora certa que deveria estar, mas não vai pra onde quer, não quer ir para onde poderia estar e não se sente bem não indo para onde quer ir. A covardia, a árdua covardia é medida pela quantidade de notas que tem em seu bolso, que lhe impede de gastá-las ou não. A covardia também é medida pelo controle social de instituições, cujos homens se valem de um livro preto, criam estúpidas analogias dizendo que “é a palavra de deus” e que deus falou com ele – Se Deus é Pai de todos, porque só falaria a poucos? – Ou a covardia por não fazer nada por não ter dinheiro nas mãos ou apenas ser feliz por tê-lo. Ou por quantas estrelas tem em seu cheque, ou com quem andas, mas medíocre é o homem que se vale disso, pois não sonha, cobiça, levita seu ego ao maior dos altares, pensando que é deus, mas é apenas – “O ramster mais inteligente do laboratório”.

Mitos fofocas ou falsas idéias são alimentos e vitaminas para a Mediocridade. Medíocre é o homem que toma a crença por conhecimento. Medíocre é o homem que não aprende com seu sofrimento, e ainda esconde suas cicatrizes e ainda sofre por elas. As cicatrizes são presentes da vida! Medalhas do nosso manto chamado corpo que nos reveste de coragem e honra a dizer: “Eu fui até o pior lugar da minha “existência” e voltei, mas não o chamo de inferno, porque maior que todo o inferno é minha determinação e vontade de ser maior que o que pensam de mim e do lugar onde estive”.

 

A mediocridade me fez vagar por três anos no galpão…Não era mais nada, não pensava em ser mais nada… Rodava a roldana da rotina, apenas isso…

 

Os acontecimentos abaixo, aconteceram DEPOIS DE TER A TERRÍVEL SUSPEITA DE CÂNCER NO PULMÃO, QUE COMO ESCREVEREI MAIS TARDE, FOI A MAIOR PROVAÇÃO DA MINHA VIDA. – ainda me falta coragem para reviver o sofrimento que eu e minha mãe passamos, mas eu tenho que contar isso aqui algum dia.

 

Três anos depois ainda sendo um rato:

 

Eu era um rato a voltar do trabalho. Era um ser diferente daquele que pensava que seria. Eu era as minhas necessidades e as minhas necessidades viraram um temor incrível – tinha medo de Deus, medo da minha mãe, medo de cair e não ser mais aquele que seria ou que poderia ser (voltava sempre a conjecturar o simulacro de “A Day in the life”) tinha medo do Diabo e de voltar pra casa. Tinha um MP3 que me dava uma autonomia de me afastar nesse universo, o único refúgio eram as canções que me vagavam a dar um sentimento de liberdade e um celular que poderia me comunicar com um mundo, aliás, o mundo poderia, menos eu – nunca tinha crédito o celular…Uma certa vez, quando não havia mais esperança, uma ligação de uma voz que sinceramente, por não me ligar mais, eu tinha perdido completamente o senso do que seria ele essa voz – Era Cassiano, a me perguntar onde estava. Cassiano poderia ser meu melhor amigo se não tivesse um comportamento social bem atípico. Até hoje – até a data dessa postagem – eu não sei nem o nome de sua mãe ou sequer pisei na soleira de sua porta, mas estranho, pois sempre era a primeira pessoa a me colocar pra baixo, estranhamente, me colocou pra cima.

– Onde você ta cara?

– Não estou escutando direito – meu celular era uma merda, contrário do que sempre foi o dele com relação ao meu…

– Cara, eu e o Ronaldo, estamos indo conversar sobre um projeto interessante cara, faz o seguinte, vê onde você ta, volta pro centro de Niterói, que a gente vai conversar sobre isso e queria que você fizesse parte

– Cara, estou meio atolado aqui, meio cansado, já to na final da alameda… Mas é sobre o que? Tem como adiantar? Nem tem nem mais como eu descer, eu já passei do ponto pra voltar pro centro de Niterói.

– Tudo bem… Cara é um lance muito bom e não pensei em outra pessoa pra chamar a não ser você. A gente pode fazer uma coisa, marcar pra amanhã, daí a gente pode conversar sobre o que vai acontecer e ver o que vai fazer – Uma das piores coisas pra mim é esse “agrado” em fazer uma surpresa, guardar segredos, ter uma vida oculta de que Cassiano tem… Isso é uma coisa que realmente me irritava, mas estranhamente, como irmãos, era uma coisa que de tanto tempo com a convivência eu passei a entender a sua natureza e REALMENTE não esperar que ele sequer mudasse, pois sabia que era de bom intuito, e que se eu FORÇASSE ele a falar, perderia todo o sentido pra ele depois, em ver a reação de bom agrado que seria em escutar uma boa notícia, depois passei a entender e de certa forma aceitar – quase como um gostar simpático, toda essa aura de suspense que criava às vezes em cima de um assunto mais trivial possível – Mas realmente seria grande, externa e internamente falando….

– Ok Cassiano. Onde a gente pode se encontrar? – Não podia conversar muito ou estender a conversa, o ônibus realmente estava me irritando, pois além de carregar dois pacotes de fralda, estava de pé e uma mulher estava a me olhar de cara feia toda vez em que um pacote apenas esbarrava em sua perna – era um pacote de fraldas, não era um pacote de arrebites pontudos, não entendo até hoje o porquê da sua irritabilidade, mas depois foi bem recompensada.

– Em frente ao Índio pelado porra! – Cassiano gritava…Meu celular realmente era uma merda.

(No centro de Niterói, em frente a estação das barcas, existe uma estátua de um mártir pra história de Niterói, que por esquecimento, me desinformei de sua importância para o município, virando apenas um referencial nosso de turma como ponto de encontro se “Em frente ao índio pelado”, por Arariboia ser um índio, e estar a sua estátua em frente as barcas só de tanga, a olhar para o outro lado da baia, a dar as costas a Niterói)

– Aparece lá umas sete valeu?

– Cara, vou sim. Um tempão que a gente não se encontra, eu vou mesmo! Mas não tem como adiantar o que vai ser não? – A minha vida andava tão atribulada e tão “ruim”, porque realmente, se não fosse uma boa escolha ir lá, eu realmente não iria e não teria como alguém me trazer de volta desse roldana – estava lavado cerebralmente a ser resignado em viver aquela vida “casa e trabalho” e ser completamente escravo desse sádico deus…Enquanto isso, a mulher balbuciava palavras de descontentamento, por praticamente um bolo de algodão fazer uma leve pressão em sua perna – Qual deve ser a quantidade de quilogramas força que um pacote de 60 fraldas da Turma da Mônica, tamanho M pode excercer em uma perna de uma mulher sentada? Não sei, por se tratar de um “esbarrão”, creio que 0,0005 miligramas força por esbarrão, creio que o efeito poderia ser apenas de uma cócega, como o passar de uma pena por entre as narinas pra forçar o espirro…

– Ok… Mas você vai vir mesmo né cara….

– Cara, eu vou ver – Tinha entrado em uma misantropia crônica por conta da gravidez precoce, nascimento de minha filha e das responsabilidades que teria de agora em diante com a minha filha…Tinha medo e vergonha de ir pra rua…

– Cara, você não pode estar fora dessa, esse lance é pra você mesmo meu camarada… Se você não vier com a gente, pode esquecer cara, não te chamo pra mais nada – Cassiano e seus ultimatos…

Achei estranho porque nunca insistia em alguma coisa, então, eu voltando do trabalho completamente exausto e sujo, me pus a sonhar no meio do caminho, a pensar no que seria e no meio desses devaneios, uma senhora completamente mal educada, me desperta do meu estreito sonho, quando raramente sou dotado a sonhar – sonho pouco ultimamente, não lembro de meus sonhos, acho que pode ser culpa dos fortes remédios que tomo pra dormir:

– O senhor não está vendo que está me incomodando a viagem inteira com essa trouxa que está trazendo? Pelo amor de deus, me deixa viajar tranqüila, merda de gente incoveniente…

Tinha pensado instantaneamente de como o meu dia foi cansativo e o quanto eu tive que andar pelas intermediações do bairro da Praça da Bandeira até achar uma das Lojas Americanas pra comprar as fraldas para Luiza… O quanto esperei na fila. O quanto as pessoas faziam caso de desdém por causa do meu mau cheiro após trabalhar o dia inteiro dentro do almoxarifado de sucatas, carregando e descarregando caminhões de entulho, de cimento, de tijolos e a tarde, depois do almoço, ainda ajudava a ensacar pedra e areia para poder levar até a capital para a obra. Como uma pessoa dessas não pode ter um pingo de respeito com isso? – Antigamente, não conseguia aceitar a natureza hostil que todos temos, de não olhar alguém que realmente precisa de ajuda e ajudar – eu apenas fiquei pasmado com aquilo tudo que aconteceu, pois estava cansado, já tinha esperado por uma hora o ônibus e como uma síndrome de Tourete, eu comecei a xingar e dizer que a mulher não tinha noção o que tinha passado durante o dia, e ainda reclamava que um embrulho de fraldas – mesmo vendo eu, um trabalhador, que estava claro que era, pois voltava com o próprio jaleco para casa, não tinha lugar para guardar roupa e nem para tomar banho no almoxarifado onde trabalhava – por fofoca do Paulo, era hostilizado por toda Serralheria, por ter cabelos compridos e falar pouco, ele me rotulou como viado, ou então como dizia freqüentemente “frorzinha” –  então, não tinha muita escolha a não ser ir sujo… As outras pessoas ficaram tão transtornadas, pois viam o meu cansaço e viam a forma burguesa da mulher de exigir coisas que eram impossíveis para um ônibus lotado e pra um trabalhador que vinha com mantimentos pra casa – pois lotado, eu não tinha nem um pouco de apoio a me segurar em nada, então, um outro trabalhador como eu, me cedeu o lugar, e ainda disse alguns desaforos a mulher, que de tão indignada e envergonhada, desceu chorando no próximo ponto na descida do final da alameda. Estava tão exausto, que até mesmo na hora de me envergar para tomar o acento, as minhas pernas tremiam e eu sofri de cãibras que só pararam meia noite, depois de tanto rezar – não tinha remédios, tudo que tinha era comprado para Ana Luiza.

Mas no meio desses espasmos de cãibra, meio que como um cansaço e estafa mental, eu decidi que iria no dia seguinte encontrar com Cassiano. Queria saber realmente o que ele tinha a falar para mim, cuidadosamente, enquanto a cãibra ainda afetava a minha perna, fui no minúsculo armário do sobrado onde morei com minha filha e catei algumas roupas boas para ir ao encontro de um amigo, me distrair um pouco e pensar “na tal proposta” que com insistência ligava para convocar a minha presença.

Seria um longo dia. Eu procuraria um local para tomar banho depois do trabalho e partiria a me encontrar com ele e o Ronaldo no “Índio pelado”.

*Concluí que “A Day in the life” não fala de derrota, e sim de simulacros, que por uma ignorância incrível não conseguimos romper o rumo de certas horas de nosso barco, mesmo sabendo a proximidade de nosso naufrágia, mas não sei por que, ao compreender isso, a vontade de viver, conhecer outras pessoas e correr atrás dos meus sonhos tinha se tornado viva de novo, graças a um grande amigo que me ensinou, me fez ver que eu poderia ainda escrever e romper com esse dito “destino” na qual os ignorantes se lançam a justificar a perda de sonhos, propostas de mudar a vida e serem felizes.

 

A Day In The Life

The Beatles

 

Composição: Lennon / McCartney

 

(sugar, plum, fairy… sugar, plum, fairy.)
I read the news today oh boy
About a lucky man who made the grade
And though the news was rather sad
Well I just had to laugh
I saw the photograph

He blew his mind out in a car
He didn’t notice that the lights had changed
A crowd of people stood and stared
They’d seen his face before
Nobody was really sure if he was from the House of Lords.

I saw a film today oh boy
The English Army had just won the war
A crowd of people turned away
But I just had a look
Having read the book, I’ve loved to turn you on…

Woke up, fell out of bed,
Dragged a comb across my head
Found my way downstairs and drank a cup,
And looking up I noticed I was late.

Found my coat and grabbed my hat
Made the bus in seconds flat
Found my way upstairs and had a smoke,
and somebody spoke and I went into a dream

I read the news today oh boy
Four thousand holes in Blackburn, Lancashire
And though the holes were rather small
They had to count them all
Now they know how many holes it takes to fill the Albert Hall.
I’ve loved to turn you on.

 

 

(Continua)

 

*colocar fotos do arariboia e fazer uma montagem com um labirinto.

*Citei Oswald de Andrade no texto acima, pois é um dos homenageados da FLIP de 2011, que não participei por falta de dinheiro, humor e saúde – atravessei uma anemia muito forte, como alguns puderam ler na outra postagem.

Meu show solo…

•julho 20, 2011 • Comentários desativados em Meu show solo…

Esse foi o meu primeiro show solo, com poucos recursos – apenas contei com um amigo pra levar as minhas canções – perdi um pouco o foco quando meu violão desapareceu e não tinha som por causa da bateria, foi nítido em um vídeo que eu gravei.

Não gostei tanto assim do show, mas vou me apresentar mais vezes assim que puderem ou me chamarem, do caso contrário, realizei um de meus sonhos – apresentar meu trabalho solo com apresentação quase solo….rs

Apenas eu e meu amigo Thiago e amigos.

Grandes amigos que estiveram lá e me apoiaram a fazer um show que me dava por vencido e quase tinha desistido por causa de tempo, ensaio e falta de pessoas para tocar, mas mesmo com toda onde contrária, eu e meu irmão Thiago remamos contra a maré e fizemos um bom show – não foi melhor, queria que fosse, mas realmente a bateria do violão não ajudou e tivemos alguns outros problemas técnicos.

 

Obrigado a todos que me ajudaram a realizar esse sonho!

Abraços

Eu.

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Pedaços…

•junho 27, 2011 • Comentários desativados em Pedaços…

 

Por estar em um recesso não programável, estou sem escrever há um bom tempo, então, decidi colocar trechos de um capítulo de um livro que estava escrevendo ou estou… Não relacionem a nada esses trechos, eu gostei dele porque fala do “constante mutante” que somos todos nós…

(…)”Talvez eu nunca mais a tivesse ao meu lado me falando tudo que eu queria e que precisava ouvir naquela situação, mas o que apenas aconteceu foram mudanças.

Em um relacionamento será que nada dura para sempre, ou o sempre não existe? Em uma vida alguma coisa dura para sempre? Sendo assim, o sempre não existe? Acho que em todas as situações há o meio termo entre todas as coisas e fatos que desassociamos por uma simples questão de falta de calma e racionalização – que a maioria das vezes pra mim, consistia em parar, ir até o fundo do posso de meus sentimentos e voltar com as minhas razões à flor da pele. Até hoje eu me pergunto se eu posso adquirir isso com a experiência, com conselhos ou realmente com a sabedoria de ter passado por isso tudo, e de fato eu vejo que em nenhuma dessas três sentenças eu encontraria realmente algum tipo de resposta. Mudança foi a palavra que imperou.

Não há uma experiência equivalente em nenhuma hipótese de todas as situações possíveis. Toda e qualquer experiência diverge em si de vários pontos, observações e vivências, portanto sempre que alguém supostamente tentasse me aconselhar eu me encalacraria dentro de um mero simulacro e diria a mim mesmo o quanto eu não sofri ou realmente deixei de sofrer, e o quanto eu falhei, e me culparia eternamente ou me diria o quanto fui sortudo por não ter tomado esta ou aquela atitude. Aprendi com isso que é inútil me martirizar por atitudes de dificilmente eu não tomaria da forma que eu tomei, pois me conhecendo, não faria diferente se não fosse da forma que reagi e reagiria, portanto sempre foi eu, descontrolado ou não. Pegar pontos de experiência como referência, como desde cedo eu cria, nunca me levaria nada. Aprendi com a vida. Aprendi com a falta de um pai a recorrer a um caminho de meio termo a tudo por falta de uma suposta “consciência macho-imperativa”, a voz grossa, a tradicional cultura do fazer a barba que me diria o que fazer ou não, até que em partes, com isso, me tornei um pouco mais autoconfiante, e acho que aprendi um pouco a lutar por caminhos de raciocínio lógico a tudo.

Quem não confia em pontos de experiência, não acredita, portanto em conselhos, criticas e opiniões, e, por não acreditar em conselhos, descartava qualquer tipo de noção que supostamente me parecesse fruto de alguma explanação sábia. Humanamente falando, não há para mim explanações ou algum tipo de coisa que se chame de sabedoria se não houver uma introspecção sobre o foco de observaçãoem si. Ouseja, se alguém me falar de qualquer tipo de experiência, sendo de causa própria, eu descarto certamente. Ninguém nunca me convenceu em falar que drogas eram ruins porque eram, quando na verdade não é assim. Drogas são boas e legais, mas usá-las é uma coisa que não existe. Não existe um usuário de drogas que seja realmente são. Não existe um usuário coerente de drogas. Elas são maravilhosas, mas com relação a elas, o assunto é puramente simples: Ou você as usa ou não. Ou você consegue realmente lidar com a vida sem elas ou nem tente, e acredite, quando você para, é porque você nem começou. O que existe é uma eterna condição de determinados dias que o verdadeiro usuário tem que passar sem elas, se realmente parou, e se o fez é porque nem começou. Tenho pontos extremos que convergem em lados diferentes correlação as drogas, uma é um ponto que realmente é polêmico: Acredito que ninguém que realmente tenha começado com elas, consegue realmente larga-las; pra mim se largou é porque nem tinha começado realmente dentro de seus limites, e a outra é simples: Não existe nada que seja totalmente viciante a alguém o que existem é uma cultura equivocada sobre as drogas, criando assim os verdadeiros paraísos artificiais. Darwinismo isso diria – Discursava isso tranquilamenteem biroscas. Chamavaa todos e a mim mesmo de fraco correlação a tudo na vida. Não e Sim. Não aceitava que todos somos: Fortes, fracos, indefesos… Todos são um leque de si mesmos. Eu sou uma miríade de coisas infinitas que posso fazer a esse instante e segundo, mas só agora eu me adapto a isso e aceito que posso realmente fazer o que quiser a qualquer momento, mas sempre, sempre eu teria que tomar as escolhas mais certas, aprendi que na rua essas oportunidades sempre rondam a qualquer um. Na rua, diariamente, por tomar escolhas corretas, você escapa de mortes, doenças, viroses e acidentes, e graças as minhas escolhas, eu estou aqui. E também muitas das minhas dores e pesares são graças as minhas erradas escolhas.

Por tanto, hoje pra mim, ser forte ou ser fraco, depende de pontos de vista quando se aprende que tudo na vida é um grande referencial. Acho que ser forte pra mim hoje é conhecer os “meus” referenciais, meus defeitos e qualidades, meus verdadeiros ícones, meus verdadeiros limites e luta-los por eles a cada instante e fiapo de dia que possa se seguir a um porre, uma trip, ou uma viagem de qualquer coisa, pra algum lugar qualquer. Um mendigo pode ser o ser humano mais fantástico pra mim e um burguês o mais medíocre (deixei os referenciais de posse de lado, por exemplo). E não acredito que obrigatoriamente, temos que passar por tudo para saber discernir o que foi de bom ou ruim. O raciocínio lógico pode se encarregar disso, mas quando é que existe algum ponto de lógica, se realmente ninguém se conhece? O homem é um ponto de observação apenas de si mesmo, isto é, de sua condição genuinamente humana, mas se não a reconhecermos? A única condição genuinamente humana que existe e que faz lógica pra mim é que vivemos em silenciosas, e não compartilháveis revoluções. Aceitar as mudanças é começar a ver a vida com um raciocínio lógico. Aceitar as mudanças é ter noção das escolhas diárias e instantâneas no segundo em que elas acontecem, percebendo assim, realmente o que é bom e mau.

Estamos em constante mudança. Não somos puramente matéria. A idéia é uma mudança e um ponto de convergência, a cada idéia que temos ocorre uma mudança, e a cada mudança mudamos nossos pontos de vista – logo referenciais – E se mudamos um referencial, mudamos tudo! Logo a definição é ser indefinido. Por natureza, todos os homens são escalas de valores indefinidos: “Estranhos que se agrupam aos seus comuns.” Minhas piores crises existenciais eram quando eu tentava me agrupar a alguma ordem, experiência ou coisa que já tivesse existido – Como se buscasse alguma lógica justificativa para minhas idéias, meu jeito de ser, pensar ou agir. Aceitar a vida, portanto é se aceitar e aceitar as suas mudanças.

Decisões, indecisões, opiniões, ingressos, regressos… São mudanças que tomamos em milésimos de segundos e mesmo que hajam a rotações invisíveis de serem notadas e de não se registrarem grandes angulações de qualquer aspecto de alteração de compasso, elas existem. Já que o direito de escolha sempre nos foi dado, concluo que não existem grandes mudanças, existem as pequenas com as suas grandes repercussões. Descobri que a razão era um caminho certo que morava entre o sim e o não e nunca fazia lógica aos seus dois vizinhos. E era sempre o meio termo a se tomar.

“Sendo assim, nada dura pra sempre, as coisas sempre estão mudando realmente” – Como um suspiro aliviado me sugere paz esse pensamento que parece ser tão óbvio. Paz e conforto. Certeza de que a dificuldade que eu tive foi de me adaptar as mudanças ou de rejeitá-las e apenas continuar seguindo um outro fluxo, que seria agora ditado, e sempre por mim. “Sou eu o senhor das minhas escolhas, e sei que são as raízes dos meus atos, não posso, portanto ir de contra a mim em nenhuma delas”. E como as coisas que são óbvias outrora para nós, hoje são tão profundas? Acho que isso explica um pouco do que possa ser maturidade, talvez.

A dor do tombo me impedia essas conjecturas que mais tarde, mas muito bem mais tarde, tomei, mas a queda da escadaria, naquele instante, me lembrou de que tenho um corpo e uma missão instantânea naquela hora, ligar para Viviane para conversar com ela. Uma máquina voltou a funcionar, com ela voltou a noção de tempo e espaço. Sabia que tinha caído de uma escadaria e que eram duas e meia da manhã. Não vagava mais por horas em minha mente – Mesmo que o tempo real tenha levado cinco minutos – levantei reto do tombo sendo escorado por dois motoristas de ônibus que estavam no inicio da escadaria. A vergonha embaçou os meus olhos. Minha cabeça e costas doíam. Tudo doía. Era uma dor moída. Dor de perder a razão, o amor e a decência, era desequilibro sombra, ilusão e medo enquanto eu ouvia, bem lá atrás da rua ou no fundo de mim, risos e zombarias, enquanto os dois rapazes engoliam os seus risos e me ajudavam.” (…)

Os opostos podem “até” se atrair, mas é pelas afinidades que somamos aos dias quando decidimos ter o que chamamos de família, ou seja, uma comunhão com um “outro” que será diferente o bastante até conhecê-lo por completo, ou, desistir disso no meio do caminho – Mas, quando há essa desistência, é porque já acabou e você não se deu por conta.

Minha estréia em carreira solo…

•junho 20, 2011 • Comentários desativados em Minha estréia em carreira solo…

Bom essa é minha estréia em carreira solo, vou estar cantando algumas músicas do meu trabalho do Myspace – que faz parte do álbum “Entre Prédios” – Do compêndio do lado “A” das músicas….

Mas tarde devo passar o Set List, mas segue o Flyer do evento:

Crisálida de pele assexuada

•junho 20, 2011 • Comentários desativados em Crisálida de pele assexuada

Passei o dia inteiro com dores no corpo, tediante e alheio apenas a minha filha. Meu humor estava péssimo e ainda tive que ouvir sugestes de um amigo – que pode ser ex – sobre coisas mau esclarecidas de gente que não tem mais nada a fazer a não ser o mal.

Olá?!

Tudo bom?!

Será que ainda tenho leitores depois de quatro meses?

Não sei, blog tem que ter periodicidade, como disse um amigo meu que vive de blogs, se vc acabar com a sua, você pode perder todos os seus leitores em um dia, e realmente, é assim que acontece. Mas eu não andava muito bem, aliás não ando muito bem, de saúde, e uma preguiça enorme somada com poemas que ando escrevendo sem ter vontade de publicar me fazem somar essa “inatitude” da escrita. Gosto de escrever empurrado, amargurado, com pessoas me pressionando a escrever,  ou quando realmente sofro – mas não gosto de ser repetitivo – apenas sigo um fluxo chato e repetitivo chamado vida, mas de repente eu via que comia um sanduíche a ainda engordava. E andava com muitos – e ainda ando – com problemas respiratórios, fui consultar o meu médico – Doutor Henrique, da Policlinica Santa Luzia – Isso mesmo, coisa de ir pra D’OR é coisa de hipocondríaco, não pago plano de saúde e cago pra minha, pago pra minha filha porque tenho medo dela ir antes de mim – bom, tirou sangue,  constatou problema na tireóide – é daquelas em que vc engorda se comer um grão de arroz e aproveitei pra fazer uma dieta, mas eu sou oito ou oitenta… Já sabia antes que tinha algum problema nela – pois passava um dia sem comer e ainda engordava….

Comecei a tratar da minha e a emagrecer, mas voltando ao binarismo exagerado,  eu simplesmente achei que o remédio não estava fazendo efeito e simplesmente comecei realmente a ficar doente com isso. Pesquisei sobre anorexia e sobre analgésicos e esse foi o meu mal – ao mesmo tempo fiquei viciado em analgésicos, primeiro, por causa de dores na coluna, segundo porque descobri que “certos analgésicos” induzem a anorexia – tiram o apetite e a fome de uma forma incrível – realmente isso acontece.

Pesquisei o tema doentiamente na internet em todos os site de medicina que pude encontrar, me comuniquei com médicos e troquei e-mails com eles. Conversei um pouco sobre o que estava acontecendo com meu corpo – que inchava sem parar, às vezes de um dia sem comer nada – e disse que realmente poderia ser um caso de tireóide muito baixa – ou muito alta, até agora não entendi o que faz engordar, se é o excesso ou a falta, mas fui no médico e foi batata – estava com problemas com ela. Malandramente, pedi uma dieta – que não segui, mais tarde vocês saberão porque.

Então, eu deixei de comer um dia, depois comia um dia sim um dia não, até chegar na taxa de comer apenas duas vezes na semana – apenas sábado e domingo para a minha mãe não encher o meu saco – Comecei a tomar analgésicos que induziam a anorexia – analgésicos que não vou dizer por questão de responsabilidade. Só que, eu não sabia, que o excesso de analgésicos, além de causar dependência, a ponto de sentir pequenos espasmos musculares se não tomar, se não for acompanhado com doses pequenas de complexo b podem causar anemia, depois falo dela, puxe esse quadro como o computador de “Minority Report” e se liga em outra coisa agora.

Andei procurando médicos, na maioria deste tempo de mudez escrita. Andei procurando escondido da minha mãe – fiquei com medo do fantasma do câncer no pulmão ter voltado, pois sentia muitas dores nas costas, me pediram mas exames mas o medo não me dá ânimo nenhum de voltar para hospitais, tomar agulhadas, a rotina de fazer todos os tipos de exames e dar negativo – AIDS, tuberculose, e etcs… Eu estou boiando vendo uma onda se formando, ficando cada vez enorme, mas estranho, era na hora em que me sentia mais forte com o mar, sentindo ventos ao meu favor… E é assim que acontece?

(Tem um programinha de Tarot online da UOl que é de grátis, vc clica e sai uma carta, eu cliquei e caiu “La Maison Dieu”)

Poético….

É. A força de um artista vem de seu sofrimento ao lidar com a arte. Se ele se espasma e se entrega, e como ser um idiota. Pra que escrever quando se está bem? Acabo de escutar Renato Russo cantar “Meu egoísmo me deixou cansado” e realmente é isso que acontece… Nos emsimesmamos tanto, que a arte engasga… A vida engole em prol de problemas, em prol de efeitos efêmeros que não fazem diferença. Vida, morte, dor, alegria fazem parte da arte, fazem parte de sua execução e elaboração. Traições, mentiras, pessoas que confiávamos e que não podemos confiar mais vão se embora é assim… A vida é um fluxo. O tempo é um fluxo. O verdadeiro artista não se prende a fôrmas e aos seus problemas: O traduz em vitória ou em derrota, mas o faz de forma sempre egoísta – o seu elo com o “eu” é o que traz a escrita, ou a qualquer linguagem que use para mídia artística – e inteligível a quem é sensível a arte. A arte deve dar acesso e se comunicar com outros.

A minha força vem de toda a contrariedade que a vida me traz. Meu esplendor e resplendor se refaz quando me destruo. Quando como o pão que o diabo amassou e como o Jó da Bíblia, quando eu só tenho um caco de telha pra me coçar e é dessa telha que me desce o Divino – é do estado de “telha” que me fala Deus, que me trato a Ele e que me Retrato de todos os meus erros e acaba que os outros é que devem me portar.

Sabia que o mal não iria descansar. Era muita felicidade. Estabilidade no emprego, uma vida artística começando,  Conheci uma outra família, conheci uma outra vida… O mal não descansa. O verdadeiro mal quer ver a escuridão a sua volta, mas é daí que a força minha sobe, e daí que faço luz e alcanço vôos longos e em outros lugares. E como o algodão doce que o Kiko, em uma cena de “Chaves” tenta tirar do Chaves. O Kiko suja a parte de cima do algodão doce, o Chaves vira do outro lado, o Kiko suja o outro lado e o Chaves acho um cantinho limpo e começa a comer… Às vezes é assim que vivemos – com um fiapo de cabelo, com um resto de história – tentamos nos levantar, colocar nosso nome perto de alguma coisa grande para nos fazermos forte. Entendo um pouco agora o que Cristo quer dizer com “o dar a outra face” para nossos inimigos. Não é em um gesto sádico, é sim um gesto de dar as costas, virar de lado para as coisas ruins que fazem conosco e apenas seguir em frente, mesmo ferido, mesmo colocado de lado com o seu ideal na vala, as coisas assim acontecem.

Conheci minha vida ao acaso quando estava derrotado. Não espero o acaso, faço o acaso acontecer, procuro apenas outros lados do algodão para poder comer,  e até quando não sobrar mais o algodão, quando o mote final acontecer e ele for pisado pelo Kiko, será contada a piada. A arte se fez. A arte finalizou, a piada foi contada e se passou uma cena, se foi um capitulo e se virou uma página, a cama, o abrigo, o que te fazia preso, o que era pra te enclausurar e te texturizar em uma mesma forma se foi…. Virou lixo, virou resto de ti mesmo… Era uma cama…. Era uma outra fase. Era um resto que precisava de transformação, uma coisa pesada que tinha que carregar que não fazia falta, mas era a tua segurança, mas quando era, não era, era apenas uma crisálida que lhe prendia de tudo que a vida tinha a te propor. Do quanto é grande. Do quanto ès potente perante as tuas falhas e como você realmente pode se reinventar, ser você de novo só de de outra forma, de outro jeito, com uma nova luz, uma nova forma. Assim, saio de novo da minha Crisálida – Deixo pra lá algumas coisas, volto pra outras, encontro velhos amigos, reencontro comigo, diferente, mas sendo o mesmo em uma variável diferente de freqüência – ainda temendo o câncer, mas virando noites se preciso, para mostrar meu trabalho, para mostrar a minha vida, que não foi destruída nos momentos em que me dava “artisticamente” vencido.

Ai que ela se revolta! Ai que ela se reveste e cria uma nova linguagem! Quando a arte “gagueja” é porque ela geme de dores de parto: Algo novo está na sua frente, prestes a surgir e você está parado e não esta olhando você mesmo olhar a sua arte.

Volta a Janela de Minority Report – o velho caso: Anemia

Por causa do vício em analgésicos, tive uma anemia quase profunda, fui ao médico e ele me receitou vitaminas, me aplicou via intravenosa diluída em soro, uma parte de vitaminas – com medo de entrar em um quadro mais avançado de icterícia… Enfim, não deixei de trabalhar, apenas administrei meu trabalho e minha vida, mas vinha esmaecido pra casa. Voltar pra casa era um espasmo com espaçados flashes – quando entrava no ônibus eu recostava a cabeça, fechava os olhos e estava em casa – e assim acontecia as coisas… E sentia muito frio, febre e uma gripe me atacou….

Enfim, foi embora a gripe, a anemia e ficou a arte.

(E alguns problemas, mas isso é a parte)

Sobre Assexualidade? Sim, é verdade…. Não tenho mais vontade de fazer nada com ninguém e isso é muito estranho….Filmes pornôs não me excitam, aliás, nada me excita.

Não tenho apetite sexual, mas isso é uma outra história, não quero fazer disso um peso, uma coisa carregada… Mas preciso voltar ao meu psiquiatra…

Força.

Minha Vó - Imagem que me dá exemplo e força para viver

Minha Vó - Imagem que me dá exemplo e força para viver

Você Respira por Aparelhos…

•abril 15, 2011 • Comentários desativados em Você Respira por Aparelhos…

Você respira por aparelhos

Se diverte por subterfúgios artificiais

Você come porcarias, ama superficiais

Desejando sobejar coisas saudáveis

Sua saúde é monitorada por aparelhos

Seus aparelhos são artificiais, parentes também

As cores sondam o espaço a procura de som

Enquanto você grita sozinha

Em um banheiro de um motel sujo

Querendo alguém

Que não lhe coma

Que não lhe lamba

Mas que apenas seja

O seu apoio particular para dormir

Você sonha com isso, liga para os teleshops

Vai a mercados, tenta comprar gado

Mas ainda sim…Fazia, da coisa função nunca mais…

Você respira por aparelhos

Aparelhos que são caros

Jogou seu pulmão no lixo do térreo

Aparelhos são mais legais. Morfina

Não dá tempo, você se pergunta

Mas a voz não sai pra perguntar

Você é sua voz, a sua mente é um teleponto

Que você leu, leu, leu,leu e leu para todos

Mas todos esqueceram que você não vive sem seus aparelhos

Você não é mais um programa matinal de alguém

Você é alguém, sem ninguém, sem alguém que também não tem ninguém

E ainda, cortaram sua televisão

Cortaram seus pulsos

Dividiram seu apartamento

Correram do emprego. Furaram seus bolsos

Pularam de um cercado chamado discernimento

Jogando-a oitenta metros da marca, mesma marca

Que outro se jogou, de mais alto, de um lugar mais alto

Você respira por aparelhos

Décimo terceiro andar, você, pros outros Ela

Mas é seu pé, no cimento frio, sim é seu

Com frio, sem coragem pra entrar ou pra sair

Com medo de voar e de subir ou descer depois

Com vergonha de ficar ai, sem ter o que dizer ao porteiro

Mas agora, não terá mais o que dizer

O porteiro lhe viu. Acompanhou sua mandíbula voar

Essa era você, esse era o seu apartamento

Bom, dia… Assustou ao escutar, porque não queria ouvir mais nada

Bom dia

Repetida e metálica voz

Bom dia

Tetraplegia

Você respira por aparelhos.

Praia Seca – 26/06/2017

•agosto 20, 2017 • Deixe um comentário

capa águas

 

Depois de MUITO tempo sem postar aqui, eu relutei em postar isso, mas acho que tem horas que não dá realmente para engolir, na verdade tem horas que não dá nem pra mastigar, e realmente, decidi escrever.

A minha indignação inicial era tamanha, que me fizeram escrever em um rascunho tudo isso que eu estava sentindo a respeito do arrombamento da casa da minha mãe. Toda a falta de atenção conosco, toda a falta de carinho , me fizeram ficar completamente triste com relação a isso.

Vai ser uma escrita sem firulas, sem nenhum tipo de estilismo, nada. Quero apenas abrir o meu peito de uma vez só, e se perguntarem qual é a minha posição, será essa…

O que mais ouvia e ouvi durante todos, os consanguíneos, que era uma criança chorosa, desagradável e insuportável. Sim, a do tipo que não era só chata, por ser chorona ( descobri mais tarde, que tenho “duas mães de cabeça”. que além de filho de Iansã, sou filho também de Oxum, por isso, as grandes quantidades de lágrimas que eu derramei durante a infância) assim, como na vida real, tive duas mães, uma de corpo e companheira para todas as adversidades da vida, até hoje, a minha mãe Jane, e outra de alma, a professora Maria Luiza Cardoso Abreu. Mas o filho de Oxum, que era só vaidoso, ainda carregava e carrega a juba de Xangô, esse leão pede paz agora.

Esse menino choroso passou grande parte da vida chorando por conta de um lar completamente instável, desequilibrado e  viveu grande parte de sua vida em uma grande comunidade, onde um peido era sentido em uma casa ao lado, mas era propagado por toda a extensão de uma família grande, numerosa e “pitoresca”, cheia de arraigadas tradições, onde “meu comportamento rebelde, excêntrico e vaidoso” sempre ganhou extremas e externas repercussões, onde, que no “vizinho”, haviam excentricidades e escolhas, mas ainda sim, não eram tão repercutidas com tanta força quanto era voltar pra casa bêbado, ter vomitado em meu quarto, brigado com minha mãe, (…) mas, uma dia, por graça divina, tive uma epifania.

Quando voltei a casa de praia de minha mãe, passando um final de semana inteira reformando a casa, eu resolvi ficar. O “resolver ficar” foi por conta e um relacionamento desastroso, que me levou a uma profunda depressão e me fez querer a morte por muitas e muitas vezes antes, mas o sentimento de nulidade e de não pertencimento a lugar algum, me fazia agora ser completamente decido a dar um fim a todo esse sofrimento que tinha se tornado a minha vida. A minha relação desastrosa foi uma gota d’água para tudo que me incomodava, mas descobri mais tarde, que grande parte desse incomodo era devida a grande falta de privacidade que eu vivia, mas não quero desfocar da minha tônica, talvez fale disso mais tarde.

O resolver ficar era o “querer fugir”. Tinha e tenho valores completamente diferentes de minha família, o que fazem eu ter uma grande distância. Por ter nascido em uma casa confortável – tínhamos um carro, desde os dez anos veraneava em minha casa de praia, mas mesmo assim,m havia um grande vazio, que era impreenchível, na media em que queria a presença fisica a constante de pessoas que me amassem e se importassem comigo – acho que o nome certo disso é família – e o “querer fugir” era por fim a uma sequência trágica do que tinha se resumido a minha vida – nunca me importei com bens materiais, não era isso que me faltava, não era isso que iria me completar, não era isso que eu passei a buscar…

A minha vida era um câncer da minha mãe a ser curado. Câncer que poderia ser fatal , já que tinha sido internada várias e várias vezes por falta de imunidade, pelo meu desemprego, pelo meu desespero em vender um apartamento onde já se acumulavam dívidas que já tinha e estavam se acumulando com o meu primo André ( aliás, devo MUITO, a ele e a minha tia Neuza por ter me dado um ofício quando eu mais precisei, numa das tentativas da família para ver se “a gente dava certo”) das labutas em acordar muito cedo para estar em um stand de imobiliária – depois de passa a noite inteira deitando e levantando a minha mãe, que carregava uma sonda da mastectomia, ouvia dela, e aos berros, onde toda a vizinhança poderia abraçar com gosto toda a minha falta de privacidade, toda a minha falta de prestígio com uma mãe que achava pouco, eu passar toda uma madrugada acordado, assim como ouvir “sua mãe” dizendo que o câncer que tinha se instalado nela era culpa “do seu único filho”; Essas coisas realmente foram me cansando de uma forma que eu nunca poderia mensurar com toda a gramática possível, mais tarde, creio que poderia se tratar de um processo psicossomático e “talvez”, isso fosse passar, de alguma forma, fosse passar. E tudo somava um pouco a minha vida e a complicação de vivê–la em um ambiente sem nenhuma privacidade, a grande expectativa que havia em vender um apartamento, a atitude da família de coisas como “parem de nos dar trabalho e vivam suas vidas”, tudo isso me deixava a flor da pele vinte e quatro horas por dia.

E, um belo dia os meu trabalhos e serviços como corretor não eram mais associados a Brasil Brokers – em uma decisão injusta – e, parecendo que foi como uma interseção divina, a crise chegou. Vários corretores passaram por muitos maus bocados mas em seguida, fui trabalhar como professor de informática, e, por uma reivindicação trabalhista, estava recebendo minhas horas extras não pagas enquanto eu esperava a decisão judicial, e nisso, teria a pensão de Luiza paga e em dia, enquanto carregava carrinhos de mão de entulho. Isso era uma ótima higiene mental. Minha cabeça estava muito, mas muito cansada, e ter algum tipo de terapia ocupacional me fez muito bem e me fez lembrar que eu poderia ficar mais na casa de veraneio de minha mãe, terminar a calçada que estava fazendo, comprar uns baldes e galões de tinta e deixar a casa mais bonita. Mas acho que a situação toda, estava em tentar de uma vez por todas, terminar com esse incansável sofrimento: De uma maneira estranhamente serena eu pensava em suicídio. Estava meio que decidido, depois da reforma, depois que deixasse a casa da minha mãe um brinco, eu iria tentar de alguma forma sumir. O fato da minha mãe estar melhor do câncer, só estar tomando medicamentos via oral e controlados, e principalmente, pelo fato da minha mãe viver me atribuindo culpa da doença, iria realmente sumir, sem carta de despedida, apenas algumas desculpas pelo meu blog e iria acabar com tudo, até que, uma camisa do “Edward mãos de tesoura” me fez voltar no dia seguinte ao shopping em que eu tinha ido sacar dinheiro em Praia Seca. Talvez comprasse e vestisse quando fosse cair do Atalaia, para lembras as pessoas das neurodiversidades, as dificuldades que temos em conversar com as pessoas, de conviver com o próximo e de ser quem quer que seja, mas eu acho que o que iria por vir era maior e melhor do que isso.

Durante dois meses que eu fiquei aqui sem encontrar a tal camisa do Edward, eu encontrei sossego e paz nos momentos de privacidade, pela primeira vez se eu ficasse em casa sem fazer nada, sem deixar de fazer alguma coisa, isso não viraria notícia, escândalo ou confusão. A neurastenia materna não me culparia por não estar pintando do lado certo ou tentando arrumar um emprego. A neurastenia materna não me faria ter insônia, falando de algo extremamente desagradável, algo que não queria ouvir, ou de novo, como um mantra negativo, me dizer que o câncer havia sido uma praga minha, e por surpresa, encontrei momentos de alívio e de felicidade.

A privacidade que tive em um curto período de tempo foi um balsamo e ajudaram a ofuscar e esquecer as minhas ideias suicidas. A privacidade,  e conhecer, claro que bem aos poucos, a mulher que hoje atura esse filho de Oxum que voz fala, foram me curando dessas etapas da minha vida. Encontrei vida em um lugar seco, cheio de sal e muito, mas muito bonito. Encontrei renovo e fiz as pazes com meus guias e com a minha Umbanda. Tive o prazer de viver bem e melhor a minha vida e ganhei o que eu não tinha há muito tempo e acho que nunca tive, ganhei uma família só minha, com meus filhos e filha, minha casa, meus afazeres, meus costumes, nossas normas, nossos defeitos e principalmente, nossos “segredos”, problemas e NOSSA PRIVACIDADE.

Aqui resolvemos tudo e dependemos de nosso trabalho e sorte. Não temos uma vida luxuosa e ao mesmo tempo não nos falta nada, tenho um bom emprego e principalmente, QUALIDADE DE VIDA, e, ter essa paz me faz querer que NADA, a afete. Essa paz só pode ser exercida pelo fruto da sinceridade de poder ser quem sou e ela não poderia ser resultante se não fossem os três anos livre que tive aqui, dados pela privacidade que tive durante esse distanciamento.

O distanciamento foi causado pelas feridas que tive antes com tamanho descaso em que fomos tratados eu e minha mãe e se tornou definitivo por conta do arrombamento de nossa antiga casa em São Gonçalo. Pode uma casa de FUNDOS, ser assaltada, e NINGUÉM da casa da frente ver NENHUMA movimentação do que houve? Eu estava acompanhando um amigo de religião, até um ponto em que ele falou “olha, eu não vou poder te acompanhar até aqui” perguntei o porquê, e esse porque era que ” a filha tinha acabado de passar por uma separação e ele precisava dar um ombro amigo a ela. Solidariedade? Sim, a família poderia prover isso. Poderíamos ser pessoas melhores e ajudar as outras sem pensar nada em troca, e o que falar, perguntar ou questionar o externo a seguinte premissa: “Se roubassem a casa se algum parente seu que mora distante, o que vc faria”, a resposta sempre era unânime, “ué, iria prestar queixa na delegacia  e tentar ajudar no que fosse possível”. Minha casa até hoje está arrombada em são gonçalo, casa que eu não tive como ainda prestar socorro ou ajuda por conta de meu trabalho aqui na região dos lagos.

O arrombamento foi exatamente a pá de cal que faltava para enterrar tudo de vez e era o pontapé inicial para realizar meus sonhos, viver uma vida plena como deve ser vivida, com liberdade de SER, felicidade e paixão e realmente AMO a minha vida agora, tanto, que me RECUSO a dar qualquer tipo de satisfação de como está minha vida a qualquer pessoa que me faça LEMBRAR que tomei essa decisão na minha vida. O que eu mais desejo é que essa distancia não seja sentida nem pelos retrovisores de nossos sonhos, meu e de minha mulher Luciana, mulher que verdadeiramente abraçou minha pequena família – eu, minha mãe e minha filha – e a fez tornar BEM MAIOR.

Eu gostaria de lembrar da minha família e de sempre revê-los com a mesma alegria que eu sinto quando eu passo os Natais, quando estamos em clima de festa, mas pra isso, seria preciso sentir que eu chego em um ambiente em que eu já não tenha virado assunto. Preciso chegar em um ambiente em que me seja confortável e a grande verdade disso tudo,  e a que me dói PROFUNDAMENTE é que não consigo confiar em NENHUM de vocês e, decidi, que preciso viver minha vida com sinceridade e não posso ser sincero com quem não confio.

Peço perdão a todos, se de alguma forma isso agrediu a quem ler e que não soe como ingratidão. Peço apenas paz e compreensão e peço que Deus lhes abençoe e principalmente, que não façam sentir o despreso que minha mãe sente e sentiu durante esse tempo, no pior momento, na pior das situações e a falta da lembrança nos seus melhores momentos em que passam reunidos e é esse sentimento eu não quero mais lembrar. Consegui, SOZINHO, com meu esforço, construir minha família, meu trabalho, ser respeitado em meu trabalho e agora, eu não quero mais lembrar dessa chaga e dessa ingratidão.

A verdade é que peço e quero paz. Quero paz de vocês e para vocês. Obrigado por me ajudarem esse tempo todo, mas vou ser eu e peço a bênção de vocês, assim como pediam eu peço a “bença” ao meu avô e avó para ir embora, só que agora é definitivo. Paz e que a benção de Zambe seja sobre a vida de vocês.

 

 

Vida em uma casa de vidro

•março 4, 2017 • Deixe um comentário


Puxo do bolso o celular

Subo o screen, alguns toques no t0uch e 

E ninguém…

Abro uma rede social

Por conta de uma grave doença – ciúme – perdi grandes amigos.

E meus melhores amigos sempre foram mulheres.

E me afastaram de todos eles

Porque deveria girar em torno

Meu bisexo no resguardo empudorado

Porque girava em torno de algo

Obedecer as estações e fase

Equinócios

Não era nada…

Não era uma luz

Apagaram minha luz própria

Porque cheguei no meio de um caminho

Porque sou um andarilho

Porque era um estepe.

Furado, guardado como uma boia salva vida

Boia de apoio de uma vida frustrads

De uma vida que já foi perdida

Assistindo requartos e requadros de um amor interrompido

Vivendo uma vida na gaiola

Sem vida. Sem amor.

Uma possessão.
E todas as pessoas

Sim, todas essas tolas pessoas 

Querem sentir

Todas essas pessoas

Comentam coisas bobas, uteis para sí

Curtem e compartilham

Uteis que nada dizem de tí

De mim. Ou interagem para outros

E ineficazes contra o sentimento de pepsi

E sempre volto sozinho.

Foge até mesmo o louco de um carente

E com ele, fica melhor um copo

Que é a única coisa que acompanha um carente

Mais 

Do que um falso amor.E eu não quero morrer antes de ME ENCONTRAR de novo!

O senhor entendeu o que eu disse Doutor Pierrot ?

•setembro 4, 2016 • Deixe um comentário

bomba

 UM SERIAL KILLER MATANDO EVANGÉLICOS :

A grande verdade é que a relação dos evangélicos com todo o resto do país estava muito comprometida e influenciada. E uma grande bomba poderia estourar a qualquer momento no Brasil, por conta mais dessa e de uma bem provável guerra santa. Há décadas que, com bastante pedantismo, falsa propriedade, modéstia e conduta os evangélicos disseram que apenas eles eram filhos de deus e alguma hora esse pato iria ser debitado na conta desses líderes irresponsáveis. Existia duas igrejas claramente no Brasil, a midiática, a gospel e a real igreja, que era formada por pequenas pessoas e frequentadas por poucas pessoas mesmo e dentro delas se realizavam grandes milagres, como uma certa vez, atendi uma paciente em que dizia que várias pessoas de sua igreja ficaram cegas, tinham desaparecido estranhamente, após o “pouso” de um anjo em um culto em bomsucesso – A grande sorte, é que a igreja, era na sua maioria composta por senhores e senhoras de idade, após o surto de cegueira, os que voltavam a ver, depois de um certo tempo desapareciam, exeto Goreth, que era filha da diaconisa que tinha desaparecido. Goreth foi a primeira a recuperar a visão e a única que não desapareceu, ainda bem, pois é muito boa de foda e agora fazia faxina no meu escritório na Prado Júnior, mas isso é um outro caso. O caso agora é que ele estava aqui.

Ele era um grande showman! Eu ria muito na madrugada com os comentários dele para o bando de descrentes que ligavam, uma vez ele recomendou pro maluco que ligou desesperado se matar. Já devia estar de saco cheio. Por incrível que pareça, estava na minha frente um cara que tinha ganhado três Grammies como melhor DVD /  CD religioso. O cara já usava Botox, tinha a sombrancelhas feitas, permanente no cabelo e dois seguranças muito bem vestidos, mas pareciam que tinham acabado de sair de uma noitada na Le Boy, um deles com uma sacola do pão de açucar cheio com algo que parecia couve ou bertalha.

Ele estava em uma carreira muito promissora, recentemente, tinha entrado na política. E seus discursos contra a comunidade LGBT, contra o Candomblé, faziam o mega-conglomerado que o apoiava encher. Numa tarde de sábado fácil, com apelos, ofertas e dizimos, a sua igreja saia com muito dinheiro – uns 15 milhões, dizia, no domingo é o dobro sempre, mais até se não chover no sábado… Botei as cartas na mesa e perguntei logo o que ele queria. Detesto evangélico…

– Não sei se o senhor sabe, mas existe um serial killer matando evangélicos…

(acendi um cigarro e pus os pés na mesa, não sei se o cigarro o incomodou ou se foi os pés na mesa)

– Não… Não sabia.. Há um tempo atrás estavam desaparecendo… Na verdade, doutor…
– Pode me chamar de Apóstolo…

– Não posso, eu conhecí um – o segurança garotão olhou pra mim – E já vou avisar. Detesto evangélico – Falei de uma forma tão grosseira que um perdigoto pulou no olho dele..

– O senhor não vê o “Cidade em Ativa”? Já estámos na segunda semana falando sobre esse serial-killer?! – Falava enquanto tirava o meu perdigoto com o mindinho .

– Na verdade Doutor, o que acontece, é que eu não sou idiota … Não vou ser otário de dar audiência pra merda do canal de igreja que vocês tem, e outra coisa, não leu alí na porta? Detetive Sobrenatural ? Vocês não tem o dito “Dom da Revelação”? Chama o bispo pra achar o louco que tá matando seus fiés… Vocês devem estar ficando duros e por isso estão querendo me contratar? Vai se fuder!
– Bem, Srº ou Drº, como eu posso te chamar?  Acho que viemos para o lugar errado eu tinha uma boa proposta para lhe fazer, eu tinha realmente uma boa oferta. Srº Pierrot, nós não temos revelação, mas temos dinheiro. Rô e Dí, vamos embora – virou-se falando com seus capangas.

Por momentos, como o que de uma revelação,  aí eu creio que possa até mesmo ser Deus, em que vejo que a verdadeira verdura que está na sacola do pão de açucar é aquela que cairia bem no meu bolso… E muito bem… A sacola estava recheada. Aí fui todo ouvidos. O astro-pastor saca o seu smartphone.

O caso era realmente uma coisa a se preocupar pelo requinte de simbolismo e practis dentro de uma lógica esotérica.

Os olhos das vitmas eram arrancados. Símbolos postos em suas testas –  Não, não era o meia meia meia.. Era algo como uma numeração, algo do tipo estranho ou do tipo”tenho que rever meus livros iniciáticos”. Parecia fenício ou até mesmo simbolo dos Gnósticos… Uma coisa a verificar.. Colocavam textos bíblicos em suas mãos ensopapadas de sangue. Isso ele me trouxe por algumas fotos que estavam em seu celular.Mas eram fotos e isso tudo era tudo bem a priore, eu não estava na cena do crime.

– Nossa, virou um viral e eu não recebi isso no meu telefone?

– Não, não virou, não expomos esse caso com totalidade a imprensa.. Temos medo que o resto de nossa igreja tenha medo e não venha em nossos cultos…

– Pelo que eu ví, não são apenas membros da sua igreja pastor…

– Como o senhor sabe? – Me olhou com uma cara de gazelinha surpresa.

– Essa bíblia que essa vitma carrega- Usei os dedos e dei um zoom nas mãos de uma das fotos – na verdade é muito usada na Assembléia de Deus, e não é nem uma bíblia e sim uma Harpa. A tradição da Harpa, que eu saiba, não é presente na sua congregação…

– Interessante… Em uma breve olhada, chegou a essas conclusões.. Ê dessa perspicácia que precisamos…O que queremos do senhor é bem simples. Queremos que o senhor encontre o assassino vivo ou morto ou que, no mínimo, faça pelo menos uma contenção de danos: Que o senhor analise bem o perfil de futuras vitmas e alerte algumas possíveis vitmas. O que sabemos é que ele fez uma sequência territorial no subúrbio do rio –  O anjo de bomsucesso, lembrei.
– Olha, correlação a isso a sua igreja tem mais logística para fazer essa tal contenção de danos…

– Não temos o perfil do assassino. Até essa contenção lo senhor precisa fazer.

 – Tudo bem  mas por isso, pede pro rapaz me trazer uma bolsinha dessas de duas em duas semanas…

– Sr. Pierrot… O senhor está fazendo um serviço pra um servo do senhor…

 – Ô… ô… Aqui não… É isso… Se não, pode ir embora… Estou botando o meu na reta… Demorou pra ter um serial killer no Brasil, agora, quando aparece vc ainda acha que o cara tá de brincadeira?

 Deixou a bolsa e foi embora…

No ônibus, de copacabana até o Dr° Eiras uma mulher berrou a viajem inteira falando sobre o fim dos tempos. Pregava tão alto e chato que esticava a veia do pescoço…Mas ainda bem, escutava algum rock da década de sessenta… Que me lembre… No final, como eu sabia, ele arregou e aceitou o meu preço… Nessa hora somos como advogados… Ele arriou as calças na minha frente e não tinha realmente como retornar. Tinha me falado coisas que a midia deles tentava esconder, mas no final, ele aceitou… 

Falava agora com o Bispo e contei exatamente tudo o que aconteceu a ele  e não, não era “o bispo”, e sim outro de uma igreja psicodélica…

Estava na sala real e disse a coincidência estranha de ser tão alardeado pelo fim do mundo enquanto ia pra lá… Papéis.. Pessoas gritando e pregando o apocalipse… A mulher do banco ao lado lendo “Incidente em Antares”… Tudo me falava sobre o fim…Até mesmo o sonho com uma bomba atômica quase no final da viagem em meio a engarrafamentos… Lembrei de uma profecia de Antônio Conselheiro que dizia que “uma bomba atingiria o Brasil transformando mar em sertão e em sertão em mar”. Sempre dormia profundamente antes de chegar e sempre saltava de três a quatro pontos depois da Dr° Eiras.

– Não existe nenhum tipo de coincidência, senhor Pierrot, tudo está completamente interligado entre uma dimensão e outra e nada ao mesmo tempo, e a isso chamamos de realidade e não temos como chamar isso de este ou ter a propriedade de assim tê-lo, pois nada na dita existência há comprovado…

Essa era mais uma das falas repetidas de Bispo, mas antes tinha ensinado uma lição muito importante:

– Senhor Pierrot, já reparou que que a bandeira do Japão é um mapa realmente todo branco com uma bola vermelha no meio? E eles diziam que é o país do sol nascente? “Era como um grande sol nos castigando”, disse assim um dos sobreviventes da bomba atômica… O senhor me entendeu?

Puxa um pigarro do fundo da garganta, e olha o por do sol na janela da antiga clínica psiquiátrica Dr. Eiras, em algum lugar do Rio de Janeiro. Lamentava ser um lugar completamente fechado, assim dizia que este era o último paciente da tal clínica, pois a mesma tinha sido completamente evacuada e retirada de sua verdadeira função. Um grande projeto da OMS tinha acabado ou dado extinto ao que se dizia por antigos como manicômio. Estranhamente, um decreto municipal deu posse de própriedade ao seus pacientes, logo que não tinham sequer moradia, eles agora tinham apenas seus quartos ou salas. Esse era o Bispo. Bispo era tratado como um santo-líder dentro da Dr. Eiras, Era um papa. Um INRI Cristo ou algum tipo de ialorixá que comandava a moradia comunitária, que contava com porteiros, faxineiras, cozinheiras e boas “messalinas banguelas” como dizia ao Pierrot, que na verdade era uma tropa de loucos.Uma ong misteriosa ajudava com dinheiro e com alguns gastos específicos.

Bispo era um homenzarrão negro. Algo bem parecido com o George Clinton do Funkadelic, incluindo todos os seus ardornos. Se auto proclamava grande-rei e tinha sido nos primórdios da internet um viral engraçado – “Ainda me devem direitos de imagem Pierrot”? – Sempre perguntava em uma nova visita e tinha uma contadora louca que anotava sempre o cálculo de quando lhe deviam nas paredes de sua sala real – a sala principal que era adornada com enfeites de brinquedos de doces nas paredes, bonecas mutiladas, santinhos de campanha de politicos e de devoção, contas e terço e clamores do tipo – “Salve Bispo e nosso Senhor”. Bispo, no seu último ato de lucidez, deu a palavra na câmara de vereadores que ajudou a dar o título comunitário aos pacientes. Depois, com a aclamação dos mesmos, jura que nossa senhora o visitou dentro de seu quarto e o disse que seria o condutor do bem e que comandaria de agora em diante o manicômio –  “Sim, ele sabia que era um manicômio”.

Mas ele era maior do que isso…

Bispo era o famoso oráculo de Pierrot. Um grande tarô vivo e Pierrot sa ia que sairia com respostas…Há um tempo atrás, a troco de uma garrafa de cinquenta e um ele contava exatamente qual era a “nova parada” do plano espiritual, mas 50% do que ele dizia era verdade ou como dizia Pierrot, os outro cinquenta ele iria descobrir sincrônicamente. Da última vez que ele tinha falado o porque de todas as oferendas terem voltado do Reveillon, pierrot tinha dado um pequeno barco de madeira a ele, o que realmente tinha voltado. Bispo estranhamente sabia que o barco era usado e reaproveitado deste caso específico…

– O que há realmente de estranho é que sim, há rumores que a Universal encomendou um apocalipse e ele pode acontecer em alguns dias…

Isso saindo da boca do Bispo é como ouvir um médico dizer  você tem AIDS. Poucas vezes ele afirmava coisas e quando assim saia uma afirmação dessas, era pra realmente ter uma certa preocupação em analisar os fatos…

– Santidade, só pode estar brincando…

– Você queria que eu te ajudasse a descobrir qualquer tramóia espiritual não é? Existe uma fórmula…

– Qual é?
– Razão é com o senhor, isso você vai ter que descobrir…O senhor entendeu o que eu disse, Doutor Pierrot?

 – Como?

 – O senhor vai ter que esperar ele matar outra vez…

 

 

 

 

 

 

 

 

Introdução ao Ermitismo

•julho 17, 2016 • Deixe um comentário


Da profunda boca sem dentes
Dos lábios rececados de um pescador doente
Ecoa longe, em todas as partes, vendendo pesca
O grande silêncio. Nova reza de barulho pertinente

Me socorra do nada
Me tire do vazio
Me dê mais sono
Me livra desse sorriso
Manda descer a morte da Cabocla
Me traga só a coca do Coca-Cola

E faça parar….
esses ventos estalam os moinhos
Aquém é aqui. Tédio se esconde
Com toda a beleza dos barquinhos
Aos mascates mineiros de belo horizonte
Choram pedindo minas
Choram querendo mais três corações

Me esconda dos turistas
Me dê um emprego vigarista
Me traga algo cosmopolita
Preciso dessa ironia
Não me chame de nada. Nem de cabista
Não me enquadre no curral de uma salina

Corre a primeira parte do escape
O remédio sai muito caro
Muitas gramas de açucar
Alívio clorihidratado da velha boca muda
Quando ter erva é algo mais que raro
Migramos nós. Pedindo ajuda

Estou longe do Pórtico
Entrando no negro
Melhor que o céu
É o desmundo

Vestido de Espaço

•junho 9, 2016 • Deixe um comentário

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Sobe as pás que anunciam chuvas
Das hélices, querendo que de hélio fossem
anuncio aleijado, com torta mente
Que hoje estou vestido de espaço

Sobe o vento vazio.
(Chamar de vazio o vento é falha)
Aqui é sempre chamado de sudoeste,
Ocupa a rede da onde era calor
Amado vento que traz o frio

de antes que o quente ocupa
O que era chamado verão
Vem contrário ao que vem do Rio
Fazendo deserto o que era soldado
Cobrindo a rua e a vestindo de espaços

Lagoas, mares, marés
Lacunas, bares e cafés
Como uma gigante oil city
Atravessa espasmos.
No silêncio uma velha infarta
No silêncio vivemos vestidos
De grandes espaços vazios

Crepúsculo de Deusas

•fevereiro 15, 2016 • Deixe um comentário

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I

Cai em frágil abrigo
Onde antes refúgio era
De grandes artístas e poetas

Lar pobre, mas de longe audível
A doce sonata da seresta me encantava
Luzes foscas, café coado no pano
Estórias, fofocas e pessoas sambando
E eu, orgulhoso por batucar uma caixinha

Não te traiu a morte
E nem desmereceste tua essência
Porque forte foi. Criaste vida
Música e nossa irreverência.

II

Não temas filha caçula
A morte é um breve soluço
E o que ganhou, mesmo que a vida lhe tire
Teus pés nascidos em casa de chão batido
Lhe deram alcances maiores
E já lhe consagraram vencedora

Mesmo que hoje neles só existam dores
Dores e Amarguras e Feridas
Mas erga-te mãe. Cumpra aos seus
E principalmente aos céus

Teu baluarte e estandarte estão cravados em minha alma
E é bem certo que; Crepusculado teus sonhos…

cairemos juntos e que algum deus
nos receba misericordiosamente minha mãe.

Devoção a Luciana

•fevereiro 14, 2016 • Deixe um comentário

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Até mesmo no balanço deste rede se enredam problemas
E o problema maior é que vc acha que é um deles
Quando na verdade, vc é um bálsamo no meio disso tudo
Quando tudo cai em nós
Menos
a gravidade
Menos o tempo
Que é a prova do amor
Que flutua perplexo na fumaça
De nossos desgastes, quando nos desbelotamos
E passamos a frente e vencemos
E perdemos tudo
Até não ter problemas
E apenas nos amarmos.